16 julho 2021

Novas normas sobre a missa antiga, maior responsabilidade ao bispo

 
 Missal Romano 
 
O Papa publica um motu proprio para redefinir as modalidades de uso do missal pré-conciliar: as decisões voltam à disponibilidade dos pastores das dioceses. Os grupos ligados à antiga liturgia não devem excluir a legitimidade da reforma litúrgica, os ditames do Concílio Vaticano II e o Magistério dos Pontífices
 

Vaticann News

O Papa Francisco, após consultar os bispos do mundo, decidiu mudar as normas que regem o uso do missal de 1962, que foi liberalizado como "Rito Romano Extraordinário" há catorze anos pelo seu predecessor Bento XVI. O Pontífice publicou esta sexta-feira (16/07) o motu proprio "Traditionis custodes", sobre o uso da liturgia romana anterior a 1970, acompanhando-o com uma carta na qual explica as razões da sua decisão. Eis as principais novidades.

A responsabilidade de regulamentar a celebração segundo o rito pré-conciliar volta para o bispo, moderador da vida litúrgica diocesana: "é da sua exclusiva competência autorizar o uso do Missale Romanum de 1962 na diocese, seguindo as orientações da Sé Apostólica". O bispo deve certificar-se de que os grupos que já celebram com o antigo missal "não excluam a validade e a legitimidade da reforma litúrgica, os ditames do Concílio Vaticano II e o Magistério dos Sumo Pontífices".

As missas com o rito antigo não serão mais realizadas nas igrejas paroquiais; o bispo determinará a igreja e os dias de celebração. As leituras devem ser "na língua vernácula", utilizando traduções aprovadas pelas Conferências episcopais. O celebrante deve ser um sacerdote delegado pelo bispo. O bispo também é responsável por verificar se é ou não oportuno manter as celebrações de acordo com o antigo missal, verificando a sua "utilidade efetiva para o crescimento espiritual". De facto, é necessário que o sacerdote responsável tenha no coração não apenas a digna celebração da liturgia, mas também o cuidado pastoral e espiritual dos fiéis. O bispo "terá o cuidado de não autorizar a constituição de novos grupos".

Os sacerdotes ordenados após a publicação hodierna do Motu próprio, que pretendem utilizar o missal pré-conciliar "devem enviar um pedido formal ao Bispo diocesano que consultará a Sé Apostólica antes de conceder a autorização". Enquanto aqueles que já o fazem devem pedir a autorização ao bispo diocesano para continuar a usar. Os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, "na época erigidos pela Pontifícia Comissão Ecclesia Dei", estarão sob a competência da Congregação para os Religiosos. Os Dicastérios para Culto, e para os Religiosos supervisionarão a observância destas novas disposições.

Na carta que acompanha o documento, o Papa Francisco explica que as concessões estabelecidas pelos seus predecessores para o uso do antigo missal foram motivadas sobretudo "pelo desejo de favorecer a recomposição do cisma com o movimento liderado pelo bispo Lefebvre". O pedido, dirigido aos bispos, de acolher generosamente as "justas aspirações" dos fiéis que solicitavam o uso daquele missal, "tinha, portanto, uma razão eclesial de recomposição da unidade da Igreja". Essa faculdade, observa Francisco, "é interpretada por muitos dentro da Igreja como a possibilidade de usar livremente o Missal Romano promulgado por S. Pio V, determinando um uso paralelo ao Missal Romano promulgado por São Paulo VI".

O Papa lembra que a decisão de Bento XVI com o motu proprio "Summorum Pontificum" (2007) foi apoiada pela "convicção de que tal medida não colocaria em dúvida uma das decisões essenciais do Concílio Vaticano II, atingindo de tal modo a sua autoridade". Há 14 anos o Papa Ratzinger declarou infundado o temor de divisões nas comunidades paroquiais, porque, escreveu, "as duas formas de uso do Rito Romano poderiam enriquecer-se mutuamente". Mas a sondagem recentemente promovida pela Congregação para a Doutrina da Fé entre os bispos trouxe respostas que revelam, escreve Francisco, "uma situação que me aflige e me preocupa, confirmando-me na necessidade de intervir", vejo que o desejo de unidade foi "gravemente desatendido", e as concessões oferecidas com magnanimidade foram usadas "para aumentar as distâncias, endurecer as diferenças, construir contraposições que ferem a Igreja e dificultam o seu caminho, expondo-a ao risco de divisões".

O Papa diz ficar triste com os abusos nas celebrações litúrgicas "de um lado e do outro", mas também diz contristar-se por um "uso instrumental do Missale Romanum de 1962, cada vez mais caracterizado por uma crescente rejeição não só da reforma litúrgica, mas do Concílio Vaticano II, com a afirmação infundada e insustentável de que ele traiu a Tradição e a 'verdadeira Igreja'". Duvidar do Concílio, explica Francisco, "significa duvidar das próprias intenções dos Padres, que exerceram solenemente o seu poder colegial cum Petro et sub Petro no Concílio ecuménico, e, em última análise, duvidar do próprio Espírito Santo que guia a Igreja".

Por fim, Francisco acrescenta uma razão final para a sua decisão de mudar as concessões do passado: "é cada vez mais evidente nas palavras e atitudes de muitos que existe uma relação estreita entre a escolha das celebrações de acordo com os livros litúrgicos anteriores ao Concílio Vaticano II e a rejeição à Igreja e as suas instituições em nome do que eles julgam ser a 'verdadeira Igreja'. Este é um comportamento que contradiz a comunhão, alimentando aquele impulso à divisão... contra o qual o Apóstolo Paulo reagiu com firmeza. É para defender a unidade do Corpo de Cristo que sou obrigado a revogar a faculdade concedida pelos meus Predecessores".

VN

15 julho 2021

Depois de receber alta, o Papa agradece o carinho e pede orações pelos doentes

 
  Papa na unidade de Oncologia Perdiátrica do Gemelli  

 
Com uma mensagem no Twitter, o Papa Francisco agradeceu ontem todas as orações e as manifestações de afeto recebidas nos dez dias em que esteve internado no Hospital Agostino Gemelli
 

Bianca Fraccalvieri - Cidade do Vaticano

“Agradeço a todos que estiveram próximos de mim com a oração e o carinho durante os dias de hospitalização. Não nos esqueçamos de rezar pelos doentes e por aqueles que os assistem.”

