17 outubro 2022

EM IGREJA, HUMILDEMENTE

 

 
 
Seria muito mais fácil dizer que assim não pode ser, que é tudo uma vergonha e abandonar, sair, deixar de ser Igreja, do que humildemente envergonhar-me porque alguns, (uma minoria), cometeram actos inomináveis, inclassificáveis, terríveis, de uma dimensão para além de toda a condenação, e manter-me firme percebendo que a Igreja não é do homem, mas de Deus, e que o homem é pecador e muitas vezes se deixa cair no mal.

E então não devo criticar, denunciar, fazer tudo para levar a julgamento aqueles que cometeram tais actos inclassificáveis e aqueles que os acobertaram, para que enfrentem as consequências dos seus actos?

Claro que sim que devem ser levados a julgamento, não só na justiça canónica, mas também na justiça civil, para sofrerem as consequências daquilo que fizeram conscientemente, porque tais actos não podem ser, de modo nenhum, classificados de inconscientes ou passíveis de alguma desculpa seja ela qual for.

E em primeiro lugar, nós Igreja, que nos envergonhamos de tais actos embora não cometidos por nós, devemos ter sempre presente nas nossas orações e preocupações as vítimas, não só na sua vida presente, mas também em tudo aquilo que marca definitiva e indelevelmente as suas vidas também no futuro.

Mas o nosso Deus é um Deus de misericórdia, que à nossa humanidade por vezes até nos parece “exagerada”, mas a verdade é que não há pecado que, perante o arrependimento sincero e propósito de emenda, não seja perdoado
Se assim não fosse não seria Deus, porque então o seu amor teria limites, o que a própria essência de Deus nega.

Devemos também, por isso, rezar pelos prevaricadores, para que tenham consciência dos actos praticados, deles se arrependam verdadeiramente, e se apresentem perante a justiça da Igreja e da sociedade civil, humildemente aceitando as penas a que forem condenados
Rezemos para que sejam eles mesmos a apresentar-se, acusando-se a si próprios, para que a Igreja que um dia disseram querer servir, em Deus, por Deus e com Deus, se continue a mostrar isenta de culpa, que realmente não lhe pertence

E nós Igreja viva, saibamos humildemente reconhecer que alguns que connosco eram Igreja, cometeram tais actos que nos envergonham, mas que sendo nós igreja, continuamos a acreditar e a viver a Fé na Santíssima Trindade, única razão de ser da igreja.

Com serenidade aceitemos até as recriminações e até os insultos que a nós, que nos mantemos fiéis a Cristo, poderão ser feitos, rezando por aqueles que os fazem e sabendo que Deus não faltará àqueles que nEle confiam e esperam.

De coração sangrando, mas cheio de compaixão, mostremos com o nosso testemunho verdadeiro, “que uma árvore não faz a floresta”, e que Deus é infinitamente maior do que o pecado de cada um.

Só em Deus, em Igreja, encontraremos razões e forças para ultrapassar estes terríveis tempos, e só em Deus, em Igreja, encontraremos a paz e a salvação prometidas em Jesus Cristo.



 
Marinha Grande, 17 de Outubro de 2022
Joaquim Mexia Alves

 

16 outubro 2022

O Papa: a oração é o remédio da fé, o reconstituinte da alma

 
 
No Angelus deste domingo (16/10) Francisco sugeriu a "oração constante" para manter a fé: "Pode vir em nosso auxílio, uma prática espiritual sábia, mesmo que hoje seja um pouco esquecida, que OS nossos idosos conhecem bem: as chamadas orações jaculatórias"
 

Jane Nogara - Vatican News

Na oração do Angelus deste domingo (16/10), o Papa Francisco iniciou recordando uma preocupação de Jesus: "Mas quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18,8). Francisco disse que é uma pergunta séria. “Imaginemos que o Senhor venha hoje à Terra. Ele veria, infelizmente, tantas guerras, pobreza e desigualdades”. Mas principalmente perguntou o Papa: “o que ele encontraria em mim, na minha vida, no meu coração? Que prioridades veria?”

Oração constante

O Papa destacou que é importante não negligenciarmos o que mais importa deixando que nosso amor por Deus se esfrie pouco a pouco. E sugeriu:

“Hoje Jesus oferece-nos o remédio para aquecer uma fé ressequida. E qual é? A oração. Sim, a oração é o remédio da fé, o reconstituinte da alma. Porém, deve ser uma oração constante”

Seguidamente disse que a constância significa “nutrir” todos os dias como uma planta, senão a nossa fé pode “entrar em letargo” e secará. E fazendo analogia com a planta disse ainda para dedicarmos tempo a Deus, com orações. Assim Ele pode entrar no nosso tempo; precisamos de momentos constantes nos quais lhe abrimos os nossos corações, para que Ele possa derramar todos os dias sobre nós, amor, paz, alegria, força, esperança; isto é, nutrir a nossa fé. Então o Papa ponderou, que alguns poderiam objetar: "Como faço eu? Não vivo em num convento, não tenho muito tempo para rezar".

Orações Jaculatórias

“Pode vir em nosso auxílio, uma prática espiritual sábia, mesmo que hoje seja um pouco esquecida, que nossos idosos, especialmente as avós, conhecem bem: a das chamadas orações jaculatórias. O nome é um pouco ultrapassado, mas a substância é boa”

E Francisco explicou que “são orações muito curtas, fáceis de memorizar, que podemos repetir com frequência durante o dia, no decorrer das várias atividades, para ficar "em sintonia" com o Senhor. Dando seguidamente alguns exemplos: “Assim que acordamos, podemos dizer: ‘Senhor, eu te agradeço e te ofereço este dia’; depois, antes de uma atividade, podemos repetir: ‘Vem, Espírito Santo’; e entre uma coisa e outra, podemos rezar assim: ‘Jesus, eu confio em ti e amo-te’. Com quanta frequência enviamos ‘pequenas mensagens’ às pessoas que amamos! Façamos isto também com o Senhor, para que os nossos corações permaneçam conetados a Ele”.

E concluindo disse ainda “Não nos esqueçamos de ler as Suas respostas. O Senhor responde sempre. Onde podemos encontrá-las? No Evangelho, que deve estar sempre à mão para ser aberto todos os dias, para receber uma Palavra de vida dirigida a nós”. Por fim disse ainda: "E voltemos ao conselho que já dei muitas vezes: tenham sempre um pequeno Evangelho de bolso convosco, nos vossos bolsos, e assim, quando tiverem um minuto, abram-no e leiam algo, e o Senhor vos responderá".

