28 fevereiro 2024

CAMINHO DE QUARESMA V

 

 

 

Este tempo de Quaresma é sempre o tempo ideal para caminharmos num deserto isento de ruídos, de imagens, de impressões, de certezas adquiridas, enfim, de tudo aquilo que muitas vezes nos mascara para nós próprios.

É por isso um tempo de entrarmos em nós, de nos conhecermos verdadeiramente, de percebermos realmente como somos e como reagimos, e, como em tudo isso que somos ou aparentamos ser, discernir se temos ou não Cristo em nós, ou melhor, se somos verdadeiramente discípulos de Cristo.

Para isso é preciso um exercício de profunda humildade, porque para reconhecermos as nossas poucas ou muitas virtudes é fácil e aceitamo-las de imediato, mas já para reconhecer as nossas fraquezas, os nossos defeitos, a dificuldade é enorme e por vezes temos dificuldade para os aceitar e os combater.

E, obviamente, é sempre difícil sermos verdadeiros connosco próprios, sobretudo no que diz respeito ao que não está bem, ao que não é bom, por isso, nessa viagem pelo deserto que devemos fazer de nós próprios, não poderemos ir sós, mas sim acompanhados, ou melhor, envolvidos e deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo.

E o Espírito Santo, com todo o Seu infinito amor, convencer-nos-á do pecado em nós (Jo 16, 8), mas ao mesmo tempo levar-nos-á ao arrependimento, à confissão, ao propósito de emenda.

Porque só convencidos do pecado, só convencidos de que realmente somos pecadores, não como um exercício de, digamos, autoflagelação, mas como um exercício de verdade, podemos perceber como o pecado nos aprisiona e, ao mesmo tempo, como Deus nos quer libertar de todo o mal, e assim, levar-nos ao arrependimento, para no Seu amor encontrarmos o verdadeiro amor e a salvação.

«Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» Mc 1, 15

Como podemos nós arrepender-nos se não nos reconhecemos pecadores?

E se não nos arrependemos, como podemos nós acreditar no Evangelho?

Acreditando no Evangelho, ou seja, fazendo do Evangelho a nossa prática de vida, («Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.» Lc 8, 21), seremos então discípulos de Cristo guiados pelo Espírito Santo no deserto que quisermos percorrer e, então, encontrar-nos-emos connosco próprios e conhecendo-nos, percebermos e vivermos Cristo em nós.

Senhor,

conhecendo-me verdadeiramente saberei como sou nada.

No entanto, na humildade de me reconhecer pecador, entrego-me a Ti, e em Ti posso ser tudo o que Te aprouver, mesmo sendo nada.

Amen.

 

Marinha Grande, 28 de Fevereiro de 2024

Joaquim Mexia Alves

 

Papa: inveja e vanglória, vícios de quem sonha ser o centro do mundo

 

 
Na Audiência Geral desta quarta-feira (28), Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre os vícios e as virtudes. O texto da reflexão dedicado à inveja e à vanglória foi proferido por mons. Ciampanelli, colaborador da Secretaria de Estado. Para combater tais vícios, os remédios são o amor gratuito e o reconhecimento de que Deus está presente na nossa própria fraqueza.
 

Thulio Fonseca - Vatican News

Após uma semana de pausa, devido ao retiro espiritual quaresmal dos membros da Cúria Romana, e ainda recuperando de uma "leve gripe", conforme comunicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, que levou o Pontífice a cancelar algumas atividades no sábado e na segunda-feira, Francisco esteve presente na Sala Paulo VI para a Audiência Geral desta quarta-feira, 28 de fevereiro.

Ao saudar os fiéis e peregrinos, o Papa afirmou: "Queridos irmãos e irmãs, ainda estou um pouco resfriado. Por isso, pedi ao mons. Ciampanelli para ler a catequese de hoje", e de seguida, o colaborador da Secretaria de Estado proferiu o discurso que dá continuidade à reflexão sobre os vícios e as virtudes.

 

Francisco, no momento em que explica aos fiéis que confiou a leitura da catequese ao monsenhor Ciampanelli

 

O rosto do invejoso é sempre triste

"Hoje examinaremos dois pecados capitais que encontramos nas grandes listas que a tradição espiritual nos deixou: a inveja e a vanglória", introduz mons. Ciampanelli, dedicando a primeira parte da reflexão à inveja:

"Quando lemos a Sagrada Escritura, percebemos que este vício nos é apresentado como um dos mais antigos: o ódio de Caim por Abel é desencadeado quando ele percebe que os sacrifícios do seu irmão agradam a Deus. O rosto do invejoso é sempre triste: o seu olhar está baixo, parece examinar continuamente o chão, mas na realidade não vê nada, porque a mente está envolvida por pensamentos cheios de malícia. A inveja, se não for controlada, leva ao ódio pelos outros. Abel será morto pelas mãos de Caim, que não podia suportar a felicidade do irmão."