Com uma mensagem no Twitter, o Papa Francisco agradeceu ontem todas as orações e as manifestações de afeto recebidas nos dez dias em que esteve internado no Hospital Agostino Gemelli, onde se submeteu a uma cirurgia no cólon.

O Pontífice recebeu alta na quarta-feira e antes de regressar ao Vaticano foi até à Basílica de Santa Maria Maior rezar diante do ícone mariano da “Salus Populi romani” para agradecer pelo bom êxito da operação.

Mas como indica a mensagem no Twitter, o pensamento do Santo Padre dirige-se aos doentes e aos profissionais da área de saúde. No comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé, especifica-se que Francisco rezou de modo especial pelos pacientes que encontrou na Policlínica durante a sua convalescência.

O Papa e as crianças

E entre estes pacientes, estão as crianças da Unidade de Oncologia Pediátrica. A comunicação entre eles começou através de uma mensagem enviada pelo Papa aos pequenos, que prontamente responderam com um desenho, acompanhado de um bilhete: "Ouvimos dizer que não está muito bem e que agora se encontra no nosso mesmo hospital. Embora não nos possamos ver, enviamos-lhe um forte abraço com desejos de rápida recuperação".

O encontro pessoalmente ocorreria dias depois, e foi feito em público durante o Angelus dominical. Na ocasião, Francisco falou justamente sobre o mistério da dor e da doença nas crianças. Por que elas sofrem é uma pergunta sem resposta.

Contudo, com os boletins diários que comunicavam um progresso na recuperação, a presença do Papa no Gemelli transformou-se aos poucos numa ocasião para manifestar proximidade a todos os enfermos. “Que ninguém fique só”, foi o seu apelo, unido ao pedido de que todos tenham acesso aos serviços de saúde gratuitos.

VN

11 julho 2021

Papa: nenhum doente fique só. Sistema de saúde gratuito e acessível a todos

 
 
Do Hospital Agostino Gemelli, onde recupera de uma cirurgia, o Papa Francisco rezou de modo especial por todos os enfermos e fez um apelo por um sistema de saúde acessível a todos. Da janela do décimo andar, recebeu o carinho dos fiéis - uma imagem que não se via desde 2005, quando no dia 13 de março S. João Paulo II pronunciou algumas palavras em público após uma traqueotomia.
 

Bianca Fraccalvieri - Cidade do Vaticano

“Estou feliz por poder manter o encontro dominical do Angelus, também aqui da Policlínica “Gemelli”. Agradeço a todos: senti muito a proximidade e o amparo das suas orações. Obrigado de coração!”

Um sentimento de gratidão marcou o Angelus deste domingo, realizado do Hospital Agostino Gemelli, onde o Papa Francisco está internado há uma semana, desde que se submeteu a uma cirurgia no intestino.

Da janela do seu apartamento no décimo andar da Policlínica, rodeado por crianças enfermas, o Papa acenou aos fiéis presentes na pequena praça que fica na entrada da estrutura e dali fez uma breve meditação sobre o Evangelho do dia, destacando de modo especial uma frase de Jesus aos discípulos: "curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo" (Mc 6,13).

"Este 'óleo' é certamente o sacramento da Unção dos enfermos, que dá conforto ao espírito e ao corpo. Mas este 'óleo' é também a escuta, a proximidade, o cuidado, a ternura de quem cuida da pessoa doente: é como uma carícia que faz sentir melhor, alivia a dor e soleva."

Para Francisco,  mais cedo ou mais tarde, todos necessitamos desta “unção” e todos podemos oferecê-la a alguém, com uma visita, um telefonema, uma mão estendida a quem necessita de ajuda. "Recordemos que no protocolo do juízo final Mateus, 25, uma das coisas que nos perguntarão será a proximidade aos doentes.

 

 Fiéis reunidos para rezarem com o Papa 

 

Sistema de saúde acessível a todos

Todavia, esta dimensão pessoal do cuidado deve ser alargada para uma dimensão social, em que todos os cidadãos possam usufruir de um sistema de saúde.

"Nestes dias de internamento no hospital, prosseguiu o Pontífice, experimentei quanto é importante um bom serviço de saúde gratuito, acessível a todos, como existe em Itália e em outros países. Um sistema de saúde gratuito, que garanta um bom serviço acessível a todos. Não se pode perder este bem precioso. É preciso mantê-lo! E para isso é necessário que todos se empenhem, porque serve a todos e pede a contribuição de todos."

O Santo Padre lamentou que às vezes, na Igreja, quando alguma instituição de saúde passa por problemas financeiros, inclusive por má gestão, o primeiro pensamento é vender a estrutura: "Mas a sua vocação na Igreja não é ter dinheiro, mas prestar um serviço e um serviço é sempre gratuito, não se esqueçam, salvar as instituições gratuitas".

Por fim, Francisco dirigiu uma palavra a quem trabalha em hospitais, pedindo orações pelos enfermos:

"Quero expressar o meu apreço e o meu encorajamento aos médicos e a todos os agentes de saúde e aos funcionários dos hospitais. E rezemos por todos os doentes, aqui estão alguns amigos crianças doentes. Porque sofrem as crianças? Porque sofrem as crianças é uma pergunta que toca no coração. Acompanhemo-las com a oração e rezemos por todos os doentes, especialmente por aqueles em condições mais difíceis: ninguém fique só, cada um possa receber a unção da escuta, da proximidade, da ternura e do cuidado. E é o que pedimos por intercessão de Maria, nossa Mãe, saúde dos enfermos."

 

VN

07 julho 2021

Francisco agradece pelas muitas mensagens e orações



 O Papa Francisco foi submetido a uma cirurgia no domingo e se recupera bem 
 
Na sua conta no Twitter, o Papa Francisco agradece a todos aqueles que expressaram proximidade durante a sua internação no Hospital Gemelli, em Roma. Saudações de líderes religiosos, chefes de Estado e de Governo, religiosos e fiéis de todo o mundo.
 

