15 agosto 2021

Papa no Angelus: a humildade é o segredo para alcançar o Céu

 
 Papa Francisco no Angelus  (Vatican Media) 
 
 
Francisco disse na sua alocução no dia da Solenidade da Assunção que "Maria, na sua pequenez, conquista os céus primeiro. O segredo do seu sucesso está precisamente em se reconhecer pequena e necessitada". Com Deus, somente aqueles que se reconhecem como nada são capazes de receber tudo. 
 

Silvonei José - Vatican News

"No Evangelho deste domingo, Solenidade da Assunção da Santíssima Virgem Maria ao Céu, destaca-se o Magnificat. Este cântico de louvor é como uma fotografia" da Mãe de Deus. Maria 'alegra-se em Deus, porque olhou para a humildade da sua serva'. A humildade é o segredo de Maria. É a humildade que atraiu o olhar de Deus para ela." Estas são palavras do Papa Francisco antes do Angelus na solenidade da Assunção da Santíssima Virgem Maria, pronunciadas da janela do seu escritório no Palácio Apostólico do Vaticano diante dos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de S. Pedro. "O olho humano - continuou o Papa - procura a grandeza e fica deslumbrado com o que é vistoso. Deus, por outro lado, não olha para as aparências, mas para o coração e encanta-se com a humildade. Hoje, olhando para Maria assunta, podemos dizer que a humildade é o caminho que leva ao céu":

A palavra 'humildade' vem do latim humus, que significa 'terra'", disse o Papa. É paradoxal: para chegar ao topo, ao céu, tens que permanecer baixo, como a terra! Jesus ensina: "Aquele que se humilha será exaltado. Deus não nos exalta pelos nossos dons, pelas nossas riquezas e habilidades, mas pela nossa humildade. Deus exalta quem se abaixa, quem serve. Maria, de facto, a si mesma não atribui outro 'título' a não ser de serva: ela é "a serva do Senhor". Ela não diz mais nada sobre si mesma, ela não procura mais nada para si mesma.

Hoje, então, - enfatizou Francisco - podemo-nos perguntar: como vivo a humildade? Procuro ser reconhecido por outros, afirmar-me e ser elogiado, ou penso em servir? Eu sei escutar, como Maria, ou será que eu só quero falar, receber atenção? Eu sei ficar em silêncio, como Maria, ou estou sempre a falar? Será que sei dar um passo  atrás, evitar brigas e discussões ou apenas tento sobressair?

"Conquista primeiro os céus"

Maria, na sua pequenez, conquista primeiro os céus". O segredo do seu sucesso está precisamente em reconhecer-se pequena e necessitada", sublinhou o Papa Francisco. Com Deus, somente aqueles que se reconhecem como nada são capazes de receber tudo. Somente aqueles que se esvaziam são preenchidos por Ele. E Maria é a "cheia de graça" precisamente pela sua humildade. Para nós também, a humildade é o ponto de partida, o início de nossa fé. É fundamental ser pobre em espírito, ou seja, necessitados de Deus. Aquele que está cheio de si mesmo não dá espaço a Deus, mas aquele que permanece humilde permite que o Senhor realize grandes coisas. O poeta Dante chama a Virgem Maria de "humilde e elevada mais do que criatura''.

O Papa Francisco disse seqguidamrnte que é bom pensar que a criatura mais humilde e alta da história, a primeira a conquistar os céus com todo o seu ser, de corpo e alma, passou a maior parte da sua vida entre as paredes da sua casa, no quotidiano. Os dias da cheia de graça não foram muito impressionantes. Eram muitas vezes iguais, no silêncio: no exterior, nada de extraordinário. Mas o olhar de Deus permaneceu sempre sobre ela, admirado pela sua humildade, a sua disponibilidade, pela beleza do seu coração, nunca tocada pelo pecado.  Esta é uma grande mensagem de esperança para nós; para ti, que vives  dias iguais, cansativos e muitas vezes difíceis.

 

 Fiéis na Praça São Pedro - Angelus  

 

Vamos celebrá-la hoje com o amor de filhos

Maria recorda-nos hoje que Deus também te chama  para este destino de glória - continuou o Papa . "Estas não são palavras bonitas, é a verdade. Não é um final feliz engenhosamente criado, uma ilusão piedosa ou uma falsa consolação. Não, é a pura realidade, viva e verdadeira como Nossa Senhora  assunta ao Céu".

O Papa então convidou os fiéis presentes na Praça de S. Pedro: Vamos celebrá-la hoje com o amor de filhos, animados pela esperança de um dia estar com ela no Céu!

Francisco pediu então que todos rezassem a Nossa Senhora para que ela nos possa acompanhar no caminho da Terra para o céu. Pediu ainda a Nossa Senhora que nos recorde que o segredo do caminho está contido na palavra humildade. E que a pequenez e o serviço são os segredos para alcançar a meta''.

 

VN

12 agosto 2021

Francisco: não é cultura nem beleza se explora o trabalho escravo

 
 Ver os invisíveis 
 
O Papa responde ao romancista italiano Maurizio Maggiani, que há poucos dias escreveu-lhe uma carta aberta no jornal italiano "Secolo XIX", relatando com "vergonha" a descoberta do método criminoso utilizado para imprimir os seus livros e de outros autores em detrimento dos imigrantes. Hoje, no diário de Gênova, as palavras de Francisco: é preciso a coragem de "renunciar" às vantagens produzidas pelos "mecanismos de morte"
 

Alessandro De Carolis – Vatican News

A coragem do pintarroxo, o título de um dos seus livros mais conhecidos, foi desta vez dele. O romancista-Davide, que questiona a ética da indústria-Golias, da qual ele próprio é um membro de renome, neste caso a indústria editorial, porque se incomodado com o certo descuido com que às vezes evita investigar se alguns dos seus lucros ocultam situações desumanas, se por trás da delicadeza dos seus produtos há uma cadeia de violência contra aqueles que os produzem, se por trás do brilho da fachada espreitam histórias invisíveis de presas indefesas e predadores cruéis. O do outro lado, como num espelho, as conhecidas convicções do Papa, num certo sentido um "colega" de escrita e sobretudo uma "voz alta" a quem dirigir a pergunta que trai o dilema subjacente: "Vale a pena produzir obras belas e sábias se precisamos do trabalho dos escravos para fazê-lo?

