22 dezembro 2021

Francisco à Europa: abramos a porta do coração aos refugiados

 
  Migrantes chegando a Itália  (ANSA) 
 
Na audiência geral, o Papa exortou com força, uma vez mais, a uma ação partilhada para aliviar o drama dos migrantes na área do Mediterrâneo. Na Sala Paulo VI, algumas das pessoas recebidas em Itália após a última viagem apostólica a Chipre e Grécia: "Assumiremos a responsabilidade como Igreja nos próximos meses".
 

Silvonei José – Vatican News

O Papa Francisco reiterou no final da Audiência geral desta quarta-feira a necessidade de um compromisso concreto e geral para enfrentar o fenómeno migratório, especialmente na área do Mar Mediterrâneo, que mais uma vez testemunhou uma nova tragédia no silêncio geral. Numa semana, mais de 160 refugiados perderam a vida na faixa do mar entre a Líbia e a ilha italiana de Lampedusa. O Pontífice faz um novo e sentido apelo a toda a comunidade internacional.

É necessário uma responsabilidade partilhada

“Durante a minha viagem a Chipre e Grécia", disse o Papa, "pude tocar com a mão, mais uma vez, a humanidade ferida dos refugiados e migrantes. Também constatei como apenas alguns países europeus estão a suportar a maioria das consequências do fenómeno migratório na área mediterrânica, quando na realidade exige uma responsabilidade partilhada, da qual nenhum país se pode isentar".

O Papa recordou então como, "graças à generosa abertura das autoridades italianas", pôde trazer a Roma um grupo de pessoas que conheceu durante a sua última viagem.

"Hoje, alguns deles estão aqui entre nós. Sejam bem-vindos! Trataremos deles, como Igreja, nos próximos meses. É um pequeno sinal," salientou, "que espero que sirva de estímulo para outros países europeus, para que permitam às realidades eclesiais locais encarregarem-se de outros irmãos e irmãs que precisam urgentemente de serem recolocados”.

Abrir uma porta aos migrantes

Outra necessidade salientada pelo Papa Francisco é, após o acolhimento, a da integração dos migrantes.

“Há muitas Igrejas locais, congregações religiosas e organizações católicas", disse o Santo Padre, "que estão prontas para acolhê-los e a acompanhá-los na direção de uma integração frutuosa. Serve somente abrir uma porta, a porta do coração!”

RN

21 dezembro 2021

CONTO DE NATAL 2021

Com este Conto de Natal desejo a todos os amigos e amigas que passarem por esta minha página ("Que é a Verdade?") um SANTO NATAL e um NOVO ANO cheio das bênçãos de Deus.



 
“Os pães e os peixes”


Ali estava na sua sala, sentado, completamente só, os filhos longe, a mulher já tinha falecido e a vida madrasta tinha-o deixado apenas nos níveis de sobrevivência, sendo aquela casa o único bem que ainda possuía, não sabia por quanto tempo.

Levantou-se e foi à cozinha ver o que haveria para comer na Ceia de Natal.
Riu-se interiormente ao pensar em Ceia de Natal, ele que não tinha nada, ter qualquer refeição que se assemelhasse sequer a uma ceia, quanto mais a uma Ceia de Natal.
Abriu a caixa do pão e viu que tinha dois pãezitos, (já um pouco duros), e numa caixa no frigorifico vazio um carapau frito que já nem sabia de quando era.

Riu-se novamente, mas agora ruidosamente e disse alto sabendo que ninguém o ouviria: Agora o que me fazia falta era Jesus Cristo para abençoar estes pães e este peixe e, assim, com certeza não faltaria abundância para uma verdadeira Ceia de Natal.

Pegou nos pães e no peixe, num copo de água e foi sentar-se na sala para comer então a sua paupérrima Ceia de Natal.
Apesar da escassez e de tudo o que estava a passar, a tristeza profunda que lhe causava esta Natal sozinho e sem nada, benzeu-se e agradeceu a Deus pelo pouco que tinha porque, apesar de tudo, haveria outros que nem isso teriam com certeza.
Pegou num pão, partiu-o e, quando se preparava para o começar a comer, bateram à porta.
Pôs o pão de lado, levantou-se e foi abrir a porta.

Era um casal seu vizinho com uma caixa grande nas mãos e que lhe disseram: Ó vizinho, sabemos que está sozinho e com dificuldades. Nós também estamos sozinhos, mas graças a Deus ainda temos que nos chegue e assim lembramo-nos de nos fazermos convidados para passar o Natal em sua casa, pois sabíamos que se o convidássemos o vizinho não iria. Deixa-nos entrar? 

 
Embora envergonhado, abriu a porta e deixou-os entrar dizendo: Mas eu não tenho nada para comer! Tenho apenas uns pãezitos e um peixe!
Eles responderam: Não se preocupe. Trazemos aqui nesta caixa um bom peru assado e recheado, com os seus acompanhamentos, que irá servir de Ceia de Natal a todos nós.
Sem palavras, com a voz embargada, agradeceu e sentaram-se à mesa.

Mas, mais uma vez, bateram à porta e ele lá se levantou para ir abrir.

Desta vez era um casal bem mais jovem, com o seu filho ainda criança, seus vizinhos também, e que lhe disseram: Sabíamos que estava sozinho, que se o convidássemos para nossa casa não iria, por isso viemos fazer-lhe companhia nesta noite de Natal. Espero que não leve a mal e nos deixe entrar.

Bem, pensou ele, se já cá estão uns porque não deixar entrar estes também.
Foram entrando e entregando umas caixas dizendo que eram bolos para adoçar a noite.
E, novamente, lá se sentaram todos à mesa.
Ele, já bem mais disposto, perguntou alto se mais alguém bateria à porta.

Ainda não tinha acabado de falar e novamente tocam à porta.

Desta vez era um vizinho, só como ele, mas que vivia bem, e lhe disse: Pensei para mim que estando sozinho e o vizinho também, faria mais sentido vir bater à sua porta, fazer-me convidado e assim fazermos companhia um ao outro. Trago aqui umas garrafas de vinho para acompanhar o que houver para comer.
Espantado, admirado, deixou-o entrar e finalmente sentaram-se à mesa, que agora se apresentava bem guarnecida com o peru e os seus acompanhamentos, diversos bolos e vinho que chegava à vontade para todos.

De repente lembrou-se do que tinha dito alto na cozinha, quando estava sozinho, de que o que precisava era de Jesus Cristo para abençoar a comida e assim haver abundância na sua mesa.
Soltou uma gargalhada e contou a todos os outros o que tinha acontecido, o que tinha dito e como via ali a multiplicação dos “pães e dos peixes” e também dos amigos.

