17 junho 2021

O Papa ao mundo do trabalho: muitos desempregados, reforma económica urgente

 
 O Papa durante o vídeo mensagem 
 
 
Mensagem em vídeo do Papa Francisco aos participantes da 109ª Conferência Internacional do Trabalho que se realiza, em Genebra, nesta quinta-feira: a violência contra as mulheres é inaceitável. Evitar o consumismo cego na retomada pós-Covid. Não existem pessoas "elimináveis".
 

Salvatore Cernuzio/Mariangela Jaguraba – Vatican News

O Papa Francisco enviou uma mensagem em vídeo, em espanhol, aos participantes da 109ª Conferência Internacional do Trabalho que se realiza, em Genebra, na Suíça, nesta quinta-feira (17/06).

Promovida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), o evento reúne representantes de Governos, organizações de empresários e trabalhadores. "Esta conferência foi convocada num momento crucial da história social e económica, que apresenta desafios sérios e abrangentes para o mundo inteiro. Nos últimos meses, a Organização Internacional do Trabalho, através dos seus relatórios regulares realizou um trabalho louvável ao dedicar atenção especial a nossos irmãos e irmãs mais vulneráveis", diz o Papa no vídeo mensagem.

Segundo Francisco, "aderir a um sindicato é um direito". A seguir, invoca "uma profunda reforma da economia" e um trabalho "realmente e essencialmente humano", porque o atual para muitos trabalhadores diaristas, migrantes e trabalhadores precários e sobretudo para muitas mulheres, começando pelas empregadas domésticas, cuidadoras e vendedoras ambulantes, é "perigoso, sujo e degradante".

Ajudar quem está à margem do trabalho

No vídeo, Francisco convida a Igreja e os governantes a darem uma resposta incisiva àqueles que se encontram "à margem do mundo do trabalho", esmagados pelas consequências dramáticas da Covid-19.

“Muitos migrantes e trabalhadores vulneráveis e as suas famílias são geralmente excluídos do acesso a programas nacionais de promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento e assistência, bem como dos planos de proteção financeira e serviços psicossociais.”

Segundo o Bispo de Roma, este é "um dos muitos casos da filosofia do descarte que nos acostumamos a impor nas nossas sociedades". Uma exclusão que "complica a detecção precoce, a execução de testes, diagnósticos, rastreamento de contactos e busca de assistência médica para a Covid-19" aos refugiados e migrantes, e assim "aumenta o risco de surtos nessas populações".

Desemprego, jovens fora do mercado, tráfico humano

Francisco entra no centro da emergência trabalhista, pré-existente, agravada pela pandemia. Ele enumera os danos causados pela "falta de medidas de proteção social diante do impacto da Covid-19": aumento da pobreza, desemprego, subemprego, atraso na inserção dos jovens no mercado de trabalho, exploração infantil, tráfico de pessoas, insegurança alimentar, maior exposição a infecções para os doentes e idosos.

“A diminuição do horário de trabalho nos últimos anos resultou tanto na perda de empregos como na redução da jornada de trabalho para aqueles que o mantiveram. Muitos serviços públicos, assim como muitas empresas, enfrentaram enormes dificuldades, algumas correndo o risco de falência total ou parcial. Em todo o mundo, vimos perdas de empregos sem precedentes, em 2020.”

Condições de trabalho decentes e dignas

"Com a pressa de voltar a uma maior atividade económica no final da ameaça da Covid-19, evitemos as pesadas fixações no lucro, o isolamento e o nacionalismo, o consumismo cego e a negação das evidências claras que denotam a discriminação dos nossos irmãos e irmãs 'elimináveis' em nossa sociedade", ressalta o Pontífice.

“Buscamos soluções que nos ajudem a construir um novo futuro de trabalho baseado em condições de trabalho decentes e dignas que venham da negociação coletiva e promovam o bem comum.”

Um diálogo entre governos, empresários e trabalhadores

O Papa volta o seu olhar para as categorias sociais mais vulneráveis: jovens, migrantes, indígenas e pobres que "não podem ser deixados de lado num diálogo que também deveria reunir governos, empresários e trabalhadores". As confissões religiosas e as comunidades também devem comprometer-se juntas, pois só através do diálogo amplo é que "um futuro solidário e sustentável para a nossa casa comum" pode ser alcançado. Um verdadeiro diálogo  instaura-se quando "todos aqueles que dialogam estão no mesmo nível de direitos e deveres". 

Prestar atenção às necessidades particulares das mulheres

Quando se trata de igualdade de direitos, os nossos pensamentos voltam-se especialmente para as mulheres, começando pelas vendedoras ambulantes e trabalhadoras domésticas, que sofrem o impacto do coronavírus em termos de "isolamento" ou "exposição extrema a riscos à saúde"

“Sem creches acessíveis, os filhos dessas trabalhadoras estão expostos a um risco maior, quanto à saúde porque as mães devem levá-los para o local de trabalho ou deixá-los em casa sozinhos.”

"É necessário assegurar que a assistência social chegue à economia informal e preste especial atenção às necessidades particulares das mulheres e meninas", insiste Francisco.

A violência contra a mulher é vergonhosa

E ainda sobre as mulheres, ele denuncia as situações extremas que surgiram em vários países durante a pandemia. São muitas, demasiadas, mulheres que “continuam a clamar por liberdade, justiça e igualdade entre todos os seres humanos”, afirma o Papa. É verdade que houve “melhorias notáveis ​​no reconhecimento dos direitos das mulheres e na sua participação no espaço público”, mas ainda há muito a ser feito, pois “costumes inaceitáveis ​​ainda não foram completamente erradicados”. Em primeiro lugar, a “violência vergonhosa” que resulta em maus-tratos familiares, escravidão ou na “desigualdade de acesso a empregos dignos e aos locais onde se tomam decisões”.

Apoiar sistemas de proteção social

Com vigor, o Papa Francisco pede o apoio e a ampliação dos sistemas de proteção social, “que por sua vez enfrentam riscos importantes”, para que possam garantir o acesso aos serviços de saúde, alimentação e necessidades humanas básicas.

O direito de sindicalização

O Papa também pede para que seja garantido o respeito dos direitos fundamentais dos trabalhadores, incluindo o da sindicalização: "A adesão a um sindicato é um direito. A crise da Covid-19 já afetou os mais vulneráveis e eles não devem ser afetados negativamente por medidas a fim de acelerar um retomar que se concentre unicamente nos indicadores económicos".

O vírus da indiferença egoísta

Para o Papa, "uma profunda reforma da economia" é urgente e necessária, porque "uma sociedade não pode progredir descartando". O risco é o de "ser atacado por um vírus ainda pior que a Covid-19: o da indiferença egoísta".

“Este vírus propaga-se ao pensar que a vida é melhor se for melhor para mim, e que tudo está bem se estiver bem para mim. Assim começamos e terminamos selecionando uma pessoa ao contrário de outra, descartando os pobres, sacrificando aqueles que ficaram para trás no chamado "altar do progresso". É uma verdadeira dinâmica elitista, de constituição das novas elites ao preço do descarte de muitas pessoas e povos.”