Em diálogo com Francisco

É um diálogo original e intenso a longa distância que se desenvolveu nos últimos dias entre Maurizio Maggiani, escritor e jornalista ligurino, e Francisco, que quis responder ao romancista com uma carta - datada de 9 de agosto, dia em que a Igreja celebra Edith Stein, Santa Teresa Benedita da Cruz, co-padroeira da Europa - a uma questão levantada publicamente pelo autor em carta aberta, publicada em 1º de agosto nas colunas do "Secolo XIX", que publica esta sexta-feira (12/08) a resposta do Papa. Maggiani quis partilhar diretamente com Francisco a "vergonha" que sentiu ao aprender de uma história de crime que a produção dos seus livros e de outros autores também passou por uma empresa no Vêneto, e pelo estabelecimento subcontratado no Trentino, ambos acusados pelo judiciário de terem explorado com métodos criminosos, "ao ponto do indizível" escreve Maggiani, o trabalho dos operários paquistaneses, literalmente brutalizados.

"Senti vergonha de mim mesmo"

Maggiani, que se define como um não crente (conheço, escreve, "a impetuosa força profética" de Cristo "mas eu nunca tive o dom, a graça, de aguardar por três dias diante do seu túmulo, esperar com Maria de Magdala e constatar a ressurreição do filho de Deus"), afirma ter-se dirigido a Francisco por uma série de razões, entre as quais a de uma sensibilidade partilhada. "As histórias que gosto de contar e sinto o dever de fazê-lo", diz o romancista, "são as histórias dos silenciosos, dos últimos e dos humildes", mas a indiferença com relação ao porquê encontrada nos colegas, "como se fosse uma pergunta ociosa", o levou a dirigi-la a "Sua Santidade, porque", confessa ele, "com toda a minha busca, não consigo ver nenhuma outra autoridade moral que além de ter uma voz alta esteja disposta a ouvir, a perguntar antes de julgar". Perguntar a si mesmo sobre as implicações do horror que ocorreu naquele campo de concentração moderno, construído à custa de imigrantes pobres com salários de fome, sem horas de trabalho e sem direitos, levados a chutes e pontapés se ousassem pedir respeito: "Senti vergonha de mim mesmo, de ter tanto cuidado para manter as minhas mãos limpas e não usar produtos suspeitos de exploração de escravos, e ainda assim", admite o escritor, "nunca refleti sobre as evidências de que o meu trabalho como romancista, tão nobre", é "parte de uma cadeia do sistema de produção, aquela que modestamente chamamos de cadeia de fornecimento, não diferente de qualquer outra, e portanto passível das mesmas aberrações".

Ver os invisíveis

Francisco responde destilando um dos pensamentos-chave do seu magistério. "Não estás a fazer uma pergunta ociosa", reconhece o Papa a Maggiani, "porque o que está em jogo é a dignidade das pessoas, aquela dignidade que hoje é demasiadas vezes e facilmente espezinhada com o 'trabalho escravo', no silêncio cúmplice e ensurdecedor de muitos. Vimos isto durante o isolamento social, quando muitos de nós descobrimos que atrás dos alimentos que continuavam a chegar às nossas mesas havia centenas de milhares de trabalhadores braçais sem direitos: invisíveis e últimos - embora os primeiros! - etapas de uma cadeia que, a fim de fornecer alimentos, privou muitos do pão de um trabalho decente". Mas na verdade, continua Francisco, associar este tipo de infâmia à literatura "talvez seja ainda mais chocante" se o que o Papa chama de "pão das almas, expressão que eleva o espírito humano", é "ferido pela voracidade de uma exploração que age na sombra, apagando rostos e nomes". Portanto, se alguém publica algo que é baseado numa injustiça, é "em si mesmo injusto" e "para um cristão - lembra o Papa - toda a forma de exploração é um pecado".

As duas coisas a fazer

A solução, no entanto, não reside na rendição. "Renunciar à beleza seria uma retirada que, por sua vez, é injusta, uma omissão do bem", diz Francisco, que sugere uma reação baseada em dois verbos. A primeira é "denunciar" os "mecanismos de morte", as "estruturas de pecado", chegando ao ponto de escrever "até mesmo coisas desconfortáveis para nos sacudir da indiferença, para estimular as consciências, inquietando-as, para que não se deixem anestesiar pelo "não me interessa, não é da minha conta, o que posso fazer se o mundo está a seguir assim?" O segundo verbo é "renunciar". Ao agradecer a Maggiani por ter escrito o que escreveu sem calcular o "retorno da imagem", Francisco sustenta que, além da coragem de denunciar, é preciso ter coragem para renunciar. Renúncia "não à literatura e à cultura - afirma -, mas a hábitos e vantagens que, hoje onde tudo está conetado, descobrimos, devido aos mecanismos perversos de exploração, prejudicam a dignidade dos nossos irmãos e irmãs". É um sinal poderoso", insiste, "renunciar a posições e comodidades a fim de abrir espaço para aqueles que não têm espaço". Chegar a "dizer não por um sim maior", fazer "objeção de consciência para promover a dignidade humana".

A cultura, voz dos humilhados não do mercado

O Papa da Igreja pobre para os pobres reitera que ama Dostoievski "não só pela sua leitura profunda da alma humana e o seu sentido religioso, mas porque ele escolheu contar vidas pobres, 'humilhadas e ofendidas'". Esta é uma consideração que suscita um apelo: diante dos muitos humilhados e ofendidos de hoje, sem praticamente ninguém para fazê-los "protagonistas, enquanto o dinheiro e os interesses dominam", "a cultura não deve se deixe subjugar pelo mercado".

VN

11 agosto 2021

O Papa na audiência geral: crer em Jesus Cristo conduz-nos à verdadeira vida

 
 
“Aqueles que procuram a vida precisam de olhar para a promessa e para a sua realização em Cristo”. Palavras do Papa Francisco ao refletir sobre a “Lei” na Carta aos Gálatas do Apóstolo Paulo, na Audiência Geral desta quarta-feira, 11 de agosto, na Sala Paulo VI 
 

Jane Nogara - Vatican News

Na Audiência desta quarta-feira (11/08) o Papa Francisco continuou as suas catequeses sobre a Carta aos Gálatas com o tema de hoje “Porque, então, a Lei? Esta é a questão que, seguindo S. Paulo, queremos aprofundar hoje, para reconhecer a novidade da vida cristã animada pelo Espírito Santo”, explicou o Papa.