VN

12 outubro 2022

Papa Francisco: que a luz de Maria dissipe a trevas da guerra

 
 Na Audiência Geral, o Pontífice exortou a voltar o olhar para Maria e a rezar o Terço: "Que a tua vida e as tuas escolhas diárias sejam iluminadas por Cristo 
 

Amedeo Lomonaco – Vatican News

As aparições de Maria em Fátima, Nossa Senhora da Aparecida, Nossa Senhora do Pilar e o mês de outubro dedicado ao Rosário. Nas saudações aos peregrinos, após a catequese da Audiência Geral, a bússola permanente é a Virgem Maria. Na saudação aos fiéis de língua alemã, o horizonte estende-se, em particular, para Fátima:

Que a Bem-aventurada Virgem Maria, cujas aparições em Fátima recordaremos amanhã, seja a nossa guia no caminho da conversão contínua e penitência ao encontro de Cristo, sol da justiça. Que a sua "luz suave" nos liberte de todo o mal e dissipe as trevas deste mundo atormentado pelas guerras.

Nossa Senhora do Pilar e Nossa Senhora Aparecida

Na saudação aos fiéis de língua espanhola, o Papa Francisco recordou que hoje celebra-se Nossa Senhora do Pilar, "Padroeira da Hispanidade". “Que ela interceda por nós junto do seu Filho, para que possamos descobrir o desejo profundo que Ele colocou no nosso coração e nos dê a graça de realizá-lo”. Aos peregrinos que vieram de Portugal, e de outros países de língua portuguesa, especialmente do Brasil, o Papa disse:

Hoje, celebra-se a Senhora da Aparecida com tantos irmãos e irmãs que chegam em peregrinação ao seu Santuário. E ali, junto da Virgem Mãe, rezam o terço e cantam a Nossa Senhora da Aparecida. Rezemos com eles pela paz e peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a assumir o grande desejo do Pai celeste: fazer-nos a todos, participantes, da sua plenitude de vida.

O Rosário

Por fim, na saudação aos fiéis de língua polaca, o convite do Papa a recitar o Terço:

O mês de outubro é dedicado ao Santo Rosário. Ao recitar esta oração, deixa a tua vida e as tuas escolhas quotidianas sejam iluminadas por Cristo, esplendor da Verdade. Meditando nos mistérios da luz, lembra-te de São João Paulo II que quis adicioná-los à contemplação dos outros momentos da vida de Jesus.

Consagração ao Coração de Maria

Em 25 de março, durante a Celebração da Penitência na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco consagrou a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. "Mãe de Deus e nossa, solenemente confiamos e consagramos nós mesmos ao vosso Coração Imaculado, a Igreja e toda a humanidade, especialmente a Rússia e a Ucrânia... Apague o ódio, aplaque a vingança, ensine-nos o perdão", foi a oração do Pontífice: "Livra-nos da guerra, preserva o mundo da ameaça nuclear. Que a guerra cesse, conceda paz ao mundo. Fazei de nós artesãos de comunhão".

VN

Papa: Dialogar com o Senhor para que Ele faça milagres na nossa vida

 
 
Na Praça de São Pedro, Francisco falou do "desejo" como ingrediente indispensável para o discernimento. É no diálogo com Deus que aprendemos a compreender o que verdadeiramente queremos da nossa vida.
 

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

"Senhor, dai-nos o desejo e fazê-lo crescer": na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira, o Papa Francisco deu prosseguimento ao seu ciclo de reflexões sobre o discernimento, acrescentando mais um “ingrediente” indispensável: o desejo. Nas semanas precedentes, o Pontífice discorreu sobre a oração e o conhecimento de si.

Com efeito, o discernimento é uma forma de busca, e a busca deriva sempre de algo que nos falta mas que, de certo modo, conhecemos.

O desejo, todavia, não é a vontade do momento. A palavra italiana vem de um termo latino de-sidus, literalmente “a falta da estrela”, do ponto de referência que orienta o caminho da vida; ela evoca um sofrimento, uma carência e, ao mesmo tempo, uma tensão para alcançar o bem que falta. Então, o desejo é a bússola para compreender onde estou e para onde vou. "Ou melhor, é a bússola para entender se estou parado ou se estou em movimento, uma pessoa que nunca deseja é uma pessoa parada, talvez doente, quase morta." Obstáculos e fracassos não sufocam o desejo; pelo contrário, tornam-no ainda mais vivo em nós.

A época em que vivemos, disse ainda o Papa, parece favorecer a máxima liberdade de escolha, mas ao mesmo tempo atrofia o desejo, reduzido principalmente à vontade do momento. Somos bombardeados por mil propostas, projetos e possibilidades, que correm o risco de nos distrair e de não nos permitir avaliar com calma o que realmente queremos.

Dialogar com o Senhor

Muitas pessoas sofrem porque não sabem o que querem da própria vida; provavelmente nunca entraram em contcto com o seu desejo mais profundo. Daqui deriva o risco de passar a existência entre tentativas e expedientes de vários tipos, sem nunca chegar a lado algum, desperdiçando oportunidades preciosas.

"Dialogando com o Senhor, aprendemos a compreender o que verdadeiramente queremos da nossa vida", disse o Papa, que advertiu quanto ao perigo das lamentações, que travam o desejo.

"Cuidado porque as lamentações são um veneno, um veneno para a alma, um veneno para a vida, porque não deixam crescer o desejo de ir avante. Quando há lamentações na família, entre os cônjuges, os filhos que se lamentam do pai ou os padres do bispo e os bispos de muitas outras coisas... Não, se vocês vivem de lamentações, cuidado. É quase pecado, porque não deixa o desejo crescer."

Outra advertência do Pontífice foi quanto aos jovens que ficam presos no telemóvel, sempre extroversos em direção a outrem. Mas "o desejo não pode crescer assim", preso somente no momento presente.

Eis então o convite do Papa a pedir ao Senhor que nos ajude a conhecer profundamente os nossos desejos e concede-nos a força para os realizar. "É uma graça imensa, na base de todas as outras: permitir que o Senhor, como no Evangelho, faça milagres para nós: Dai-nos o desejo e fá-lo crescer, Senhor."

Afinal, também Ele tem um grande desejo em relação a nós: tornar-nos participantes na sua plenitude de vida.

VN

09 outubro 2022

O Papa na missa de canonização: caminhar juntos, a exclusão dos migrantes é criminosa

     
 
"Os dois Santos canonizados hoje lembra-nos a importância de caminhar juntos e saber agradecer", disse Francisco. João Batista Scalabrini "afirmava que, no caminhar comum daqueles que emigram, é preciso não ver só problemas, mas também um desígnio da Providência. O irmão salesiano Artemides Zatti foi um exemplo vivo de gratidão: curado da tuberculose, dedicou toda a sua vida a favor dos outros, a cuidar com amor e ternura dos doentes". 
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco celebrou a missa de canonização do bispo João Batista Scalabrini e do irmão salesiano Artêmides Zatti, neste domingo (09/10), na Praça São Pedro.