Em vez disto, a pandemia mostrou que "não há diferenças ou confins entre os que sofrem. Somos todos frágeis e, ao mesmo tempo, todos de grande valor. Que nos estremeça profundamente o que está a acontecer em nosso redor. Chegou o momento de eliminar as desigualdades, de curar a injustiça que está a minat a saúde de toda a família humana".

Pio XI e a Grande Depressão

Lembrando a crise de Wall Street e a Grande Depressão, em 1931, quando Pio XI falou contra a assimetria entre trabalhadores e empresários, Francisco também pede proteção para os trabalhadores "do jogo da desregulamentação". Ele espera que as normas jurídicas sejam orientadas "para o crescimento do emprego, do trabalho digno e dos direitos e deveres da pessoa humana".

Um trabalho que cuida

O Pontífice não esquece os trabalhadores dos chamados empregos "não standard", sem proteção social e particularmente vulneráveis. Para eles, como para todos, uma única e simples ação é necessária: "Cuidado".

“O trabalho que não cuida, que destrói a Criação, que põe em perigo a sobrevivência das gerações futuras e não respeita a dignidade dos trabalhadores não pode ser considerado digno. Ao contrário, o trabalho que se preocupa, contribui para a restauração da plena dignidade humana, ajudará a garantir um futuro sustentável para as gerações futuras.”

Libertar-se da herança do Iluminismo

Toda empresa deve se perguntar quotidianamente "se ela cuida de seus trabalhadores", diz Francisco. E junto com o cuidado, ele fala da cultura, ou melhor, das muitas culturas do mundo, começando pelas indígenas ou populares, muitas vezes marginalizadas, que se, em vez disso, se entrelaçassem, levariam ao enriquecimento.

“Acredito que é finalmente hora de nos livrarmos da herança do Iluminismo, que associou a palavra cultura a um certo tipo de formação intelectual e pertença social. Cada povo tem a sua própria cultura e nós devemos aceitá-la como ela é.”

Daí, novamente, um convite para "enfrentar os efeitos destruidores do império do dinheiro".

Apelo aos políticos, sindicalistas e empresários

No final da mensagem de vídeo, o Papa Francisco se dirige a cada um dos "atores institucionalizados do mundo do trabalho" que poderiam favorecer as mudanças já em andamento: "A sua responsabilidade é grande, mas o bem que você pode alcançar é ainda maior". Em seguida, ele fala aos políticos e governantes, pedindo-lhes que se inspirem "naquela forma de amor que é a caridade política"; fala aos sindicalistas e líderes de associações de trabalhadores, advertindo-os contra a corrupção e exortando-os "a não se deixarem fechar numa camisa de força", mas "a se concentrarem nas situações concretas dos bairros e comunidades em que trabalham". Ele fala, por fim, aos empresários que têm a vocação de "produzir riqueza a serviço de todos" através da criação de oportunidades de trabalho diversificadas.

Propriedade privada, um direito secundário

A eles, o Pontífice lembra, como já mencionado na Encíclica Fratelli Tutti, que "junto com o direito da propriedade privada, existe o direito prioritário e precedente da subordinação de toda a propriedade privada ao destino universal dos bens da terra e, portanto, o direito de todos ao seu uso". A propriedade privada, reitera o Papa, "é um direito secundário", dependente do "direito primário, que é o destino universal dos bens".

VN

16 junho 2021

Preparação da JMJ Lisboa 2023 está a provocar “revigoramento da pastoral juvenil” em Portugal

 

 

A dinâmica criada é “muito propícia ao relançamento da pastoral juvenil em Portugal”, sublinhou o Cardeal-Patriarca.

O Cardeal-Patriarca de Lisboa acredita que a Jornada Mundial da Juventude, que a capital portuguesa vai acolher no verão de 2023, trará um “revigoramento da pastoral juvenil” no país, indo para lá do momento do evento. “(Há) a tentação de ficar reduzido a um momento, mas creio que com tudo o que está a acontecer vai deixar lastro. Não vai ser apenas a tentação de fazer algo vistoso, mas algo que vai por diante no sentido do rejuvenescimento da Igreja em Portugal e, através da Igreja, também da sociedade portuguesa porque os jovens estão espalhados por toda a parte”, afirmou D. Manuel Clemente à Agência Ecclesia, no final das Jornadas Pastorais do episcopado, que terminaram hoje em Fátima.

A preparação da JMJ Lisboa 2023 está a acontecer a nível nacional, com o envolvimento de todas as dioceses, movimentos ou grupos, e D. Manuel Clemente sublinha que não poderia ser de outra maneira. “Lisboa não podia estar (sozinha) porque é uma realidade de tal ordem, quer em termos eclesiais como sociais, que só podia ser levada por diante com a colaboração de todas as dioceses de Portugal”, reconhece. A dinâmica criada, desde o anúncio, em janeiro de 2019, tem manifestado um “revigoramento” nas dioceses portuguesas, “muito propícia ao relançamento da pastoral juvenil em Portugal”, sublinhou o Cardeal-Patriarca.

As Jornadas Pastorais reuniram em Fátima os bispos portugueses, em torno da reflexão sobre a ‘Receção do Sínodo dos Bispos sobre os jovens e a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023’, contando a presença do padre salesiano Rossano Sala, que foi secretário especial para a XV Assembleia-Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, no final do encontro, realçou que este caminho até 2023 é um exemplo da sinodalidade que se quer imprimir na vida da Igreja. “Quem está à frente de uma Igreja não tem de fazer tudo mas tem de ser aquele que vive e ajuda a animar os que estão na linha da frente a preparar todos os dias a JMJ, tem de ser vivido em Igreja. Os bispos têm de se consciencializar disto. Essa é a função desta reunião”, disse à Agência Ecclesia.


Ecclesia

 

O Papa: a oração de Jesus é o modelo da nossa oração

 
 O Papa Francisco durante a Audiência Geral desta quarta feira 

 
"No meio do drama, na dor atroz da alma e do corpo, Jesus reza com as palavras dos salmos; com os pobres do mundo, especialmente os esquecidos por todos", disse Francisco na última catequese sobre o tema da oração.
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

"A oração sacerdotal de Jesus" foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta feira (16/06), realizada no Pátio São Dâmaso.

"A oração é uma das caracrísticas mais marcantes da vida de Jesus. Jesus rezava, e rezava muito. No decurso da sua missão, Jesus imergiu-se na oração, pois o diálogo com o Pai era o núcleo incandescente de toda a sua existência", sublinhou Francisco, ressaltando que "os Evangelhos testemunham que a oração de Jesus tornou-se ainda mais intensa e densa na hora da sua paixão e morte".

De facto, estes acontecimentos culminantes constituem o âmago da pregação cristã, o kerygma: as últimas horas vividas por Jesus em Jerusalém são o coração do Evangelho não só porque os Evangelistas dedicam um espaço proporcionalmente maior para esta narração, mas também porque o acontecimento da sua morte e ressurreição –   como um relâmpago – lança luz sobre todo o resto da vicissitude de Jesus. Não era um filantropo que cuidava do sofrimento e das doenças humanas: era e é muito mais. Ele foi isso e muito mais. Nele não há apenas bondade: há salvação, e não uma salvação episódica – a que me salva de uma doença ou de um momento de desânimo – mas uma salvação total, messiânica, que dá esperança na vitória definitiva da vida sobre a morte.