Riram-se todos com alegria, rezaram um Pai Nosso em acção de graças e a criança disse toda contente: Hoje é mesmo Natal!!! O Menino Jesus está mesmo aqui connosco!!!
 

Monte Real, 17 de Novembro de 2021
Joaquim Mexia Alves
 

Papa: há mais armas hoje do que na guerra fria. Construir a paz com educação e trabalho

 
 Dia Mundial da Paz é celebrado anualmente, no primeiro dia do ano 
 
“Diálogo entre as gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradoura.” Este é o título da mensagem do Papa Francisco para o 55.º Dia Mundial da Paz 2022, cujo texto foi divulgado nesta terça-feira (21/12) numa conferência na Sala de Imprensa da Santa Sé.
 

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

Diálogo entre as gerações, educação e trabalho são as três estradas que levam a um único caminho: a uma paz duradoura. Esta é a proposta do Pontífice para 2022, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz a ser celebrado no primeiro dia do novo ano.

Ainda hoje, escreve o Papa, o caminho da paz permanece, infelizmente, arredado da vida de tantos homens e mulheres.

Apesar de múltiplos esforços, aumenta o ruído ensurdecedor de guerras e conflitos, ao mesmo tempo que ganham espaço doenças de proporções pandêmicas, pioram os efeitos das alterações climáticas e da degradação ambiental, agrava-se o drama da fome e da sede e continua a predominar um modelo económico mais baseado no individualismo do que na partilha solidária.

Ao mesmo tempo em que a paz é uma dádiva do Alto, é também fruto de um empenho compartilhado. Por isso, Francisco fala de «arquitetura» e de um «artesanato» da paz, que diz respeito cada um de nós.

Diálogo entre as gerações

A primeira etapa envolve o diálogo entre as gerações. De um lado, estão os idosos – os guardiões da memória -; de outro, os jovens, aqueles que fazem avançar a história.

No meio, solidão e angústia agravadas pela pandemia, o progresso tecnológico e económico que acirrou as divisões, e as mudanças climáticas que põem em risco o futuro. O meio ambiente, recorda, é um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte.  Mas sem as raízes, sublinha o Pontífice, as árvores não crescem e não dão frutos. Por isso, é preciso encorajar o diálogo e voltar a recuperar a confiança recíproca

“Dialogar significa ouvir-se um ao outro, confrontar posições, pôr-se de acordo e caminhar juntos. Favorecer tudo isto entre as gerações significa amanhar o terreno duro e estéril do conflito e do descarte para nele se cultivar as sementes duma paz duradoura e compartilhada.”

Educação como fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento

Depois, a educação, como fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento. “Instrução e educação são os alicerces de uma sociedade coesa, civil, capaz de gerar esperança, riqueza e progresso.”

O Papa expõe o paradoxo da diminuição dos investimentos no campo educativo e o aumento das despesas militares, com o mundo a acumular inclusive mais armas do que no período da “guerra fria”. Por isso, o apelo é direcionado aos governantes para que invertam esta tendência, libertando recursos para serem investidos em áreas que promovam o desenvolvimento humano integral.

Aliado a este empenho, o Pontífice pede mais esforços na promoção da cultura do cuidado, que pode tornar-se a linguagem comum que abate as barreiras e constrói pontes. A proposta de Francisco é audaz e inclui um novo paradigma cultural, através de um pacto educativo global para e com as gerações jovens.

Trabalho para uma plena realização da dignidade humana

E, por fim, o trabalho, para uma plena realização da dignidade humana.

Enquanto a educação fornece a gramática do diálogo entre as gerações, na experiência do trabalho encontram-se a colaborar homens e mulheres de diferentes gerações.

O trabalho é um fator indispensável para construir e preservar a paz, recorda o Pontífice. Trabalha-se sempre com ou para alguém. Além disso, o trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra.

A pandemia Covid-19 agravou a situação do mundo do trabalho, com milhões de atividades que foram à falência e trabalhadores precários cada vez mais vulneráveis, sobretudo os da economia informal, nos quais se encontram, por exemplo, inúmeros migrantes.

Atualmente, apenas um terço da população mundial em idade laboral goza de um sistema de proteção social. Escravidão, violência e criminalidade organizada encontram terreno fértil. A resposta a esta situação, afirma o Papa, só pode passar por uma ampliação das oportunidades de trabalho digno.

Para Francisco, é preciso unir ideias e esforços que levem também a uma renovada responsabilidade social para que o lucro não seja o único critério-guia. É preciso haver equilíbrio entre a liberdade económica e a justiça social, como defende a doutrina social da Igreja.

O Papa concluiu a Mensagem com um agradecimento e um apelo. Um agradecimento a quantos se empenharam na promoção da paz. E um apelo aos governantes e a quantos têm responsabilidades políticas e sociais e eclesiais para caminharmos, juntos, por estas três estradas com coragem e criatividade.

“Oxalá sejam cada vez mais numerosas as pessoas que, sem fazer rumor, com humildade e tenacidade, se tornam dia a dia artesãs de paz. E que as preceda sempre e acompanhe a bênção do Deus da paz!”

VN

19 dezembro 2021

O Papa: levar a alegria de Jesus é o primeiro ato de caridade que podemos fazer ao próximo

 
  O Papa Francisco no Angelus deste domingo  (Vatican Media)  
 
"Aprendamos de Nossa Senhora esta maneira de reagir: levantarmo-nos, especialmente quando as dificuldades nos ameaça esmagar. Levantarmo-nos, para não ficar atolados nos problemas, afundando-nos a autopiedade e caindo numa tristeza que nos paralisa. Olhemos em redor e procuremos alguém a quem possamos ajudar! Conheço algum idoso a quem possa fazer um pouco de companhia, um serviço, uma gentileza, um telefonema? Cada um pense nisto, disse Francisco.
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco rezou a oração mariana do Angelus, deste domingo (19/12), com os fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro.

Na alocução que precedeu a oração, o Santo Padre recordou que o Evangelho deste domingo, IV Domingo do Advento, narra a visita de Maria a Isabel. Segundo Francisco, ao receber "o anúncio do anjo, a Virgem não fica em casa, pensando no que aconteceu e considerando os problemas e imprevistos, que certamente não faltaram, porque a coitada não sabia o que fazer com aquela notícia, com a cultura daquela época. Pelo contrário, a primeira coisa que ela pensa é nos necessitados". "Em vez de ficar curvada sobre os seus problemas", sublinhou o Papa, Maria "pensou em Isabel sua parente em idade avançada e grávida, uma coisa estranha, milagrosa. Maria parte com generosidade, sem se deixar amedrontar pelo desconforto do trajeto, respondendo a um impulso interior que a chama a estar perto e ajudar. Uma longa estrada, quilómetros e quilómetros. Não havia autocarro naquela época. Ela foi a pé. Ela saiu para ajudar. Como? Partilhando a alegria".