“Quando Paulo fala da Lei refere-se normalmente à Lei mosaica, à lei de Moisés, aos Dez Mandamentos. Estava relacionada com a Aliança que Deus tinha estabelecido com o seu povo”. “A Lei - segundo vários textos do Antigo testamento - é a coleção de todas as prescrições e regras que os israelitas devem observar, em virtude da Aliança com Deus”. “A observância da Lei garantiu ao povo os benefícios da Aliança e o vínculo especial com Deus”. “A ligação entre Aliança e Lei era tão estreita que as duas realidades eram inseparáveis. A lei é a expressão de que uma pessoa, um povo está em aliança com Deus”.

Intuições de Paulo sustentado pela graça

Por isso, observa Francisco, “é fácil compreender como os missionários que se tinham infiltrado entre os Gálatas tiveram uma boa oportunidade de reivindicar que a adesão à Aliança também implicava a observância da Lei de Moisés”. E o Papa explica que assim chegamos ao foco da questão: “É precisamente sobre este ponto que podemos descobrir a inteligência espiritual de S. Paulo e as grandes intuições que ele expressou, sustentado pela graça que recebeu para sua missão evangelizadora”.

“O Apóstolo explica aos Gálatas que, na realidade, a Aliança e a Lei não estão ligadas de modo indissolúvel. Pois a Aliança estabelecida por Deus com Abraão estava fundamentada sobre a fé no cumprimento da promessa e não sobre a observância da Lei, que ainda não existia. Pois, se a herança se obtivesse pela Lei, já não proviria da promessa”

Desta forma Paulo alcançou um primeiro objetivo: “a Lei não é a base da Aliança porque veio mais tarde”.

Viver no Espírito Santo que liberta da Lei

“Dito isto, não se deve pensar que S. Paulo era contra a Lei mosaica. Várias vezes nas suas Cartas, defende a sua origem divina e afirma que desempenha um papel muito específico na história da salvação”, esclarece o Papa.

“No entanto, a Lei não dá vida, não oferece o cumprimento da promessa, pois não está em condições de a poder cumprir. Aqueles que procuram a vida precisam de olhar para a promessa e para a sua realização em Cristo”

Por fim Francisco conclui:

"Caríssimos, esta primeira exposição do Apóstolo aos Gálatas apresenta a novidade radical da vida cristã: todos aqueles que têm fé em Jesus Cristo são chamados a viver no Espírito Santo, que liberta da Lei e ao mesmo tempo a leva ao cumprimento segundo o mandamento do amor".

"Isto é muito importante, a lei leva-nos a Jesus. Mas alguns de vós podem dizer-me: Mas, Padre, uma coisa: isto significa que se eu rezar o Credo, não tenho que cumprir os mandamentos"? Não, os mandamentos são atuais no sentido de que são 'pedagogos' que te levam ao encontro com Jesus, mas se deixares de lado o encontro com Jesus e quiseres dar maior importância aos mandamentos, este foi o problema destes missionários fundamentalistas que se intrometiam entre os Gálatas para desorientá-los. Que o Senhor nos ajude a ir adiante no caminho dos mandamentos, mas olhando o amor de Cristo com o encontro com Cristo sabendo que o encontro com Jesus é mais importante do que todos os mandamentos".

VN

10 agosto 2021

SEMENTE E SEMEADOR


 

 

«Irmãos: lembrai-vos disto: quem semeia pouco também colherá pouco e quem semeia abundantemente também colherá abundantemente.» 2 Cor 9, 6

Somos tão parcos no dar!
Semeamos tão pouco da semente que Deus nos dá!

E, por vezes, só porque ajudamos um pouco em Igreja, já nos julgamos satisfeitos e credores de alguma coisa.
Damos a moeda e aliviamos a consciência como se tivéssemos cumprido um dever.
A moeda sem amor, não tem valor!

E o sorriso, os braços abertos para receber, as mãos estendidas para dar, onde estão nas nossas vidas?
E a paz, a alegria, a confiança, a esperança, quando é que verdadeiramente a transmitimos a quem por nós passa?

Rezamos muito?
Por quem?
Por nós próprios e pelos nossos, ou por aqueles que mais precisam, pelo “soldado desconhecido” da batalha da vida?

Tanta semente que Deus dá, e tão pouco semeador para a semear!

E como Ele é generoso!
É o Único que consegue transformar 5 sorrisos em paz serena para quem os recebe e depois os dá a outros, e 2 abraços em amor imenso aos abraçados e a quem eles abraçam também.
É o Único que consegue colocar em quem dá, a certeza perene de que já recebeu.

Somos tão parcos no dar!
Semeamos tão pouco da semente que Deus nos dá!

Envolve-nos, Senhor, no Teu amor e faz de cada um de nós um bom semeador!



Monte Real, 10 de Agosto de 2021
Joaquim Mexia Alves 

09 agosto 2021

Edith Stein, o dom da vida contra a intolerância

 

 
 Edith Stein, o dom da vida  

 
"Mártir, mulher de coerência, mulher que busca a Deus com honestidade, com amor e mulher mártir do seu povo judeu e cristão". Foi assim que o Papa Francisco definiu Santa Teresa Benedita da Cruz, que a Igreja celebra hoje. Uma figura que ainda hoje ilumina o caminho, especialmente para a Europa, da qual ela é co-padroeira. A filósofa Bello: "Uma mulher corajosa que pode dizer muito ao mundo de hoje".
 

Benedetta Capelli – Vatican News

Uma filha amada pela Igreja que reconheceu o seu testemunho de fé e amor, o seu ser 'luz na noite escura', como Bento XVI definiu Edith Stein. Nascida na Silésia alemã em 1881 duma família judaica, ela tornou-se filósofa e depois converteu-se ao catolicismo, pois foi fulgurada pela vida de Santa Teresa de Ávila, sem nunca negar as suas origens judaicas. 