Deus tem uma "matemática" própria

O texto do Papa sublinha que "na raiz deste vício existe uma relação de ódio e amor: deseja-se mal ao outro, mas secretamente deseja-se ser como ele".

A inveja faz-nos criar uma falsa ideia de Deus, não se aceita que Deus tenha uma "matemática" própria, diferente da nossa:

"Gostaríamos de impor a Deus a nossa lógica egoísta, mas a lógica de Deus é o amor. Os bens que Ele nos dá são feitos para serem partilhados. É por isso que São Paulo exorta os cristãos: 'Com amizade fraterna, sede afetuosos uns com os outros. Rivalizai uns com os outros na estima recíproca' (Rm 12,10). Eis aqui o remédio para a inveja!"

 

Aula Paulo VI durante a Audiência Geral desta quarta-feira, 28 de fevereiro
 

A vanglória é uma autoestima inflamada e infundada

A segunda parte da catequese de Francisco volta-se para a vanglória, e mons. Ciampanelli, na leitura do texto, recorda que este vício anda de mãos dadas com o demónio da inveja, sendo típico de quem aspira ser o centro do mundo, livre para explorar tudo e todos, objeto de todo louvor e todo amor:

"A pessoa vangloriosa não tem empatia e não percebe que existem outras pessoas no mundo além dela. As suas relações são sempre instrumentais, caracterizadas pela opressão dos outros. A sua pessoa, as suas façanhas, os seus sucessos devem ser mostrados a todos: é uma perpétua mendiga da atenção. E se, às vezes, as suas qualidades não são reconhecidas, fica extremamente irritada. Os outros são injustos, não entendem, não estão à altura."

Nas fraquezas, a força de Cristo

"Para curar os vangloriosos, os mestres espirituais não sugerem muitos remédios", recorda o texto do Papa, "porque, em última análise, o mal da vaidade tem em si o seu remédio: os elogios que o vanglorioso esperava colher no mundo logo se voltarão contra ele. E quantas pessoas, iludidas por uma falsa imagem de si mesmas, caíram em pecados dos quais logo se envergonhariam!"

Na conclusão, mons. Ciampanelli ressalta na leitura da catequese, que a mais bela instrução para vencer a vanglória encontra-se no testemunho de São Paulo:

"O Apóstolo sempre teve de lidar com uma falha que nunca foi capaz de superar. Três vezes pediu ao Senhor que o libertasse daquele tormento, mas no final Jesus respondeu-lhe: 'Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se consuma'. A partir daquele dia, Paulo foi libertado. E a sua conclusão deveria tornar-se também a nossa: 'É, portanto, de bom grado que prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo' (2Cor 12,9)."

 

Audiência Geral com o Papa Francisco

VN

26 fevereiro 2024

CAMINHO DE QUARESMA IV

 


 

 

 

Fechamos os olhos, deixamos que a música, o Requiem de Mozart nos entre pelos ouvidos, passe pela nossa mente e chegue ao nosso coração.

Deixamo-nos tocar por Deus que deu ao homem tais talentos que o leva compor música de uma tal grandeza que percebemos que vai para além da humanidade, pois transporta-nos para outro espaço que não dominamos, mas antes vivemos numa profunda interioridade.

Talvez até uma lágrima ou outra despontem nos nossos olhos, mas deixamo-las correr, deixamos que elas lavem pelo menos por um escasso tempo tudo o que é fealdade no mundo.

Sim, não faz mal nenhum deixarmo-nos transportar para um universo de melodia, de força, de energia, de algo que nos leva a perceber, atendida as necessárias e percebidas diferenças, como este conjunto de notas musicais nos levam a viver o universo criado por Deus, entre estrelas, planetas, galáxias que perfeitamente se encaixam umas nas outras.

Pelo menos a mim a música, esta música, leva-me sempre ao encontro com Deus, porque esta perfeição apenas pode ser graça d’Ele ao homem.

E o caminho de Quaresma?

