08 abril 2022

Card. Parolin: evitar mais violências na Ucrânia, inexplicável o ataque a civis em Bucha

 
  O desespero de uma mulher em Bucha, Ucrânia  (AFP or licensors)  
 
O Cardeal Secretário de Estado, comentou as recentes notícias vindas da Ucrânia e confirmou a possibilidade de uma viagem do Papa a Kiev: "Não é proibitivo, estamos a avaliar se ele pode contribuir para acabar com a guerra". Reunião com o Patriarca Kirill em preparação: "Estamos a procurar território neutro".
 

Salvatore Cernuzio – Vatican News

"Deve ser feito todo o possível para evitar uma escalada da violência na Ucrânia". O cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, lançou mais uma vez um apelo à paz no país do Leste Europeu, sem excluir a possibilidade de uma viagem do Papa a Kiev, que o próprio Francisco disse estar em discussão. "Uma viagem que não é proibitiva, pode ser feita. É uma questão de ver as consequências desta viagem, avaliando se pode realmente contribuir para acabar com a guerra", disse o cardeal aos jornalistas reunidos fora do Palácio Pio, a sede da Rádio Vaticano, onde ele estava a participar na apresentação de um projeto multimédia sobre o autismo.

Evitar um alargamento do conflito

O cardeal - questionado sobre as recentes afirmações de uma "OTAN global" pelo secretário-geral, Jens Stoltenberg - confirmou "o princípio da legítima defesa", mas ao mesmo tempo reiterou o apelo para que tudo seja feito para evitar uma escalada da violência: "A resposta armada, na mesma proporção da agressão, como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, pode levar a um alargamento do conflito com consequências desastrosas e mortais". A esperança é que "voltemos todos à razão e encontremos o caminho da negociação para concluir esta aventura sem retorno".

Francisco: cada vez mais crueldades horríveis em Bucha, a guerra deve parar

Foi com tristeza que o cardeal Parolin comentou as imagens das atrocidades ocorridas em Bucha, uma cidade a cerca de 60 quilómetros de Kiev, que se tornou o cenário do que o Papa descreveu como "um massacre", com os corpos de civis espalhados pelas ruas. "É inexplicável que a população civil deva ser atacada de tal forma. Eu realmente acredito, como tem sido relevado por muitos, que estes episódios marcam um ponto de viragem nesta guerra. E espero que marquem um ponto de viragem no sentido positivo, ou seja, que façam todos refletir sobre a necessidade de pôr um fim à luta o mais rápido possível e não endurecer as posições como alguns temem".

Uma possível viagem do Papa a Kiev

Na mesma linha, o secretário de Estado respondeu a uma pergunta sobre a "conveniência" de o Papa viajar para a capital ucraniana. "Deve haver condições. O que parece ocorrer, porque do lado ucraniano sempre nos foram dadas amplas garantias de que não haveria perigos e é feita referência a viagens feitas por outros líderes e que ainda vão ao país. Parece-me que a presidente do Parlamento Europeu já foi e agora irá a presidente da Comissão". "Acredito que possa ser feita uma viagem a Kiev, não é proibitiva", afirmou o cardeal. Entretanto estão a ser avaliadas as "consequências". Estas incluem as relações com a Igreja Ortodoxa Russa, uma situação que Parolin considera "delicada". "Certamente", esclareceu, "o Papa não iria tomar uma posição a favor de um ou de outro, como sempre fez neste tipo de situação". No entanto, este aspeto, deve ser levado em conta na consideração geral de se fazer ou não a viagem.

Reunião com o Patriarca Kirill

Ainda no contexto das relações com o Patriarcado de Moscovo, o Secretário de Estado do Vaticano confirmou que " já havia uma programação" para realizar um encontro entre o Papa e o Patriarca Kirill, após o encontro de 12 de fevereiro de 2016 em Cuba. "Pelo que entendi, continua-se nesta preparação", disse, explicando que a busca no momento "é por terreno neutro". "Esta é a condição. Mas nada está decidido. O trabalho está a ser feito, da nossa parte, mas sobretudo pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade Cristã, que é o Dicastério competente".