Maria doa a Isabel a alegria de Jesus, a alegria que ela carregava no seu coração e no ventre. Vai até ela e proclama os seus sentimentos, e esta proclamação dos sentimentos passou depois a ser como uma oração, o Magnificat que todos nós conhecemos. O texto diz que Nossa Senhora "slevantou-se e foi à pressa. Ela levantou-se e foi.

Na última etapa do caminho do Advento, Francisco convidou-nos a deixarmo-nos guiar por estes dois verbos: "Levantar-mo-nos e caminhar à pressa. Estes são os dois movimentos que Maria fez e que nos convida a fazer com vista ao Natal. Primeiramente, levantarmo-nos. Depois do anúncio do anjo, aproxima-se um período difícil para a Virgem: a gravidez inesperada a expôs a incompreensões, a punições severas, até mesmo à lapidação, na cultura daquele tempo. Imaginemos quantos pensamentos e perturbações ela teve! No entanto, ela não desanimou, não se abateu, mas levantou-se. Não olhou para baixo para os seus problemas, mas para o alto, para Deus".

"Não pensou em quem pedir ajuda, mas a quem levar ajuda. Pensando sempre nos outros: Maria é assim. Pensa nas necessidades dos outros. Ela fará o mesmo nas Bodas de Caná, quando vê que falta o vinho. É um problema dos outros, mas ela pensa nisso e procura encontrar uma solução. Maria pensa sempre nos outros, pensa em nós", disse ainda o Papa, acrescentando:

Aprendamos de Nossa Senhora esta maneira de reagir: levantarmo-nos, especialmente quando as dificuldades ameaçam esmagar-nos. Levantarmo-nos, para não ficarmos atolados nos problemas, afundando na autopiedade e caindo numa tristeza que nos paralisa. Olhando para dentro e ficando na tristeza. Mas, porque levantarmo-nos Porque Deus é grande e está pronto para nos reerguer, se nós estendermos a mão a Ele. Portanto, deixemos a Ele os pensamentos negativos, os medos que bloqueiam cada impulso e nos impedem de seguir em frente. E depois façamos como Maria: olhemos ao nosso redor e procuremos alguém a quem possamos ajudar! Conheço algum idoso a quem possa fazer um pouco de companhia, um serviço, uma gentileza, um telefonema? Cada um pense nisto. A quem posso ajudar? Eu levanto-me e ajudo. Ajudando os outros, ajudaremos a nós mesmos a nlevantarmo-nos das dificuldades.

A seguir, o Papa citou o segundo movimento de Maria: caminhar à pressa.

Isto não significa proceder com agitação, de forma ofegante, não quer dizer isso. Trata-se de conduzir os nossos dias com um passo alegre, olhando em frente com confiança, sem nos arrastarmos com má vontade, escravos das reclamações, aquelas reclamações que arruínam muitas vidas, porque a pessoa coloca aquilo dentro e reclama, reclama. As reclamações levam sempre a procurar alguém a quem culpar.

"A caminho da casa de Isabel, Maria prossegue com o passo rápido de alguém cujo coração e vida estão cheios de Deus, cheios da sua alegria. Então interroguemo-nos: como está o meu "passo"? Sou ativo ou fico na melancolia, na tristeza? Sigo em frente com esperança ou paro para sentir pena de mim mesmo? Se continuamos com o passo cansado de resmungo e mexeriqueiro, não levaremos Deus a ninguém. Levaremos somente amargura e coisas obscuras. Em vez disto, é tão bom cultivar um humor saudável, como fez, por exemplo, S. Tomás Moro ou S. Filipe Neri. Peçamos esta graça, a graça do humor saudável. Faz muito bem", disse o Papa, convidando a não nos esquecermos "que o primeiro ato de caridade que podemos fazer ao nosso próximo é oferecer-lhe um rosto sereno e sorridente. É levar-lhe a alegria de Jesus, como Maria fez com Isabel".

"Que a Mãe de Deus nos pegue pela mão, nos ajude a levantarmo-nos e a caminhar à pressa para o Natal", concluiu o Papa, concedendo a todos a sua bênção apostólica.

VN

15 dezembro 2021

Francisco: aprender com S. José a cultivar espaços de silêncio

 
  
 
Segundo o Papa, "devemos aprender de José a cultivar o silêncio: aquele espaço de interioridade nos nossos dias, nos quais damos ao Espírito a oportunidade de nos regenerar, de nos consolar, de nos corrigir". 
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre S. José na Audiência Geral desta quarta-feira (15/12).

Depois de ilustrar o ambiente em que ele viveu, o seu papel na história da salvação e o seu ser justo e esposo de Maria, o Papa examinou outro aspeto importante da pessoa de José: o silêncio. "Deus manifestou-se no momento de maior silêncio. É importante pensar no silêncio nesta época em que parece não ter muito valor", sublinhou Francisco.

"Os Evangelhos não registam palavras de José de Nazaré. Isto não significa que ele fosse taciturno, não, há uma razão mais profunda. Com este silêncio, José confirma o que Santo Agostinho escreveu: «Na medida em que cresce em nós a Palavra, o Verbo que se fez homem, diminuem as palavras». José com o seu silêncio convida-nos a deixar espaço à Presença da Palavra feita carne, ou seja, a Jesus", disse ainda o Papa.

O silêncio de José é cheio de escuta

Francisco sublinhou que "o silêncio de José não é mutismo; é um silêncio cheio de escuta, um silêncio laborioso, um silêncio que faz emergir a sua grande interioridade. Jesus cresceu nesta “escola”, na casa de Nazaré, com o exemplo diário de Maria e José".

Como seria bom se cada um de nós, seguindo o exemplo de S. José, conseguisse recuperar esta dimensão contemplativa da vida aberta pelo silêncio. Mas todos sabemos por experiência que não é fácil: o silêncio, assusta-nos um pouco porque nos pede para entrarmos em nós mesmos e encontrarmos a parte mais verdadeira de nós. Tanta gente que tem medo do silêncio e precisa de falar, falar ou ouvir rádio, ver televisão, mas não pode aceitar o silêncio porque tem medo. O filósofo Pascal observou que «toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saber ficar tranquilo num quarto». 