O Papa iniciou a sua homilia com o episódio do Evangelho, da liturgia deste domingo, em que dez leprosos caminham juntos e vão ao encontro de Jesus que os cura, mas somente um deles volta «glorificando a Deus em voz alta» e agradece a Jesus. Era um samaritano, um estrangeiro.

A seguir, Francisco dete-se em dois aspetos dessa passagem do Evangelho: caminhar juntos e agradecer. O Papa ressaltou que "no início da narração, não há nenhuma distinção entre o samaritano e os outros nove. Fala-se simplesmente de dez leprosos, que formam um grupo e, sem divisão, vão ao encontro de Jesus. Como sabemos, a lepra não era apenas uma úlcera física, mas também uma «doença social», porque naquele tempo, por medo do contágio, os leprosos deviam estar fora da comunidade. Não podiam entrar nos centros habitados, mas eram mantidos à distância, relegados às margens da vida social e até religiosa. Caminhando juntos, estes leprosos clamam contra uma sociedade que os exclui. O samaritano, apesar de ser considerado herético, «estrangeiro», faz grupo com os outros. A doença e a fragilidade comuns fazem cair as barreiras e superar toda a exclusão, como nos recordou na primeira Leitura, Naaman, o sírio, que apesar de ser rico e poderoso, para se curar teve de mergulhar no rio onde se banhavam todos os outros".

Tirar as nossas armaduras exteriores

Como nos faz bem tirar as nossas armaduras exteriores, as nossas barreiras defensivas e tomar um bom banho de humildade, recordando-nos de que todos somos frágeis por dentro e necessitados de cura, tod rumo a Deus e aos irmãos, sem nunca nos fecharmos em nós mesmos; pede-nos sempre para nos reconhecermos necessitados de cura e perdão, e partilharmos as fragilidades de quem vive ao nosso redor, sem nos sentirmos superiores.

O Papa convidou-nos a verificar se, "na nossa vida, nas nossas famílias, nos nossos lugares de trabalho e de convivência diária, somos capazes de caminhar junto com os outros, ouvir, superar a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e pensarmos só nas nossas necessidades".

Caminhar juntos é a vocação da Igreja

"Mas caminhar juntos", disse ainda o Pontífice, "ser «sinodais», é também a vocação da Igreja".

Perguntemo-nos até que ponto somos realmente comunidades abertas e inclusivas em relação a todos; se conseguimos trabalhar juntos, padres e leigos, ao serviço do Evangelho; se temos uma atitude acolhedora – feita não só de palavras, mas de gestos concretos – tanto para com os distantes como para com todos os que se aproximam de nós, sentindo-se inábdeis devido aos seus percursos de vida conturbada. Fazemo-los sentir parte da comunidade, ou excluímo-los?

Francisco disse ter medo, quando vê "comunidades cristãs que dividem o mundo em bons e maus, em santos e pecadores". Com isto, "acaba-se por se sentirem melhor que os outros e manter de fora muitos que Deus quer abraçar". O Papa disse que é importante "incluir sempre tanto na Igreja como na sociedade, ainda caracterizada por tantas desigualdades e marginalizações. Incluir todos".

A exclusão dos migrantes é escandalosa

Hoje, no dia em que Scalabrini torna-se santo, gostaria de pensar nos migrantes. A exclusão dos migrantes é escandalosa. Aliás, a exclusão dos migrantes é criminosa, faz com que morram diante de nós. E assim, hoje temos o Mediterrâneo que é o maior cemitério do mundo. A exclusão dos migrantes é nojenta, é pecaminosa, é criminosa. Não abrir as portas para quem precisa... "Não os excluímos, os mandamos embora", para os campos de concentração, onde são explorados e vendidos como escravos. Irmãos e irmãs, hoje pensamos nos nossos migrantes, aqueles que morrem e aqueles que são capazes de entrar. Nós os recebemos como irmãos ou exploram-los? Deixo esta pergunta.

A seguir, o Papa se deteve-se no aspeto: agradecer. "No grupo dos dez leprosos, há apenas um que, ao ver-se curado, regressa para louvar a Deus e manifestar a sua gratidão a Jesus. Enquanto os outros nove ficam purificados, mas prosseguem pelo seu caminho, esquecendo-se d’Aquele que os curou. O samaritano faz do dom recebido o princípio de um novo caminho: regressa para junto de Quem o sarou, vai conhecer Jesus de perto, inicia uma relação com Ele. Assim, a sua atitude de gratidão não é um simples gesto de cortesia, mas o início de um percurso de gratidão: prostra-se aos pés de Cristo, isto é, faz um gesto de adoração, reconhecendo que Jesus é o Senhor e que é mais importante do que a cura recebida".

É fundamental saber agradecer

Esta é uma grande lição também para nós, que todos os dias beneficiamos dos dons de Deus, mas frequentemente prosseguimos pela nossa estrada esquecendo de cultivar uma relação viva com Ele. Trata-se de uma grave doença espiritual: dar tudo como garantido, inclusive a fé, mesmo a nossa relação com Deus, ao ponto de nos tornarmos cristãos que deixaram de se maravilhar, já não sabem dizer «obrigado», não se mostram agradecidos, não sabem ver as maravilhas do Senhor. E acaba-se, assim, por pensar que tudo o que recebemos diariamente seja óbvio e devido. Ao contrário, a gratidão, o saber dizer «obrigado» leva-nos a afirmar a presença de Deus-amor e também a reconhecer a importância dos outros, vencendo o descontentamento e a indiferença que nos embrutecem o coração.

"É fundamental saber agradecer", reiterou o Papa. "Devemos diariamente dar graças ao Senhor, saber em cada dia agradecer uns aos outros: na família, por aquelas pequenas coisas que às vezes recebemos sem nos perguntar sequer de onde vêm; nos locais que frequentamos quotidianamente, pelos inúmeros serviços de que usufruímos e pelas pessoas que nos apoiam; nas nossas comunidades cristãs, pelo amor de Deus que experimentamos através da proximidade de irmãos e irmãs que muitas vezes em silêncio rezam, oferecem, sofrem, caminham conosco. Por favor, não esqueçamos esta palavra-chave: obrigado", sublinhou Francisco.

