25 novembro 2020

O Papa: num momento difícil, o Advento é a "grande esperança"

Papa Francisco - Audiência geral  (Vatican Media)
 
Na sua saudação aos fiéis de diversas línguas, no final da audiência geral, Francisco convidou-os a dedicar momentos de oração inspirados nas semanas que preparam para o Natal.

Michele Raviart, Silvonei José – Vatican News

A esperança numa verdade que salva, uma luz mais forte que a escuridão, um caminho que transforma o coração. Tudo isto é o Advento e o Papa, imediatamente após a audiência geral desta quarta-feira, quis recordar à Igreja em todas as partes do mundo a importância do período litúrgico que está prestes a começar. "Nestes tempos difíceis para muitos, esforcemo-nos por redescobrir a grande esperança e alegria que nos dá a vinda do Filho de Deus ao mundo", disse Francisco aos fiéis em francês, enquanto dirigindo-se aos fiéis de língua italiana - salientou que a recente Solenidade de Cristo Rei do Universo mostrou que Jesus "libertou-nos do poder das trevas, para nos inserir no seu Reino, e para nos tornar testemunhas críveis da verdade salvífica".

Meditar à luz da Palavra

As orações da Solenidade de Cristo Rei, disse o Papa aos fiéis de língua alemã, chamam a atenção "para o retorno de Jesus no fim dos tempos" e que, no entanto, Cristo "já agora vem nos pequenos e nos necessitados para preparar-nos, em plenitude, para o grande encontro com Ele".

Aos fiéis de língua inglesa Francisco indicou que durante a viagem dos quatro domingos do Advento, com o qual inicia o ano litúrgico, a luz de Cristo pode "iluminar os nossos caminhos e dissipar a escuridão dos nossos corações". E com os fiéis de língua espanhola o Papa completou um mosaico ideal de espiritualidade convidando-os a "dedicarem momentos de oração" ao Advento, "meditando à luz da Palavra de Deus, para que - disse - o Espírito Santo que há em vós possa iluminar o caminho a seguir e transformar o coração, na espera o Nascimento de Nosso Senhor Jesus". 

As Missas "Rorate"

Um exemplo de luz que derrota as trevas, neste sentido, é dado pelas missas "Rorate" - das primeiras palavras do hino inicial Rorate coeli desuper retirado do livro de Isaías - dedicadas à Virgem Maria e celebradas antes do amanhecer à luz das velas, à espera do nascimento do novo dia. Então a saudação aos fiéis de língua polaca, que assim honrarão Maria nas suas igrejas.

Saudação aos fiéis de língua portuguesa

Na sua saudação aos fiéis de língua portuguesa Francisco disse: “Queridos irmãos, a oração abre-nos à força do Espírito Santo, que fortalecendo-nos com os seus dons, nos torna firmes na fé e impulsiona-nos a dar um testemunho alegre da verdade cristã. Que Deus vos abençoe!”

VN

O Papa: a Igreja é o trabalho do Espírito na comunidade cristã

 

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“Os primeiros passos da Igreja no mundo foram ritmados pela oração”, ressaltou o Papa. “Os escritos apostólicos e a grande narração dos Atos dos Apóstolos restituem-nos a imagem de uma Igreja a caminho, ativa, mas que encontra nas reuniões de oração a base e o ímpeto para a ação missionária. A imagem da Comunidade primitiva de Jerusalém é um ponto de referência para todas as outras experiências cristãs.”

A Igreja é obra do Espírito Santo

Segundo Francisco, “aqui encontramos quatro características essenciais da vida eclesial: ouvir o ensinamento dos apóstolos, salvaguardar a comunhão recíproca, partir o pão, ou seja, Eucaristia, e a oração. Elas lembram-nos que a existência da Igreja tem significado, se permanecer firmemente unida a Cristo, ou seja, na comunidade, na sua palavra, na Eucaristia e na oração. É a maneira de nos unirmos a Cristo”. A seguir, acrescentou:

Na Igreja, nada do que cresce fora destas “coordenadas” tem fundamento: para discernir qualquer situação devemo-nos interrogar se existem em nós estas quatro coordenadas: a pregação, a busca constante da comunhão fraterna, ou seja, a caridade, partir o pão, isto é, vida eucarística, e a oração. Qualquer situação deve ser avaliada à luz destas quatro coordenadas. O que não entra nestas coordenadas não tem eclesialidade, não é eclesial. É Deus quem faz a Igreja, e não o clamor das obras. 

“A Igreja não é um mercado. A Igreja não é um grupo de empresários que vão em frente com a empresa nova. A Igreja é obra do Espírito Santo que Jesus nos enviou para reunir-nos. A Igreja é o trabalho do Espírito na comunidade cristã, na vida comunitária, na Eucaristia, na oração. Sempre! E tudo o que cresce fora destas coordenadas não tem fundamento. É como uma casa construída sobre a areia. É Deus quem faz a Igreja, e não o clamor das obras. É a palavra de Jesus que enche de significado os nossos esforços. É na humildade que se constrói o futuro do mundo.”

Muitas vezes, sinto muita tristeza quando vejo uma comunidade com boa vontade, mas erra o caminho, pois pensa em fazer da Igreja um encontro, como se fosse um partido político, a maioria, a minoria, o que pensa sobre isto, sobre aquilo, como um sínodo, uma estrada sinodal que devemos fazer. Eu inte3rrogo-me: mas onde está o Espírito Santo ali, onde está a oração, o amor comunitário, onde está a Eucaristia? Sem estas coordenadas, a Igreja torna-se uma sociedade humana, um partido político, maioria, minoria, se fazem mudanças como se fosse uma empresa, por maioria e minoria, mas não há o Espírito Santo. A presença do Espírito Santo é garantida por estas quatro coordenadas. Para avaliar uma situação se é eclesial ou não nos devemos interrogar sobre essa quatro coordenadas, como se desenvolve a vida nestas quatro coordenadas. Se falta isto, falta o Espírito, e se falta o Espírito seremos uma bonita associação humanista, de beneficência, até mesmo um “partido” podemos dizer “eclesial”, mas não há Igreja. A Igreja não cresce com estas coisas, não cresce por proselitismo, como qualquer empresa, cresce por atração, e quem movimenta a atração é o Espírito Santo. Não nos esqueçamos destas palavras de Bento XVI: “A Igreja não cresce por proselitismo, cresce por atração”. Se falta o Espírito Santo, que é quem atrai a Jesus, não há Igreja ali, há um bonito clube de amigos, com boas intenções, mas não há Igreja, não há sinodalidade.