Sem a prática do silêncio o nosso falar adoece

O Papa convidou-nos a aprendermos "de S. José, cultivar espaços de silêncio, nos quais possa,os surgir outra Palavra: a do Espírito Santo que habita em nós. Não é fácil reconhecer esta Voz, que muitas vezes confunde-se com as milhares de vozes de preocupações, tentações, desejos e esperanças que nos habitam; mas sem este treino que provém da prática do silêncio, até a nossa fala pode adoecer".

Sem a prática do silêncio o nosso falar adoece. Ele, em vez de fazer resplandecer a verdade, pode-se tornar uma arma perigosa. De facto, as nossas palavras podem tornarem-se adulação, soberba, mentira, maledicência, calúnia. É um dado da experiência que, como nos lembra o Eclesiástico, «a língua mata mais do que a espada». Jesus disse-o claramente: quem fala mal do irmão ou da irmã, quem calunia o próximo, é homicida.  Mata com a língua. Nós não acreditamos nisto, mas é verdade. Pensemos um pouco nas vezes em que matamos com a língua, sentiríamos vergonha!

A profundidade do coração cresce com o silêncio

Segundo o Papa, "devemos aprender de José a cultivar o silêncio: aquele espaço de interioridade nos nossos dias. nos quais damos ao Espírito a oportunidade de nos regenerar, de nos consolar, de nos corrigir".

Não estou a dizer para cair no mutismo, não. Silêncio. Cada um de nós olhe para dentro, muitas vezes estamos a fazer uma coisa e quando terminamos procuramos imediatamente o telemóvel para fazer outra. Estamos sempre assim. E isto não ajuda, isto faz-nos escorregar para a superficialidade. A profundidade do coração cresce com o silêncio, silêncio que não é mutismo como eu disse, mas que deixa espaço para a sabedoria, a reflexão e o Espírito Santo. Não tenhamos medo dos momentos de silêncio, não tenhamos medo! Isto far-nos-á muito bem.

Segundo o Papa, "o benefício para os nossos corações curará também a nossa língua, as nossas palavras e, sobretudo, as nossas escolhas. Com efeito, José uniu ao silêncio à ação. Ele não falou, mas fez, e assim mostrou-nos o que Jesus disse uma vez aos seus discípulos: «Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos Céus»". "Silêncio. Palavras fecundas quando falamos. Silêncio, falar direito, morder um pouco a língua, o que às vezes é bom, em vez de dizer bobagem", concluiu o Papa.

VN

14 dezembro 2021

A oração de Francisco pelas vítimas de Ravanusa

 

 Em Ravanusa, as equipas de resgate ainda estão a procurar pessoas entre os escombros  (AFP or licensors) 
 
Num telegrama, o Papa expressa a proximidade a toda a população da cidade de Ravanusa, na província de Agrigento, onde no último sábado, vários edifícios desabaram devido a uma fuga de gás. Sete vítimas foram confirmadas. As buscas pelos desaparecidos continuam.
 

Gabriella Ceraso – Vatican News

Uma "explosão devastadora", um "desabamento dramático" de edifícios na hora do jantar, no último sábado (11/12), na pequena cidade italiana de Ravanusa, na província de Agrigento.  O Papa reza pelas vítimas e carrega no coração o sofrimento das famílias em luto.

O sofrimento de toda uma comunidade

Num telegrama assinado pelo secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, enviado a dom Alessandro Damiano, o Papa expressa o sofrimento de toda uma comunidade e pede ao bispo para transmitir a todos, a sua "sincera proximidade". Francisco manifesta o seu apreço pelos que ainda estão à procura de pessoas sob os escombros pesados. Cento e oitenta bombeiros ainda estão a trabalhar no local. Foi organizada uma "coleta extraordinária" promovida pela diocese, para 19 de dezembro. "Juntos por Ravanusa" é o título da iniciativa que pretende ser um sinal concreto de proximidade. "Que todos, por intercessão de Maria, tenham conforto", pede o Papa Francisco.

Investigação aberta por desastre e homicídio culposo

Na área da explosão, ainda estão a ser procuradas duas pessoas desaparecidas, um pai de 59 anos e o filho de 33 anos. Eles também estavam juntos, talvez na garagem, no último sábado à noite, quando um estrondo e depois as chamas lançaram a pequena cidade siciliana num pesadelo, deixando a imagem de uma devastação igual à causada por um forte terremoto.

Já foi emitido o decreto para a apreensão da área do desastre, a área da "cratera" e a área vizinha, totalizando 10 mil metros quadrados, mas para se tornar operativa é preciso que as duas pessoas desaparecidas sejam encontradas. A partir daí, toda a área será limpa e a equipa de especialistas nomeada pelo Ministério Público de Agrigento, chefiada por Luigi Patronaggio, poderá definir as causas da explosão. A investigação foi delegada aos Carabineiros que supõem ter-se tratado de uma acumulação subterrânea de uma grande quantidade de gás. A partir de um procedimento de prevenção da Empresa Italgas, em 2014, parece que emergiram situações de grave risco em toda a área da cidade siciliana. A investigação acusa os crimes de desastre e homicídio culposo.

Vatican News

13 dezembro 2021

Pastoral da Deficiência pretende “sensibilizar os jovens para as questões da deficiência”

 
 

A sensibilização está a envolver os jovens que se preparam para a JMJ Lisboa 2023.

O anúncio é feito ao Jornal VOZ DA VERDADE pela diretora do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência da diocese, Carmo Diniz, ao apresentar o projeto ‘A minha Igreja é acessível?’. Sensibilizar os jovens para as questões da deficiência, verificar o conhecimento e a sinalização das acessibilidades das igrejas de Lisboa e promover o encontro dos jovens com as pessoas com deficiência do seu território. São estes os três objetivos do projeto ‘A minha Igreja é acessível?’, realizado pelo Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência do Patriarcado de Lisboa, em parecia com o Sector da Catequese de Lisboa e a proposta ‘Say Yes’. “Os jovens são, em primeiro lugar, desafiados a pensar sobre o que é a deficiência e a tipologia da deficiência. Depois, a verificar as acessibilidades da sua igreja, usando a ferramenta da associação Accessible Portugal, com um questionário sobre as acessibilidades e os espaços e com o serviço diocesano a ajudar no tratamento dos dados. O mais interessante é que, a seguir, os jovens vão à procura das pessoas com deficiência da sua paróquia, às instituições da zona onde a paróquia se encontra, para promover encontros, fazer voluntariado e iniciativas que os próprios jovens entendam pertinentes e positivas para a sua vida”, explica, ao Jornal VOZ DA VERDADE, a diretora deste serviço. 