A migração de ucranianos que fogem da guerra

Os dois Santos, canonizados hoje, lembram-nos a importância de caminhar juntos e saber agradecer. O Bispo Scalabrini, que fundou uma Congregação para o cuidado dos migrantes, aliás, duas: uma masculina e outra feminina, afirmava que, no caminhar comum daqueles que emigram, é preciso não ver só problemas, mas também um desígnio da Providência. Há uma migração, neste momento, aqui na Europa, que nos faz sofrer muito e nos leva a abrir os nossos corações: a migração de ucranianos que fogem da guerra. Não nos esqueçamos hoje da martirizada Ucrânia. Scalabrini olhava mais além, olhava adiante, para um mundo e uma Igreja sem barreiras, sem estrangeiros. Por sua vez, o irmão salesiano Artêmides Zatti foi um exemplo vivo de gratidão: curado da tuberculose, dedicou toda a sua vida a favor dos outros, a cuidar com amor e ternura dos doentes. Conta-se que o viram carregar aos ombros o corpo morto de um dos seus doentes. Cheio de gratidão por tudo o que tinha recebido, quis dizer o seu «obrigado» ocupando-se das feridas dos outros.

O Papa concluiu, convidando a rezar "para que estes nossos santos irmãos nos ajudem a caminhar juntos, sem muros de divisão; e a cultivar esta nobreza de alma tão agradável a Deus que é a gratidão".

VN

05 outubro 2022

O Papa: conhecermo-nos e reconhecer o que é realmente importante para nós

 
Francisco disse na Audiência Geral que "muitas vezes o que é dito num programa na televisão, em algumas propagandas que são feitas, toca o nosso coração e faz-nos ir para aquela direção sem liberdade". "Tenham cuidado com isto", advertiu o Papa.
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre o discernimento, na Audiência Geral desta quarta-feira (05/10). O tema do encontro semanal do Pontífice com os fiéis, na Praça de São Pedro, foi "Os elementos do discernimento. Conhecer a si mesmo".

Na catequese da semana passada, Francisco sublinhou a oração como "um elemento indispensável do discernimento, entendida como familiaridade e confidência com Deus. A oração com o coração aberto", sublinhou o Papa. No encontro de hoje, o Papa ressaltou "que o bom discernimento exige também o conhecimento denós mesmos". O discernimento envolve "memória, intelecto, vontade, afetos". "Muitas vezes não sabemos discernir porque não nos conhecemos bem, e assim não sabemos o que realmente queremos", sublinhou.

A seguir, Francisco citou um autor de espiritualidade que diz: «Cheguei à convicção de que o maior obstáculo para o verdadeiro discernimento (e para o verdadeiro crescimento na oração) não é a natureza intangível de Deus, mas a constatação de que não nos conhecemos suficientemente, e nem sequer queremos conhecer-nos como verdadeiramente somos. Quase todos nós escondem-mo-nos por trás de uma máscara, não só perante os outros, mas também quando nos olhamos no espelho».

“Desativar o piloto automático”

Segundo Francisco, conhecer-mo-nos "implica um paciente trabalho de escavação interior. Requer a capacidade de parar, de “desativar o piloto automático”, de tomar consciência da nossa maneira de agir, dos sentimentos que nos habitam, dos pensamentos recorrentes que nos condicionam, muitas vezes sem que saibamos.

Também requer distinguir entre emoções e faculdades espirituais. “Sinto” não é a mesma coisa que “estou convencido”; “eu gostaria de” não é a mesma coisa que “eu quero”. Assim chegamos a reconhecer que a visão que temos de nós mesmos e da realidade é às vezes um pouco deturpada. Compreender isto é uma graça! Com efeito, muitas vezes pode acontecer que convicções erradas sobre a realidade, baseadas nas experiências do passado, influenciam-nos fortemente, limitando a nossa liberdade de apostar naquilo que realmente conta na nossa vida".

Vivendo na era da informática, sabemos como é importante conhecer as senhas para poder entrar nos programas em que se encontram as informações pessoais e preciosas. Até a vida espiritual tem as suas “senhas”: há palavras que tocam o coração, porque remetem para aquilo a que somos mais sensíveis. O tentador conhece bem estas palavras-chave, e é importante que também nós as conheçamos, para não nos encontrarmos onde não gostaríamos.

Conhecer as senhas do nosso coração

Segundo o Papa, "a tentação não sugere necessariamente coisas más, mas muitas vezes coisas desordenadas, apresentadas com uma importância excessiva. Deste modo, hipnotiza-nos com a atratividade que tais coisas suscitam em nós, coisas bonitas, mas ilusórias, que não podem cumprir o que prometem, deixando-nos no final com uma sensação de vazio e de tristeza. A sensação de vazio e tristeza é um sinal de que tomamos uma estrada que não era certa, que nos desorientou". As coisas desordenadas "podem ser o título de estudos, a carreira, os relacionamentos, tudo em si louvável, mas se não formos livres, corremos o risco de nutrir expetativas irreais, como por exemplo, a confirmação do nosso valor. Por exemplo, quando pensas num estudo que estás a fazer, pensas nele somente para te promoveres, para teu próprio interesse, ou também para servir a comunidade? Assim, é possível ver qual é a intencionalidade de cada um de nós. Deste mal-entendido muitas vezes vem os maiores sofrimentos, pois nada disto pode ser a garantia da nossa dignidade", sublinhou Francisco.

Por isso, queridos irmãos e irmãs é importante conhecer-mo-nos, conhecer as senhas do nosso coração, aquilo a que somos mais sensíveis, para nos proteger de quem se apresenta com palavras persuasivas para nos manipular, mas também para reconhecer o que é realmente importante para nós, distinguindo-o das modas do momento ou de slogans vistosos e superficiais. Muitas vezes o que é dito num programa na televisão, em algumas propagandas que são feitas, toca o nosso coração e faz-nos ir para aquela direção sem liberdade. Tenham cuidado com isto: sou livre ou deixo-me levar pelos sentimentos do momento, ou pelas provocações do momento?

O exame de consciência ajuda muito

O Papa ressaltou que "uma ajuda para isto é o exame de consciência, ou seja, um exame de consciência geral do dia. O que aconteceu no meu coração neste dia? Fazer um exame de consciência, ou seja, o bom hábito de reler com calma o que aconteceu no nosso dia, aprendendo a observar nas avaliações e escolhas aquilo a que damos mais importância, o que procuramos e porquê, e o que afinal encontramos. Aprender sobretudo a reconhecer o que sacia o meu coração. Pois somente o Senhor pode-nos dar a confirmação de quanto valemos. Ele diz-nos isto todos os dias a partir da cruz: morreu por nós, para nos mostrar o quão preciosos somos aos seus olhos. Não há obstáculo nem fracasso que possa impedir o seu terno abraço.

O exame de consciência ajuda muito, pois assim vemos que o nosso coração não é uma estrada onde passa de tudo e não sabemos. Não. Ver: o que passou hoje? O que aconteceu? O que me fez reagir? O que me deixou triste? O que me deixou alegre? O que foi mau? Fiz mal aos outros? Ver o percurso dos sentimentos, das atrações no meu coração durante o dia.

"A oração e o conhecimento de nós mesmos permitem-nos crescer na liberdade. São elementos básicos da existência cristã, elementos preciosos para encontrar o próprio lugar na vida", concluiu o Papa.