O trabalho da diplomacia do Vaticano e a viagem de Dom Gallagher

Em relação ao trabalho da diplomacia vaticana - um trabalho ininterrupto, como afirmou o Papa Francisco no seu voo de retorno de Malta - o Cardeal Parolin explicou que, embora não existam atualmente "iniciativas particulares", "a disponibilidade oferecida há algum tempo para mediação ou qualquer outra forma de intervenção que possa, por um lado, facilitar um cessar-fogo e, por outro, o início das negociações" ainda é válida. “Agora", acrescentou, "estamos a pensar se existem outras maneiras de traduzir esta disponibilidade em iniciativas mais concretas, também porque esta oferta deve ser aceite por ambas as partes". Uma hipótese concreta é uma viagem a Kiev de Dom Paul Richard Gallagher, Secretário de Relações com os Estados do Vaticano. Convidado mesmo antes do início da guerra, a razão pela qual ele teve que cancelar a viagem, Gallagher poderia estar na Ucrânia num futuro próximo". "Porém, continuou o cardeal, creio que não tenha sido estabelecida uma data".

VN

07 abril 2022

V Pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

 

 

"O fruto desta meditação deveria ser uma revisão corajosa da nossa vida: costumes, ocupações, horários de trabalho, distribuição e uso do tempo, para ver se ela é realmente um serviço e se, neste serviço, há amor e humildade. O ponto fundamental é saber se servimos os irmãos, ou se, ao contrário, servimo-nos dos irmãos."
  
Fr. Raniero Cantalamessa, OFMCap.

“DEI-VOS O EXEMPLO”

Quinta Pregação, Quaresma de 2022

A nossa meditação de hoje parte de uma pergunta: por que João, na narrativa da última ceia, não fala da instituição da Eucaristia, mas em seu lugar fala, ao invés, do lava-pés? Justamente ele, que tinha dedicado um capítulo inteiro do seu Evangelho para preparar os discípulos a comer a sua carne e beber o seu sangue?

O motivo é que em tudo o que se refere à Páscoa e à Eucaristia, João mostra querer enfatizar mais o evento do que o sacramento, isto é, mais o significado do que o sinal. Para ele, a nova Páscoa não começa tanto no Cenáculo, quando se institui o rito que deve comemorá-la (sabe-se que a última ceia de João não é uma ceia “pascal”); começa mais sobre a cruz, quando se cumpre o fato que deve ser comemorado. É ali que acontece a passagem da Páscoa antiga à nova. Por isso, ele enfatiza que a Jesus na cruz “não foi quebrado nenhum osso”: porque assim era prescrito para o cordeiro pascal no Êxodo (Jo 19,36; Ex 12,46).

O significado do lava-pés

É importante compreender bem o significado que tem para João o gesto do lava-pés. A recente constituição apostólica Praedicate Evangelium o menciona no Preâmbulo, como o próprio ícone do serviço que deve caracterizar todo o trabalho da Cúria Romana. Ajuda-nos a entender como pode se fazer, da vida, uma Eucaristia e, assim “imitar na vida o que se celebra sobre o altar”. Estamos diante de um daqueles episódios (um outro é o episódio da abertura do lado), em que o evangelista deixa entender claramente que subjaz um mistério que vai além do fato contingente que poderia, em si mesmo, parecer negligenciável.

“Eu – diz Jesus – dei-vos o exemplo”. Do que ele nos deu o exemplo? De como se deve lavar concretamente os pés aos irmãos, cada vez que nos pomos à mesa? Certamente não apenas disso! A resposta está no Evangelho: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos; pois o Filho de Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,43-45).

No Evangelho de Lucas, justamente no contexto da última ceia, é referida uma palavra de Jesus que parece pronunciada na conclusão do lava-pés: “Afinal, quem é o maior: o que está à mesa, ou o que está servindo? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Segundo o evangelista, Jesus disse estas palavras porque tinha surgido entre os discípulos uma discussão sobre quem dentre eles podia ser considerado o maior (cf. Lc 22,24). Talvez foi justamente esta circunstância que tenha inspirado a Jesus o gesto do lava-pés, como uma espécie de parábola em ação. Enquanto os discípulos estão todos propensos a discutir animadamente entre si, ele se levanta silenciosamente da mesa, buscou uma bacia e uma toalha, depois volta e se ajoelha diante de Pedro para lhe lavar os pés, deixando-o, compreensivelmente, na maior confusão: “Senhor, tu me lavas os pés?” (Jo 13,6).