Segundo Carmo Diniz, o objetivo deste projeto é que os jovens “deem a conhecer à comunidade este trabalho” e que, “com tudo isto, se promova a inclusão das pessoas com deficiência na Igreja”. “Que se mostre à comunidade que existe lugar e vontade para acolher as pessoas com deficiência. A invisibilidade da deficiência é um tema muito importante, porque a deficiência pode ser invisível porque está escondida – esse, é o mau problema –, ou porque está de tal forma incluída que não se vê – o que são casos mais raros. O mais frequente é a invisibilidade, porque, na verdade, as pessoas com deficiência não se sentem chamadas, não se sentem parte da Igreja. É isso que o serviço diocesano quer combater”, manifesta.

Carmo Diniz é coordenadora do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência da diocese desde o ano 2019 e destaca que “há coisas pequenas que os jovens podem fazer”, como “ajudar a ultrapassar obstáculos físicos que possam haver na igreja, como um degrau”, ou “iniciativas maiores de chamada da comunidade e de interação com a comunidade”, exemplifica esta responsável, mostrando-se ainda “muito satisfeita” por este ser um projeto para todo o país: “Como a natureza do ‘Say Yes’ é nacional, este tornou-se também um projeto nacional”. 

(Foto: Jornal Badaladas)

 Patriarcado de Lisboa

12 dezembro 2021

Advento, tempo de concretizar a fé no serviço aos outros. diz o Papa no Angelus

 
  Papa Francisco na janela do apartamento pontifício para o Angelus acena para os fiéis na Praça São Pedro  (Vatican Media)  
 
"A cada um é dirigida uma palavra específica, que diz respeito à situação real da sua vida. Isto eoferece-nos um ensinamento precioso: a fé encarna-se na vida concreta. Não é uma teoria abstrata e generalizada, ela toca a carne e transforma a vida de todos", disse o Papa Francisco no Angelus deste III Domingo do Advento, tempo de preparação com alegria para o Senhor que vem.
 

Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

“O que é bom fazer por mim e pelos irmãos? Como posso contribuir para o bem da Igreja, da sociedade? O Tempo do Advento é para isso: parar e questionarmo-nos como nos preparar para o Natal.”

Ao ouvir a pregação de João, “multidões, publicanos e soldados” fazem a pergunta: “Que devemos fazer?”

E é justamente a partir deste questionamento que o Papa Francisco desenvolve a sua reflexão, com indicações precisas sobre como nos prepararmos para o Natal, também cumprindo a missão que a vida – que é um dom de Deus – tem para nós.

Dirigindo-se aos milhares de fiéis e turistas reunidos na Praça de S. Pedro, num belo domingo de sol e céu azul, com a temperatura por volta dos 10 graus, Francisco começa por explicar, que a pergunta “que devemos fazer?” brota de “um coração tocado pelo Senhor”, “entusiasmado pela sua vinda”.

E para melhor inserir quem o escuta na compreensão deste contexto de espera pela vinda do Senhor, Francisco propõe um exemplo bastante prático: a forma como nos preparamos para receber uma pessoa muito querida:

Para recebê-la como deve ser, vamos limpar a casa, preparar o melhor almoço possível, quem sabe um presente. Enfim, vamos-nos preparar. Assim é com o Senhor, a alegria pela sua vinda faz-nos dizer: que devemos fazer?

A cada um é dada uma missão

Mas Deus – acrescenta o Papa – “eleva este questionamento ao nível mais alto: o que fazer da minha vida? Para que sou chamado? O que me realiza?”.

E ao propor-nos a pergunta inicial, o Evangelho recorda-nos que “a vida tem uma missão para nós”:

A vida não é sem sentido, não é deixada ao acaso. Não! É um dom que o Senhor nos dá, dizendo-nos: descubre quem és, e trabalha para realizar o sonho que é a tua vida!

“Cada um de nós - não o esqueçamos - é uma missão a ser realizada.”

O que posso fazer por Jesus e pelos outros

Assim, não devemos ter medo de perguntar ao Senhor, e também aos irmãos - como sugerido nos Atos dos Apóstolos - e repetir com frequência: “que devo fazer?”:

O que é bom fazer por mim e pelos irmãos? Como posso contribuir com isto? Como posso contribuir para o bem da Igreja, o bem da sociedade? O Tempo do Advento é para isso: parar e questionar-me como preparar-mt para o Natal. Estamos ocupados com tantos preparativos, com os presentes e coisas que passam, mas perguntemo-nos o que fazer por Jesus e pelos outros!

Uma fé concreta, que toque a carne a transforme a vida

Da pergunta inicial, o Papa parte então para as respostas de João Batista, que variam segundo o grupo a que responde. Da mesma forma, a cada um de nós, “é dirigida uma palavra específica, que diz respeito à situação real de sua vida”:

“Isto nos oferece-nos um ensinamento precioso: a fé encarna-se na vida concreta. A fé não é uma teoria abstrata, uma teoria generalizada, não! A fé toca a carne e transforma a vida de cada um. Pensemos na concretude de nossa fé. Eu, a minha fé: é algo abstrato ou concreto? Levo-a em frente no serviço aos outros?”

Assumir um compromisso dentro da minha realidade

Ao concluir, o Santo Padre propõe algumas perguntas que poderíamos fazer a nós mesmos, sobre “o que posso fazer concretamente nestes dias em que estamos próximos do Natal? Como posso fazer a minha parte?” – pedindo que “assumamos um compromisso concreto, ainda que pequeno, que se adapte à nossa realidade de vida, e procuremos concretizá-lo para nos prepararmos para este Natal”:

“Por exemplo: eu posso ligar para aquela pessoa sozinha, visitar aquele idoso ou aquele doente, fazer alguma coisa para servir um pobre, alguém necessitado. Ou ainda: talvez eu tenha que pedir um perdão, ou dar em perdão, uma situação a esclarecer, uma dívida a pagar. Talvez eu tenha negligenciado a oração e depois de muito tempo é hora de me aproximar ao perdão do Senhor. Encontremos alguma coisa concreta e vamos realizá-la!”

"Que nos ajude Nossa Senhora – disse o Papa no final - em cujo ventre Deus se fez carne."

VN

11 dezembro 2021

O Papa: não deixemos que o Natal seja poluído pelo consumismo e pela indiferença

  
  Papa Francisco na Sala Paulo VI  (Vatican Media)  
 
Francisco recebe no Vaticano as delegações que doaram neste ano a Árvore de Natal e o Presépio montados na Praça de S. Pedro e o Presépio montado no interior da mesma Sala.
 

Silvonei José – Vatican News

Logo após ao meio-dia o Papa Francisco recebeu na Sala Paulo VI as delegações que doaram neste ano a Árvore de Natal e o Presépio montados na Praça de S. Pedro e o Presépio montado no interior da mesma Sala-

Francisco então dirigiu a sua saudação à Delegação Peruana de Huancavelica, o departamento em que se localiza a pequena vila de Chopoca, de onde vem o grande presépio montado na Praça de S. Pedro.