VN

02 outubro 2022

Papa: Putin pare a guerra. Zelensky esteja aberto a sérias propostas de paz

 
 
Francisco, preocupado com a ameaça nuclear e a escalada militar do conflito na Ucrânia, dedica todo o Angelus a um forte apelo por um cessar-fogo. Lamenta as anexações, recomenda o respeito à integridade territorial de cada país e aos direitos das minorias. A dor pelas milhares de vítimas, "particularmente entre as crianças".
 

Vatican News

Tradução integral do apelo do Papa Francisco a Putin e a Zelenski pelo fim da guerra:

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O andamento da guerra na Ucrânia tornou-sr tão sério, devastador e ameaçador, ao ponto de causar grande preocupação. Por isso, hoje eu gostaria de dedicar toda a reflexão a vós antes do Angelus. De facto, esta terrível e inconcebível ferida da humanidade, em vez de sarar, continua a sangrar cada vez mais, correndo o risco de se espalhar.

Afligem-me os rios de sangue e de lágrimas derramados nestes meses. Entristece-mr as milhares de vítimas, particularmente entre crianças, e as muitas destruições, que deixaram muitas pessoas e famílias sem casa e ameaçam com o frio e a fome vastos territórios. Certas ações jamais podem ser justificadas, jamais! É angustiante que o mundo esteja a aprender a geografia da Ucrânia através de nomes como Bucha, Irpin, Mariupol, Izium, Zaporizhzhia e outras localidades, que se tornaram lugares de sofrimento e medo indescritíveis. E o que dizer do facto de que a humanidade se encontra novamente diante da ameaça atómica? É um absurdo.

O que ainda deve acontecer? Quanto sangue ainda deve correr para que possamos entender que a guerra nunca é uma solução, mas só destruição? Em nome de Deus e em nome do senso de humanidade que habita em cada coração, renovo o meu apelo para que se alcance um cessar-fogo imediato. Que as armas se calem e se busquem as condições para iniciar negociações capazes de conduzir a soluções que não sejam impostas pela força, mas acordadas, justas e estáveis. E assim serão se estiverem baseadas no respeito do valor sacrossanto da vida humana, bem como da soberania e da integridade territorial de cada país, assim como dos direitos das minorias e das preocupações legítimas.

Lamento profundamente a grave situação criada nos últimos dias, com novas ações contrárias aos princípios do direito internacional. Isso, de facto, aumenta o risco de uma escalada nuclear ao ponto de temer consequências incontroláveis e catastróficas a nível mundial.

O meu apelo é dirigido, em primeiro lugar, ao Presidente da Federação Russa, suplicando-lhe para parar, também pelo amor do seu povo, esta espiral de violência e de morte. Da outra parte, entristecido com o imenso sofrimento do povo ucraniano após a agressão sofrida, dirijo um apelo igualmente confiante ao Presidente da Ucrânia para ser aberto a propostas sérias de paz. A todos os protagonistas da vida internacional e aos líderes políticos das Nações, peço, com insistência, para fazer tudo o que estiver ao vosso alcance para pôr fim à guerra em curso, sem se deixarem envolver em escaladas perigosas, e a promover e apoiar iniciativas de diálogo. Por favor, deixemos as jovens gerações respirar o ar saudável da paz, não aquele poluído da guerra, que é uma loucura!

Após sete meses de hostilidades, sejam usados todos os meios diplomáticos, mesmo aqueles que até agora eventualmente não foram utilizados, para pôr um fim a esta terrível tragédia. A guerra em si é um erro e um horror!

Confiemos na misericórdia de Deus, que pode mudar os corações, e na intercessão materna da Rainha da Paz, no momento em que se eleva a Súplica a Nossa Senhora do Rosário de Pompeia, espiritualmente unidos aos fiéis reunidos no seu Santuário e em tantas partes do mundo.

Papa Francisco

 


VN

28 setembro 2022

O Papa: ter intimidade com Jesus. Falar com Ele como a um amigo

 
 O Papa Francisco durante a Audiência Geral desta quartas feira (Vatican Media) 
 
Continuando as suas catequeses sobre o discernimento, na Audiência Geral, o Papa Francisco disse que "a oração é uma ajuda indispensável para o discernimento espiritual, sobretudo quando envolve os afetos, permitindo dirigir-nos a Deus com simplicidade e familiaridade, como se fala com um amigo. A oração verdadeira é familiaridade e confidência com Deus. Não é recitar uma oração como um papagaio, blá blá, não. A verdadeira oração é essa espontaneidade e afeto ao Senhor". 
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

"Os elementos do discernimento. A familiaridade com o Senhor" foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral, desta quarta-feira (28/09), realizada na Praça de São Pedro. Prosseguindo as catequeses sobre o discernimento, o Santo Padre deteve-se no primeiro dos seus elementos constitutivos: a oração.

Familiaridade e confidência com Deus

A oração é uma ajuda indispensável para o discernimento espiritual, sobretudo quando envolve os afetos, permitindo dirigir-nos a Deus com simplicidade e familiaridade, como quando se fala com um amigo. É saber ir além dos pensamentos, entrar em intimidade com o Senhor, com uma espontaneidade afetuosa. O segredo da vida dos santos é a familiaridade e a confiança em Deus, que cresce neles e torna cada vez mais fácil reconhecer o que lhe agrada. A oração verdadeira é familiaridade e confidência com Deus. Não é recitar uma oração como um papagaio, blá blá, não. A verdadeira oração é essa espontaneidade e afeto ao Senhor. Esta familiaridade supera o medo ou a dúvida de que a sua vontade não é para o nosso bem, uma tentação que às vezes atravessa os nossos pensamentos, tornando o coração inquieto e incerto ou amargo também.

O Papa disse ainda que "o sinal de um encontro com o Senhor é a alegria". Quando eu faço uma oração, [...] encontro o Senhor e torno-me alegre. Cada um de nós torn-se alegre, uma coisa linda. Por outro lado, a tristeza ou o medo são sinais de distância de Deus: «Se quiseres entrar na vida, observa os mandamentos», diz Jesus ao jovem rico.

Esse jovem "tinha tomado a iniciativa de se encontrar com Jesus, mas vivia também muito dividido nos afetos; para ele as riquezas eram demasiado importantes. Jesus não o obriga a decidir, mas o texto observa que o jovem afasta-se de Jesus «triste». Quem se afasta do Senhor nunca se sente satisfeito, mesmo que tenha à sua disposição uma grande abundância de bens e possibilidades".

Discernir não é fácil

"Discernir não é fácil, porque as aparências enganam, mas a familiaridade com Deus pode dissipar delicadamente dúvidas e medos, tornando a nossa vida cada vez mais recetiva à sua «luz suave», de acordo com a bonita expressão do Beato John Henry Newman", sublinhou Francisco.