No lava-pés, era como se Jesus quisesse resumir todo o sentido da sua vida, para que permanecesse bem impresso na memória dos discípulos e, um dia, quando pudessem entender, entendessem: “Agora não entendes o que eu faço; mais tarde o compreenderás” (Jo 13,7). Aquele gesto, posto como conclusão dos Evangelhos, diz-nos que toda a vida de Jesus, do início ao fim, foi um lava-pés, isto é, um servir aos homens. Esse, como dizem alguns exegetas, foi uma pró-existência, isto é, uma existência vivida em favor dos outros.

Jesus nos deu o exemplo de uma vida consumida pelos outros, uma vida feita “pão partido pelo mundo”. Com as palavras: “Também vós façais assim como eu vos fiz”, Jesus institui, assim, a diakonía, ou seja, o serviço, elevando-o a lei fundamental, ou melhor, a estilo de vida e a modelo de todas as relações na Igreja. Como se dissesse, também a propósito do lava-pés, o que disse ao instituir a Eucaristia: “Fazei isto em memória de mim!”.

Neste ponto, devo fazer uma pequena digressão antes de prosseguir o discurso. Um antigo Padre, o bem-aventurado Isaac de Nínive, dava este conselho a quem é levado, pelo dever, a falar de coisas espirituais, às quais ainda não chegou com a vida: “Falar disso – dizia ‒ como alguém que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois de ter humilhado a tua alma e te teres feito menor do que cada um dos teus ouvintes”[1]. Eis aqui, Veneráveis padres, irmãos e irmãs, o espírito com o qual ouso falar de serviço a vós, que o viveis diariamente.

Recordo a graciosa observação que uma vez fez conosco, membros da Comissão Teológica Internacional, o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Franjo Šeper: “Vós, teólogos – disse sorrindo ‒, não escreveis algo que, assim que terminado, assinais vosso nome e sobrenome. Nós, da Cúria, devemos fazer tudo anonimamente”. É uma qualidade do serviço evangélico que é motivo para mim de admiração e gratidão pelos muitos servidores anônimos da Igreja que trabalham na Cúria Romana, nas Cúrias diocesanas e nas Nunciaturas.

O espírito do serviço

Voltemos ao tema. Devemos aprofundar o que significa “serviço”, para poder realizá-lo em nossa vida e não permanecermos nas palavras. O serviço não é, em si mesmo, uma virtude; em nenhum elenco das virtudes ou dos frutos do Espírito, como os chama o Novo Testamento, encontra-se a palavra diakonía, serviço. Fala-se, ao contrário, até de um serviço ao pecado (cf. Rm 6,16) ou aos ídolos (cf. 1Cor 6,9), o que certamente não é um serviço bom. Por si, o serviço é uma coisa neutra: indica uma condição de vida, ou um modo de se relacionar com os demais no próprio trabalho, um estar à disposição de outros. Pode ser, até mesmo, algo negativo, se feito por coerção (escravidão), ou apenas por interesse.

“Eu – diz Jesus – dei-vos o exemplo”. Do que ele nos deu o exemplo? De como se deve lavar concretamente os pés aos irmãos, cada vez que nos pomos à mesa? Certamente não apenas disso! A resposta está no Evangelho: “Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos; pois o Filho de Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,43-45).

No Evangelho de Lucas, justamente no contexto da última ceia, é referida uma palavra de Jesus que parece pronunciada na conclusão do lava-pés: “Afinal, quem é o maior: o que está à mesa, ou o que está servindo? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Segundo o evangelista, Jesus disse estas palavras porque tinha surgido entre os discípulos uma discussão sobre quem dentre eles podia ser considerado o maior (cf. Lc 22,24). Talvez foi justamente esta circunstância que tenha inspirado a Jesus o gesto do lava-pés, como uma espécie de parábola em ação. Enquanto os discípulos estão todos propensos a discutir animadamente entre si, ele se levanta silenciosamente da mesa, buscou uma bacia e uma toalha, depois volta e se ajoelha diante de Pedro para lhe lavar os pés, deixando-o, compreensivelmente, na maior confusão: “Senhor, tu me lavas os pés?” (Jo 13,6).