Ela tornou-se religiosa carmelita com o nome de Teresa Benedita da Cruz e durante os anos da perseguição nazista foi transferida para a Holanda. Mas foi ali, no Carmelo de Echt, que ela escreveu o seu desejo de se oferecer "como sacrifício de expiação pela verdadeira paz e a derrota do reino do anticristo". Dois anos após a invasão nazista da Holanda em 1940, ela foi levada com outros 244 judeus católicos a Auschwitz, como ato de represália contra o episcopado holandês, que se opôs publicamente às perseguições. Ela morreu no campo de extermínio junto com a sua irmã Rosa, que também tinha-se convertido ao catolicismo.

O amor cura a dor

S.João Paulo II canonizou-a em 11 de outubro de 1998, destacando a sua "viagem na escola da Cruz" e mostrando como o amor faz frutificar até mesmo na dor. No ano seguinte ele elevou-a a co-padroeira da Europa junto com Santa Catarina de Siena e Santa Brígida da Suécia. A editora italiana Città Nuova apresentou recentemente a série 'Obras completas de Edith Stein'. A professora Angela Ales Bello, docente emérita de História da Filosofia Contemporânea na Pontifícia Universidade Lateranense em Roma e presidente da Associação Italiana Edith Stein, foi quem realizou a edição. Ela destaca as semelhanças entre o momento histórico atual, marcado pela pandemia, e o vivido por Santa Teresa Benedita da Cruz, que por sua vez foi condicionado pela febre espanhola.

O que a história e o pensamento de Edith Stein pode dizer hoje, np meio de uma emergência pandêmica? Qual é a sua mensagem?

Eu diria que a mensagem é de vários tipos. Em primeiro lugar, é uma questão de agir na história e, portanto, de sermos capazes de nos tornarmos, dentro da nossa própria esfera de ação, verdadeiros protagonistas de uma ação voltada para o bem, não apenas o nosso, é claro, mas para o bem dos outros. E aqui o conceito de "comunidade" que Stein propõe é extremamente importante, uma comunidade que significa solidariedade e assunção de responsabilidade mútua. É, portanto, uma mensagem de caráter moral baseada numa dimensão fundamentalmente religiosa, judaico-cristã. 

O Papa Francisco destacou as suas escolhas corajosas, tanto na sua conversão a Cristo, como no dom de sua vida contra todas as formas de intolerância e perversão ideológica. Há, segundo a senhora, aspetos desta figura que são menos conhecidos ainda hoje?

Certamente ela é uma figura completa e complexa. Complexa significa que é difícil captar todas as nuances da sua personalidade. O meu longo estudo dos escritos de Stein permitiu-me ficar um pouco em sintonia, pelo menos acho que sim, com uma pessoa que foi corajosa até o fundo, e isto também é demonstrado pela sua participação na Primeira Guerra Mundial como enfermeira da Cruz Vermelha na sua juventude, contra os conselhos da sua família, porque o trabalho era naturalmente muito arriscado. Ela viu-se num hospital onde também estavam pacientes com tifo e, portanto, numa situação muito difícil. Mas não apenas este elemento mostra a sua coragem, mas também a forma como ela enfrentou a sua conversão religiosa em relação à sua família que, naturalmente, não poderia aceitar esta mudança para uma visão diferente da do judaísmo. E novamente no momento da perseguição, ela é de facto um extraordinário exemplo de centralidade sobre si mesma, de serenidade interior que vem da consciência da fé para enfrentar qualquer situação negativa. De 5 a 9 de agosto ela foi transferida para Auschwitz junto com a sua irmã que a segui para o Carmelo de Echt, na Holanda. De acordo com o testemunho de alguns dos sobreviventes, ela estava especialmente empenhada em cuidar das crianças que muitas vezes tinham sido abandonadas pelas suas mães, que não as podiam cuidar mais devida à angústia e do drama da situação. Ela é, portanto, um exemplo verdadeiramente extraordinário de força moral para nós. Nos seus escritos, ela fala da força espiritual que pode contrastar todas as situações negativas da vida, mesmo quando falta o que ela chama de força vital. Jesus mostrou-nos a força moral na sua paixão e morte, então Stein realmente o imitou e acredito que este foi também um elemento importante na determinação de sua santidade.

Que imagem de Edith Stein fornece a série que a senhora está a realizar?

Antes de tudo, de uma pensadora, não devemos esquecer todas as suas pesquisas filosóficas. Ela tinha uma capacidade teórica e de intuir imediatamente os elementos fundamentais diante de uma situação problemática e extraordinária. A sua inteligência era grande no sentido de compreensão. A sua reflexão foi fundamentalmente centrada no ser humano, mas depois do ser humano na sua singularidade, ela passou a outros: daí o grande tema da intersubjetividade, da interpessoalidade. O ensino de Stein sobre o processo educacional é extremamente importante e é fundamental não apenas para os jovens, aos quais ela naturalmente presta grande atenção nas escolas e famílias, mas também para uma educação que poderíamos definir como permanente, recíproca e vitalícia. As suas obras são verdadeiramente um sinal extraordinário da sua excecional atividade intelectual; ela é uma das maiores filósofas de todos os tempos. Stein é, na minha opinião, um farol e é ladeada por outras pensadoras que mostram que as mulheres têm uma extraordinária capacidade teórica. Stein, lecionando na escola secundária por muitos anos, disse que os seus alunos tinham grandes capacidades metafísicas, para compreender precisamente a essência dos fenómenos fundamentais da relação entre o ser humano e Deus, o ser humano e o mundo.