O Papa agradeceu ao Bispo Carlos Salcedo Ojeda pelas suas palavras, e estendeu a sua gratidão às autoridades civis e eclesiásticas, especialmente ao Ministro do Exterior peruano, e a todos aqueles que colaboraram.

 

 Papa Francisco com peruanos 

Os personagens do presépio, - recordou o Papa - feitos com materiais e vestuário característicos daqueles territórios, representam os povos dos Andes e simbolizam o apelo universal à salvação.

“Jesus, de facto, veio à terra na concretude de um povo para salvar todos os homens e mulheres, de todas as culturas e nacionalidades. Ele fez-se pequeno para que possamos acolhê-Lo e receber o dom da ternura de Deus”.

Ao lado do presépio encontra-se o majestoso abeto dos bosques de Andalo, no Trentino. Francisco então saudou a delegação que veio daquela localidade: as autoridades, os sacerdotes, os fiéis acompanhados do arcebispo Lauro Tisi, a quem agradeceu pelas suas palavras.

 

 Papa Francisco com fiéis na Sala Paulo VI 
 

No final da tarde desta sexta-feira, na conclusão da cerimónia oficial de entrega, as luzes que decoram a árvore serão ligadas.

Permanecerá junto ao presépio até ao final das festividades natalícias e será admirado por peregrinos de muitos lugares.

“O abeto – disse o Papa - é sinal de Cristo, a árvore da vida, árvore à qual o homem não teve acesso por causa do pecado. Mas com o Natal, a vida divina uniu-se à vida humana. A árvore de Natal, então, evoca o renascimento, o dom de Deus que se une ao homem para sempre, que nos dá a sua vida. As luzes do abeto recordam a luz de Jesus, a luz do amor que continua a brilhar nas noites do mundo”.

Francisco afirmou que o Natal é isto, não deixemos que seja poluído pelo consumismo e pela indiferença. Os seus símbolos, especialmente o presépio e a árvore decorada, trazem-nos de volta à certeza de que enche os nossos corações de paz, à alegria da Encarnação, a Deus que se torna familiar: ele vive connosco, ele dá um ritmo de esperança aos nossos dias.

“A árvore e o presépio apresentam-nos a atmosfera típica de Natal que faz parte do património das nossas comunidades: uma atmosfera de ternura, partilha e intimidade familiar. Não vamos viver um Natal falso e comercial! Deixemo-nos envolver pela proximidade de Deus, pela atmosfera natalícia que a arte, a música, as canções e as tradições trazem aos nossos corações".

 

 Papa Francisco diante do Presépio na Sala Paulo VI 

Todos aqueles que vierem aqui à Sala Paulo VI nos próximos dias – afirmou o Papa - poderão saborear esta atmosfera, graças também ao presépio que será inaugurado. Foi feito por jovens da paróquia de São Bartolomeu em Gallio, na diocese de Pádua, que estavam presentes com o bispo Claudio Cipolla, a quem Francisco agradeceu pelas palavras.

“Estou grato por este presente, fruto do compromisso e da reflexão sobre o Natal, a festa da confiança e da esperança. A razão da nossa esperança é que Deus está connosco, Ele confia em nós e nunca se cansa de nós! Ele vem habitar com os homens, escolhe a terra como sua morada para estar connosco e assumir as realidades onde percorrems os nossos dias. Isto é o que nos ensina o presépio".

O Papa concluiu dizendo "que no Natal, Deus revela-se não como aquele que está nas alturas para dominar, mas como Aquele que se inclina, pequeno e pobre, para servir: isto significa que a forma de nos assemelhar a Ele é a de nos rebaixarmos, de servirmos. Para que seja verdadeiramente Natal, não esqueçamos isto: Deus vem para estar connosco e pede-nos para cuidarmos dos nossos irmãos e irmãs, especialmente os mais pobres, mais fracos e mais frágeis, a quem a pandemia ameaça marginalizar ainda mais. Pois foi assim que Jesus veio ao mundo, e o presépio lembra-nos disto". “Que Nossa Senhora e S. José nos ajudem a viver o Natal desta forma”.

VN

08 dezembro 2021

Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição


Sempre e só por Cristo, como em Maria foi 


Celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, Padroeira de Portugal e sempre o fazemos com uma nota especial de adesão e afeto, que ultrapassa a indicação do calendário e as explicações mais correntes.
Certamente que mantemos recordações familiares, eclesiais e até nacionais que se avivam neste dia. É bom mantê-las e agradecê-las, por sinalizarem a presença da Mãe de Jesus na nossa vida, pessoal e coletiva. Também porque marcam o que em nós subsiste de melhor, em termos de aspiração à verdade, à bondade e à beleza mais perfeitas, como na Imaculada Conceição se apresentam e oferecem.
Aspiração que mantemos e nos mantém a nós, para que nada nos desvie do ideal nela atingido e tudo o que houver a corrigir se corrija – em nós, na Igreja e no mundo – para o manter vivo e nos refazer a todos. Lembre-se, a propósito, que a declaração de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal é do tempo da restauração da independência, como que apelando a uma restauração mais alta, que só na virtude se consegue. E assim mesmo a tomaram então alguns, como foi o caso do Padre António Vieira, aqui perto nascido.
É algo de forte e envolvente, como é próprio da fé teologal, dom divino que nos abre os olhos da alma para a realidade completa das coisas, como são ou hão de ser. Das coisas e sobretudo das pessoas, ligando-nos indissoluvelmente a Jesus como nosso Cristo e a Maria como sua e nossa Mãe.