A obra do Espírito na Igreja é recordar Jesus

No Livro dos Atos dos Apóstolos “descobrimos que o poderoso motor da evangelização são as reuniões de oração, onde aqueles que participam experimentam diretamente a presença de Jesus e são tocados pelo Espírito. Os membros da primeira comunidade compreendem que a história do encontro com Jesus não parou no momento da Ascensão, mas continua na sua vida. Narrando o que o Senhor disse e fez, rezando para entrar em comunhão com Ele, tudo se torna vivo. A oração infunde luz e calor: o dom do Espírito faz nascer neles o fervor”.

Eis a obra do Espírito na Igreja: recordar Jesus. Jesus disse: Ele ensinar-vos-á e vos fará lembrar. A missão é recordar Jesus, mas não como exercício mnemónico. Percorrendo os caminhos da missão, os cristãos recordam Jesus enquanto o tornam novamente presente; e dele, do seu Espírito, recebem o “impulso” para ir, proclamar e servir. Na oração, o cristão mergulha no mistério de Deus que ama cada pessoa e deseja que o Evangelho seja pregado a todos. Deus é Deus para todos, e em Jesus todos os muros de separação foram definitivamente abatidos: como diz São Paulo, Ele é a nossa paz, «Ele, que de dois povos fez um só». Jesus criou a unidade, a unidade.

Retomar o sentido da adoração

“Assim, a vida da Igreja primitiva é ritmada por uma sucessão contínua de celebrações, convocações, tempos de oração comunitária e pessoal. É o Espírito que dá força aos pregadores que se põem a caminho, e que por amor a Jesus sulcam os mares, enfrentam perigos e submetem-se a humilhações”, disse ainda o Pontífice.

“Deus doa amor e Deus pede amor. Esta é a raiz mística de toda a vida que crê. Os primeiros cristãos em oração, mas também nós que viemos muitos séculos mais tarde, todos vivemos a mesma experiência. O Espírito anima hoje tudo. E qualquer cristão que não tem medo de dedicar tempo à oração pode fazer próprias as palavras do apóstolo Paulo: «A minha vida presente, na carne, eu vivo-a na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim». A oração torna-nos conscientes disto. Só no silêncio da adoração experimentamos toda a verdade destas palavras. Devemos retomar o sentido da adoração, adorar, adorar a Deus, adorar a Jesus, adorar o Espírito. O Pai, o Filho e o Espírito. Adorar em silêncio. A oração de adoração é a oração que nos faz reconhecer Deus como início e fim de toda história. Esta oração é o fogo vivo do Espírito que dá força ao testemunho e à missão”, concluiu o Papa.

VN

24 novembro 2020

Advento: CEP divulga mensagem de Advento, pedindo atenção aos pobres

 

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) divulgou hoje uma mensagem para o Advento, tempo de preparação para o Natal que se inicia no domingo, pedindo atenção aos pobres e sublinhando o impacto da pandemia. “É terrível termos de assumir que, se não cuidamos bem dos pobres e necessitados, também não cuidamos bem de Deus! Mas é agora o tempo favorável”, refere o texto.
A proposta de meditação dos bispos católicos tem como título “Deus vem e enche o nosso tempo de ‘Bom-Dia’!” e é uma iniciativa da Assembleia Plenária, que se reuniu em Fátima de 11 a 13 de novembro. “O Deus que vem não vem mudar as situações. Vem mudar os corações. E são os nossos corações mudados que podem mudar as situações”, pode ler-se.
A CEP apela a uma mudança de comportamentos, para que cada um seja capaz de “acolher e responder”.

“Bem podia o profeta dizer que Deus desceu à nossa pandemia. E nós, os habitantes da pandemia, bem podemos rever-nos no Salmista que reza: Do ‘confinamento’ invoquei o Senhor» (Salmo 118,5)”.

O Advento, que engloba os quatro domingos anteriores ao Natal, marca o início do ano litúrgico na Igreja Católica e é marcado, em 2020, pelas limitações impostas pela Covid-19. “O andamento do Advento traz-nos um Deus que vem para o meio de nós e da nossa anemia e pandemia, e diz: ‘Bom-Dia’, e suplicando ordena: ‘Cuida de mim’”, escrevem os bispos portugueses. “O ‘cuida de mim’ que o pobre balbucia para ti não é opcional: é uma súplica que é um mandamento: não tens opção de escolha; tu é que foste escolhido, tens de responder que sim, debruçando-te sobre o pobre desvalido que ordena e implora o teu auxílio”, acrescentam.
A mensagem da CEP fala num tempo de “mudança e de esperança” que deve abrir portas a uma “torrente de bondade”. “O Deus do Advento vem para o meio desta pandemia, pega na nossa mão, muda o nosso coração e envia-nos a mudar a situação. Está aberta a oficina do Advento: enquanto uns se afadigam na vacina, outros nos hospitais, outros nos lares, nas farmácias, na padaria, empenhemo-nos todos em encher este mundo de Paz, de Esperança e de ‘Bom-Dia’, à imagem e sob a proteção maternal de Maria”, conclui o documento.