VN

08 agosto 2021

Papa Francisco: "Só o pão da vida alimenta as nossas almas"

 
 
“O verdadeiro pão da vida é o que nos faz viver, ao contrário sobrevivemos, porque só Ele alimenta as nossas almas, dá-nos a força para amar e perdoar, dá ao coração a paz que procuramos, dá a vida para sempre quando a vida aqui termina”. Palavras do Papa Francisco no Angelus deste domingo, 8 de agosto 
 

Jane Nogara – Vatican News

“Eu sou o pão da vida”: este é o tema aprofundado pelo Papa Francisco no Angelus deste domingo, 8 de agosto na Praça de S. Pedro. Referindo-se ao Evangelho de hoje, o Papa convidou a refletir sobre o “que significa o pão da vida”, observando que “que têm fome não pedem comida refinada e cara, pedem pão. Os desempregados não pedem salários enormes, mas sim o ‘pão’ de um emprego. Jesus revela-se como o pão, ou seja, o essencial, o necessário para a vida de cada dia”

Só o pão da vida alimenta as nossas almas

O verdadeiro pão da vida, continua o Papa, é o que nos faz viver, ao contrário sobrevivemos porque:

“Só Ele alimenta as nossas almas, só Ele nos perdoa daquele mal que não podemos vencer por nós mesmos, só Ele nos faz sentir amados mesmo que todos nos decepcionem, só Ele nos dá a força para amar e perdoar nas dificuldades, só Ele dá ao coração a paz que procuramos, só Ele dá a vida para sempre quando a vida aqui termina”

Recordando que Jesus fala por parábolas, na expressão “Eu sou o pão da vida” ele resume todo o seu ser e toda a sua missão. Isto será visto plenamente no final, na Última Ceia. Ao dar a própria vida, a própria carne, o próprio coração, para que possamos ter a vida Jesus faz com que desperte em nós a maravilha diante do dom da Eucaristia.

A adoração enche a vida de maravilha

Francisco recorda-nos:

“Ninguém neste mundo, não importa o quanto ame outra pessoa, pode fazer-se alimento para ela. Deus o fez, e o faz, por nós. Renovemos esta maravilha. Façamo-lo adorando o Pão da Vida, porque a adoração enche a vida de maravilha”

Porém, as pessoas escandalizam-se com as suas palavras “Eu sou o pão que desceu do céu”, será que também nós estaríamos mais à vontade com um Deus que está no céu sem se intrometer? E o Pontífice afirma:

“Deus tornou-se homem para entrar na concretude do mundo. E a ele interessa tudo das nossas vidas. Jesus deseja esta intimidade connosco”

Ele que é o pão

Concluindo:

“O que ele não deseja? Ser relegado para segundo plano – Ele que é o pão -, ser negligenciado e posto de lado, ou colocado em questão apenas quando precisamos”.

Por fim Francisco convidou para que pelo menos uma vez por dia “antes de partir o pão, convidar Jesus, o pão da vida, pedir-lhe simplesmente que abençoe o que fizemos e o que não conseguimos fazer”.

“Que a Virgem Maria, na qual o Verbo se fez carne, nos ajude a crescer dia após dia na amizade com Jesus, o pão da vida”.

VN

06 agosto 2021

Francisco: a Transfiguração, sinal concreto do amor de Deus


Transfiguração de Jesus
 
 
A Igreja recorda nesta sexta-feira os acontecimentos "no alto monte" com Jesus revestido de luz e glória. Recapitulemos algumas reflexões do Papa sobre a Transfiguração e o seu convite a tornarmo-nos lâmpadas para levar paz e serenidade à vida dos homens.
 

Benedetta Capelli - Cidade do Vaticano

“Uma aparição pascal antecipada”, mas também “dom de amor infinito de Jesus” que mostra a glória da Ressurreição, “um vislumbre do céu na terra”. No seu magistério, o Papa Francisco deteve-se muitas vezes sobre o significado da Transfiguração, festa celebrada no dia 6 de agosto porque, segundo a tradição, teria acontecido 40 dias antes da crucificação, 40 dias antes da festa da Exaltação da Cruz, em 14 de setembro.

Vislumbres de luz

Subindo a montanha junto com Pedro, Tiago e João, Jesus mostrou a sua glória, transfigurando-se e resplandecendo de luz, colocando-se depois em diálogo com Moisés e Elias. Uma luz que é “a luz da esperança, a luz para atravessar as trevas”.

Francisco, no Angelus de 28 de fevereiro de 2021, explica que as trevas não têm a última palavra, que diante dos "grandes enigmas" da vida, somos chamados a parar e voltar o olhar para Cristo:

Então, precisamos de outro olhar, de uma luz que ilumine profundamente o mistério da vida e nos ajude a superar os nossos esquemas e os critérios deste mundo. Também nós somos chamados a subir ao monte, a contemplar a beleza do Ressuscitado que acende centelhas de luz em cada fragmento da nossa vida, ajudando-nos a interpretar a história a partir da vitória pascal.

A oração para procucar Deus

“O Senhor - afirma por sua vez no Angelus de 17 de março de 2019 - mostra-nos o fim deste percurso, que é a Ressurreição, a beleza, carregando a própria cruz. Portanto, a Transfiguração de Cristo indica-nos a perspetiva cristã do sofrimento. O sofrimento não é um sadomasoquismo, é uma passagem necessária, mas transitória (...) para um ponto luminoso como o rosto de Cristo transfigurado."

Subamos ao monte com a oração: a prece silenciosa, a oração do coração, a oração, sempre à procura do Senhor. Permaneçamos alguns momentos em recolhimento, um pouquinho todos os dias, fixemos o olhar interior na sua face e deixemos que a sua luz nos invada e se irradie na nossa vida.

A missão do cristão

E é no descer do monte, repletos da luz recebida, que se cumpre a missão de quem crê. Com efeito, é no rosto luminoso de quem reza, na chama que se acendeu no coração que se pode iluminar a vida dos outros, testemunhando a verdade e a fé.

Acender pequenas luzes no coração das pessoas; ser pequenas lâmpadas do Evangelho que levam um pouco de amor e de esperança: esta é a missão do cristão.

“Transformados pela presença de Cristo e pelo fervor da sua palavra -  sublinha o Papa no Angelus de 6 de agosto de 2017 - seremos sinal concreto do amor vivificador de Deus por todos os nossos irmãos, sobretudo por quem sofre, por quantos se encontram na solidão e no abandono, pelos doentes e pela multidão de homens e mulheres que, em diversas partes do mundo, são humilhados pela injustiça, pela prepotência e pela violência.