Nos dias da sua última Páscoa encontramos Jesus totalmente imerso na oração. "Ele reza de forma dramática no Jardim do Getsémani, acometido por uma angústia mortal. No entanto, naquele exato momento Jesus dirige-se a Deus, chamando-lhe “Abbá”, Pai. Esta palavra aramaica – o idioma de Jesus – exprime intimidade e confiança. Precisamente quando sente as trevas que se adensam à sua volta, Jesus atravessa-as com aquela pequena palavra: Abbá! Pai", frisou o Papa.

"Jesus reza também na cruz, envolto no silêncio obscuro de Deus. Contudo, nos seus lábios, mais uma vez, aflora a palavra “Pai”. É a oração mais audaz, porque na cruz Jesus é o intercessor absoluto:  reza pelos outros, por todos, até por aqueles que o condenam, sem que ninguém, excepto um pobre malfeitor, se declare a seu favor. Todos estavam contra ele, ou indiferentes, somente o malfeitor reconhece aquele poder. «Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem»." A seguir, Francisco acrescentou:

No meio do drama, na dor atroz da alma e do corpo, Jesus reza com as palavras dos salmos; com os pobres do mundo, especialmente os esquecidos por todos, ele pronuncia as trágicas palavras do salmo 22: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». Ele sentia o abandono e rezava. Na Cruz realiza-se o dom do Pai, que oferece o amor, ou seja, realiza-se a nossa salvação. Tudo é oração nas três horas da Cruz. Jesus reza nas horas decisivas da Paixão e da morte. Com a ressurreição, o Pai responderá à sua oração. A oração de Jesus é intensa, a oração de Jesus é única, e torna-se o modelo da nossa oração. Jesus rezou por todos.

O Papa reiterou que Jesus "rezou por mim, por cada um de vós. Cada um de nós pode dizer que Jesus na cruz rezou por mim. Rezou! Jesus pode dizer a cada um de nós que rezou por mim na última ceia e no madeiro da cruz. Até mesmo no mais doloroso do sofrimento não estamos sozinhos, a oração de Jesus está connosco. Que com a sua palavra possamos ir adiante".

Segundo o Pontífice, este parece ser o aspeto mais bonito a recordar, na conclusão deste ciclo de catequeses dedicado ao tema da oração: "A graça que não só imploramos, mas que, por assim dizer, fomos “implorados”, já somos acolhidos no diálogo de Jesus com o Pai, na comunhão do Espírito Santo". "Fomos queridos em Cristo Jesus, e também na hora da paixão, morte e ressurreição tudo nos foi oferecido. E assim, com a oração e com a vida, devemos ter coragem, esperança e com esta coragem e esperança sentir forte a oração de Jesus e seguir adiante. Que a nossa vida seja um dar glória a Deus na consciência de que Ele intercede por mim ao Pai, que Jesus reza por mim", concluiu o Papa.

VN

14 junho 2021

O Papa: a pobreza não é fruto do destino, é consequência do egoísmo

 

 Crianças pobres 
 

Na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres que será celebrado no próximo dia 14 de novembro o Papa Francisco afirma: “É decisivo dar vida a processos de desenvolvimento onde se valorizem as capacidades de todos, para que a complementaridade das competências e a diversidade das funções conduzam a um recurso comum de participação”
 

Jane Nogara - Vatican News

Para o V Dia Mundial dos Pobres que será celebrado no próximo dia 14 de novembro o Papa Francisco apresentou a sua mensagem que inicia com as palavras: “Tereis sempre pobres entre vós” do Evangelho de São Marcos. E contextualiza a situação, recordando que foram pronunciadas por Jesus, alguns dias antes da Páscoa, por ocasião duma refeição em Betânia na casa de Simão chamado ‘o leproso’. Francisco fala sobre as duas interpretações da ação da mulher que derramou o perfume sobre Jesus. A de Judas preocupado pelo dinheiro que o perfume poderia render e a do próprio Jesus que permite individuar o sentido profundo do gesto realizado pela mulher. Jesus defende a mulher pela sua sensibilidade e “vê, naquele gesto, a antecipação da unção do seu corpo sem vida antes de ser colocado no sepulcro. Esta visão ultrapassa todas as expetativas dos convivas. Jesus recorda-lhes que Ele é o primeiro pobre, o mais pobre entre os pobres, porque os representa a todos”. “Esta forte ‘empatia’ entre Jesus e a mulher e o modo como Ele interpreta a sua unção, em contraste com a visão escandalizada de Judas e doutros, inauguram um fecundo caminho de reflexão sobre o laço indivisível que existe entre Jesus, os pobres e o anúncio do Evangelho".  Os pobres, afirma o Papa, “têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja”.

Beneficência e partilha

Francisco recorda que “Jesus não só está do lado dos pobres, mas também partilha com eles a mesma sorte”, e que “um gesto de beneficência pressupõe um benfeitor e um beneficiado, enquanto a partilha gera fraternidade. A esmola é ocasional, ao passo que a partilha é duradoura. A primeira corre o risco de gratificar quem a dá e humilhar quem a recebe, enquanto a segunda reforça a solidariedade e cria as premissas necessárias para se alcançar a justiça”. Enfim, prossegue o Papa, “os crentes, quando querem ver Jesus em pessoa e tocá-Lo com a mão, sabem aonde dirigir-se: os pobres são sacramento de Cristo, representam a sua pessoa e apontam para Ele”.

Ler texto integral da mensagem do Papa, para o V doa Mundial dos Pobres:

https://govvota2.blogspot.com/2021/06/texto-integral-mensagem-do-papa.html

Estilo de vida coerente com a fé

“Por isso precisamos de aderirno-nos com plena convicção ao convite do Senhor: ‘Convertei-vos e acreditai no Evangelho’. Esta conversão consiste, primeiro, em abrir o nosso coração para reconhecer as múltiplas expressões de pobreza e, depois, em manifestar o Reino de Deus através dum estilo de vida coerente com a fé que professamos”. “Seguir Jesus”, completa o Pontífice, “comporta uma mudança de mentalidade a esse propósito, ou seja, acolher o desafio da partilha e da comparticipação”.

Novas formas de pobreza

“O Evangelho de Cristo impele a ter uma atenção muito particular para com os pobres e requer que se reconheça as múltiplas, demasiadas, formas de desordem moral e social que sempre geram novas formas de pobreza” alerta o Papa e prossegue afirmando:

“Um mercado que ignora ou discrimina os princípios éticos cria condições desumanas que se abatem sobre pessoas que já vivem em condições precárias. Deste modo assiste-se à criação incessante de armadilhas novas da miséria e da exclusão, produzidas por agentes económicos e financeiros sem escrúpulos, desprovidos de sentido humanitário e responsabilidade social”

Pandemia: agravamento da pobreza

O Papa não deixa de recordar da pandemia que agravou a situação de todos os pobres além de levar muitos à pobreza em toda as partes do mundo: “Esta continua a bater à porta de milhões de pessoas e, mesmo quando não traz consigo o sofrimento e a morte, todavia é portadora de pobreza”. “É urgente dar respostas concretas a quantos padecem o desemprego, que atinge de maneira dramática tantos pais de família, mulheres e jovens. A solidariedade social e a generosidade de que muitos, graças a Deus, são capazes, juntamente com projetos clarividentes de promoção humana, estão a dar e darão um contributo muito importante nesta conjuntura”.