Ecclesia

23 novembro 2020

Papa Francisco: as situações ‘covid’ e as três solidões da minha vida

A capa do livro do Papa "Ritorniamo a sognare"
 
Publicamos um trecho do livro "Ritorniamo a sognare" (Voltemos a sonhar) escrito pelo Pontífice com o jornalista Austen Ivereigh, que será publicado em dezembro

PAPA FRANCISCO

Na minha vida tive três situações "Covid": a doença, a Alemanha e Córdoba.

Quando eu tinha 21 anos contraí uma doença muito grave, tive a minha primeira experiência de limitação, dor e solidão. Mudaram as minhas coordenadas. Durante meses não sabia quem era, se iria morrer ou viver. Mesmo os médicos não sabiam se eu conseguiria sobreviver. Lembro-me de um dia ter pedido a minha mãe, abraçando-a, para me dizer se eu ia morrer. Estava no segundo ano do seminário diocesano em Buenos Aires.

Lembro-me da data: era 13 de agosto de 1957. Fui levado ao hospital, onde constatarem que não tinha o tipo de gripe que é tratada com aspirina. Inicialmente tiraram-me um litro e meio de água do meu pulmão, depois lutei entre a vida e a morte. Em novembro, fiz uma cirurgia para remover o lobo superior direito do meu pulmão. Sei por experiência própria como se sentem os pacientes com coronavírus quando lutam para respirar num respirador.

Daqueles dias recordo-me de duas enfermeiras em particular. Uma era a enfermeira-chefe, uma irmã dominicana que tinha sido professora em Atenas antes de ser enviada para Buenos Aires. Soube mais tarde que, depois do médico sair da sala ao terminar o primeiro exame, ela disse às enfermeiras para dobrar a dose do tratamento prescrito por ele – à base de penicilina e estreptomicina - porque a sua experiência dizia-lhe que eu estava a morrer. A Irmã Cornelia Caraglio salvou a minha vida. Graças ao seu contacto habitual com os doentes, ela sabia mais do que o médico do que os pacientes precisavam, e teve a coragem de usar essa experiência.

Outra enfermeira, Micaela, fez a mesma coisa quando eu sofria com fortes dores. Ela dava-me secretamente doses extras de calmantes fora do horário previsto. Lutaram por mim até ao fim, até melhorar. Ensinaram-me o que significa usar a ciência e o saber para ir além, para responder às necessidades específicas.

Daquela experiência aprendi outra coisa: como é importante evitar consolos superficiais. As pessoas vinham visitar-me e diziam que eu ficaria bem, que nunca mais sentiria toda aquela dor: palavras sem sentido e vazias, ditas com boas intenções, mas nunca chegaram ao meu coração. A pessoa que me tocou mais profundamente, com o seu silêncio, foi uma das mulheres que marcaram a minha vida: Irmã María Dolores Tortolo, a minha professora quando criança, que me preparou para minha Primeira Comunhão. Veio ver-me, pegou na minha mão, deu-me um beijo e ficou em silêncio por um longo tempo. Depois disse-me: "Estás a imitar Jesus". Não precisava de dizer mais nada. A sua presença, o seu silêncio, deram-me um profundo consolo.

Depois desta experiência, tomei a decisão de falar o mínimo possível quando visito pessoas doentes. Eu só lhes dou a mão.

[…]

Poderia dizer que o período alemão, em 1986, foi a "Covid do exílio". Foi um exílio voluntário, porque fui para estudar a língua e procurar material para concluir a minha tese, mas sentia-me como um peixe fora de água... Costumava fazer algumas caminhadas até ao cemitério em Frankfurt e de lá podia-se ver os aviões a descolar e a aterrar; eu estava nostálgico pela minha terra natal, para voltar. Lembro-me do dia em que a Argentina ganhou a Copa do Mundo. Eu não quis ver o jogo e soube que ganhamos só no dia seguinte, ao ler o jornal. Na minha aula de alemão ninguém falou sobre isto, mas quando uma jovem japonesa escreveu "Viva a Argentina" no quadro negro, os outros riram. O professor entrou, disse para apagar e fechou o assunto.

Era a solidão de uma vitória sozinho, porque não tinha ninguém para compartilhá-la; a solidão de não fazer parte de nada, o que faz duma pessoa, um estranho. Levam-na para longe do seu lugar e colocam-na num lugar que não conhece, e nesse lugar dá conta de que o que realmente importa é o lugar que deixaste.

Às vezes, o desenraizamento pode ser uma cura ou uma transformação radical. Este foi o meu terceiro "Covid" foi quando fui enviado para Córdoba de 1990 a 1992. A raiz deste período remonta ao meu modo de comandar, primeiro como provincial e depois como reitor. Eu, certamente tinha feito algo de bom, mas às vezes era muito severo. Em Córdoba eles fizeram-me o favor e tinham razão.

Passei um ano, dez meses e treze dias naquela residência jesuíta. Celebrava a missa, confessava e oferecia direção espiritual, mas nunca saia de casa, excepto quando ia aos correios. Foi uma espécie de quarentena, de isolamento, como aconteceu com muitos de nós nos últimos meses, e fez-me bem. Isto levou-me a amadurecer ideias: eu escrevia e rezava muito. Até então eu tinha tido uma vida ordenada na Companhia, baseada na minha experiência, primeiro como professor dos noviços e depois de governo a partir de 1973, quando fui nomeado provincial, até 1986, quando terminei o meu mandato como reitor. Tinha-me acomodado com aquele modo de vida. Mas um desenraizamento como aquele, em que és mandado para algum lugar remoto e colocarem-te como professor substituto, abala tudo. Os teus hábitos, os teus reflexos comportamentais, as tuas linhas de referência cristalizadas ao longo do tempo, tudo isto se transformou desapareceu e deves aprender a viver novamente, a colocar a tua existência novamente em ordem.