No lava-pés, era como se Jesus quisesse resumir todo o sentido da sua vida, para que permanecesse bem impresso na memória dos discípulos e, um dia, quando pudessem entender, entendessem: “Agora não entendes o que eu faço; mais tarde o compreenderás” (Jo 13,7). Aquele gesto, posto como conclusão dos Evangelhos, diz-nos que toda a vida de Jesus, do início ao fim, foi um lava-pés, isto é, um servir aos homens. Esse, como dizem alguns exegetas, foi uma pró-existência, isto é, uma existência vivida em favor dos outros.

Jesus nos deu o exemplo de uma vida consumida pelos outros, uma vida feita “pão partido pelo mundo”. Com as palavras: “Também vós façais assim como eu vos fiz”, Jesus institui, assim, a diakonía, ou seja, o serviço, elevando-o a lei fundamental, ou melhor, a estilo de vida e a modelo de todas as relações na Igreja. Como se dissesse, também a propósito do lava-pés, o que disse ao instituir a Eucaristia: “Fazei isto em memória de mim!”.

Neste ponto, devo fazer uma pequena digressão antes de prosseguir o discurso. Um antigo Padre, o bem-aventurado Isaac de Nínive, dava este conselho a quem é levado, pelo dever, a falar de coisas espirituais, às quais ainda não chegou com a vida: “Falar disso – dizia ‒ como alguém que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois de ter humilhado a tua alma e te teres feito menor do que cada um dos teus ouvintes”[1]. Eis aqui, Veneráveis padres, irmãos e irmãs, o espírito com o qual ouso falar de serviço a vós, que o viveis diariamente.

Recordo a graciosa observação que uma vez fez conosco, membros da Comissão Teológica Internacional, o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Franjo Šeper: “Vós, teólogos – disse sorrindo ‒, não escreveis algo que, assim que terminado, assinais vosso nome e sobrenome. Nós, da Cúria, devemos fazer tudo anonimamente”. É uma qualidade do serviço evangélico que é motivo para mim de admiração e gratidão pelos muitos servidores anônimos da Igreja que trabalham na Cúria Romana, nas Cúrias diocesanas e nas Nunciaturas.

O espírito do serviço

Voltemos ao tema. Devemos aprofundar o que significa “serviço”, para poder realizá-lo em nossa vida e não permanecermos nas palavras. O serviço não é, em si mesmo, uma virtude; em nenhum elenco das virtudes ou dos frutos do Espírito, como os chama o Novo Testamento, encontra-se a palavra diakonía, serviço. Fala-se, ao contrário, até de um serviço ao pecado (cf. Rm 6,16) ou aos ídolos (cf. 1Cor 6,9), o que certamente não é um serviço bom. Por si, o serviço é uma coisa neutra: indica uma condição de vida, ou um modo de se relacionar com os demais no próprio trabalho, um estar à disposição de outros. Pode ser, até mesmo, algo negativo, se feito por coerção (escravidão), ou apenas por interesse.

Para fazer o “discernimento dos espíritos”, isto é, das intenções que nos movem em nosso serviço, é útil ver quais são os serviços que fazemos de bom grado e os que tentamos nos desviar de todas as maneiras. Ver, além disso, se o nosso coração está pronto para abandonar – quando nos for pedido – um serviço nobre, que dá brilho, por um humilde que ninguém reconhecerá. Os serviços mais seguros são aqueles que fazemos sem que ninguém, nem mesmo quem o recebe, se dê conta, mas apenas o Pai que vê no segredo. Jesus elevou a símbolo do serviço um dos gestos mais humildes que se conhecia em seu tempo e que era confiado, normalmente, aos escravos: lavar os pés. São Paulo exorta: “Não sejais pretensiosos, mas acomodai-vos às coisas humildes” (Rm 12,16).