Individualismo cúmplice na geração de pobreza

Quais seriam os caminhos? Francisco traça algumas sugestões depois de questionar “Como se pode dar uma resposta palpável aos milhões de pobres que tantas vezes, como resposta, só encontram a indiferença, quando não a aversão? Qual caminho de justiça é necessário percorrer para que as desigualdades sociais possam ser superadas e seja restituída a dignidade humana tão frequentemente espezinhada?”. E a resposta vem da reflexão: “Um estilo de vida individualista é cúmplice na geração da pobreza e, muitas vezes, descarrega sobre os pobres toda a responsabilidade da sua condição. Mas a pobreza não é fruto do destino; é consequência do egoísmo. Portanto é decisivo dar vida a processos de desenvolvimento onde se valorizem as capacidades de todos, para que a complementaridade das competências e a diversidade das funções conduzam a um recurso comum de participação”.

Dignidade de filhos de Deus

Ao falar da dignidade e da riqueza que os pobres podem nos dar o Papa recorda: “Os pobres ensinam-nos frequentemente a solidariedade e a partilha. É verdade que são pessoas a quem falta algo e por vezes até muito, se não mesmo o necessário; mas não falta tudo, porque conservam a dignidade de filhos de Deus que nada e ninguém lhes pode tirar”.

Uma nova abordagem da pobreza

Em seguida pondera: “Impõe-se, pois, uma abordagem diferente da pobreza. É um desafio que os governos e as instituições mundiais precisam de perfilhar, com um modelo social clarividente, capaz de enfrentar as novas formas de pobreza que invadem o mundo e marcarão de maneira decisiva as próximas décadas. Se os pobres são colocados à margem, como se fossem os culpados da sua condição, então o próprio conceito de democracia é posto em crise e fracassa toda e qualquer política social”.

O Papa conclui sua mensagem com um pensamento do Padre Primo Mazzolari: “Gostaria de pedir-vos para não me perguntardes se existem pobres, quem são e quantos são, porque tenho receio que tais perguntas representem uma distração ou o pretexto para escapar duma específica indicação da consciência e do coração. (…) Os pobres, eu nunca os contei, porque não se podem contar: os pobres abraçam-se, não se contam”.

VN

Texto integral: mensagem do Papa Francisco para o V Dia Mundial dos Pobres

 

  Dia Mundial do Pobre  

 

Para o V Dia Mundial dos Pobres que será celebrado no próximo dia 14 de novembro o Papa Francisco apresentou a sua mensagem que inicia com as palavras: “Tereis sempre pobres entre vós” do Evangelho de São Marcos.

 

«Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14, 7)

1. «Tereis sempre pobres entre vós» (Mc 14, 7): estas palavras foram pronunciadas por Jesus, alguns dias antes da Páscoa, por ocasião duma refeição em Betânia na casa de Simão chamado «o leproso». Como narra o evangelista, entrou lá uma mulher com um vaso de alabastro cheio de perfume muito precioso e derramou-o sobre a cabeça de Jesus. Este gesto suscitou grande estupefação e deu origem a duas interpretações diversas.

A primeira delas é a indignação de alguns dos presentes, incluindo os discípulos, que, ao considerar o valor do perfume (cerca de 300 denários, equivalente ao salário anual de um trabalhador), pensam que teria sido melhor vendê-lo e dar o produto aos pobres. Segundo o Evangelho de João, é Judas que se faz intérprete desta posição: «Porque não se vendeu este perfume por trezentos denários, para os dar aos pobres?». E o evangelista observa: «Ele, porém, disse isto, não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava» (Jo 12, 5-6). Não é por acaso que esta crítica dura sai da boca do traidor: é a prova de que, quantos não reconhecem os pobres, atraiçoam o ensinamento de Jesus e não podem ser seus discípulos. Recordemos, a este propósito, as palavras fortes de Orígenes: «Judas, aparentemente, estava preocupado com os pobres. (…) Se, agora, ainda houver alguém que tem a bolsa da Igreja e fala a favor dos pobres como Judas, mas depois tira o que metem lá dentro, então tenha parte juntamente com Judas» (Comentário ao Evangelho de Mateus 11, 9).

A segunda interpretação é dada pelo próprio Jesus e permite individuar o sentido profundo do gesto realizado pela mulher. Diz Ele: «Deixai-a. Porque estais a atormentá-la? Praticou em Mim uma boa ação» (Mc 14, 6). Jesus sabe que está próxima a sua morte e vê, naquele gesto, a antecipação da unção do seu corpo sem vida antes de ser colocado no sepulcro. Esta visão ultrapassa todas as expetativas dos convidados. Jesus recorda-lhes que Ele é o primeiro pobre, o mais pobre entre os pobres, porque representa-os a todos. E é também em nome dos pobres, das pessoas abandonadas, marginalizadas e discriminadas que o Filho de Deus aceita o gesto daquela mulher. Esta, com a sua sensibilidade feminina, demonstra ser a única que compreendeu o estado de espírito do Senhor. Esta mulher anónima – talvez por isso destinada a representar todo o universo feminino que, no decurso dos séculos, não terá voz e sofrerá violências –, inaugura a significativa presença de mulheres que participam no momento culminante da vida de Cristo: a sua crucifixão, morte e sepultura e a sua aparição como Ressuscitado. As mulheres, tantas vezes discriminadas e mantidas ao largo dos postos de responsabilidade, nas páginas do Evangelho são, pelo contrário, protagonistas na história da revelação. E é eloquente a frase conclusiva de Jesus, que associa esta mulher à grande missão evangelizadora: «Em verdade vos digo: em qualquer parte do mundo onde for proclamado o Evangelho, há-de contar-se também, em sua memória, o que ela fez» (Mc 14, 9).

2. Esta forte «empatia» entre Jesus e a mulher e o modo como Ele interpreta a sua unção, em contraste com a visão escandalizada de Judas e de outros, inauguram um fecundo caminho de reflexão sobre o laço indivisível que existe entre Jesus, os pobres e o anúncio do Evangelho.

Com efeito, o rosto de Deus que Ele revela é o de um Pai para os pobres e próximo dos pobres. Toda a obra de Jesus afirma que a pobreza não é fruto duma fatalidade, mas sinal concreto da sua presença no nosso meio. Não O encontramos quando e onde queremos, mas reconhecemo-Lo na vida dos pobres, na sua tribulação e indigência, nas condições por vezes desumanas em que são obrigados a viver. Não me canso de repetir que os pobres são verdadeiros evangelizadores, porque foram os primeiros a ser evangelizados e chamados a partilhar a bem-aventurança do Senhor e o seu Reino (cf. Mt 5, 3).

Os pobres de qualquer condição e latitude evangelizam-nos, porque permitem descobrir de modo sempre novo os traços mais genuínos do rosto do Pai. Eles «têm muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles. O nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro, considerando-o como um só consigo mesmo. Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo de procurar efetivamente o seu bem» (Papa Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 198-199).