O Papa frisou que "os santos brilham com luz refletida, mostrando nos gestos simples do seu dia a presença amorosa de Deus, que torna possível o impossível. Diz-se que dois cônjuges que viveram juntos durante muito tempo, amando-se, acabam por se assemelharem um ao outro".

Algo análogo pode-se dizer da oração afetiva: de modo gradual, mas eficaz, torna-nos cada vez mais capazes de reconhecer o que conta por conaturalidade, como algo que brota das profundezas do nosso ser. Estar em oração não significa dizer palavras, palavras, não: estar em oração, abrir o coração a Jesus, aproximar-me de Jesus, deixar que Jesus entre no meu coração e me faça sentir a sua presença. E ali podemos discernir quando é Jesus e quando estamos com os nossos pensamentos, muitas vezes longe do que Jesus quer.

Rezar a oração do "oi"

Francisco convidou a pedir a graça de "viver uma relação de amizade com o Senhor, como um amigo fala com um amigo", e contou um caso sobre "um irmão religioso idoso que era porteiro de um colégio e sempre que podia aproximava-se da capela, olhava para o altar e dizia: 'Oi', porque tinha proximidade a Jesus. 'Oi, estou perto de Ti e Tu está perto de mim'." Segundo o Papa, "esta é a relação que devemos ter na oração: proximidade, proximidade afetiva, como irmãos, proximidade a Jesus. Um sorriso, um gesto simples e não dizer palavras que não chegam ao coração. Falar com Jesus como um amigo fala com outro amigo".

É uma graça que devemos pedir uns para os outros: ver Jesus como o nosso maior e fiel Amigo, que não chantageia, sobretudo que nunca nos abandona, nem sequer quando nos afastamos d'Ele. Ele permanece na porta do coração. Ele permanece em silêncio, permanece ao alcance do coração porque Ele é sempre fiel. Vamos em frente com esta oração. Digamos a oração do "oi", a oração para cumprimentar o Senhor com o coração, a oração de afeto, a oração de proximidade, com poucas palavras, mas com gestos e com boas obras.

VN

25 setembro 2022

Mianmar, Ucrânia e Camarões nas orações do Papa

 
 
Desde o início da guerra, Francisco fala com frequência sobre a martirizada população ucraniana. Neste domingo, acrescentou dois apelos por Mianmar e Camarões.
 

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

No final da missa celebrada em Matera, por ocasião do encerramento do Congresso Eucarístico nacional, o Papa rezou o Angelus com os fiéis presentes no estádio municipal da cidade. Antes da oração mariana, agradeceu pelo acolhimento recebido e a todos que organizaram e participaram do evento.

À Virgem Maria, Mulher eucarística, o Pontífice confiou o caminho da Igreja em Itália e invocou a sua materna intercessão pelos necessitados mais urgentes do mundo. De modo especial, citou Mianmar, Ucrânia e Camarões:

A respeito de Mianmar, recordou que há mais de dois anos o país sofre com graves confrontos armados e violências, que causaram muitas vítimas e deslocados. "Esta semana, chegou-me o grito de dor pela morte de crianças numa escola bombardeada. Parece que virou moda atacar escolas. Que o grito destes pequenos não permaneça inaudito! Estas tragédias não devem acontecer!", exortou.

Desde o início da guerra, a Ucrânia é lembrada sempre pelo Papa: "Maria, Rainha da Paz, conforte o povo ucraniano e obtenha aos líderes das Nações a força de vontade para encontrar imediatamente iniciativas eficazes que conduzam ao fim da guerra".

Por fim, Francisco uniu-se ao apelo dos Bispos de Camarões pela libertação de oito pessoas sequestradas na Diocese de Mamfe, entre os quais cinco sacerdotes e uma religiosa. "Rezo por eles e pelas populações da província eclesiástica de Bamenda: o Senhor doe paz aos corações e à vida social daquele querido país."

VN

Papa na cidade de Matera: quem adora a Deus não é escravo de ninguém

 
 Papa encerrou em Matera o Congresso Eucarístico Nacional 
 
Francisco encerrou o Congresso Eucarístico Nacional em Matera com a celebração da missa e a participação de milhares de fiéis. Comentando a parábola do pobre Lázaro, o Pontífice advertiu para a "religião do ter e do aparecer": "Só o Senhor é Deus e todo o resto é dom do seu amor".
 

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

Na manhã deste domingo, o Papa Francisco foi à cidade de Matera, na região da Basilicata (sul da Itália), encerrar o 27º Congresso Eucarístico Nacional, que teve como tema "Voltemos ao sabor do pão - Por uma Igreja eucarística e sinodal".

A missa foi celebrada no Estádio Municipal “XXI de setembro”, com a participação de cerca de 12 mil fiéis, e a homilia do Pontífice foi centralizada no tema da Eucaristia de acordo com o Evangelho de hoje: a parábola do rico e do pobre Lázaro.

A primazia de Deus na Eucaristia

De um lado, a opulência e a ostentação da riqueza; do outro, um pobre que jaz à porta à espera de um miolo de pão para matar a sua fome. Para o Papa, esta contradição recorda-nos a primazia de Deus presente na Eucaristia.

O rico não está aberto à relação com Deus porque pensa somente em satisfazer as suas necessidades. Não tem um nome, só um adjetivo – rico – porque a identidade é dada pelos bens que possui. “Como é triste também hoje esta realidade, quando confundimos o que somos com o que temos”, afirmou Francisco.

“É a religião do ter e do aparecer, que com frequência domina o cenário deste mundo, mas no final deixa-nos com as mãos vazias.”

Ao contrário, o pobre tem um nome, Lázaro, que significa “Deus ajuda”, e mesmo na sua condição de pobreza, pode manter íntegra a sua dignidade porque vive na relação com Deus.

Eis, portanto, o desafio que a Eucaristia oferece à nossa vida: adorar a Deus e não a nós mesmos. Colocar Ele no centro e não a própria vaidade. Recordar que só o Senhor é Deus e todo o resto é dom do seu amor.

“Recordemo-nos disto: quem adora a Deus não se torna escravo de ninguém. É livre!”

Porque quando adoramos Jesus presente na Eucaristia recebemos um olhar novo sobre a nossa vida e o valor da vida não depende daquilo que consigo exibir. Sou um filho amado, abençoado por Deus. O Papa então convida a redescobrir a oração de adoração, pois esta liberta e restitui a a nossa dignidade de filhos.

Eucaristia, sacramento do amor

Mas além da primazia de Deus, a Eucaristia chama-noa ao amor dos irmãos. “Este Pão é, por excelência, o Sacramento do amor.” É Cristo que se oferece e se parte por nós e pede que façamos o mesmo com os irmãos.