Ao espírito de serviço, opões o desejo de domínio, o hábito de impor aos outros a própria vontade e o próprio modo de ver ou de fazer as coisas. Em síntese, o autoritarismo. Frequentemente, quem é movido por estas disposições não se dá minimamente conta dos sofrimentos que provoca e se surpreende ao ver que os outros não demonstram apreço por todo o seu “interesse” e seus esforços, e chega até a se sentir vítima. Jesus disse aos seus apóstolos que eram como “cordeiros em meio aos lobos”, mas eles são, ao contrário, lobos em meio a cordeiros. Uma grande parte dos sofrimentos que às vezes afligem uma família ou uma comunidade é devida à existência nelas de algum espírito autoritário e despótico que pisa sobre os demais e que, com o pretexto de “servir” os outros, na realidade “se serve” dos outros.

É bem provável que esse “alguém” sejamos justamente nós! Se nos vem uma pequena dúvida nesse sentido, seria bom questionarmos sinceramente quem vive ao nosso lado e lhes déssemos a possibilidade de se expressar sem medo. Se acontecer que nós também dificultamos a vida a alguém, com nosso caráter, devemos aceitar humildemente a realidade e repensar nosso serviço.

Ao espírito de serviço também se opõe, por outro lado, o apego exagerado aos próprios hábitos e confortos. Em síntese, o espírito de comodismo. Não pode servir seriamente os outros quem está sempre disposto a agradar a si mesmo, que faz um ídolo do próprio descanso, do próprio tempo livre, do próprio horário. A regra do serviço permanece sempre a mesma: Cristo não buscou agradar a si mesmo.

O serviço, como vimos, é a virtude própria de quem preside, é a coisa que Jesus deixou aos pastores da Igreja, como sua herança mais querida. Todos os carismas, vimos, estão em função do serviço; mas de maneira bem particular assim está o carisma de “pastores e mestres” (cf. Ef 4,11), isto é, o carisma da autoridade. A Igreja é “carismática” para servir e é também “hierárquica” para servir!

O serviço do Espírito

Se, para todos os cristãos, servir significa “não viver mais para si mesmos” (cf. 2Cor 5,15), para os pastores significa: “não apascentar a si mesmos”: “Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos! Acaso os pastores não devem apascentar as ovelhas?” (Ez 34,2). Para o mundo, nada é mais natural e justo do que isso, ou seja, que quem é senhor (dominus) “domine”, isto é, aja como dominador. Entre os discípulos de Jesus, porém, “não é assim”, mas quem é senhor deve servir. “Não temos a pretensão de dominar a vossa fé – escreve São Paulo –. Pelo contrário, somos colaboradores da vossa alegria” (2Cor 1,24).

O mesmo recomenda aos pastores o apóstolo Pedro: “Não como dominadores da herança a vós confiada, mas antes, como modelos do rebanho” (cf. 1Pd 5,3). Não é fácil, no ministério pastoral, evitar a mentalidade do dominador da fé; ela se inseriu muito cedo na concepção da autoridade. Em um dos mais antigos documentos sobre o ministério episcopal (a Didascalia Siriaca), encontramos já uma concepção que apresenta o bispo como o monarca, em cuja Igreja nada pode ser realizado, nem pelos homens nem por Deus, sem passar por ele.

Para os pastores, e enquanto pastores, é frequentemente sobre este ponto que se decide o problema da conversão. Como soam fortes e inflamadas as palavras de Jesus após o lava-pés: “Eu, o Senhor e Mestre...!”. Jesus “não considerou um privilégio ser igual a Deus” (Fl 2,6), isto é, não teve mede de comprometer a sua dignidade divina, de favorecer a falta de respeito por parte dos homens, despojando-se dos seus privilégios e mostrando-se exteriormente um homem em meio aos outros homens (“semelhante aos homens”). Jesus viveu simplesmente. A simplicidade tem sempre sido o início e o sinal de um verdadeiro retorno ao Evangelho. É preciso imitar o agir de Deus. Não há nada – escrevia Tertuliano – que caracterize melhor o agir de Deus do que o contraste entre a simplicidade dos meios e dos modos exteriores com que opera e a grandiosidade dos efeitos espirituais que obtém[4]. O mundo necessita de grandes aparatos para agir e para impressionar; Deus, não.