Vatican News

“Senti-me tocado pelas tantas mensagens e afeto recebidos nestes dias. Agradeço a todos pela proximidade e oração”, é a mensagem de agradecimento do Papa Francisco num tuíte.

São muitas as saudações e votos de pronto restabelecimento recebidos, como, de Sua Santidade Karekin II, Patriarca Supremo e Catholicos de todos os Arménios, que na terça-feira, dirigindo-se ao seu "amado irmão em Cristo", assegurou: "Rezemos ao Senhor Celestial que te garde e te proteja na sua misericórdia, que te conceda longevidade e muitos anos fecundos de pontificado”.

Também vários chefes de Estado e de Governo quiseram demostrar proximidade, como o presidente da República da China (Taiwan), Tsai Ing-Wen, que enviou mensagem na segunda-feira, 5. No mesmo dia, o presidente do Estado da Palestina e do Comitê executivo da OLP, Mahmoud Abbas, de Ramallah, tinham escrito: "Rezemos todos juntos a Deus, para que Ele vos dê saúde para continuar nos vossos esforços pela criação da paz e do amor entre os povos".

Na terça-feira, 6, foi a vez do presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan - que ao "apresentar, também em nome da nação", "os melhores votos de uma rápida recuperação", aproveitou a "oportunidade para renovar os mais sinceros votos de saúde e bem-estar a Sua Santidade e ao mundo católico "- e do presidente da República de Chipre, Nicos Anastasiades, que "nestas horas de provação pessoal" faz votos de uma "rápida recuperação", rezando "com fervor para que Nosso Senhor Jesus Cristo possa garantir a Vossa Santidade saúde e força. Eu, o meu governo e o povo de Chipre esperamos a sua rápida e completa recuperação”, concluiu.

Ao lado deles, também o presidente da República de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, que em seu nome, em nome “do povo e do Governo”, formula votos “por uma plena e rápida recuperação da cirurgia”. Já as palavras de Rául Castro Ruz no mesmo dia da operação, ou seja, no domingo, 4: “Os povos precisam da sua sabedoria e autoridade moral mais do que nunca”.

“Apoio na oração” vem do presidente da República da Polónia, Andrzej Duda, confiante “que Sua Santidade em breve retomará os seus compromissos, para continuar a guiar a Igreja Católica e a Santa Sé e apoiar com amor toda a comunidade mundial e esperança, quem tem grande necessidade" do seu "conforto espiritual nestes tempos difíceis".

Também há muitos bispos que que garantem as uas orações, como os do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM) e também cardeais, como o cardeal John Atcherley Dew, arcebispo de Wellington e presidente da Conferência Episcopal da Nova Zelândia, que faz saber que "cada católico da Nova Zelândia colocará o Papa Francisco nas suas orações", regozijando-se em "saber que o Santo Padre enfrentou satisfatoriamente a intervenção e está a recuperar” prontamente.

Por fim, o rabino Arthur Schneider, presidente e fundador da Fundação “Appeal of conscience”,enviou uma mensagem na terça-feira na qual faz votos para que o Pontífice "com renovada força" possa "continuar a abraçar toda a humanidade com o amor e a compaixão" que o distinguem.

VN

04 julho 2021

O Papa: sem abertura à novidade e às surpresas de Deus a fé extingue-se

 

 O Papa no Angelus  (Vatican Media) 
 
É escandaloso que a imensidão de Deus se revele na pequenez da nossa carne, que o Filho de Deus seja o filho do carpinteiro, que a divindade esteja escondida na humanidade, que Deus habite no rosto, nas palavras, nos gestos de um simples homem. Eis o escândalo: a encarnação de Deus, a sua concretude, o seu "quotidiano", disse o Papa Francisco no Angelus deste domingo, XIV do Tempo comum

Raimundo de Lima - Vatican News

"Peçamos a Nossa Senhora, que acolheu o mistério de Deus na vida quitidiana de Nazaré, para ter olhos e corações livres de preconceitos e abertos à maravilha, às surpresas de Deus, à Sua presença humilde e escondida na vida quotidiana."

Foi a oração com a qual o Papa Francisco concluiu a alocução que precede o Angelus ao conduzir a oração mariana ao meio-dia deste domingo, XIV do Tempo Comum, dirigindo-se aos fiéis e peregrinos presentes na Praça de S. Pedro.

Incredulidade dos conterrâneos de Jesus

Comentando o Evangelho do dia (Mc 6,1-6), Francisco ressaltou que o mesmo nos fala da incredulidade dos conterrâneos de Jesus. Depois de pregar noutras aldeias da Galileia, Jesus voltou a Nazaré, onde tinha crescido com Maria e José; e, num sábado, começou a ensinar na sinagoga.

Muitos, ouvindo-o, interrogaran-se: "De onde lhe vem toda esta sabedoria? Não é o filho do carpinteiro e de Maria, isto é, dos nossos vizinhos que conhecemos bem?", acrescentou o Santo Padre, apresentando esta página do Evangelho que traz a visita de Jesus a Nazaré.

Nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra

O Pontífice recordou que diante desta reação, Jesus afirma uma verdade que também se tornou parte da sabedoria popular: "Um profeta não é desprezado excepto na sua própria pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa".

Neste ponto, Francisco deteve-se na atitude dos conterrâneos de Jesus:

"Podemos dizer que eles conhecem Jesus, mas não o reconhecem. Efetivamente, há diferença entre conhecer e reconhecer: podemos saber várias coisas sobre uma pessoa, formar uma ideia, confiar no que os outros dizem sobre ela, talvez de vez em quando encontrá-la no bairro, mas tudo isto não é suficiente. Trata-se de um conhecer superficial, que não reconhece a unicidade dessa pessoa. É um risco que todos nós corremos: achamos que sabemos tanto sobre uma pessoa, rotulamo-la e a restringimos nos nossos preconceitos."