VN

05 agosto 2021

Papa: "A verdade suprema é a revelação do amor do Pai"

 
 
“Neste labirinto de boas intenções é necessário desenvencilharmo-nos para compreender a verdade suprema na pregação de Jesus e a sua revelação do amor do Pai”. Na primeira audiência depois da pausa de verão, o Papa continuou as suas catequeses sobre a Carta aos Gálatas com o tema “O Evangelho é um só”
 

Jane Nogara – Vatican News

“O Evangelho é um só” foi o tema da terceira catequese do Papa dedicada à Carta aos Gálatas. Nas duas catequeses anteriores, o Papa inaugurou o novo ciclo comentando as dificuldades enfrentadas pelo discípulo na obra de evangelização na Galácia.

Paulo apresenta-se simplesmente como servo de Jesus Cristo, escolhido para ser apóstolo, reservado para anunciar o Evangelho de Deus e não pode fazer outra coisa senão dedicar-se com todas as suas forças a esta missão.

Jovem comunidade deixava-se enganar

“Portanto – comenta Francisco - compreende-se a tristeza, a desilusão e até a amarga ironia do Apóstolo em relação aos Gálatas, que aos seus olhos tomam um caminho errado, que os levará a um ponto de não retorno”. “O eixo em torno do qual tudo gira é o Evangelho”. Para Paulo, o Evangelho é o que ele prega, o querigma, o anúncio da morte e ressurreição de Jesus como fonte de salvação. Um Evangelho que se exprime com quatro verbos: ‘Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado, e ressurgiu no terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas’.

Assim, diante de um dom tão grande que foi dado aos Gálatas, o Apóstolo não consegue explicar porque eles pensam em aceitar outro “evangelho”. “Contudo - continua Francisco - devemos notar que estes cristãos ainda não abandonaram o Evangelho anunciado por Paulo. O Apóstolo sabe que eles ainda estão a tempo de não dar um passo falso, mas admoesta-os com vigor”.

“O Apóstolo não pode arriscar que se criem compromissos num terreno tão decisivo. O Evangelho é um só e é aquele que ele anunciou; não pode haver outro”

O Evangelho é o de Jesus Cristo

“Atenção! - esclarece o Pontífice - Paulo não diz que o verdadeiro Evangelho é o seu, porque foi ele que o anunciou, não! Isto seria presunçoso, seria vanglória. Aliás, afirma que o 'seu' Evangelho, o mesmo que os outros Apóstolos anunciavam noutros lugares, é o único autêntico, porque é o de Jesus Cristo". Assim escreve:

“Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo (Gl 1, 11)”

Paulo usa termos duros, usa duas vezes a expressão “anátema” que indica a exigência de manter afastado da comunidade aquilo que ameaça os seus fundamentos. E conclui: “quando se fala do Evangelho e da sua possível deturpação, não se transige: a fé em Jesus não é uma mercadoria a negociar”.

Fiéis movidos por bons sentimentos

Francisco explica que “esta situação descrita no início da Carta parece paradoxal, pois todos os sujeitos em questão parecem ser animados por bons sentimentos”. Os Gálatas que ouvem os novos missionários (...) pensam que assim serão ainda mais agradáveis a Paulo. Os inimigos de Paulo parecem ser animados pela fidelidade à tradição, (...) e justificam até as insinuações e suspeitas a respeito de Paulo, considerado pouco ortodoxo no que se refere à tradição. Porém:

“O próprio Apóstolo está bem consciente de que a sua missão é de natureza divina e, por isso, é movido por um entusiasmo total pela novidade do Evangelho. A sua ansiedade pastoral leva-o a ser severo, porque vê o grande risco que os jovens cristãos enfrentam”

Por fim Francisco recorda a todos a importância de saber discernir:

"Muitas vezes vimos na história, e também o vemos hoje, alguns movimentos que pregam o Evangelho à sua maneira, às vezes com os seus verdadeiros carismas; mas depois exageram e reduzem todo o Evangelho ao 'movimento'. E este não é o Evangelho de Cristo: este é o Evangelho do fundador, da fundadora, e isto, sim, pode ajudar no início, mas no final não dá frutos com raízes profundas", adverte o Papa, e conclui:

“Em síntese, neste labirinto de boas intenções é necessário desenvencilhar-mo-nos para compreender a verdade suprema que se apresenta como a mais coerente com a Pessoa e a pregação de Jesus e com a sua revelação do amor do Pai. Por isso, a palavra clara e decisiva de Paulo foi saudável para os Gálatas e é salutar também para nós”.

VN

03 agosto 2021

«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus»


 

 

Um dia, Senhor, quando ensaiava os primeiros passos à Tua procura, no regresso à casa do Pai, por palavras minhas, num desejo que me vinha do coração, também eu disse algo parecido com: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». 


Queria acreditar, queria conhecer-Te, queria viver-Te, queria depender do Teu amor, mas as “águas da vida” que eu levava, pareciam-me quase intransponíveis, pareciam irresistivelmente puxar-me para o fundo e eu tinha medo de sair da “barca da vida” em que navegava, embora ela não me levasse a nenhum porto seguro. 

Mas Tu chamaste-me, fizeste-me sentir a Tua presença, fizeste-me experimentar o Teu amor e eu saltei para fora daquela barca e caminhei para Ti, temeroso e pouco confiante. 

Por isso, tantas vezes tive e tenho de gritar - «Salva-me, Senhor!» - e Tu logo me estendeste e estendes a mão, me levantas para Ti e me fazes caminhar sobre as águas que me querem perder. 

Senhor, tenho pouca fé, reconheço humildemente, e por isso tantas vezes me “afundo”, mas no fundo de mim sei, tenho a certeza inabalável que Tu estás sempre ali, de mão estendida, e me dizes: «Vem!» 

E eu vou e logo se acalma o vento, e prostrado diante de Ti, apenas posso dizer: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus». 



Monte Real, 3 de Agosto de 2021 
Joaquim Mexia Alves
 

Papa: reformar a Igreja a partir de nós mesmos com oração, caridade e serviço

  
 
 
Francisco, no vídeo de intenção de oração para o mês de agosto, aprofunda o tema da própria vocação da Igreja, a de evangelizar, e da necessidade de uma reforma que deve começar por “nós mesmos”, através da oração, da caridade e do serviço. O Pontífice convida-nos a rezar pela Igreja, pela sua transformação à luz do Evangelho e com experiências práticas como a do próprio Pe. Renato Chiera, missionário italiano que salvou mais de 100 mil vidas no Rio de Janeiro.
 