Daquele período, hoje, impressionam-me três coisas. Primeiro, a capacidade de rezar que me foi doada. Em segundo lugar, as tentações que eu sentia. E terceiro - e isto é o mais estranho - que eu tenha lido na época, por acaso, os trinta e sete volumes da "História dos Papas" de Ludwig Pastor. Poderia ter escolhido um romance, algo mais interessante. Pensando onde estou agora, pergunto-me, por que  me inspirou Deus a ler exatamente aquela obra naquele momento. Com aquela vacina, o Senhor preparou-me. Uma vez que se conhece aquela história, não há muito que possa surpreendê-te sobre o que acontece na Cúria Romana e na Igreja de hoje. Ajudou-me muito!

A "Covid" de Córdoba foi uma verdadeira purificação. Deu-me mais tolerância, compreensão, capacidade de perdoar. Também me deixou com uma nova empatia para com os fracos e indefesos. E paciência, muita paciência, ou seja, o dom de entender que para as coisas importantes precisa tempo, que a mudança é orgânica, que há limites e que devemos trabalhar dentro deles e ao mesmo tempo manter os olhos no horizonte, como fez Jesus. Aprendi a importância de ver o grande no pequeno, e de ter cuidado com o pequeno nas coisas grandes. Foi um período de crescimento em muitos sentidos, como o brotar novamente após uma poda minuciosa.

Mas devo estar atento, porque quando cais em certas falhas, certos pecados, e tu mesmo corriges, o diabo, como diz Jesus, volta, vê a casa "varrida e adornada" (Lucas 11, 25) e vai chamar sete outros espíritos piores do que ele. O fim daquele homem, disse Jesus, torna-se muito pior do que antes. É com isto que devo-me preocupar agora na minha tarefa de governar a Igreja: não cair nos mesmos defeitos de quando era superior religioso.

[…] Estes foram os meus principais “Covid” pessoais. Aprendi que sofri muito, mas se tu te deixares mudar, sairás melhor. Ao contrário, se levantares barreiras, sairás pior.

VN

Francisco: o cristianismo transforma o mundo se for Evangelho

 A capa do livro 
 
Texto inédito do Papa no livro "Céu na Terra. Amar e servir para transformar o mundo". Prefácio de Martin Junge, Secretário Geral da Federação Luterana Mundial: "Juntos damos testemunho da misericórdia de Deus tanto através da confissão da fé como através do comum serviço ao mundo".

VATICAN NEWS

“Quando o cristianismo se enraíza no Evangelho dá o melhor de si à civilização", enquanto "perde o melhor de si quando se corrompe e se identifica com a lógica e as estruturas mundanas". Assim escreveu o Papa num texto inédito do livro intitulado "Céu na Terra. Amar e servir para transformar o mundo”. O livro será publicado pela Livraria Editora Vaticana na próxima terça-feira, 24 de novembro e faz parte da série ecuménica "Troca de dons" que reúne vários textos já pronunciados por Francisco sobre o tema da fé que se transforma em caridade para com o próximo. O prefácio é de Martin Junge, Secretário Geral da Federação Luterana Mundial.

Força transformadora do cristianismo

No texto inédito, o Papa destaca a "força transformadora do cristianismo" ao longo dos séculos, a partir da consideração do valor de cada pessoa individualmente. Um mundo novo, mais justo e fraterno nasceu como "consequência gratuita de uma fé vivida com simplicidade". O cristianismo - observa - não transformou o mundo antigo com táticas mundanas ou voluntarismos éticos, mas apenas com o poder do Espírito de Jesus Ressuscitado.  Todas as inúmeras obras de caridade, pequenas ou grandes, a corrente de solidariedade que atravessou a história por dois mil anos, tem esta única fonte. A caridade nasce de uma emoção, de uma maravilha, de uma Graça. Desde o início, historicamente, a caridade dos cristãos tornou-se atenção às necessidades das pessoas mais frágeis, as viúvas, os pobres, os escravos, os doentes, os marginalizados... Compaixão, sofrer com os que sofrem, compartilhar. Também se torna uma denúncia de injustiças e um compromisso de combatê-las na medida do possível. Porque cuidar de uma pessoa significa abraçar toda a sua condição e ajudá-la a libertar-se do que a oprime e nega os seus direitos. O primado da Graça - conclui o Papa - não conduz à passividade, pelo contrário, aumenta cem vezes a energia e a sensibilidade às injustiças".

Profunda gratidão

No seu prefácio, Martin Junge, Secretário Geral da Federação Luterana Mundial, recorda com "profunda gratidão" as palavras do Papa Francisco durante a Comemoração Comum Luterano-Católica da Reforma em Lund na Suécia, em 2016:  “Jesus recorda-nos: ‘Sem Mim, nada podeis fazer’ (15, 5). É Ele que nos sustenta e encoraja a procurar os modos para tornar a unidade uma realidade cada vez mais evidente”. "Naquela liturgia e homilia memorável - escreve Junge - nós católicos e luteranos juntos reafirmamos o nosso compromisso por um caminho que leve do conflito à comunhão. Este caminho só é possível por causa de Cristo, que cura todas as nossas feridas e memórias, libertando-nos da dor de experiências passadas, para abraçar o dom da reconciliação que Cristo colocou entre nós". Trata-se de um compromisso - explica o Secretário Geral da Federação Luterana Mundial - que parte "da perspetiva da unidade e não do ponto de vista da divisão" porque "o que nos une é muito mais do que o que nos divide".  E é um compromisso que se torna um serviço comum aos últimos e aos que sofrem: "Juntos damos testemunho da misericórdia de Deus tanto através da confissão da fé como através do serviço comum ao mundo".

VN

22 novembro 2020

JMJ Lisboa 2023: Papa desafia jovens a servir quem sofre, rejeitando «febre» consumista

 


 

A celebração contou com a presença de uma delegação portuguesa que recebeu os símbolos da Jornada Mundial da Juventude – a Cruz peregrina e o Ícone de Nossa Senhora – no final da Eucaristia.