Abeiremo-nos pois da Virgem Santa Maria, no mistério da sua Imaculada Conceição
. Façamo-lo a partir das palavras garantidas que a Liturgia nos oferece, tal como as ouviremos no prefácio desta Missa:
Dirigindo-se a Deus Pai, enuncia deste modo o essencial e o porquê da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria: «Vós a preservastes de toda a mancha do pecado original, para que, enriquecida com a plenitude da vossa graça fosse a digna Mãe do vosso Filho». 
Mancha do pecado original é a triste mácula que como humanidade nos ensombra a presença de Deus, porque que resistimos a aceitá-Lo como única fonte de vida verdadeira. O trecho que ouvimos no Génesis representa esta triste realidade, que nos esconde de Deus e nos diminui a todos. 
Mas Deus não desistiu de nós. A antiga história bíblica – valendo também como tipo da inteira história humana – ilustra em drama constante e tragédia vária a persistência da primeira culpa em sucessivas descendências. Deus a formar um povo que fosse finalmente seu e o povo a trocá-lo por deuses irreais ou ídolos mais à mão.
Por fim, num fim que foi também início, Deus recriou o mundo para que nele aparecesse uma humanidade nova. A terra recriada foi Maria, na sua Imaculada Conceição. Nela pôde nascer o Homem novo, Jesus Cristo, plenamente de Deus para Deus e inteiramente de Deus para nós. Deus criou Maria assim, para que nela renascesse o mundo em forma de Cristo. De Cristo, “por quem todas as coisas foram feitas”, como professamos na fé. De Cristo, em quem todas são refeitas, com o sim imaculado de Maria.  
A primeira concretização deste desígnio foi Ela própria, por graça do Filho que teria. Por isso o prefácio dirá depois, sempre dirigido a Deus Pai: «Dela, Virgem puríssima, devia nascer o vosso Filho, Cordeiro inocente que tira o pecado do mundo». Havia um pecado a vencer, cumprindo o aviso feito à serpente, como ouvimos no Génesis: «Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te esmagará a cabeça…» A descendência da mulher é Cristo, que de Maria tomou uma humanidade incólume e assim mesmo a restituiu a Deus, qual cordeiro que no templo se imolasse.

Irmãos caríssimos, daqui renascemos nós, enquanto Igreja, Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo
. Maria, a Filha de Sião, resumia em si a herança antiga, personificando um povo inteiro que finalmente dissesse “sim” a Deus, como a ouvimos responder na Anunciação. Foi tão plena a graça que recebeu como perfeita foi a correspondência que lhe deu. Assim nela incarnou o Filho eterno, que connosco partilhou a vida que trazia e nos uniu a si como um só Corpo. Corpo animado pelo Espírito filial de Cristo, novo templo do Espírito também.
À verdade de Maria Imaculada corresponderá a santidade da Igreja, a partir de Deus, sempre e só de Deus. Oiçamos ainda o prefácio: «Nela destes início à santa Igreja, esposa de Cristo, sem mancha e sem ruga, resplandecente de beleza e santidade…. Vós a destinastes, acima de todas as criaturas, a fim de ser, para o vosso povo, advogada da graça e modelo de santidade».
Verificamos o facto de Deus no facto de Cristo, como pela Imaculada aconteceu. Como na primeira criação, assim na nova criação de tudo em Cristo, desde a Anunciação, tão discretamente também. Facto admirável que nos responsabiliza a nós, para sermos santos e irrepreensíveis diante de Deus, como na caridade diante de todos. 
Porque o mundo não está como Deus o quer. Vale-nos o mesmo Deus, que não desiste de o recriar em Cristo. Celebrar hoje a Imaculada Conceição de Maria, é também tomá-la em correspondência efetiva à graça batismal que recebemos, como Ela correspondeu à pleníssima graça, que a criara sem mancha.
E assim diremos que sim a Deus, para contar connosco em todas as fronteiras da vida, para que a ninguém falte o que Deus quer dar através de nós. O sim de Maria deu-nos Cristo a todos, o sim da nossa parte O dará também. Olhemos para Maria, da Anunciação ao Presépio, do Presépio a Caná, de Caná à Cruz e da Cruz ao Céu: em tudo veremos o que havemos de ser com Ela e o que havemos de ser para os outros, dando Cristo a cada um, desamparado ou aflito que esteja, no corpo ou no espírito. Imaculada significa completamente de Deus e para Deus, em coincidência perfeita de vontade e ação, como connosco há de ser. Celebrar a Imaculada é comprometermo-nos a nós, em tudo o que importe à purificação da Igreja, para bem dum mundo de que Deus não desiste.  
Como gerou a Cristo, também Maria nos acompanha agora, pois nos recebeu como filhos ao pé da cruz: «Eis aí o teu filho», disse-lhe o Crucificado, indicando o discípulo amado, que ali também éramos. E Maria aceita-nos, para nos ensinar a cumprir a vontade recriadora de Deus. Assim continuará Cristo a salvar o mundo. O grande mundo onde havemos de caber todos, sem que nada impeça a plena realização de cada um, pessoa ou povo que seja. Um coração imaculado é um coração sem fronteiras.    
Guarda-nos São José, esposo virginal de Maria, que dela cuidou e de Jesus. São José, a quem o Papa Francisco providencialmente dedicou o ano que hoje se conclui, assinalando uma companhia que nenhum tempo esgota. Testemunha e guardião das maravilhas de Deus em Maria, sê-lo-á também das que Deus realizará em nós. Sempre e só por Cristo, como em Maria foi.

 
Sé de Lisboa, 8 de dezembro de 2021

 
+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Patriarcado de Lisboa

O Papa: "A verdadeira humildade é olhar só para Deus e para o próximo"

 
 
“Viver em cada dia o que nos acontece com humildade e alegria, livres de nós mesmos, com os nossos olhos voltados para Deus e para o próximo”. São as palavras que o Papa Francisco destacou no Angelus pronunciado por ocasião da Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria
 

Jane Nogara - Vatican News

No Angelus desta quarta-feira (08/12), Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, o Papa falou sobre a verdadeira humildade e a santidade na vida diária. Falando sobre o anúncio a Maria, Francisco recordou que o anúncio “aconteceu dentro da casa em Nazaré, onde uma pessoa se revela melhor do que em qualquer outro lugar”. Acrescentado também que é “justamente nessa intimidade doméstica que o Evangelho de Lucas (1, 26-38) nos dá um detalhe que revela a beleza do coração de Maria”.

Maria Imaculada

Francisco explicou que o anjo a chamou de “cheia de graça” e isto significa “que Nossa Senhora não porta consigo o mal, ela está sem pecado, Imaculada”. “Ela não só está surpresa, mas perturbada. Receber grandes saudações, honras e elogios às vezes corre o risco de provocar vanglória e presunção”. E Francisco adverte que “Jesus não é gentil com aqueles que procuram saudações nas praças, adulação, visibilidade”.

“Maria, por outro lado, não se exalta, mas fica perturbada; em vez de sentir prazer, ela se sente maravilhada. A saudação do anjo parece maior do que ela. Por quê? Porque ela se sente pequena por dentro, e esta pequenez, esta humildade atrai o olhar de Deus”

A verdadeira humildade

Refletindo sobre a atitude de Maria o Papa disse:

“Maria, de facto, não atribui prerrogativas a si mesma, não reivindica nada, não atribui nada a si mesma. Ela não se lisonjeia, ela não se exalta. Porque, na sua humildade, sabe que recebe tudo de Deus. Portanto Ela está livre de si mesma, totalmente voltada para Deus e aos outros. Maria Imaculada não tem olhos para si mesma. Esta é a verdadeira humildade: não ter olhos para nós mesmos, mas para Deus e para os outros”.