3. Jesus não só está do lado dos pobres, mas também partilha com eles a mesma sorte. Isto constitui também um forte ensinamento para os seus discípulos de todos os tempos. As suas palavras – «sempre tereis pobres entre vós» – pretendem indicar também isto: a sua presença no meio de nós é constante, mas não deve induzir àquela habituação que se torna indiferença, mas empenhar numa partilha de vida que não prevê delegações. Os pobres não são pessoas «externas» à comunidade, mas irmãos e irmãs cujo sofrimento se partilha, para abrandar o seu mal e a marginalização, a fim de lhes ser devolvida a dignidade perdida e garantida a necessária inclusão social. Aliás sabe-se que um gesto de beneficência pressupõe um benfeitor e um beneficiado, enquanto a partilha gera fraternidade. A esmola é ocasional, ao passo que a partilha é duradoura. A primeira corre o risco de gratificar quem a dá e humilhar quem a recebe, enquanto a segunda reforça a solidariedade e cria as premissas necessárias para se alcançar a justiça. Enfim os crentes, quando querem ver Jesus em pessoa e tocá-Lo com a mão, sabem aonde dirigir-se: os pobres são sacramento de Cristo, representam a sua pessoa e apontam para Ele.

emos muitos exemplos de Santos e Santas que fizeram da partilha com os pobres o seu projeto de vida. Penso, entre outros, no Padre Damião de Veuster, Santo apóstolo dos leprosos. Com grande generosidade, respondeu à vocação de ir para a ilha de Molokai – tinha-se tornado um gueto acessível apenas aos leprosos –, a fim de viver e morrer com eles. Lançando-se ao trabalho, tudo fez para tornar digna de ser vivida a existência daqueles pobres doentes e marginalizados, reduzidos à degradação extrema. Fez-se médico e enfermeiro, sem se preocupar com os riscos que corria, levando a luz do amor àquela «colónia de morte», como era designada a ilha. A lepra atingiu-o também a ele, sinal duma partilha total com os irmãos e irmãs pelos quais dera a vida. O seu testemunho é muito atual nestes nossos dias, marcados pela pandemia de coronavírus: com certeza a graça de Deus está em ação no coração de muitas pessoas que, sem dar nas vistas, se gastam concretamente partilhando a sorte dos mais pobres.

4. Por isso precisamos de aderir com plena convicção ao convite do Senhor: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15). Esta conversão consiste, primeiro, em abrir o nosso coração para reconhecer as múltiplas expressões de pobreza e, depois, em manifestar o Reino de Deus através dum estilo de vida coerente com a fé que professamos. Com frequência, os pobres são considerados como pessoas aparte, como uma categoria que requer um serviço caritativo especial. Seguir Jesus comporta uma mudança de mentalidade a esse propósito, ou seja, acolher o desafio da partilha e da comparticipação. Tornar-se seu discípulo implica a opção de não acumular tesouros na terra, que dão a ilusão duma segurança em realidade frágil e efémera; ao contrário, requer disponibilidade para se libertar de todos os vínculos que impedem de alcançar a verdadeira felicidade e bem-aventurança, para reconhecer aquilo que é duradouro e que nada e ninguém pode destruir (cf. Mt 6, 19-20).

Mas o ensinamento de Jesus aparece em contracorrente também neste caso, porque promete aquilo que só os olhos da fé podem ver e experimentar com certeza absoluta: «Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna» (Mt 19, 29). Se não se optar por tornar-se pobre de riquezas efémeras, poder mundano e vanglória, nunca se sará capaz de dar a vida por amor; viver-se-á uma existência fragmentária, cheia de bons propósitos mas ineficaz para transformar o mundo. Trata-se, portanto, de abrir-se decididamente à graça de Cristo, que pode tornar-nos testemunhas da sua caridade sem limites e restituir credibilidade à nossa presença no mundo.

5. O Evangelho de Cristo impele a ter uma atenção muito particular para com os pobres e requer que se reconheça as múltiplas, demasiadas, formas de desordem moral e social que sempre geram novas formas de pobreza. Parece ganhar terreno a conceção segundo a qual os pobres não só são responsáveis pela sua condição, mas constituem também um peso intolerável para um sistema económico que coloca no centro o interesse dalgumas categorias privilegiadas. Um mercado que ignora ou discrimina os princípios éticos cria condições desumanas que se abatem sobre pessoas que já vivem em condições precárias. Deste modo assiste-se à criação incessante de armadilhas novas da miséria e da exclusão, produzidas por agentes económicos e financeiros sem escrúpulos, desprovidos de sentido humanitário e responsabilidade social.

Além disso, no ano passado, veio juntar-se outra praga que multiplicou ainda mais o número dos pobres: a pandemia. Esta continua a bater à porta de milhões de pessoas e, mesmo quando não traz consigo o sofrimento e a morte, todavia é portadora de pobreza. Os pobres têm aumentado desmesuradamente e o mesmo, infelizmente, continuará a verificar-se ainda nos próximos meses. Alguns países estão a sofrer gravíssimas consequências devido à pandemia, a ponto de as pessoas mais vulneráveis se encontrarem privadas de bens de primeira necessidade. As longas filas diante das cantinas para os pobres são o sinal palpável deste agravamento. Um olhar atento requer que se encontrem as soluções mais idóneas para combater o vírus a nível mundial, sem olhar a interesses de parte. De modo particular, é urgente dar respostas concretas a quantos padecem o desemprego, que atinge de maneira dramática tantos pais de família, mulheres e jovens. A solidariedade social e a generosidade de que muitos, graças a Deus, são capazes, juntamente com projetos clarividentes de promoção humana, estão a dar e darão um contributo muito importante nesta conjuntura.

6. Entretanto permanece de pé uma questão, nada óbvia: Como se pode dar uma resposta palpável aos milhões de pobres que tantas vezes, como resposta, só encontram a indiferença, quando não a aversão? Qual caminho de justiça é necessário percorrer para que as desigualdades sociais possam ser superadas e seja restituída a dignidade humana tão frequentemente espezinhada? Um estilo de vida individualista é cúmplice na geração da pobreza e, muitas vezes, descarrega sobre os pobres toda a responsabilidade da sua condição. Mas a pobreza não é fruto do destino; é consequência do egoísmo. Portanto é decisivo dar vida a processos de desenvolvimento onde se valorizem as capacidades de todos, para que a complementaridade das competências e a diversidade das funções conduzam a um recurso comum de participação. Há muitas pobrezas dos «ricos» que poderiam ser curadas pela riqueza dos «pobres», bastando para isso encontrarem-se e conhecerem-se. Ninguém é tão pobre que não possa dar algo de si na reciprocidade. Os pobres não podem ser aqueles que apenas recebem; devem ser colocados em condição de poder dar, porque sabem bem como corresponder. Quantos exemplos de partilha diante dos nossos olhos! Os pobres ensinam-nos frequentemente a solidariedade e a partilha. É verdade que são pessoas a quem falta algo e por vezes até muito, se não mesmo o necessário; mas não falta tudo, porque conservam a dignidade de filhos de Deus que nada e ninguém lhes pode tirar.