O Papa desafiou hoje os jovens católicos de todo o mundo a viver com dedicação a quem sofre, rejeitando uma mentalidade consumista e o “pensamento dominante”, que descarta os mais necessitados. “Faço alguma coisa por quem tem necessidade, ou pratico o bem somente para as pessoas queridas e os amigos? Ajudo alguém que não me pode restituir? Sou amigo duma pessoa pobre? E muito mais, tantas perguntas que podemos fazer”, referiu Francisco, na homilia da Missa da solenidade de Cristo Rei, a que preside na Basílica de São Pedro.
O Papa alertou para a “febre de consumir” e a “obsessão pelo divertimento” que afetam as novas gerações, observando que “amar é principalmente dom, escolha e sacrifício”. A intervenção convidou os jovens a assumir “escolhas vigorosas, decisivas e eternas”.

“Hoje, escolher é não se deixar domesticar pela homogeneização nem anestesiar pelos mecanismos do consumo, que desativam a originalidade, é saber renunciar às aparências e à exibição. Escolher a vida é lutar contra a mentalidade do usa e deita fora, do tudo e imediatamente, para orientar a existência rumo à meta do Céu, rumo aos sonhos de Deus”.


Francisco destacou a importância dos “grandes sonhos” na vida dos jovens, para que estes alarguem os seus “horizontes” e não fiquem “estacionados nas margens da vida”. “Não fomos feitos para sonhar aos feriados ou ao fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida”, indicou.
O Papa comentou uma das passagens que tem como referência do seu pontificado, do Evangelho segundo São Mateus (Mt 25, 37-40), sobre a necessidade de identificar Jesus Cristo nos necessitados e em quem sofre. “O bem que fizermos a um dos seus irmãos mais pequeninos – esfomeados, sedentos, forasteiros, necessitados, doentes, reclusos – será feito a Ele”, observou.
Francisco sublinhou que são estas obras que “tornam eterna” a vida. “As obras de misericórdia são as obras mais belas da vida. Se tens sonhos de verdadeira glória – não da glória passageira do mundo, mas da glória de Deus –, esta é a estrada; pois as obras de misericórdia dão mais glória a Deus do que qualquer outra coisa”, referiu.
O Papa alertou ainda que “escolhas banais levam a uma vida banal”, realçando que “a beleza das opções depende do amor”.

“Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos furiosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis; e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes”.

A homilia recordou o exemplo de São Martinho, cuja festa litúrgica se celebra a 11 de novembro, um jovem romano de 18 anos, que, ainda não batizado, “cortou o seu manto e deu metade ao pobre, suportando o riso de escárnio de alguns à sua volta”. “São Martinho era um jovem que teve aquele sonho porque o vivera, embora sem o saber, como os justos do Evangelho de hoje”, acrescentou.

“Jesus sabe que, se vivermos fechados e na indiferença, ficamos paralisados, mas se nos gastarmos pelos outros, tornamo-nos livres. O Senhor da vida quer-nos cheios de vida e dá-nos o segredo da vida: só a possuímos, se a dermos”.

Francisco admitiu que, na vida dos mais novos, há “obstáculos” no momento de decidir, “o medo, a insegurança, os porquês sem resposta”. “A vida já está cheia de escolhas que fazemos para nós mesmos: ter um diploma, amigos, uma casa; satisfazer os próprios passatempos e interesses. De facto, corremos o risco de passar anos a pensar em nós mesmos, sem começar a amar”, advertiu.
No final da homilia, o Papa deixou um “conselho” para os jovens possam “escolher bem”. “A opção diária situa-se aqui: escolher entre o que me apetece fazer e o que me faz bem. Desta busca interior, podem nascer escolhas banais ou escolhas vitais. Olhemos para Jesus, peçamos-Lhe a coragem de escolher o que nos faz bem, de caminhar atrás d’Ele pela via do amor e encontrar a alegria”, precisou.

Concelebraram com o Papa o Cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, e os Cardeais portugueses D. José Tolentino Mendonça e D. Manuel Clemente; os Bispos Auxiliares de Lisboa D. Américo Aguiar e D. Joaquim Mendes, coordenadores-gerais do Comité Organizador Local da JMJ 2023; e três sacerdotes: o padre Filipe Diniz, diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil; os padres José Alfredo Patrício e António Estêvão Fernandes, reitor e vice-reitor do Colégio Pontifício Português, que colaboram com as atividades da JMJ 2023, em Roma.

Ecclesia


JMJ Lisboa 2023: Entrega dos símbolos da JMJ é “momento marcante” para Lisboa - Cardeal-Patriarca

  

Os símbolos da JMJ foram entregues esta manhã, no Vaticano, à delegação portuguesa

O Cardeal-Patriarca de Lisboa disse hoje no Vaticano que os jovens católicos são desafiados a ir “ao encontro dos outros, das necessidades dos outros”, em resposta aos apelos do Papa, na passagem dos símbolos das Jornadas Mundiais. “Foi muito bonito que o Papa, na homilia, tenha pegado nas obras de misericórdia para dizer aos jovens – aos que cá estavam e aos de todo o mundo, que também seguiram – que são o melhor ideal possível, as obras de misericórdia concretizadas na vida”, referiu D. Manuel Clemente, em declarações aos jornalistas, após a Missa que decorreu na Basílica de São Pedro.

Uma delegação portuguesa recebeu esta manhã a Cruz peregrina e o Ícone mariano que são os símbolos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), marcando assim a passagem de testemunho do Panamá, que recebeu a edição internacional de 2019, para Lisboa, que acolhe o evento no verão de 2023. “Foi um momento marcante, num caminho que já anda como sonho há muito tempo e agora começa a ser cada vez mais realidade”, referiu D. Manuel Clemente.

“Se esta Jornada se realiza em Lisboa, tem muito a ver com este caudal de juventude que se vem agigantando em Portugal, concretamente ligados a jovens católicos, mas que se alargam depois a muitos outros”.