O Senhor precisa da nossa abertura a Ele

“Recordemos”, continuou o Papa, que “naquela casinha em Nazaré batia o maior coração que qualquer criatura já teve”. Recordando que “é uma notícia extraordinária para nós!” explicando que “o Senhor, para realizar maravilhas, não precisa de grandes meios ou das nossas elevadas capacidades, mas da nossa humildade, da nossa abertura a Ele e aos outros”.

Neste ponto Francisco esclareceu:

“Hoje também, ele quer fazer grandes coisas connosco na nossa vida diária: na família, no trabalho, nos nossos ambientes quotidianos. Ali, mais do que nos grandes eventos da história, a graça de Deus ama agir. Mas, será que acreditamos nisto? Ou pensamos que a santidade é uma utopia, algo para pessoas especiais, uma ilusão piedosa incompatível com a vida comum?”

Por fim, o Papa concluiu com uma prece a Maria:

“Peçamos a Nossa Senhora uma graça: que ela nos liberte da ideia enganosa de que o Evangelho é uma coisa e a vida é outra; que ela nos ilumine com entusiasmo ao ideal da santidade, que não é uma questão de santinhos e estátuas, mas de viver cada dia o que nos acontece com humildade e alegria, livres de nós mesmos, com os nossos olhos voltados para Deus e para o próximo”

“Não percamos a coragem, o Senhor deu-nos boa estrutura para construir a santidade na nossa vida diária! E quando somos assaltados pela dúvida de não sermos bem-sucedidos, pela tristeza de sermos inadequados, deixemo-nos olhar pelos ‘olhos misericordiosos’ de Nossa Senhora, porque ninguém que tenha pedido a sua ajuda, jamais foi abandonado!".

VN

07 dezembro 2021

Francisco: cuidar dos marginalizados é um sinal de mudança real

 
  Papa Francisco com uma pessoa doente  (Vatican Media)  
 
Em entrevista à revista "50mila volti", editada pela Cooperativa OSA, Profissionais da Saúde Associados, o Papa encoraja o trabalho de todos pela ajuda que oferecem a muitas pessoas "para superar sua escuridão, para não se sentirem sozinhas"
 

Benedetta Capelli – Vatican News

A reflexão do Papa sobre algumas palavras-chave ligadas à saúde, velhice e doença: áreas nas quais a Cooperativa OSA, Profissionais da Saúde Associados, trabalha há pelo menos 35 anos, dedicando-se ao cuidado e tratamento de pacientes cujas vidas são frequentemente contadas na revista "50mila volti". O Papa Francisco concedeu uma entrevista à redação da revista na qual aponta a "ternura" como um dos termos para dar ainda mais valor ao cuidado. "O modo pelo qual Deus se fez presente na vida de cada homem, sobretudo através de Jesus".

A ternura indica proximidade não apenas através da competência, mas acima de tudo através da participação na vida concreta das pessoas. É uma proximidade entendida como partilha, cuidado e amor. Espero que a grande provação que vivemos na pandemia nos tenha feito sonhar com uma nova proximidade entre todos. Uma nova ternura.

Encontro entre fragilidades

Depois o Papa falou sobre as crianças e os idosos, "principais cidadãos das periferias existenciais" de uma sociedade que se concentra na produtividade. "as suas vidas", afirmou, "são percebidas como inúteis. Creio, ao contrário disto, que o encontro geracional entre crianças e idosos deva ser preenchido por uma cultura que saiba unir e integrar este tipo de fragilidade". Trata-se, explica Francisco, de "uma questão humana".

Somente quando voltarmos a preocuparmo-nos acima de tudo com os que estão em situação de marginalidade, daremos sinais de mudança real. Quando trabalharmos para que não haja mais conflito geracional, e encontrarmos a coragem de reunir os jovens e os adultos, as crianças e os idosos, só então experimentaremos uma nova qualidade de vida na sociedade.

A Cooperativa Osa auxilia as pessoas no domicílio, na intimidade da sua própria casa, uma dimensão de afetuoso cuidado. Para o Papa, o lar "não é simplesmente um lugar, é acima de tudo um relacionamento" que traz novas forças para enfrentar as provações. “Isto não significa", explica Francisco, "que as estruturas de saúde sejam inúteis, mas devem tornar-se o último recurso na experiência de doença e sofrimento". O Papa elogiou o trabalho realizado "porque torna possível a experiência da dor e da doença num ambiente certamente mais acolhedor, mais humano com maior capacidade de humanizar até mesmo uma parte da vida que, precisamente por ser difícil, faz-nos sentir mais sozinhos, mais incompreendidos e mais vulneráveis".

Recordando a sua recente experiência hospitalar, Francisco sugere algumas regras simples para os profissionais da saúde mas que, na essência, dizem respeito aos que vivem o seu serviço e o seu trabalho de uma forma humana. "Olhem nos olhos das pessoas, considere-as no seu sofrimento sem jamais banalizá-las", e também a escuta para que "essas pessoas possam confiar a alguém o sofrimento que estão a passar, as dificuldades que elas têm". Por fim, o cuidado ao oferecer ajuda, apoio e serviços profissionais "deve ser traduzido de uma forma que nunca seja violenta, previsível ou mecânica".

Todos nós precisamos de um Cireneu

A última pergunta feita ao Papa diz respeito à dor e à morte. Francisco salienta que mesmo sem falar de Cristo, não podemos passar sem Ele e a sua experiência. Lembra que muitas vezes "os discursos, em vez de serem de ajuda ou consolo, causam ainda mais sofrimento", é necessário "não fugir, ficar perto" nos momentos de provação, "diante do escândalo da dor inocente, do escândalo da dor de uma criança". Devemos então evitar a tentação de nos isolarmos porque "quanto mais sofremos, mais sentimos que também precisamos de um Cireneu que nos ajude a carregar a nossa Cruz".

Deus encontra sempre uma forma de estar presente nas nossas vidas, mesmo quando sentimos que Ele está longe ou nos sentimos abandonados. Esta é a nossa força. E mesmo que não o saibamos, a Páscoa já está em ação nessa escuridão. Somente com o tempo é que percebemos que há uma luz escondida mesmo na escuridão mais profunda. Enquanto esperamos para perceber isto, só podemos continuar a ajudar-nos uns aos outros.  

"Obrigado pelo que vocês fazem, vocês ajudam muitas pessoas a superar as suas escuridões, a não se sentirem sozinhas, a não desanimarem e a serem capazes de viver e passar por aquilo que nunca puderam viver ou enfrentar sozinhas", concluiu o Papa.

VN