O rico do Evangelho não cumpre esta tarefa. Só no fim da vida, quando o Senhor inverte as sortes, é que ele se dá conta de Lázaro, mas Abraão diz-he:  “há um grande abismo entre nós”. E foi o rico quem escavou este abismo durante a vida terrena e que permanece na vida eterna.

“O nosso futuro eterno depende desta vida presente”, advertiu Francisco, e é doloroso ver que esta parábola ainda se manifesta nos dias de hoje através das injustiças, das disparidades, da distribuição desigual dos recursos da terra, dos abusos dos poderosos contra os mais fracos. Todos os dias se escava um abismo que gera marginalização e que não nos pode deixar indiferentes.

“E hoje, então, juntos reconheçamos que a Eucaristia é profecia de um novo mundo, é a presença de Jesus que pede para nos comprometermos para que se realize uma efetiva conversão: da indiferença à compaixão, do desperdício à compartilha, do egoísmo ao amor, do individualismo à fraternidade.”

O sonho de uma Igreja eucarística

Assim sonhamos a Igreja, acrescentou o Papa: eucarística. Feita de mulheres e homens que se oferecem como pão para quem vive na solidão e na pobreza. Uma Igreja que se ajoelha diante da Eucaristia, mas sabe também curvar-se com compaixão diante das feridas de quem sofre. “Porque não existe um verdadeiro culto eucarístico sem compaixão pelos muitos ‘Lázaros’ que também hoje caminham ao nosso lado.”

Francisco conclui repetindo o tema do Congresso Eucarístico: Voltemos ao sabor do pão, porque só Jesus sacia a nossa fome e pode curar as injustiças que ainda se consomem no mundo.

“Voltemos a Jesus, adoremos Jesus, acolhamos Jesus. Porque Ele vence a morte e renova sempre a nossa vida.”

VN

21 setembro 2022

O Papa: Cazaquistão, um país exemplo de civilização e coragem

 
 
A catequese do Papa Francisco na Audiência Geral, realizada na Praça São Pedro, foi dedicada à sua viagem ao Cazaquistão de 13 a 15 deste mês. O Papa destacou a vocação daquele país a ser um defensor da paz e da fraternidade no mundo e evidenciou as escolhas positivas feitas, como a recusa das armas nucleares. 
 

Vatican News

A viagem apostólica ao Cazaquistão foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (23/09), realizada na Praça São Pedro.

A viagem do Pontífice a esse "vasto país da Ásia Central", realizou-se de 13 a 15 deste mês, "por ocasião do sétimo Congresso dos Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais".   

Escutar e respeitar  

"A principal razão da viagem foi a participação no Congresso dos Líderes das religiões mundiais e tradicionais. Esta iniciativa realiza-se há vinte anos pelas Autoridades do país, que se apresenta ao mundo como lugar de encontro e de diálogo, neste caso a nível religioso e, portanto, como protagonista na promoção da paz e da fraternidade humana", frisou o Papa, ressaltando a importância de "colocar as religiões no centro do compromisso para a construção de um mundo onde nos escutamos e nos respeitamos na diversidade. Isto não é relativismo. É escutar e respeitar".     

O Papa recordou que "o Congresso debateu e aprovou a Declaração final, que se põe em continuidade com a que foi assinada em Abu Dhabi, em fevereiro de 2019, sobre a fraternidade humana.

Apraz-me interpretar este passo adiante como fruto de um percurso que vem de longe: naturalmente, penso no histórico Encontro inter-religioso a favor da paz, convocado por São João Paulo II em Assis, em 1986; muito criticado por pessoas que não tinham visão de futuro; penso no olhar clarividente de São João XXIII e de São Paulo VI; e também no das grandes almas de outras religiões - menciono apenas Mahatma Gandhi. Mas como deixar de recordar tantos mártires, homens e mulheres de todas as idades, línguas e nações, que pagaram com a vida a fidelidade ao Deus da paz e da fraternidade? Sabemos que os momentos solenes são importantes, mas depois é o compromisso diário, é o testemunho concreto que constrói um mundo melhor para todos.

Vocação do Cazaquistão a ser país do encontro

Além do Congresso, esta viagem deu ao Papa a oportunidade de se encontrar com as Autoridades do Cazaquistão e com a Igreja que vive naquela terra. "Depois de visitar o Senhor Presidente da República - a quem agradeço mais uma vez a gentileza - fomos à nova Sala de Concertos, onde pude falar com os Governantes, representantes da sociedade civil e o Corpo Diplomático", disse Francisco, acrescentando:

Sublinhei a vocação do Cazaquistão a ser país do encontro: com efeito, nele convivem cerca de cento e cinquenta grupos étnicos e falam-se mais de oitenta línguas. Esta vocação, que se deve às suas caraterísticas geográficas e à sua história foi acolhida e abraçada como um caminho, que merece ser encorajado e apoiado. Também formulei votos para que ela possa prosseguir a construção de uma democracia cada vez mais madura, capaz de responder eficazmente às necessidades da sociedade como um todo. É uma tarefa árdua, que leva tempo, mas já se deve reconhecer que o Cazaquistão fez escolhas muito positivas, como a de dizer “não” às armas nucleares e a de boas políticas energéticas e ambientais. Isso foi corajoso. Num momento em que esta trágica guerra nos faz ver que alguns pensam em armas nucleares, nessa loucura, este país desde o início diz "não" às armas nucleares.

A Cruz de Cristo permanece a âncora da salvação

O Papa recordou que os católicos são poucos no Cazaquistão, "mas esta condição, se for vivida com fé, pode trazer frutos evangélicos: primeiramente, a bem-aventurança da pequenez, de ser fermento, sal e luz, confiando unicamente no Senhor e não em alguma forma de importância humana". Segundo o Papa, "a escassez numérica convida a desenvolver relações com cristãos de outras denominações, e também a fraternidade com todos". "Portanto, pequeno rebanho, sim, mas aberto, não fechado, não defensivo, aberto e confiante na ação do Espírito Santo, que sopra livremente onde e como quer. Recordamos os mártires daquele Povo santo de Deus, porque sofreu décadas de opressão ateísta, homens e mulheres que sofreram tanto pela fé durante o longo período de perseguição. Foram assassinados, torturados, encarcerados por causa da fé ", disse ele.

Francisco recordou ainda a celebração Eucarística celebrada, em Nur-Sultan, na Praça da Expo de 2017, na Festa da Exaltação da Santa Cruz.

Isto faz-nos refletir: num mundo em que o progresso e o retrocesso se entrelaçam, a Cruz de Cristo permanece a âncora da salvação: sinal da esperança que não desilude porque está fundada no amor de Deus, misericordioso e fiel. A Ele dirige-se a nossa ação de graças por esta viagem, e a nossa oração a fim de que seja rica de frutos para o futuro do Cazaquistão e para a vida da Igreja peregrina naquela terra.