O Cardeal-Patriarca de Lisboa elogiou o trabalho desenvolvido no mundo universitário, onde jovens católicos “têm feito muitas realizações a propósito da misericórdia, da caridade, aproximando-se das pessoas, de terras, vilas e aldeias, na Missão País e outras missões, campos de férias, que eles organizam”. D. Manuel Clemente aludiu, por exemplo, à colaboração nos lares onde há falta de pessoal, por causa da pandemia. “Tudo isto é um caudal de misericórdia que é a melhor garantia de futuro. As jornadas nasceram deste caudal e agora reforçam-se nestas iniciativas, que vão no mesmo sentido”, apontou.

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que tutela a área da juventude, participou nesta cerimónia, em representação do primeiro-ministro de Portugal. O responsável disse aos jornalistas que o Papa tem representado “uma mensagem de esperança para todo o mundo”, promovendo a paz e o diálogo, da educação, em particular das mulheres, e do “papel ativo” da juventude, para a “construção de sociedades mais maduras”. Tiago Brandão Rodrigues desejou que a JMJ 2023 sejam um “lugar de encontro”, um pouco por todo o país. “As Jornadas Mundiais da Juventude são sinais, jornadas de trabalho, de encontro”, realçou. Questionado sobre os desafios lançados aos jovens e educadores pelo Papa Francisco, o ministro declarou que “é importante pensar nas coisas a médio, longo prazo, ir acumulando blocos, na construção desta casa comum”.

"As jornadas estão já aí, à porta”
A Cruz Peregrina foi entregue a três jovens portugueses, entre eles Fernando Vieira (Diocese de Braga), para quem que foi “uma honra” participar neste momento, que considera “o arranque para uma grande Jornada”, em 2023, “com muito trabalho e muitos jovens envolvidos”.
Guilhermino Sarmento, (Diocese de Lisboa) destaca que a passagem simbólica ajuda a “ganhar a consciência de que as Jornadas estão já aí, à porta”. “Foi uma experiência incrível e que levo como memória muito agradecida para Portugal”, acrescentou.
João Amaral (Diocese das Forças Armadas e de Segurança) considerou “um grande privilégio” representar o país e a sua diocese, nesta entrega dos símbolos da JMJ. “Espero que possamos receber os jovens de todo o mundo como fomos recebidos aqui”, desejou.
As duas jovens que receberam o Ícone de Nossa Senhora, por sua vez, falam num gesto que tornou mais “real” a certeza de que a JMJ se vai realizar em Portugal.
Tatiana Severino (Diocese do Porto) sublinha que “vai começar agora a grande responsabilidade” na preparação do evento.
Daniela Calças (Diocese de Lisboa) fala numa experiência “inesquecível”, no dia do seu aniversário. “Hoje foi mais um passo desta grande caminhada que temos pela frente”, aponta.

Ecclesia

JMJ diocesana no Domingo de Cristo Rei: símbolos nas mãos dos jovens portugueses

 Entrega dos símbolos da JMJ dos jovens panamenses aos jovens portugueses 
 
Após a entrega dos símbolos da JMJ dos jovens panamenses aos jovens portugueses, o Papa anunciou que a partir do próximo ano, a celebração diocesana da JMJ no Domingo de Ramos passa a ser celebrada no Domingo de Cristo Rei. "No centro permanece o Mistério de Jesus Cristo Redentor do homem, como sempre destacou São João Paulo II, iniciador e patrono da JMJ", disse Francisco.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

No final da celebração eucarística na Basílica de São Pedro, presidida pelo Papa Francisco, na manhã deste domingo (22/11), Solenidade de Cristo Rei, houve a entrega dos símbolos da JMJ dos jovens panamenses, aos jovens portugueses.

O Pontífice saudou todos as pessoas ali presentes e as que acompanharam a missa através dos meios de comunicação social.

Dirijo uma saudação particular a vós jovens, panamenses e portugueses, aqui representados por duas delegações que, em breve, realizarão o gesto significativo da passagem da Cruz e do Ícone de Maria Salus Populi Romani, símbolos das Jornadas Mundiais da Juventude. É um passo importante na peregrinação que nos levará a Lisboa, em 2023.

A seguir, o Papa fez um anúncio importante relativo às Jornadas Mundiais da Juventude diocesanas:

Enquanto nos preparamos para a próxima edição intercontinental da JMJ, gostaria de relançar também a sua celebração nas Igrejas locais. Passados trinta e cinco anos da instituição da JMJ, depois de ter ouvido o parecer de várias pessoas e o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, que é competente no que se refere à pastoral juvenil, decidi transferir, a partir do próximo ano, a celebração diocesana da JMJ do Domingo de Ramos para o Domingo de Cristo Rei. No centro permanece o Mistério de Jesus Cristo Redentor do homem, como sempre destacou São João Paulo II, iniciador e patrono da JMJ.

Francisco convidou os jovens a gritarem com suas vidas que Cristo vive e que Cristo reina, que Cristo é o Senhor! “Se vocês se calarem, as pedras gritarão”, concluiu.

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O Papa aos jovens: tornamo-nos aquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal

 O Papa Francisco na missa de Cristo Rei e entrega dos símbolos da JMJ 
 
Na homilia da missa na Solenidade de Cristo Rei, celebrada na Basílica de São Pedro, na manhã deste domingo, Francisco disse não termos sido feitos para sonhar aos feriados ou o fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo, fazendo grandes escolhas. "A beleza das escolhas depende do amor", disse o Pontífice.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco celebrou a missa na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, na Basílica de São Pedro, na manhã deste domingo (22/11), ocasião em que os jovens do Panamá entregaram aos jovens de Portugal os símbolos da Jornada Mundial da Juventude.