7. Impõe-se, pois, uma abordagem diferente da pobreza. É um desafio que os governos e as instituições mundiais precisam de perfilhar, com um modelo social clarividente, capaz de enfrentar as novas formas de pobreza que invadem o mundo e marcarão de maneira decisiva as próximas décadas. Se os pobres são colocados à margem, como se fossem os culpados da sua condição, então o próprio conceito de democracia é posto em crise e fracassa toda e qualquer política social. Com grande humildade, temos de confessar que muitas vezes não passamos de incompetentes a respeito dos pobres: fala-se deles em abstrato, fica-se pelas estatísticas e pensa-se sensibilizar com qualquer documentário. Ao contrário, a pobreza deveria incitar a uma projetação criativa, que permita fazer aumentar a liberdade efetiva de conseguir realizar a existência com as capacidades próprias de cada pessoa. Pensar que a posse de dinheiro consinta e aumente a liberdade é uma ilusão de que devemos afastar-nos. Servir eficazmente os pobres incita à ação e permite encontrar as formas mais adequadas para levantar e promover esta parte da humanidade, demasiadas vezes anónima e sem voz, mas que em si mesma traz impresso o rosto do Salvador que pede ajuda.

8. «Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14, 7): é um convite a não perder jamais de vista a oportunidade que se nos oferece para fazer o bem. Como pano de fundo, pode-se vislumbrar o antigo mandamento bíblico: «Se houver junto de ti um indigente entre os teus irmãos (…), não endurecerás o teu coração e não fecharás a tua mão ao irmão necessitado. Abre-lhe a tua mão, empresta-lhe sob penhor, de acordo com a sua necessidade, aquilo que lhe faltar. (…) Deves dar-lhe, sem que o teu coração fique pesaroso; porque, em recompensa disso, o Senhor, teu Deus, te abençoará em todas as empresas das tuas mãos. Sem dúvida, nunca faltarão pobres na terra» (Dt 15, 7-8.10-11). E no mesmo cumprimento de onda se coloca o apóstolo Paulo, quando exorta os cristãos das suas comunidades a socorrer os pobres da primeira comunidade de Jerusalém e a fazê-lo «sem tristeza nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). Não se trata de serenar a nossa consciência dando qualquer esmola, mas antes contrastar a cultura da indiferença e da injustiça com que se olha os pobres.

Neste ponto, faz-nos bem recordar as palavras de São João Crisóstomo: «Quem é generoso não deve pedir contas do comportamento, mas somente melhorar a condição de pobreza e satisfazer a necessidade. O pobre só tem uma defesa: a sua pobreza e a condição de necessidade em que se encontra. Não lhe peças mais nada; mesmo que fosse o homem mais malvado do mundo, se lhe vier a faltar o alimento necessário, libertemo-lo da fome. (…) O homem misericordioso é um porto para quem está em necessidade: o porto acolhe e liberta do perigo todos os náufragos, sejam eles malfeitores, bons ou como forem. Aos que se encontram em perigo, o porto acolhe-os, coloca-os em segurança dentro da sua enseada. Também tu, portanto, quando vês por terra um homem que sofreu o naufrágio da pobreza, não o julgues, nem lhe peças conta do seu comportamento, mas liberta-o da desventura» (Discursos sobre o pobre Lázaro, II, 5).

 9. É decisivo aumentar a sensibilidade para se compreender as exigências dos pobres, sempre em mutação por força das condições de vida. Com efeito, nas áreas economicamente mais desenvolvidas do mundo, está-se menos predisposto hoje que no passado a confrontar-se com a pobreza. O estado de relativo bem-estar ao qual se habituaram torna mais difícil aceitar sacrifícios e privações. Está-se pronto a tudo só para não ficar privado daquilo que foi fruto de fácil conquista. Deste modo, cai-se em formas de rancor, nervosismo espasmódico, reivindicações que levam ao medo, à angústia e, nalguns casos, à violência. Este não é o critério sobre o qual construir o futuro; também estas são formas de pobreza, para as quais não se pode deixar de olhar. Devemos estar abertos a ler os sinais dos tempos que exprimem novas modalidades de ser evangelizadores no mundo contemporâneo. A assistência imediata para acorrer às necessidades dos pobres não deve impedir de ser clarividente para atuar novos sinais do amor e da caridade cristã como resposta às novas pobrezas que experimenta a humanidade de hoje.

Faço votos de que o Dia Mundial dos Pobres, chegado já à sua quinta celebração, possa radicar-se cada vez mais nas nossas Igrejas locais e abrir-se a um movimento de evangelização que, em primeira instância, encontre os pobres lá onde estão. Não podemos ficar à espera que batam à nossa porta; é urgente ir ter com eles às suas casas, aos hospitais e casas de assistência, à estrada e aos cantos escuros onde, por vezes, se escondem, aos centros de refúgio e de acolhimento… É importante compreender como se sentem, o que estão a passar e quais os desejos que têm no coração. Façamos nossas as palavras inflamadas do Padre Primo Mazzolari: «Gostaria de pedir-vos para não me perguntardes se existem pobres, quem são e quantos são, porque tenho receio que tais perguntas representem uma distração ou o pretexto para escapar duma específica indicação da consciência e do coração. (…) Os pobres, eu nunca os contei, porque não se podem contar: os pobres abraçam-se, não se contam» (Revista «Adesso», n.º 7, 15 de abril de 1949). Os pobres estão no meio de nós. Como seria evangélico, se pudéssemos dizer com toda a verdade: também nós somos pobres, porque só assim conseguiríamos realmente reconhecê-los e fazê-los tornar-se parte da nossa vida e instrumento de salvação.

Roma, São João de Latrão, na Memória de Santo António, 13 de junho de 2021.

[Francisco]

VN

13 junho 2021

Papa: a nós cabe semear, mas a força da semente é divina

 
 Papa Francisco na janela do apartamento pontifício para o Angelus 
 
Em tantas situações da vida pode acontecer, ficarmos desanimados, porque vemos a fraqueza do bem em relação à aparente força do mal. E podemos deixar-nos paralisar pela desconfiança quando constatamos que nos comprometemos, mas os resultados não chegam e as coisas parecem não mudar nunca. A nós - disse o Papa - cabe semear, com amor, empenho, paciência. Mas a força da semente é divina. O bem cresce sempre de maneira humilde, escondida, muitas vezes invisível.
 

Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

“O bem cresce sempre  de forma humilde, escondida, muitas vezes invisível”, por isso não devemos desanimar quando os nossos esforços parecem infrutíferos ou quando o mal parece triunfar, “a nós cabe semear, com amor, empenho, paciência. Mas a força da semente é divina.”

As duas parábolas do Evangelho de Marcos, proposto pela Liturgia deste XI Domingo do Tempo Comum,  oferecem ao Papa a ocasião para encorajar-nos a seguir com as boas obras e a ter total confiança na ação do Senhor, mesmo quando não a percebemos, pois “os resultados da semeadura não dependem das nossas capacidades”, mas sim “da ação de Deus”.

A presença escondida de Deus no dia-a-dia

Com a temperatura por volta dos 31°C na Praça de S. Pedro, Francisco começou por explicar aos presentes - sempre em maior número no tradicional encontro dominical - que as duas parábolas falam de factos quotidianos, revelando assim “o olhar atento de Jesus, que observa a realidade”. E por intermédio dessas pequenas imagens do dia-a-dia, Ele “abre janelas sobre o mistério de Deus e sobre a vida humana. Jesus falava de uma maneira fácil de entender, falava com imagens da realidade, da vida quotidiana”:

 

Assim, ensina-nos que mesmo as coisas do dia-a-dia, aquelas que por vezes parecem todas iguais e que levamos em frente com distração ou fadiga, são habitadas pela presença escondida de Deus, ou seja, têm um significado Assim, também nós temos necessidade de olhos atentos, para saber buscar e encontrar Deus em todas as coisas.