VN

18 setembro 2022

O Papa: o amor expressa-se por meio de ações de partilha

 Kiev, bombardeamento russo em Stoviansk (ANSA) 
 
No pós Angelus deste domingo, 18 de setembro, a dor do Santo Padre pela retomada dos combates entre o Azerbaijão e a Arménia, no Cáucaso. Francisco lembra que a paz é possível quando as armas se calam e o diálogo tem início. Ainda, a exortação a rezar pela Ucrânia e por toda a terra ensanguentada pela guerra. A oração e solidariedade do Santo Padre pelas populações da região italiana das Marcas, atingidas por violenta inundação
 

Raimundo de Lima – Vatican News

Após a oração do Angelus com os fiéis e peregrinos na Praça São Pedro neste XXV Domingo do Tempo Comum, o Papa Francisco manifestou mais uma vez a sua tristeza pelos combates entre o Azerbaijão e a Arménia, na região do Cáucaso, e exortou a rezar não somente pelo povo atormentado da Ucrânia, mas também pela paz em toda terra ensanguentada pela guerra:

"Sinto-me entristecido com os recentes combates entre o Azerbaijão e a Arménia. Manifesto a minha proximidade espiritual às famílias das vítimas e exorto as partes a respeitarem o cessar-fogo, com vista a um acordo de paz. Não esqueçamos: a paz é possível quando as armas são silenciadas e o diálogo tem início! E continuemos a rezar pelo atormentado povo ucraniano e pela paz em toda terra ensanguentada pela guerra."

A proximidade do Papa às vítimas da enchente nas Marcas 

Francisco voltou seu olhar também para a região italiana das Marcas, atingida nestes dias por uma trágica enchente que já provocou onze mortos e danos ingentes:

"Gostaria de assegurar as minhas orações pelo povo das Marcas atingido por uma violenta inundação. Rezo pelos mortos e as suas famílias, pelos feridos e por aqueles que sofreram danos graves. Que o Senhor dê força a essas comunidades!

VN

O Papa: devemos usar os bens deste mundo para cuidar dos mais fracos

 

"Para herdar a vida eterna não é necessário acumular os bens deste mundo, mas o que conta é a caridade que teremos vivido nas nossas relações fraternas. Eis então o convite de Jesus: não usai os bens deste mundo somente para vós mesmos e o vosso egoísmo, mas servi-vos deles para gerar amizades, para criar boas relações, para agir em caridade, para promover a fraternidade e para exercer o cuidado com os mais fracos": disse o Papa no Angelus deste XXV Domingo do Tempo Comum

"Somos chamados a ser criativos em fazer o bem, com a prudência e a astúcia do Evangelho, usando os bens deste mundo - não apenas os bens materiais, mas todos os dons que recebemos do Senhor - não para nos enriquecer, mas para gerar amor fraterno e amizade social."

Foi o que disse o Papa no Angelus, ao meio-dia deste domingo, 18 de setembro, XXV Domingo do Tempo Comum. Na alocução que precedeu a oração mariana, Francisco ateve-se à página do Evangelho do dia (Lc 16,1-13), que traz a parábola do administrador infiel, uma parábola um pouco difícil de entender, disse o Santo Padre.

Jesus conta uma história de corrupção: um administrador desonesto, que rouba e depois, descoberto pelo seu senhor, age com astúcia para sair dessa situação. Nós nos perguntamos: em que consiste essa esperteza e o que quer Jesus dizer-nos?

 Angelus de 18.09.22 (Vatican Media )

Os filhos deste mundo são mais espertos que os filhos da luz

Pela história, continua o Papa, vemos que este administrador acaba em apuros porque aproveitou-se dos bens do seu senhor; agora ele terá que prestar contas e perderá o seu emprego. Mas ele não desiste, não se resigna ao seu destino e não se faz de vítima; pelo contrário, age imediatamente com astúcia, procura uma solução, é audacioso. Jesus parte desta história para nos lançar uma primeira provocação:

"Os filhos deste mundo - diz ele - para com os seus iguais são mais espertos do que os filhos da luz." Ou seja, acontece que aqueles que se movem na escuridão, de acordo com certos critérios mundanos, sabem como sair dos problemas, sabem ser mais espertos que os outros; por outro lado, os discípulos de Jesus, isto é, nós, às vezes estamos a dormir, ou somos ingénuos, não sabemos como tomar a iniciativa para procurar sair das dificuldades. Penso em momentos de crise pessoal, social, mas também eclesial: às vezes deixamo-nos vencer pelo desânimo, ou caímos em lamentações e vitimizações.

 

 Angelus de 18.09.22 (Vatican Media) 
 

Também nós podemos ser sagazes segundo o Evangelho

Em vez disso - diz Jesus -, também poderíamos ser sagazes segundo o Evangelho, estar acordados e atentos para discernir a realidade, ser criativos para procurar boas soluções, para nós mesmos e para os outros.

Francisco precisou que há também outro ensinamento que Jesus nos oferece. Pois, em que consiste a esperteza do administrador? Ele decide dar um desconto para aqueles que estão endividados, e assim faz amizade com eles, esperando que sejam capazes de ajudá-lo quando o senhor o expulsará. Primeiro acumulava as riquezas para si mesmo, agora ele usa-as para fazer amigos que podem ajudá-lo no futuro. Jesus, então, oferece-nos um ensinamento sobre o uso dos bens:

"Fazei amigos da riqueza desonesta, para que, quando ela vier a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas" (v. 9). Ou seja, para herdar a vida eterna não é necessário acumular os bens deste mundo, mas o que conta é a caridade que tivermos vivido nas nossas relações fraternas. Eis então o convite de Jesus: não useis os bens deste mundo somente para vós mesmos e o vosso egoísmo, mas servi-vos deles para gerar amizades, para criar boas relações, para agir em caridade, para promover a fraternidade e para exercer o cuidado com os mais fracos.

Somos chamados a ser criativos em fazer o bem

Também no mundo de hoje existem histórias de corrupção como aquela que o Evangelho nos conta, observou o Papa, condutas desonestas, políticas iníquas, egoísmos que dominam as escolhas de indivíduos e das instituições, e muitas outras situações obscuras.

Mas nós cristãos não podemos desencorajar-nos ou, pior ainda, deixar as coisas passar, permanecer indiferentes. Pelo contrário, somos chamados a ser criativos em fazer o bem, com a prudência e a astúcia do Evangelho, usando os bens deste mundo - não apenas os bens materiais, mas todos os dons que recebemos do Senhor - não para nos enriquecer, mas para gerar amor fraterno e amizade social.

VN