Rejeição à novidade de Jesus

Da mesma forma, acrescentou o Papa, os conterrâneos de Jesus conhecem-no há trinta anos e pensam que sabem tudo; na realidade, nunca se deram conta de quem é verdadeiramente. Eles detêm-se na exterioridade e rejeitam a novidade de Jesus.

Quando deixamos a comodidade do hábito e a ditadura dos preconceitos prevalecer, observou o Santo Padre, é difícil abrirmo-nos à novidade e deixarmo-nos surpreender. Muitas vezes acabamos a procurar confirmação das nossas ideias e esquemas na vida, nas nossas experiências e até mesmo nas pessoas, para nunca ter que fazer o esforço de mudar.

Abrirmo-nos à novidade e surpresas de Deus

"Mas sem abertura à novidade e às surpresas de Deus, sem admiração, a fé se torna uma ladainha cansada que lentamente se extingue", enfatizou.

Afinal, por que os conterrâneos de Jesus não O reconhecem e acreditam n’Ele? Qual é o motivo? – perguntou o Papa. "Podemos dizer, em poucas palavras, que não aceitam o escândalo da Encarnação", respondeu Francisco.

"É escandaloso que a imensidão de Deus se revele na pequenez de nossa carne, que o Filho de Deus seja o filho do carpinteiro, que a divindade esteja escondida na humanidade, que Deus habite no rosto, nas palavras, nos gestos de um simples homem."

O escândalo da encarnação de Deus

Eis o escândalo: a encarnação de Deus, a sua concretude,o  seu "quotidiano". Na realidade, é mais cómodo um deus abstrato e distante, que não se intromete nas situações e que aceita uma fé distante da vida, dos problemas, da sociedade. Ou mesmo gostamos de acreditar num deus "com efeitos especiais", que só faz coisas excecionais e dá  sempre grandes emoções, disse ainda Francisco.

"Ao invés, Deus encarnou-se: humilde, terno, escondido, faz.se próximo de nós habitando a normalidade da nossa vida quotidiana. E assim, como os conterrâneos de Jesus, corremos o risco que, quando passa, não o reconhecemos, aliás, escandalizamo-nos por Ele."

VN

02 julho 2021

Audiências gerais do Papa estão suspensas durante o mês de julho

 

 Audiência Geral do Pátio S. Dâmaso (Vatican Media) 
 
As catequeses do Papa Francisco serão retomadas na quarta-feira, 4 de agosto. O único compromisso público do Santo Padre, mantido neste período é o Angelus dominical

 

Vatican News

Como nos anos anteriores, as audiências gerais de quarta-feira estão suspensas no mês de julho para as habituais férias de verão. Foi o que anunciou a Prefeitura da Casa Pontifícia.

Os encontros com as catequeses do Papa serão retomados na quarta-feira 4 de agosto. A oração do Angelus que Francisco conduz todos os domingos, da janela do Palácio Apostólico, no Vaticano, permanece confirmada.

As audiências gerais foram retomadas no Pátio S. Dâmaso, no Vaticano, em 12 de maio passado, em total conformidade com as normas anti-Covid.

Desde 2 de setembro de 2020, elas tinham voltado a realizar-se com a presença dos fiéis, mas desde 4 de novembro de 2020, foram novamente realizadas "à distância", da Biblioteca do Palácio Apostólico. Foi em março do ano passado que Francisco, adequando-se às medidas de saúde anti-Covid, começou a fazer a catequese da quarta-feira diretamente da Biblioteca, sendo transmitida ao vivo através dos canais da média vaticana.

VN

O Papa aos cientistas: mestres de uma nova geração de construtores de paz

 
Mensagem do Papa Francisco ao Encontro Internacional de Cientistas  "A Ciência pala Paz"
 
 
“A realidade histórica é cada vez mais uma realidade única e deve ser servida pela pluralidade de conhecimentos para o crescimento de uma nova cultura que promova a dignidade e o desenvolvimento de cada homem e de cada mulher”. São palavras do Papa Francisco numa mensagem enviada aos participantes no Encontro Internacional de Cientistas “A Ciência pela Paz”

Jane Nogara - Vatican News

O Papa Francisco enviou uma mensagem em vídeo para os participantes do Encontro Internacional “A Ciência pela Paz” que se realiza nos dias 2 e 3 de julho, por ocasião do Jubileu do Santuário de S. Gabriel que se encontra ao lado do Instituto Nacional de Física Nuclear, organizado pela Universidade de Teramo.

Não pode e não deve haver oposição entre fé e ciência

Francisco iniciou pelo agradecendo aos organizadores e participantes do encontro "Ciência pela Paz": “Este encontro é um grande presente de esperança para toda a humanidade".

“Mais do que nunca como neste momento vemos a necessidade de um relançamento da pesquisa científica a fim de enfrentar os desafios da sociedade contemporânea”

“E fico feliz que seja a comunidade diocesana de Teramo a promover este encontro, dando assim testemunho de que não pode e não deve haver uma oposição entre fé e ciência”.

Pesquisa ao serviço de todos

Seguidamente recordou as palavras da Fratelli tutti: “É ‘urgente conhecer a realidade para construir juntos’. Para que o desejo de conhecimento, que se esconde no coração de cada homem e de cada mulher, possa crescer e desenvolver-se, a pesquisa científica deve colocar o seu conhecimento ao serviço de todos, procurando sempre novas formas de colaboração, o intercâmbio de resultados e de construção de redes”. Além disto, "não deve ser ocultado o risco de um progresso científico ser considerado a única abordagem possível para se entender um aspeto da vida, da sociedade e do mundo” (FT 204). E o Papa pondera ao falar sobre a pandemia:

“A experiência da emergência sanitária, mais do que nunca, e de certo modo com maior urgência, pede ao mundo da ciência para repensar as perspetivas da prevenção, da terapia e da organização da saúde, levando em conta as repercussões antropológicas ligadas à convivência social e a qualidade das relações entre familiares e, acima de tudo, entre as gerações”

A realidade histórica 

Também recorda que: “Nenhum conhecimento científico deve caminhar sozinho e sentir-se auto-suficiente. A realidade histórica é cada vez mais uma realidade única e deve ser servida pela pluralidade de conhecimentos que, na sua especificidade, contribuem para o crescimento de uma nova cultura capaz de construir a sociedade, promovendo a dignidade e o desenvolvimento de cada homem e de cada mulher”.