Humilde e lentamente, a pequena semente dá os seus frutos

Jesus hoje, compara o Reino de Deus - a sua presença que habita o coração das coisas e do mundo - ao grão de mostarda, o menor grão que existe, mas que após semeado, cresce até se tornar a maior de todas as hortaliças. Este é o modo de agir de Deus:

Às vezes, o alarido do mundo, junto com as tantas atividades que enchem os nossos dias, impedem-nos de parar e de perceber como o Senhor conduz a história. E, no entanto - assegura o Evangelho - Deus está a agir, como uma pequena boa semente, que brota silenciosa e lentamente. E, aos poucos, torna-se uma árvore vigorosa, que dá vida e refrigério a todos.

“Para nós, muitas vezes , a semente das nossas boas obras pode parecer pequena. No entanto, tudo o que é bom pertence a Deus e, portanto, humilde e lentamente, dá frutos. O bem – recordemos - cresce sempre de maneira humilde,  de maneira escondida, muitas vezes invisível.”

Perceber a ação de Deus na nossa vida e na história

Com essa parábola, de facto - disse Francisco - Jesus quer inspirar confiança em nós:

Em tantas situações da vida, de facto, pode acontecer, ficarmos desanimados, porque vemos a fraqueza do bem em relação à aparente força do mal. E podemos deixar-nos paralisar pela desconfiança, quando constatamos que nos comprometemos, mas os resultados não chegam e as coisas parecem não mudar nunca. 

Neste sentido, o Evangelho pede-nos um novo olhar sobre nós mesmos e sobre a realidade:

Pede para ter olhos maiores, que saibam ver além, especialmente além das aparências, para descobrir a presença de Deus que, como amor humilde, está sempre a agir no terreno da nossa vida e naquele da história.

Devemos semear o bem. Os frutos dependem da ação de Deus

Esta – enfatizou Francisco - é a nossa confiança, “é isto que nos dá força para seguir em frente em cada dia com paciência, semeando o bem que dará fruto”. Atitude, aliás, especialmente importante “para sair bem da pandemia”, ou seja, “cultivar a confiança de estar nas mãos de Deus e ao mesmo tempo comprometermo-nos, todos, em reconstruir e recomeçar, com paciência e constância.”

Mas, alertou o Pontífice – “também na Igreja o joio da desconfiança pode criar raízes, sobretudo quando testemunhamos a crise da fé e o fracasso de vários projetos e iniciativas:

“Mas nunca esqueçamos que os resultados da semeadura não dependem das nossas capacidades: dependem da ação de Deus. A nós cabe semear,  e semear com amor, com empenho e com a paciência. Mas a força da semente é divina.”

Mesmo nos terrenos mais áridos, com Deus há sempre esperança

No final de sua reflexão, o Papa mencionou a segunda parábola presente no Evangelho do dia, em que “o lavrador lança a semente e depois não percebe como dá fruto, porque é a própria semente que cresce espontaneamente, de dia, de noite, quando menos se espera”. Assim, ressaltou, “com Deus, mesmo nos terrenos mais áridos, há sempre esperança de novos brotos”.

Que Maria Santíssima, a humilde serva do Senhor, nos ensine a ver a grandeza de Deus que opera nas pequenas coisas e a vencer a tentação do desânimo. Confiemos n’Ele todos os dias.
 
VN

12 junho 2021

Apelo da Caritas Internationalis ao G7 pelo cancelamento da dívida dos países pobres

 
Os líderes dos países mais ricos do mundo durante sessão do G7 
 
 
Na sexta-feira teve início a Cúpula do G7, em andamento até o domingo, no Condado britânico de Cornwall. Muitos pronunciamentos e debates sobre os principais temas internacionais. Apelo da Caritas Internationalis a favor dos países mais vulneráveis. Na recepção aos participantes, estiveram presente a Rainha Elizabeth e a família real.
 

Isabella Piro – Vatican News

Cancelar a dívida dos países pobres e reinvestir esses recursos na retoma da economia atingida pela Covid-19 e na luta contra as mudanças climáticas: este é o apelo lançado pela Caritas Internationalis ao G7, que desde a sexta-feira, 11, até o domingo 13 junho, vê os representantes dos 7 países economicamente avançados do mundo reunidos em Carbis Bay, Cornwall: são eles Reino Unido, Itália, Canadá, França, Alemanha, Japão e Estados Unidos. Também participam líderes europeus e os países convidados, Índia, Coreia do Sul, Austrália e África do Sul. 

“A Covid-19 - explica numa nota o secretário-geral da Caritas Internationalis, Aloysius John, - colocou em evidência as crescentes injustiças sociais no mundo de hoje. Eliminá-las deve ser a única forma de reconstruir o futuro”.

Neste sentido, a organização de caridade recorda as dramáticas consequências da dívida para as populações dos países em desenvolvimento: na Zâmbia, por exemplo, a dívida representa 45 por cento do orçamento anual do governo. Os poucos recursos disponíveis, portanto, não são suficientes para "fortalecer o sistema nacional de saúde" diante da emergência provocada pelo coronavírus que, até hoje na nação africana, deixou um rastro de 106 mil contágios e mais de 1.300 mortes.

“Mais uma vez – acrescenta Aloysius John - a Caritas Internationalis faz ouvir a sua voz para ecoar o grito dos mais pobres”. Assim, a exortação ao G7 para estar "na vanguarda da resposta à Covid-19, para assim apoiar quer as pessoas mais afetadas pela pandemia, como um retomar justo e sustentável", cujo primeiro passo "é garantir que todos os pagamentos da dívida sejam cancelados, incluindo os credores privados”.

Há a previsão, de facto, de que "somente os governos africanos paguem 23,4 bilhões de dólares em reembolsos de dívidas a credores privados em 2021, ou seja, mais de três vezes o custo de compra de vacinas para todo o continente".

Especificamente, o organismo internacional de caridade apresenta quatro pedidos aos membros do G7: além de interromper o pagamento da dívida a credores privados, a primeira instância pede o esforço dos governos do G7 de "explorar opções legislativas que incentivem os credores privados a participarem em iniciativas de redução da dívida".

O segundo é um apelo ao Grupo dos 7 para "mobilizar financiamentos para responder às necessidades imediatas levantadas pela Covid (fortalecimento dos sistemas de saúde, redes de segurança social, acesso a vacinas) e apoiar um retomar justo e ecológica, sem agravar a crise da dívida no Sul do mundo".

O terceiro pedido, por outro lado, diz respeito “à nova emissão de Direitos de Saques Especiais (Special Drawing Rights, DSP), para que os países menos desenvolvidos tenham um maior apoio e o seu endividamento não aumente”. Os DPS, de facto, não são uma moeda propriamente dita, mas sim um direito de adquirir uma ou mais das 'moedas utilizáveis livremente' mantidas nas reservas oficiais dos países membros do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Por fim, a última exortação é demonstrar que o G7 “está a levar a crise climática a sério, prometendo acabar com os subsídios para os combustíveis fósseis”.