Houve uma época em que a dignidade dos bispos se expressava em insígnias, títulos, castelos, exércitos. Eram, como se diz, bispos-príncipes, mas bem mais príncipes que bispos. A Igreja vive hoje, sobre este ponto, uma época que, em comparação, parece-nos dourada. Conheci, há muitos anos, um bispo que achava natural toda semana passar algumas horas em uma casa de repouso, para ajudar os idosos a se vestirem e a comer. Tinha tomado o lava-pés ao pé da letra. Eu mesmo devo dizer que tive de alguns prelados os melhores exemplos de simplicidade da minha vida.

Contudo, é preciso conservar, também neste aspecto, uma grande liberdade evangélica. A simplicidade exige que não nos coloquemos acima dos demais, mas nem mesmo, sempre e obstinadamente, abaixo deles, para manter, de uma forma ou de outra, as distâncias, mas que aceitemos, nas coisas diárias da vida, ser como os outros. Há pessoas – observa precisamente Manzoni – que, de humildade, têm o bastante para se colocar abaixo das boas pessoas, mas não em mesmo nível[5].

Às vezes, o melhor serviço não consiste em servir, mas em deixar-se servir, como Jesus que, conforme a circunstância, também sabia estar à mesa e deixar-se lavar os pés (cf. Lc 7,38) e que, de bom grado, aceitava os serviços que lhe prestavam, durante suas viagens, algumas mulheres generosas e afeiçoadas (cf. Lc 8,2-3).

Há uma outra coisa que é preciso dizer a propósito do serviço dos pastores, e é a seguinte: o serviço aos irmãos, por mais importante e santo que seja, não é a primeira coisa e não é o essencial; antes, há o serviço a Deus. Jesus é, antes de tudo, o “Servo de Javé”, e em seguida, também o servo dos homens. Aos próprios pais lembra isso, dizendo: “Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” (Lc 2,49). Ele não hesitava em desiludir as multidões, que chegavam para escutá-lo e para deixar-se guiar, deixando-as improvisamente, para se retirar em lugares solitários para rezar (cf. Lc 5,16).

Também o serviço evangélico é hoje assaltado pelo perigo da secularização. Dá-se por certo muito facilmente que todo serviço ao homem é serviço a Deus. São Paulo fala de um serviço do Espírito (diakonía pneumatos) (2Cor 3,8), ao qual são destinados os ministros do Novo Testamento. O espírito de serviço deve se expressar, nos pastores, por meio do serviço do Espírito!

Quem, como o sacerdote, é, por vocação, chamado a tal serviço “espiritual”, não serve aos irmãos se lhes presta cem ou mil outros serviços, mas negligencia aquele único de que se tem direito de esperar dele e que só ele pode dar. Está escrito que o sacerdote “é tomado do meio do povo e representa o povo nas suas relações com Deus” (Hb 5,1). Quando surgiu este problema pela primeira vez na Igreja, Pedro o resolveu dizendo: “Não está certo que abandemos a pregação da palavra de Deus, para servirmos às mesas... Nós nos dedicaremos à oração e ao serviço da Palavra” (At 6,2-4).

Há pastores que, de fato, voltaram ao serviço às mesas. Ocupam-se de todo tipo de problemas materiais, econômicos, administrativos, às vezes, até agrícolas, que existem em sua comunidade (mesmo quando poderiam muito bem deixar para que outros o fizessem), e negligenciam o seu verdadeiro, insubstituível serviço. O serviço da Palavra exige horas de leitura, estudo, oração. Se há uma reclamação geral que hoje circula entre os fiéis na Igreja é este: a inadequação, o vazio, da pregação. Muitos saem da Missa desgostosos da homilia, ressequidos, ao invés de enriquecidos. Deve-se repetir com Isaías: “Os pobres e indigentes buscam água e não há” (Is 41,17). O povo procura um pão e lhe é dado frequentemente um escorpião, isto é, palavras vazias, moídas, palavras que não são de Deus.

Imediatamente após ter explicado aos apóstolos o significado do lava-pés, Jesus lhes disse: “Sabendo tudo isso, sereis felizes se o praticardes” (Jo 13,17). Também nós seremos felizes, se não nos contentarmos em saber essas coisas – isto é, que a Eucaristia nos impulsiona ao serviço e à partilha –, mas se as pusermos em prática, possivelmente começando hoje mesmo. A Eucaristia não é apenas um mistério para se consagrar, receber e adorar, mas também um mistério para imitar.