Por fim, o Pontífice encoraja os presentes ao desafio: “Diante de novos desafios, a vós, queridos amigos da ciência, é confiada - sim, a vós! - a tarefa de testemunhar que é possível construir um novo vínculo social, comprometendo-vos a fazer a pesquisa científica próxima de toda a comunidade, da local à internacional, e que juntos é possível superar qualquer conflito".

“A ciência é um grande recurso para a construção da paz!”

Concluindo o Papa faz um pedido:

“Peço-vos que acompanhem a formação das novas gerações, ensinando-lhes a não ter medo do esforço de pesquisa. Também o Mestre faz-se procurar: Ele infunde em todos a certeza de que quando se procura com honestidade encontra-se a verdade. Esta mudança de época precisa de novos discípulos do conhecimento, e vós, queridos cientistas, são os mestres de uma nova geração de construtores da paz”.

 

VN

01 julho 2021

O Papa em apelo de paz para o Líbano: basta de usar o país para interesses e lucros alheios

 
 A conclusão do dia de oração pela paz no Líbano, na Basílica de S. Pedro 
 
Ao reforçar que os libaneses permaneçam unidos para promover “projetos de paz e não de desgraça”, o Papa Francisco concluiu o Dia de Oração pela Paz no Líbano, no Vaticano, com uma mensagem de responsabilidade comum. Daí o apelo do Pontífice para que “os detentores do poder” estejam aó serviço do bem comum e não dos próprios interesses para fazer ressurgir “uma aurora de esperança. Cessem as animosidades, extingam-se os dissídios e o Líbano volte a irradiar a luz da paz”.
 

Andressa Collet - Vatican News

A jornada de reflexão e oração pela paz no Líbano foi nesta quinta-feira (1), a partir do Vaticano e com os líderes das comunidades cristãs presentes no País dos Cedros, mas com a esperança - antecipada pelo próprio Papa Francisco - de que seja um dia “seguido de iniciativas concretas sob o signo do diálogo, do empenho educativo e da solidariedade”. Na mensagem do Pontífice, proferida na Basílica de S. Pedro, após a oração ecuménica que concluiu o evento “Juntos em prol do Líbano”, a exortação para que todos, libaneses na pátria e no mundo inteiro, permaneçam unidos para promover “projetos de paz e não de desgraça”. Esta frase foi repetida quatro vezes pelo Papa na mensagem, “em resposta ao grito da nossa oração” e fazendo referência às palavras de Deus nas Escrituras (Jr 29,11).

A oração pela paz que acompanha o grito de misericórdia

Francisco, junto aos pastores e sustentados pela oração dos fiéis, rezaram e refletiram, impelidos pela grande preocupação pelo Líbano que se vê mergulhado numa grave crise. no meio deste “momento escuro” e orientados “à luz de Deus”, através de invocações e cantos de diferentes tradições presentes naquele país, com textos em árabe, siríaco, arménio e caldeu, o Papa recordou a necessidade de pedir perdão pelas “nossas sombras”, como “os erros cometidos quando não testemunhamos o Evangelho com toda a coerência". Um pedido de misericórdia que é quase “o grito de um povo inteiro”, aquele libanês, “desiludido e exausto, carecido de certezas, de esperança, de paz”.

“Não desistamos, não nos cansemos de implorar, do Céu, aquela paz que os homens têm dificuldade de construir na terra. Peçamo-la insistentemente para o Médio Oriente e para o Líbano. Este querido país (...) não pode ser deixado à mercê do destino ou de quem procura sem escrúpulos os próprios interesses. Pois, sendo sem dúvida um pequeno-grande país, o Líbano é mais do que isto: é uma mensagem universal de paz e fraternidade que se eleva do Médio Oriente.”

Projetos de paz e não de desgraça

O Papa procura enaltecer que a oração em comum desta quinta-feira (1) busca “projetos de paz e não de desgraça”, afirmando “com todas as forças que o Líbano é e deve continuar a ser um projeto de paz”. Uma terra com a vocação da fraternidade, onde diferentes religiões e confissões se encontram e convivem. Daí o apelo do Pontífice para que “os detentores do poder” estejam ao serviço do bem comum e não dos próprios interesses.

“Basta de lucros de poucos à custa da pele de muitos! (…) Basta de fazer prevalecer verdades de parte sobre as esperanças da gente! Basta de usar o Líbano e o Médio Oriente para interesses e lucros alheios! É preciso dar aos libaneses a possibilidade de serem protagonistas de um futuro melhor, na sua terra e sem interferências indevidas.”

Para realizar “projetos de paz e não de desgraça”, Francisco convida ainda os libaneses a inspirarem-se nas “raízes profundas” de uma “história única” do país, através de exemplos – como dos próprios idosos – que usaram a diversidade como possibilidade, não como obstáculo. Uma exortação que é dirigida a todos os cidadãos, mas também aos dirigentes políticos, para que encontrem “soluções urgentes e perduráveis para a crise económica, social e política atual”; aos migrantes, para que se coloquem ao serviço da pátria; e à comunidade internacional, para que, com esforço conjunto, sejam criadas condições para começar um caminho de recuperação.

Enfim, um compromisso renovado a todos os cristãos para se “construir um futuro juntos, porque o futuro só será pacífico se for comum”, enaltece o Papa, sendo “semeadores da paz e artesãos de fraternidade”, sem fugir das responsabilidades do presente.

“Por isso, aos irmãos e irmãs muçulmanos e de outras religiões, asseguramos abertura e disponibilidade para colaborar na construção da fraternidade e na promoção da paz. Esta ‘não exige vencedores nem vencidos, mas irmãos e irmãs que, não obstante as incompreensões e as feridas do passado, passem do conflito à unidade’.”