“A página que acabamos de ouvir é a última do Evangelho de Mateus antes da Paixão: antes de nos doar o seu amor na cruz, Jesus transmite-nos as suas últimas vontades. Ele diz-nos que o bem que fizermos a um dos seus irmãos mais pequeninos, famintos, sedentos, estrangeiros, necessitados, doentes e encarcerados, será feito a Ele”, disse o Pontífice no início de sua homilia.

Segundo o Papa, “deste modo o Senhor nos entrega a lista dos dons que deseja para as núpcias eternas connosco no Céu. São as obras de misericórdia que tornam eterna a nossa vida. Cada um de nós pode interrogar-se: coloco-as em prática? Ajudo alguém que não me pode restituir? Sou amigo de uma pessoa pobre?”. “Eu estou ali”, diz Jesus, nos pobres. Eu estou ali, diz Jesus também aos jovens que “procuram realizar os sonhos da vida”.

Realizar os sonhos de Deus neste mundo

Eu estou ali: disse Jesus, séculos atrás, a um jovem soldado. Era um jovem de dezoito anos, ainda não batizado, que cortou o seu manto e deu metade ao pobre, suportando a zombaria de alguns ao redor. Esse jovem era São Martinho que teve um sonho e viu Jesus com a parte do manto que ele tinha coberto o pobre. “São Martinho era um jovem que teve aquele sonho porque o viveu, mesmo sem saber, como os justos do Evangelho de hoje”, sublinhou o Papa. A seguir, Francisco disse:

Queridos jovens, queridos irmãos e irmãs, não renunciemos aos grandes sonhos. Não nos contentemos com o que é devido. O Senhor não quer que restrinjamos os horizontes, não nos quer estacionados nas margens da vida, mas correndo para metas elevadas, com júbilo e ousadia. Não fomos feitos para sonhar aos feriados ou ao fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida. E as obras de misericórdia são as obras mais belas da vida. As obras de misericórdia vão ao centro dos nossos grandes sonhos. Se tens sonhos de verdadeira glória, não da glória passageira do mundo, mas da glória de Deus, esta é a estrada; pois as obras de misericórdia dão mais glória a Deus do que qualquer outra coisa. Ouçam bem isto: as obras de misericórdia dão glória a Deus mais do que qualquer outra coisa. Seremos julgados no final, sobre as obras de misericórdia.

Escolhas banais levam a uma vida banal

“Mas, de onde se começa para realizar grandes sonhos?”, perguntou o Papa. “Das grandes escolhas. Hoje, o Evangelho também nos fala disto. No momento do juízo final, o Senhor baseia-se nas nossas escolhas. Quase parece que não julga: separa as ovelhas dos cabritos, mas ser bom ou mau depende de nós. Ele apenas tira as consequências de nossas escolhas, trá-las à luz e respeita-as. Assim a vida é o tempo das escolhas vigorosas, decisivas e eternas.”

Escolhas banais levam a uma vida banal; escolhas grandes tornam a vida grande. De facto, tornamo-nos aquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal. Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos furiosos; se escolhemos passar horas no telenóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, tornamo-nos mais amados em cada dia e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes. É assim, porque a beleza das escolhas depende do amor. Não se esqueçam disto! Jesus sabe que, se vivermos fechados e na indiferença, ficamos paralisados; mas, se nos dedicarmos aos outros, tornamo-nos livres. O Senhor da vida nos quer cheios de vida e nos dá o segredo da vida: só a possuímos doando-a.

“Mas existem obstáculos que tornam as escolhas difíceis: com frequência, são o medo, a insegurança, os porquês sem resposta”, disse ainda o Pontífice, ressaltando que “o amor pede para ir além, não ficarmos agarrados aos porquês da vida, esperando que chegue do Céu uma resposta. Isto não. O amor impele a passar dos porquês ao para quem: do porque vivo, ao para quem vivo; do porquê de me acontecer isto, ao para quem posso fazer o bem. Para quem? Não só para mim; a vida já está cheia de escolhas que fazemos para nós mesmos: ter um diploma, amigos, uma casa; satisfazer os próprios interesses e passatempos. De facto, corremos o risco de passar anos a pensar em nós mesmos, sem começar a amar”.

Escolher o que lhe faz bem

Segundo Francisco, “não existem apenas as dúvidas e os porquês a insidiar as grandes escolhas generosas; existem muitos outros obstáculos”.

Existe a febre do consumo, que narcotiza o coração com coisas supérfluas. Existe a obsessão pela diversão, que parece o único caminho para fugir dos problemas, quando, ao contrário, é apenas um adiamento do problema. Existe a fixação nos próprios direitos de reivindicar, esquecendo o dever de ajudar. E, depois, há a grande ilusão do amor, que parece algo a ser vivido ao som de emoções, quando amar é principalmente dom, escolha e sacrifício. Sobretudo hoje, escolher é não fazer-me domesticar pela homogeneização, é não deixar-me anestesiar pelos mecanismos de consumo, que desativam a originalidade, é saber renunciar às aparências e à exibição. Escolher a vida é lutar contra a mentalidade do usa-e-joga-fora e do tudo-e-imediatamente, para orientar a existência rumo à meta do Céu, rumo aos sonhos de Deus. Escolher a vida é viver, e nós nascemos para viver, não para sobreviver. Isto foi dito por um jovem como vós [o Beato Pier Giorgio Frassati]: “Eu quero viver, não sobreviver”.

“Todos os dias apresentam-se muitas opções no coração”, disse ainda o Papa, dando um último conselho para se treinar a escolher bem.

Se olharmos dentro de nós, veremos que muitas vezes surgem duas perguntas diferentes. A primeira: o que me apetece fazer? É uma pergunta que engana frequentemente, porque insinua que o importante é pensar em mim mesmo e satisfazer todos os desejos e impulsos que me vêm. Mas a pergunta que o Espírito Santo sugere ao coração é outra: não aquilo que me apetece, mas aquilo que me faz bem. A escolha diária situa-se aqui: escolher entre o que me apetece fazer e o que me faz bem. Desta procuraa interior, podem nascer escolhas banais ou escolhas vitais, depende de nós.