Andressa Collet - Vatican News

“A vocação própria da Igreja é evangelizar, e isso não é fazer proselitismo. A vocação é evangelizar e, mais, a identidade da Igreja é evangelizar.”

Assim o Papa começa o vídeo de intenção de oração para o mês de agosto sobre a vocação da Igreja, que é a de evangelizar. Francisco convida-nos a ajudar neste processo de transformação, partindo de uma reforma de “nós mesmos” com experiências de oração, caridade e serviço. As próprias imagens do vídeo descrevem na prática esse caminho a ser percorrido ao mostrar, por exemplo, a figura do Padre Renato Chiera, missionário italiano que salvou mais de 100 mil vidas durante quase 35 anos junto à Casa do Menor em Rio de Janeiro que acolhe “as crianças não amadas do Brasil”.

Reformar a Igreja a partir de nós mesmos

“A nossa própria reforma como pessoas, esta é a transformação. Deixar que o Espírito Santo, que é o dom de Deus nos nossos corações, nos lembre do que Jesus ensinou e nos ajude a colocá-lo em prática. Vamos começar a reformar a Igreja com a reforma de nós mesmos. Sem ideias pré-fabricadas, sem preconceitos ideológicos, sem rigidez, mas avançando a partir de uma experiência espiritual, uma experiência de oração, uma experiência de caridade, uma experiência de serviço. Sonho com uma opção ainda mais missionária, que vá ao encontro do outro sem fazer proselitismo e que transforme todas as suas estruturas para a evangelização do mundo de hoje.”

Para realizar o sonho do Pontífice de uma experiência ainda mais missionária, como explicou na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, “cada cristão e cada comunidade deve discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar este chamamento: sair da nossa própria comodidade e ousar chegar a todas as periferias que precisam da luz do Evangelho”. O primeiro passo é avançar nesse sentido, como nos pede o Papa, deixando-nos guiar pelo Espírito Santo para que “nos lembre do que Jesus ensinou e nos ajude a colocá-lo em prática”.

O Vídeo do Papa, publicado nesta terça-feira (3) com a intenção de oração que Francisco confia à Igreja Católica por meio da Rede Mundial de Oração do Papa, acaba por fazer, então, uma profunda reflexão sobre a situação da Igreja, a sua vocação e identidade, chamando a renová-la “a partir do discernimento da vontade de Deus na nossa vida diária”. Para Francisco, em tempos de crise e dificuldades, a Igreja precisa de uma reforma que deve começar pela “reforma de nós mesmos” e “à luz do Evangelho”.

Há poucos meses, foi tornada pública a carta com a qual Francisco rejeitou a renúncia oferecida pelo cardeal Marx. Nela, ele não só concordou que "toda a Igreja está em crise devido ao problema dos abusos", mas também encorajou o cardeal a continuar o seu trabalho como pastor e enfatizou que "a reforma não consiste em palavras, mas em atitudes que tenham a coragem de se colocar em crise, de assumir a realidade seja qual for a consequência. E toda a reforma começa por nós mesmos. A reforma da Igreja foi feita por homens e mulheres que não temeram entrar em crise e deixarem-se reformar pelo Senhor”.

Rezar pela Igreja

O Pe. Frédéric Fornos, diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, comentou que, “já no final do ano passado, alguns dias antes do Natal, Francisco queria desenvolver o tema da diferença entre conflito e crise, para deixar claro que de uma crise pode sair algo positivo. É um momento propício para o Evangelho e a reforma da Igreja. Como diz o Santo Padre: ‘Devemos ter a coragem de estar prontos para tudo; devemos deixar de pensar na reforma da Igreja como um remendo em roupa velha.' Diante da crise, a primeira coisa que podemos fazer é aceitá-la, como um momento propício para procurar e reconhecer a vontade de Deus. Isto significa não nos cansarmos de rezar, como insiste o Papa; não nos cansarmos de seguir o exemplo de Jesus no serviço, na caridade, no encontro com o outro, com quem sofre, com os mais vulneráveis ​​e com quem mais precisa. 'O caminho tem sempre  a ver com verbos de movimento. A crise é movimento, é parte do caminho', disse também o Papa", finaliza, então, o diretor internacional. E Francisco encerra o vídeo assim:

“Recordemos que a Igreja tem sempre dificuldades, tem sempre crises, porque está viva. As coisas vivas entram em crise. Só os mortos não entram em crise. Rezemos pela Igreja, para que receba do Espírito Santo a graça e a força de se reformar à luz do Evangelho.”

VN

01 agosto 2021

Papa: aprender da amizade com Jesus o amor desinteressado e sem cálculo pelos outros

 
 
 
É justo apresentar ao coração de Deus as nossas necessidades, mas o Senhor, que age bem para além das nossas expetativas, deseja viver connosco sobretudo uma relação de amor. E o amor verdadeiro é desinteressado, é gratuito: não se ama para receber um favor em troca!" 
 

Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

No centro de uma fé imatura não existe Deus, mas as nossas necessidades. Assim, para viver uma relação de amor verdadeiro com o Senhor, devemos interrogar-nos sobre os motivos pelo qual O procuramos, fugindo assim da tentação idolátrica que leva a procurá-Lo apenas para o “próprio uso e consumo”, e depois de satisfeitos, “esquecermo-nos dele”.

Jesus o Pão da vida: a narrativa do Evangelho de João da liturgia deste XVIII Domingo do Tempo Comum, ofereceu ao Santo Padre a ocasião para exortar-nos a procurar uma relação com Deus que “vá além das lógicas do interesse e do cálculo”, ou seja, a ter com Ele uma relação de amor.

Dirigindo-se aos fiéis e turistas reunidos na Praça de S. Pedro a uma temperatura de 34ºC, Francisco comenta que as pessoas que testemunharam a multiplicação dos pães não compreenderam o significado do gesto, “restringiram-se ao milagre externo e ao pão material.”