Unidos, por uma aurora de esperança

No final da mensagem, o Papa recorda a participação dos jovens no momento conclusivo da jornada pelo Líbano no Vaticano, daqueles que são a esperança e “o renascimento do país”, como “lâmpadas que ardem nesta hora escura”. E feito luz que brota das palavras do poeta libanês, Khalil Gibran, citadas pelo próprio Pontífice: “mais além da cortina negra da noite, há uma aurora que nos espera”.

Francisco pede escuta e atenção a essa geração, mas também às crianças: que os seus “olhos luminosos, mas banhados por muitas lágrimas, sacudam as consciências e orientem as opções”. Outras luzes a serem “respeitadas, valorizadas e envolvidas nos processos decisórios do Líbano” são aquelas das mulheres, lembra Francisco, ao finalizar a mensagem parafraseando novamente o poeta sobre a importância da união diante da escuridão: “para chegar à aurora, não há outra estrada senão a noite. E na noite da crise, é preciso permanecer unidos”.

“Oxalá se dissipe a noite dos conflitos e ressurja uma aurora de esperança. Cessem as animosidades, extingam-se os dissídios e o Líbano volte a irradiar a luz da paz.”

VN

29 junho 2021

Texto integral: Homilia da celebração dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo

 

  Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo  

 

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
Eucaristia, com a bênção dos pálios,
na Solenidade dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo
(Basílica de S. Pedro, 29 de junho de 2021)

 

Celebramos hoje a festa de dois grandes apóstolos do Evangelho e duas colunas angulares da Igreja: Pedro e Paulo. Observemos de perto estas duas testemunhas da fé: no centro da sua história, não está a própria destreza, mas o encontro com Cristo que lhes mudou a vida. Fizeram a experiência de um amor que os curou e libertou e, por isso, tornaram-se apóstolos e ministros de libertação para os outros.

Pedro e Paulo são livres unicamente porque foram libertados. Detenhamo-nos neste ponto central.

Pedro, o pescador da Galileia, foi libertado em primeiro lugar da sensação de ser inadequado e da amargura de ter falido, e isso verificou-se graças ao amor incondicional de Jesus. Embora fosse um hábil pescador, várias vezes experimentou, em plena noite, o sabor amargo da derrota por não ter pescado nada (cf. Lc 5, 5; Jo 21, 5) e, perante as redes vazias, sentiu a tentação do desânimo; apesar de forte e impetuoso, muitas vezes deixou-se tomar pelo medo (cf. Mt 14, 30); embora fosse um discípulo apaixonado do Senhor, continuou a pensar à maneira do mundo, sem conseguir entender e aceitar o significado da Cruz de Cristo (cf. Mt 16, 22); apesar de dizer-se pronto a dar a vida por Ele, bastou sentir-se suspeito de ser um dos Seus para se atemorizar chegando a negar o Mestre (cf. Mc 14, 66-72).

Mas Jesus amou-o desinteressadamente e apostou nele. Encorajou-o a não desistir, a lançar novamente as redes ao mar, a caminhar sobre as águas, a olhar com coragem para a sua própria fraqueza, a segui-Lo pelo caminho da Cruz, a dar a vida pelos irmãos, a apascentar as suas ovelhas. Deste modo libertou-o do medo, dos cálculos baseados apenas nas seguranças humanas, das preocupações mundanas, infundindo nele a coragem de arriscar tudo e a alegria de se sentir pescador de homens. Foi precisamente a ele que chamou para confirmar na fé os irmãos (cf. Lc 22, 32). Como ouvimos no Evangelho, deu-lhe as chaves para abrir as portas que levam a encontrar o Senhor e o poder de ligar e desatar: ligar os irmãos a Cristo e desatar os nós e as correntes das suas vidas (cf. Mt 16, 19).

Tudo isto só foi possível, porque antes, como nos dizia a primeira Leitura, Pedro foi libertado. As correntes que o mantêm prisioneiro são quebradas e, tal como aconteceu na noite da libertação dos israelitas da escravidão do Egito, é convidado a levantar-se depressa, colocar o cinto e calçar as sandálias para sair. E o Senhor abre as portas diante dele (cf. At 12, 7-10). É uma nova história de abertura, de libertação, de correntes quebradas, de saída do cárcere que o prende. Pedro faz a experiência da Páscoa: o Senhor libertou-o.

Também o apóstolo Paulo experimentou a libertação por obra de Cristo. Foi libertado da escravidão mais opressiva, a de si mesmo, e de Saulo – nome do primeiro rei de Israel – tornou-se Paulo, que significa «pequeno». Foi libertado também daquele zelo religioso que o tornara fanático na defesa das tradições recebidas (cf. Gal 1, 14) e violento ao perseguir os cristãos. A observância formal da religião e a defesa implacável da tradição, em vez de o abrir ao amor de Deus e dos irmãos, tinham-no endurecido. Foi disto que Deus o libertou; ao invés, não o poupou a tantas fraquezas e dificuldades que tornaram mais fecunda a sua missão evangelizadora: as canseiras do apostolado, a enfermidade física (cf. Gal 4, 13-14); as violências e perseguições, os naufrágios, a fome e sede, e – segundo as suas próprias palavras – um espinho que o atormentava na carne (cf. 2 Cor 12, 7-10).

Paulo compreendeu assim que «o que há de fraco no mundo é o que Deus escolheu para confundir o que é forte» (1 Cor 1, 27), que tudo podemos n’Ele que nos dá força (cf. Flp 4, 13), que nada poderá, jamais, separar-nos do seu amor (cf. Rm 8, 35-39). Por isso, no final da sua vida, como nos dizia a segunda Leitura, Paulo pode dizer: «o Senhor esteve comigo» e «livrar-me-á de todo o mal» (2 Tm 4, 17.18). Paulo fez a experiência da Páscoa: o Senhor libertou-o.

Queridos irmãos e irmãs, a Igreja olha para estes dois gigantes da fé e vê dois Apóstolos que libertaram a força do Evangelho no mundo, só porque antes foram libertados pelo encontro com Cristo. Ele não os julgou, nem humilhou, mas partilhou de perto e afetuosamente a sua vida, sustentando-os com a sua própria oração e, às vezes, admoestando-os para os impelir à mudança. A Pedro, disse Jesus com ternura: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desapareça» (Lc 22, 32); a Paulo, pergunta: «Saulo, Saulo, porque Me persegues?» (At 9, 4). De igual modo procede Jesus também connosco: assegura-nos a sua proximidade, rezando por nós e intercedendo junto do Pai; e repreende-nos com doçura quando erramos, para podermos encontrar a força de nos levantar novamente e retomar o caminho.