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Francisco no Angelus: seremos julgados com base no amor

 

 Papa Francisco no Angelus deste domingo 

"No Evangelho de hoje, Jesus identifica-se não só com o rei-pastor, mas também com as ovelhas perdidas, ou seja, com os irmãos pequeninos e necessitados. E assim ele indica o critério do julgamento: será com base no amor concreto dado ou negado a estas pessoas, porque Ele mesmo, o juiz, está presente em cada uma delas", disse o Papa na sua alocução dominical.

Mariangela Jaguraba/Silvonei José - Vatican News

Hoje, celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, com a qual se encerra o ano litúrgico, a grande parábola em que se desdobra o mistério de Cristo. Ele é o Alfa e o Ômega, o início e a realização da história; e a liturgia de hoje concentra-se sobre o "ômega", ou seja, na meta final.

Estas são as palavras iniciais do Papa Francisco no Angelus deste domingo (22/11), Solenidade de Cristo Rei.

Segundo o Papa, “o significado da história pode ser compreendido mantendo diante dos nossos olhos o seu ponto culminante: o fim é também a meta. E é isto que Mateus faz, no Evangelho deste domingo, colocando o discurso de Jesus sobre o juízo universal no epílogo da sua vida terrena: Ele, que os homens estão prestes a condenar, é de facto o juiz supremo. Na sua morte e ressurreição, Jesus se mostrará o Senhor da história, o Rei do universo, o Juiz de todos. Mas o paradoxo cristão é que o Juiz não é um temível rei, mas um pastor cheio de mansidão e misericórdia”.

Nesta parábola do juízo final, Jesus usa a imagem do pastor, recordando as profecias de Ezequiel, que falou da intervenção de Deus a favor do povo, contra os pastores maus de Israel. Estes tinham sido cruéis e exploradores, preferindo pastorear a si próprios em vez de pastorear o rebanho. Por isso, o próprio Deus promete cuidar pessoalmente do seu rebanho, defendendo-o das injustiças e dos abusos. Esta promessa de Deus ao seu povo foi plenamente cumprida em Jesus Cristo, que diz de si mesmo: "Eu sou o bom pastor".

No Evangelho de hoje, Jesus identifica-se não só com o rei-pastor, mas também com as ovelhas perdidas. Poderíamos falar de uma "dupla identidade": o rei-pastor, Jesus, também se identifica com as ovelhas, ou seja, com os irmãos pequeninos e necessitados. E assim ele indica o critério do julgamento: será com base no amor concreto dado ou negado a estas pessoas, porque Ele mesmo, o juiz, está presente em cada uma delas. Ele é juiz, Ele é Deus-homem, mas Ele também é o pobre, Ele está escondido, Ele está presente na pessoa dos pobres que Ele menciona. Jesus diz: “Em verdade eu lhes digo: tudo o que fizeram ou não fizeram a um desses meus irmãos pequeninos, foi a mim que fizeram ou não fizeram.” Seremos julgados com base no amor. O julgamento será sobre o amor. Não sobre os sentimentos, não: seremos julgados sobre as obras, sobre a compaixão que se torna proximidade e ajuda atenciosa.

“Aproximo-me de Jesus presente na pessoa dos doentes, dos pobres, dos que sofrem, dos encarcerados, dos que têm fome e sede de justiça? Eu me aproximo de Jesus ali presente? Esta é a pergunta de hoje”, disse o Papa.

“O Senhor, no final do mundo, irá avaliar o seu rebanho, e o fará não só do lado do pastor, mas também do lado das ovelhas, com as quais Ele se identificou. Ele perguntar-nos-á:

Foste um pouco pastor como eu? Foste meu pastor quando eu estava presente nessas pessoas necessitadas, ou foste indiferente?" Irmãos e irmãs, tenhamos cuidado com a lógica da indiferença, com o que nos vem logo à mente: olhar para outro lado quando vemos um problema. Recordemos a parábola do Bom Samaritano. Aquele pobre homem, ferido por bandidos, atirado ao chão, entre a vida e a morte, estava ali sozinho. Um sacerdote passou, viu, e foi.se embora, olhou para o outro lado. Um levita passou, viu e olhou para o lado. Eu, diante dos meus irmãos e irmãs necessitados, sou indiferente como este sacerdote, como este levita, e olho para o outro lado? Serei julgado sobre isto: sobre como me aproximei, como olhei para Jesus presente nos necessitados. Esta é a lógica, e não sou eu quem digo, Jesus o diz: “O que fizerem a este ou aquele, fizeram a mim”. E o que não fizeram a este ou aquele, não fizeram a mim, porque eu estava ali”. Que Jesus nos ensine esta lógica, esta lógica da proximidade, de nos aproximarmos dele, com amor, na pessoa dos que sofrem.

Francisco concluiu, pedindo “à Virgem Maria que nos ensine a reinar no servir. Nossa Senhora, elevada ao Céu, recebeu do seu Filho a coroa da realeza, porque o seguiu fielmente no caminho do Amor. Aprendamos com ela a entrar desde agora no Reino de Deus, através da porta do serviço humilde e generoso”.

Após a oração mariana do Angelus, o Papa Francisco recordou as populações da Campania e Basilicata, “quarenta anos após o desastroso terremoto, que teve o seu epicentro em Irpinia e semeou morte e destruição. Já se passaram quarenta anos! Este acontecimento dramático, cujas feridas também materiais, ainda não foram curadas completamente, evidenciou a generosidade e a solidariedade dos italianos”.

Francisco concluiu, saudando de modo especial as famílias que estão em dificuldade neste momento, “porque não têm trabalho, perderam os seus empregos” e às vezes, por causa da vergonha, “não dizem nada a ninguém”.

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