Vatican News Service - IP

VN

Francisco: o amanhã pertence às crianças que protegemos hoje

 


“As crianças são o futuro da família humana: cabe a todos nós promover o seu crescimento, saúde e serenidade”. 

 
O Papa recorda com um tweet o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil. De facto, são dezenas de milhões de crianças, muitas delas em África, muitas vezes forçadas a trabalhar em condições miseráveis, sem proteção para a saúde e privadas de educação
 

Michele Raviart - Cidade do Vaticano

“As crianças são o futuro da família humana: cabe a todos nós promover o seu crescimento, saúde e serenidade”. Com este tweet na sua conta @Pontifex, o Papa Francisco recordou o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil celebrado neste dia 12 de junho em todo o mundo.

Naquele que as Nações Unidas estabeleceram como o ano dedicado ao combate a este fenómeno, 2021 registra 160 milhões de menores que passam os  seus dias a trabalhar em vez de irem à escola e viver a sua infância com alegria.

Os apelos de Francisco

“Tantas pessoas, em vez de fazê-las brincar, fazem-nas escravos: isto é um flagelo. Uma infância serena permite às crianças olhar com confiança para a vida e para o amanhã. Ai de quem nelas sufoca o alegre impulso da esperança”, disse o Papa em 2013, durante o primeiro ano de seu Pontificado. “Faço um apelo às instituições para que realizem todos os esforços para proteger os menores, preenchendo as lacunas económicas e sociais que estão na base da dinâmica distorcida em que infelizmente estão envolvidos”, tinha reiterado na véspera do Dia contra o Trabalho Infantil no ano passado.

Quadro que se agravou na pandemia

Com as consequências económicas e sociais da pandemia do coronavírus, o número de crianças forçadas a trabalhar aumentou pela primeira vez em vinte anos. O convite do Pontífice dirigido aos países do mundo na mensagem em vídeo por ocasião da 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em 25 de setembro passado, foi o de "não ignorar as consequências devastadoras da crise Covid-19 sobre as crianças", que aos milhões "não podem voltar à escola. Uma situação que, "em muitas partes do mundo", ameaça aumentar o trabalho infantil, a exploração, o abuso e a desnutrição".

Drama de áreas pobres, mas não só

De acordo com dados fornecidos pelo Instituto de Estudos Políticos Internacionais (ISPI), a maior parte dos menores entre 5 a 17 anos envolvidos em trabalho infantil, mais de 86 milhões, encontram-se na África Subsaariana, que é também o lugar onde as crianças menores de 11 anos são mais exploradas.

Na Ásia, o trabalho infantil afeta mais de 50 milhões de crianças, principalmente no Sudeste Asiático. É impressionante que mesmo nas áreas mais ricas do planeta, Europa e América do Norte, existam quase 4 milhões de menores a trabalhar.

VN

11 junho 2021

JMJ é “uma grande oportunidade” para mostrar Santo António aos jovens

 

 

Frei Fabrizio Bordin acredita que a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023 é a oportunidade para dar a conhecer, entre os jovens, a figura “mais desconhecida” de Santo António, aquela que vai para além do “folclore”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, este religioso da Ordem dos Frades Menores Conventuais afirma que a “opção preferencial pelos pobres” é um “grande desafio” e destaca a sensibilidade dos leigos para porem em prática os apelos do Papa na encíclica Laudato si’.

No ano passado, assinalaram-se os 800 anos da vocação Franciscana de Santo António. Nessa altura, o frei Fabrizio publicou vários textos, na revista ‘O Mensageiro de Santo António’ – dos Frades Menores Conventuais –, onde assinalava que ainda há uma parte da vida de Santo António por descobrir. O que falta então conhecer?
Este ano, saiu um livro, na edição italiana, com o título ‘Santo António desconhecido’, escrito por um realizador. Conta parte das origens de Santo António, aqui, em Lisboa, e sobretudo em Coimbra, utilizando um pouco de ficção – por não se encontrarem dados – a partir das tradições existentes na Igreja e na sociedade da Idade Média. Temos três décadas importantes que precisávamos de conhecer melhor: em primeiro lugar, a infância e a juventude, em Lisboa. E nós sabemos que os primeiros anos da nossa vida, o nosso contexto familiar, social, eclesial, são muito importantes para descobrir e entender a personalidade de qualquer pessoa, e também de um santo; depois, sobre o tempo passado em Coimbra, onde temos António na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Toda a sua formação académica, cultural, religiosa, a ordem do sacerdócio e, depois, a passagem para a Ordem Franciscana; por último, temos outra década, que corresponde ao tempo que António passou entre Itália e França. Aliás, por estes dias, nós, franciscanos, celebrámos os 800 anos (30 de maio de 1221) do encontro entre Francisco e António, em Assis. Foram anos tão intensos, que o tornaram naquilo que é hoje o santo amado por todo o mundo, pela sua proximidade, pregação...

É por isso que, ainda hoje, em Itália, quando se referem a Santo António, referem-se apenas a ‘O Santo’…
É interessante, porque isto raramente nasce dos contextos mais eclesiais. É dentro da vida do povo, e foi o povo quem batizou o santo, na cidade de Pádua. Como vemos, na cidade de Lisboa, há uma maneira de viver Santo António que pertence ao povo e outra que pertence ao mundo clerical, da Igreja, da cultura.

Faz falta trazer um pouco mais desse conhecimento de Santo António que não está tão enraizado no povo?
Eu acho que o povo ficou esquecido, abandonado, na sua devoção. Parece-me que não há um diálogo mais próximo entre a devoção popular – que é feita de muitas formas, tais como casamentos, tradições, ou a lembrança de recorrer a Santo António quando a pessoa está com algum problema na sua vida –, e tudo aquilo que nós, nestas últimas décadas, conhecemos através dos sermões, onde podemos conhecer mais a sua espiritualidade, a sua riqueza, o mundo em que vivia, a maneira de pregar, de anunciar o Evangelho. Aproveitamos pouco tudo isto para conhecer mais por dentro a figura de Santo António. Há quem diga – e eu concordo – que temos dois Antónios: o António da devoção, do folclore, e o António histórico, doutor da Igreja. Não podemos mantê-los separados.

O caminho de preparação da Jornada Mundial da Juventude poderá ser uma oportunidade para apresentar a vida deste santo aos jovens?
Eu acho que é uma grande oportunidade! Desde que foi anunciada a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, houve vários frades que me interpelaram e a Igreja italiana também se mostrou interessada, através dos responsáveis da pastoral juvenil, junto dos nossos frades, para criar um laboratório sobre Santo António, de forma a preparar os jovens para a Jornada Mundial da Juventude. Depois, com a situação de pandemia, não foi possível organizar um encontro entre representantes dos jovens e dos frades de alguns países da Europa, aqui em Lisboa, para se encontrarem com o nosso Patriarca e os nossos frades e iniciarem esse laboratório. Achei uma ideia muito boa, porque não podemos apresentar António aos jovens do alto para baixo, ou seja, sermos nós a dizer o que representa Santo António para os jovens do nosso tempo. Nós podemos ajudar na leitura histórica, mas precisamos dos jovens para traduzirem a figura de António aos seus colegas. 

 

Leia a entrevista completa na edição do dia 13 de junho do Jornal VOZ DA VERDADE, disponível nas paróquias ou em sua casa.

Patriarcado de Lisboa