Tocados pelo Senhor, também somos libertados. E temos sempre necessidade de sermos libertados, porque só uma Igreja liberta é uma Igreja credível. Como Pedro, somos chamados a ser libertos da sensação da derrota face à nossa pesca por vezes mal sucedida; a ser libertos do medo que nos paralisa e nos torna medrosos, fechandos nas nossas seguranças e tirando-nos a coragem da profecia. Como Paulo, somos chamados a ser libertos das hipocrisias da exterioridade; libertos da tentação de nos impormos com a força do mundo, e não com a debilidade que deixa espaço a Deus; libertos duma observância religiosa que nos torna rígidos e inflexíveis; libertos de vínculos ambíguos com o poder e do medo de ser,os incompreendidos e atacados.

Pedro e Paulo oferecem-nos a imagem duma Igreja confiada às nossas mãos, mas conduzida pelo Senhor com fidelidade e ternura; duma Igreja débil, mas forte com a presença de Deus; duma Igreja libertada que pode oferecer ao mundo aquela libertação que ele, sozinho, não se pode dar a si mesmo: a libertação do pecado, da morte, da resignação, do sentimento da injustiça, da perda da esperança que embrutece a vida das mulheres e dos homens do nosso tempo.

Interroguemo-nos: quanta necessidade de libertação têm as nossas cidades, as nossas sociedades, o nosso mundo? Quantas correntes devem ser quebradas e quantas portas trancadas devem ser abertas! Podemos ser colaboradores desta libertação, mas só se, primeiro, deixarmo-nos libertar pela novidade de Jesus e caminharmos na liberdade do Espírito Santo.

Hoje os nossos irmãos Arcebispos recebem o Pálio. Este sinal de unidade com Pedro recorda a missão do pastor que dá a vida pelo rebanho. É dando a vida que o Pastor, liberto de si mesmo, se torna instrumento de libertação para os irmãos. Hoje temos connosco a Delegação do Patriarcado Ecuménico, enviada para esta ocasião pelo querido irmão Bartolomeu: a vossa amável presença é um sinal precioso de unidade no caminho da libertação das distâncias que, escandalosamente, dividem os crentes em Cristo.

Rezamos por vós, pelos Pastores, pela Igreja, por todos nós: para que, libertados por Cristo, possamos ser apóstolos de libertação em todo o mundo.

VN

27 junho 2021

Papa Francisco, Angelus: a maior doença da vida é a falta de amor

 
 
 Papa Francisco durante o Angelus no Vaticano  (Vatican Media) 
 
Neste domingo Francisco rezou a oração mariana do Angelus com os fiéis reunidos na Praça de  S. Pedro. "Hoje, no Evangelho, Jesus depara-se com as nossas duas situações mais dramáticas, morte e doença”, disse o Papa.
 

Silvonei José – Vatican News

"A maior doença da vida é a falta de amor, é não ser capaz de amar. E a cura mais importante é a dos afetos". Estas são palavras pronunciadas pelo Papa Francisco antes da oração mariana do Angelus ao meio-dia deste 13º Domingo do Tempo Comum, assomando à janela do seu escritório no Palácio Apostólico Vaticano, diante dos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de S. Pedro.

"Hoje, no Evangelho, Jesus depara-se com as nossas duas situações mais dramáticas, morte e doença”, disse o Papa. Delas ele liberta duas pessoas: uma menina, que morre enquanto o pai foi pedir ajuda a Jesus; e uma mulher, que perde sangue há muitos anos. Jesus deixa-se tocar pela nossa dor e morte, e realiza dois sinais de cura para nos dizer que nem a dor nem a morte têm a última palavra. Ele  diz-nos que a morte não é o fim. Ele vence este inimigo, do qual não nos podemos libertar sozinhos”.

 

 Fiéis na Praça de S. Pedro durante o Angelus 

 

"A história desta mulher sem nome, na qual todos nós nos podemos ver, é exemplar", explicou o Papa Francisco. O texto diz que ela tinha feito muitas curas, "gastando todos os seus bens sem nenhuma vantagem", ao contrário, piorando".  "A maior doença da vida é o câncer, a tuberculose, a pandemia? Não... disse o Papa. É a falta de amor é não conseguir amar. Esta pobre mulher estava doente pela falta de amor. E a cura mais importante é a dos afetos", disse Bergoglio.

“Também nós, quantas vezes nos lançamos em remédios errados para satisfazer a nossa falta de amor”. “Pensamos que nos faz felizes. o sucesso e o dinheiro, mas o amor não se compra é gratuito. Refugiamo-nos no virtual, mas o amor é concreto. Nós não nos aceitamos como somos e escondemo-nos por detrás dos truques da exterioridade, mas o amor não é aparência. Procuramos soluções em magos e gurus, para depois nos encontrarmos sem dinheiro e sem paz”.

No entanto "refugiamo-nos no virtual, mas o amor é concreto", continuou o Papa.

 

 

Francisco disse ainda que muitas vezes “gostamos de ver as coisas más das outras pessoas. Quantas vezes caímos na tagarelice, que é mexericar sobre os outros. Que horizonte de vida é este"? "Não julgue a realidade pessoal e social dos outros", reiterou ele, "não julgue e deixe os outros viverem". "Olhe em seu redor: e verá que tantas pessoas que vivem ao seu lado sentem-se feridas e sozinhas, elas precisam de se sentir amadas. Dê o passo. Jesus lhe te pede um olhar que não se detém na exterioridade, mas vai ao coração; um olhar que não julga, deixemos de julgar os outros, Jesus nos pede-nos um olhar que não julga, mas acolhedor. Porque só o amor cura a vida. Que Nossa Senhora, finalizou o Papa Francisco, consoladora dos aflitos, nos ajude a levar uma caricia aos feridos no coração que encontramos np nosso caminho".