 


 Fiéis e turistas na Praça de S. Pedro para o Angelus 

 

O risco da "tentação idolátrica"

Neste sentido, o Papa propõe, a primeira pergunta que poderíamos fazer a nós mesmos: “Porque procuramos o Senhor? Porque procuro o Senhor? Quais são as motivações da minha fé, da nossa fé?”:

“Temos necessidade de discernir isto, porque entre as tantas tentações que temos na vida, entre as tantas tentações há uma que poderíamos chamar de tentação idolátrica. É aquela que nos leva a procurar Deus para o nosso próprio uso e consumo, para resolver os problemas, para obter, graças a Ele, o que não conseguimos obter sozinhos, por interesse.”

Passar de uma fé mágica para uma fé que agrada a Deus

Vem então uma segunda questão: "Mas, como fazer para purificar a nossa procura de Deus? Como passar de uma fé mágica, que só pensa nas próprias necessidades, para uma fé que agrada a Deus?”. E é o próprio Jesus que responde, afirmando que “a obra de Deus é acolher Aquele que o Pai enviou, ou seja, Ele mesmo, Jesus”:

“Não é acrescentar práticas religiosas ou observar especiais preceitos; é acolher Jesus, é acolhê-Lo na vida, é viver uma história de amor com Ele. Será Ele quem purificará a nossa fé. Sozinhos, não somos capazes. Mas o Senhor deseja uma relação de amor connosco: antes das coisas que recebemos e fazemos, existe Ele a ser amado. Existe uma relação com Ele que vai para além das lógicas do interesse e do cálculo.”

A partir da amizade com Jesus, aprender a amarmos uns aos outros

E isto – disse Francisco - vale não só em relação a Deus, mas também nas nossas relações humanas e sociais:

“[ Quando procuramos sobretudo a satisfação das nossas necessidades, corremos o risco de usar as pessoas e de instrumentalizar as situações para os nossos objetivos.  Quantas vezes ouvimos sobre uma pessoa: 'Mas ele usa as pessoas e depois esquece-se'. Usar as pessoas em proveito próprio, é feio! E uma sociedade que coloca no centro os interesses, em vez das pessoas, é uma sociedade que não gera vida. O convite do Evangelho é este: em vez de nos preocuparmos apenas com o pão material que nos alimenta, acolhamos Jesus como o pão da vida e, a partir da amizade com Ele, aprendamos a amar-nos uns aos outros. Com gratuidade e sem cálculos.  Amor gratuito e sem cálculos, sem usar as pessoas, com gratuidade, com generosidade, com magnanimidade.]”

Rezemos agora à Virgem Santa - disse o Santo Padre ao concluir - Aquela que viveu a mais bela história de amor com Deus, para que nos conceda a graça de nos abrirmos ao encontro com o seu Filho.

VN

29 julho 2021

Francisco: somos uma só família, todos devem ter água e alimento

 
 
O Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, juntamente com a Comissão Vaticana Covid-19, publicou um vídeo que reúne alguns dos convites e apelos do Papa à comunidade internacional para erradicar as causas da fome e tutelar a dignidade das pessoas e do planeta 
 

Alessandro De Carolis – Vatican News

A reunião de vários discursos do Papa Francisco nos quais repete sempre o caloroso apelo: a fome no mundo é um problema de todos, derrotá-la é um imperativo moral global, todavia jamais será um objetivo verdadeiramente alcançável se a luta contra a fome não incluir também a proteção do meio ambiente e, sobretudo, se a "família humana" continuar a ter filhos legítimos e ilegítimos, alguns com excesso de alimentos disponíveis e muitos outros com a barriga vazia. O vídeo, produzido pelo Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral e pela Comissão Vaticana Covid-19, é um compêndio do magistério do Papa sobre o assunto, divulgado durante a pré-cúpula da ONU sobre sistemas alimentares, que se concluiu ontem (28/07).

Produzir e consumir de maneira diferente

As sequências do vídeo mostram trechos de vários discursos do Papa ao longo dos anos, mas o que é mais marcante é a fluidez que os faz parecer considerações de um único discurso, uma demonstração da consistência com que Francisco abordou os "nós" de uma questão tão complexa como a mudança dos sistemas alimentares. Foi em novembro de 2014 quando ele declarou na sede da FAO que "o direito à alimentação só será garantido se estivermos preocupados com seu verdadeiro sujeito, ou seja, a pessoa que sofre os efeitos da fome e da desnutrição". Com a consequência, disse, de sermos chamados - mas aqui o conceito foi expresso em 2017, novamente na sede da FAO - "a propor uma mudança no estilo de vida, no uso dos recursos, nos critérios de produção e também no consumo".

O tormento da escassez de alimentos

Portanto para o Papa, "não é suficiente produzir alimentos, mas também é importante assegurar que os sistemas alimentares sejam sustentáveis e ofereçam dietas saudáveis e acessíveis a todos" (Mensagem para o Dia da Alimentação 2020). A partir desse discurso vem uma citação de João Paulo II e do seu "paradoxo da abundância" enunciado em 1992 na Conferência Internacional sobre Nutrição, um paradoxo para o qual - resume Francisco - "há alimentos para todos, mas nem todos podem comer" (Mensagem em vídeo para a Expo de Ideias - fevereiro 2015). E morrer de fome é uma das piores maneiras de se ser despojado da dignidade: "Quantas mães e pais ainda hoje - interrogava-se Francisco na audiência geral de 27 de março de 2019 - vão dormir com o tormento de não ter pão suficiente para seus filhos no dia seguinte".

O cuidado é a mudança de rumo

O vídeo conclui com um apelo, onde Francisco lembra-nos que "os nossos irmãos e irmãs mais pobres e a nossa mãe terra gemem pelos danos e injustiças que causamos e reclamam outro rumo. Reclamam de nós uma conversão, uma mudança de rumo: cuidar também da terra, da criação. (Audiência Geral 16 de setembro de 2020). A isto segui-se uma oração que, em certo sentido, amplia uma passagem do Pai Nosso: "Pai, faz com que para nós e para todos, hoje, haja o pão necessário”. E “pão” significa água, medicamentos, casa, trabalho... Pedir o necessário para viver". (Audiência geral 27 de março de 2019), concluindo com o slogan da Campanha lançada pela Cáritas em 2013 e que Francisco, Papa há poucos meses, fez sua na audiência geral de 11 dezembro de 2013: "Uma só família humana, alimentos para todos".

VN