Por este tempo efémero, como é o nosso tempo físico, deixo que o meu caminhar no deserto seja acompanhado por esta música, por esta exaltação que sinto, porque ao ouvi-la me sinto pequeno, um quase nada e me maravilho pensando como é possível que um homem, ser tão finito no tempo físico, ser capaz de compor algo que vai para além do tempo e se transporta e nos transporta para todo o tempo.

Eterno e infinito é Deus, mas quando Ele nos criou à Sua imagem e semelhança, também nos fez participes dessa Sua eternidade, (se com Ele quisermos viver para sempre), e a música, esta música como outras de grandiosidade inquestionável, tornam-se também quase eternas, porque vindas d’Ele para o homem, podem levar o homem para Ele, ao reconhecer que tudo o que é bom nos vem apenas e só de Deus.

De olhos fechados, levado pelos passos da música, apenas abro o coração e repito sem cessar, num silêncio que não quer quebrar a harmonia:

Aqui estou, Senhor!

Leva-me pelo deserto, guia-me no caminho, dá-me a mão, faz-me viver o Teu amor, a Tua graça.

Perdoa-me porque tantas vezes não vejo a beleza da Tua criação, a beleza e perfeição de tudo o que criaste para o homem e pelo homem.

Ensina-me a encontrar-Te em mim, no amor, na humildade, na entrega, na doação.

Leva-me à oração contínua como se fosse música para os Teus ouvidos.

Faz de mim o quiseres e faz-me viver cada passo no deserto como uma nota de música em que Te fazes presente para mim e para todos.

 

Marinha Grande, 26 de Fevereiro de 2024

Joaquim Mexia Alves

 

25 fevereiro 2024

Papa no Angelus: Abramo-nos à luz de Jesus



 
Durante o Angelus deste domingo (25/02), Francisco incentiva-nos a manter sempre os nossos olhos fixos no rosto luminosas, procuremos a sua face, repleta de misericórdia, de fidelidade e de esperança”, destaca o Pontífice. 
 

Thulio Fonseca - Vatican News

Mesmo recuperando de uma “leve gripe”, conforme comunicado ontem (24/02) pela Sala de Imprensa do Vaticano, o Papa compareceu ao seu compromisso dominical: a oração mariana do Angelus com os fiéis reunidos na Praça de São Pedro. Na sua reflexão, Francisco meditou sobre o Evangelho deste segundo domingo da Quaresma (25/02), que narra o episódio da Transfiguração de Jesus (cf. Mc 9,2-10).

O Santo Padre recordou que "depois de anunciar a sua Paixão aos discípulos, Jesus leva consigo Pedro, Tiago e João, sobe um alto monte e ali manifesta-se fisicamente com toda a sua luz, revelando-lhe o sentido do que tinham vivido juntos até aquele momento".

A pregação do Reino, o perdão dos pecados, as curas e os sinais realizados eram, de facto, centelhas de uma luz ainda maior: "a luz de Jesus, a luz que é Jesus", enfatizou o Papa.

Jamais desviar os olhos da luz de Jesus

Segundo Francisco, é a isto que os cristãos são chamados a fazer no caminho da vida: "ter sempre diante dos olhos o rosto luminoso de Cristo". 

“Abramo-nos à luz de Jesus! Ele é amor e vida sem fim. Ao longo das trilhas da existência, às vezes tortuosas, procuremos a sua face, repleta de misericórdia, de fidelidade e de esperança.”

 

Praça São Pedro repleta de fiéis e peregrinos neste domingo, 25 de fevereiro

Cultivar um olhar atento

O Pontífice destacou que a oração, a escuta da Palavra, os Sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia, são importantes auxílios para seguir este percurso, e completou: 

“Eis um bom propósito para a Quaresma: cultivar olhares atentos, tornarmo-nos 'exploradores de luz', exploradores da luz de Jesus na oração e nas pessoas.”

Maria, resplandecente da luz de Deus

Por fim, o convite do Papa a uma reflexão interior: 

"No meu caminho, mantenho os olhos fixos em Cristo que me acompanha? E para fazê-lo, dou espaço ao silêncio, à oração, à adoração? Por fim, procuro cada pequeno raio da luz de Jesus, que se reflete em mim e em cada irmão e irmã que encontro? E lembro-me de agradecê-lo por isso?" 

"Maria, resplandecente da luz de Deus, nos ajude a manter o olhar fixo em Jesus e a nos olharmos mutuamente com confiança e amor", conclui Francisco.

VN