 

VN

25 junho 2021

O Papa aos luteranos: Jesus acompanha-nos no caminho do conflito, à comunhão

 

 Momento  de oração ecuménica na Catedral de Lund, durante a viagem apostólica do Papa à Suécia 

 
Durante o encontro com os representantes da Federação Luterana Mundial, Francisco encorajou "todos aqueles que estão comprometidos com o diálogo católico-luterano a prosseguirem com confiança na oração incessante, no exercício da caridade partilhada e na paixão pela pricuaa de uma maior unidade".
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco recebeu em audiência, nesta sexta-feira (25/06), no Vaticano, uma delegação da Federação Luterana Mundial. O Pontífice recordou a sua visita a Lund, cidade onde a Federação foi fundada, no âmbito de sua viagem apostólica à Suécia, em 2016.

"Naquela inesquecível etapa ecuménica, experimentamos a força evangélica da reconciliação, atestando que «através do diálogo e do testemunho compartilhado de, não somos mais estranhos». Não mais estranhos, mas irmãos", frisou o Papa.

"No caminho do conflito à comunhão, no dia da comemoração da Confessio Augustana, vós viestes a Roma para que cresça a unidade entre nós", disse Francisco, desejando que "a reflexão comum sobre o Confessio Augustana, com base nos 500 anos da sua leitura, em 25 de junho de 2030, "traga benefício ao caminho ecuménico". "Na época, a Confessio Augustana foi uma tentativa de neutralizar a ameaça de uma divisão no cristianismo ocidental", recordou o Pontífice, lembrando que, em 1980, por ocasião dos 450 anos desse texto, luteranos e católicos afirmaram: «O que reconhecemos na Confessio Augustana como fé comum pode-nos ajudar a confessar esta fé, juntos, de ima maneira nova também em relação ao nosso tempo». Confessar juntos o que temos em comum na fé". Francisco recordou "as palavras do Apóstolo Paulo na Carta aos Efésios: "Um só corpo, [...] um só batismo. Um só Deus".

Um só Deus

Segundo o Papa, "no primeiro artigo, a Confessio Augustana professa a fé no Deus Uno e Trino, referindo-se ao Concílio de Nicéia".

O credo de Nicéia é uma expressão vinculante de fé não só para católicos e luteranos, mas também para os irmãos ortodoxos e para muitas outras comunidades cristãs. É um tesouro comum: trabalhemos para que o aniversário de 1.700 anos daquele grande Concílio, que se realizará em 2025, possa dar um novo impulso ao caminho ecuménico, que é um dom de Deus e um percurso irreversível para nós.

Um só batismo

Segundo o Papa, "tudo aquilo que a graça de Deus nos dá a alegria de experimentar e partilhar, a crescente superação das divisões, a cura progressiva da memória, a colaboração reconciliada e fraterna entre nós, encontra seu fundamento no "único batismo para a remissão dos pecados".

O santo batismo é o dom divino original, que está na base de todo nosso esforço religioso e de todo compromisso para alcançar a unidade plena. Sim, porque o ecumenismo não é um exercício de diplomacia eclesial, mas um caminho de graça. Ele não se apoia em mediações e acordos humanos, mas na graça de Deus, que purifica a memória e o coração, vence a rigidez e se orienta para uma comunhão renovada: não para acordos diminutivos ou sincretismos conciliantes, mas para uma unidade reconciliada nas diferenças. Nesta perspectiva, gostaria de encorajar todos aqueles que estão envolvidos no diálogo católico-luterano a prosseguir com confiança na oração incessante, no exercício da caridade partilhada e na paixão pela busca de uma maior unidade entre os vários membros do Corpo de Cristo.

Um só corpo

"Um só corpo. A este propósito a Regra de Taizé contém uma exortação bonita", frisou o Papa: "«Tenham a paixão pela unidade do Corpo de Cristo». A paixão pela unidade amadurece através do sofrimento que se sente diante das feridas que infligimos ao Corpo do Senhor".

Quando sentimos dor pela divisão dos cristãos, aproximamo-nos do que Jesus experimenta, continuando a ver os seus discípulos desunidos, as suas vestes rasgadas. Hoje, vocês me deram uma patena e um cálice provenientes das oficinas de Taizé. Agradeço-lhes por estes dons, que evocam a nossa participação na Paixão do Senhor. Na verdade, também nós vivemos uma certa paixão, em seu duplo significado: por um lado, o sofrimento, porque ainda não é possível nos reunirmos em torno do mesmo altar; de outro, o ardor em servir à causa da unidade, pela qual o Senhor rezou e ofereceu sua vida.

Por fim, o Papa exortou a prosseguir "com paixão em nosso caminho do conflito à comunhão".

A próxima etapa será compreender os estreitos laços entre Igreja, ministério e Eucaristia. Será importante olhar com humildade espiritual e teológica para as circunstâncias que levaram às divisões, confiando que embora seja impossível anular os tristes acontecimentos do passado, é possível relê-los dentro de uma história reconciliada. A sua Assembleia Geral em 2023 poderá ser um passo importante para purificar a memória e valorizar muitos tesouros espirituais que o Senhor estabeleceu para todos durante os séculos. Queridos irmãos e irmãs, o percurso que vai do conflito à comunhão não é fácil, mas não estamos sozinhos: Cristo nos acompanha.

Arcebispo Musa: a reconciliação tem o rosto de Jesus

As palavras do Papa Francisco foram precedidas pelas do arcebispo Panti FIlibus Musa, presidente da Federação Luterana Mundial. “Para nós a reconciliação tem um rosto: Jesus Cristo, e com Jesus o rosto do nosso próximo. O amor de Deus nos orienta para o próximo, a fé se torna ativa no amor. No encontro com os pobres e com os esquecidos e explorados pelo mundo, descobrimos que Cristo vem ao nosso encontro, nos alcança e nos torna uma só coisa”. “Luteranos e católicos procuram compreender hoje, globalmente, como viver a vontade de Deus que nos torna um”.

VN