Antes de concluir, porém, devemos recordar uma verdade que enfatizamos em todas as nossas reflexões sobre a Eucaristia: a ação do Espírito Santo! Cuidemos para não reduzir o dom ao dever! Não recebemos apenas a ordem de lavar os pés e servir a nós mesmos: recebemos a graça de poder fazê-lo. O serviço é um carisma e, como todos os carismas, é "uma manifestação particular do Espírito para o bem comum" (1 Cor 12, 7); "Cada um vive segundo o dom (carisma!) recebido, colocando-o ao serviço dos outros", diz o apóstolo Pedro na sua Primeira Carta (1 Pd 4,10). O dom precede o dever e torna possível o seu cumprimento. Esta é "a boa notícia" - o Evangelho - de que a Eucaristia é a consoladora memória quotidiana.

[1] Cf. Santo Isaac de Nínive, Discorsi ascetici, 4, Città Nuova, Roma 1984, p. 89.

[2] Cf. São Bernardo, Louvor da Virgem Mãe, I,8.

[3] São Francisco de Assis, Carta a toda a Ordem, 28.

[4] Cf. Tertuliano, De baptismo, 1 (CCL I, p. 277).

[5] Cf. A. Manzoni, I Promessi Sposi, cap. 38.

VN

06 abril 2022

Papa Francisco mostra a bandeira ucraniana vinda de Bucha

 
  Papa Francisco mostra a bandeira ucraniana vinda de Bucha  
 
No final da audiência geral desta quarta-feira (06/04), o Papa condenou o "massacre" na cidade ucraniana, a poucos quilómetros de Kiev, de onde foram divulgadas fotografias e informações sobre os corpos de civis nas ruas. O Pontífice reiterou o seu apelo para "calar as armas", depois mostrou uma bandeira vinda diretamente de Bucha e acolheu um grupo de crianças vindas da Ucrânia, no palco da Sala Paulo VI: "É difícil ser desenraizado da própria terra por causa da guerra". 
 

Salvatore Cernuzio – Vatican News

Um "massacre" diante do qual sobe um grito aos céus: "Acabem com esta guerra, calem-se as armas, parem de semear morte e a destruição". Francisco falou em tom sério na Sala Paulo VI. Diante dos seus olhos estão as imagens de mais de 70 corpos de civis espalhados pelas ruas, de mãos atadas atrás das costas, em Bucha, uma cidade ucraniana a poucos quilómetros de Kiev, cujas fotos foram divulgadas pelas autoridades locais juntamente com relatos de valas comuns. O mundo ficou indignado com estas terríveis fotografias, que estão a ser investigadas como "crimes de guerra".

Um "massacre" é como Francisco definiu no final da audiência geral. "As recentes notícias sobre a guerra na Ucrânia, em vez de trazer alívio e esperança, atestam novas atrocidades, como o massacre de Bucha", afirma o Pontífice.

Crueldades cada vez mais horrendas, perpetradas também contra civis, mulheres e crianças indefesas. São vítimas cujo sangue inocente clama ao céu e implora: "Acabem com esta guerra! Silenciem as armas! Parem de semear a morte e a destruição".

O Papa pede aos fiéis que rezem por isto e, de cabeça baixa, fica em silêncio por alguns momentos. Depois levanta-se e mostra a todos uma bandeira em dois tons de verde, com uma cruz desenhada e escritas em redor, em ucraniano: "Ontem, direto de Bucha, trouxeram-me esta bandeira. Esta bandeira vem da guerra, da cidade martirizada de Bucha", disse.

Algumas crianças ucranianas sobem ao palco, acompanhadas por seus pais. A mais nova está no colo da sua mãe, e o maior leva um desenho. "Saudemo-los e rezemos junto com eles", exorta o Papa Francisco. E comenta:

"Estas crianças tiveram que fugir e chegar a uma terra estranha: este é um dos frutos da guerra. Não os esqueçamos, e não esqueçamos o povo ucraniano".

Francisco dobra a bandeira, beija e abençoa-a. Em seguida, entrega alguns ovos de Páscoa às crianças. Carícias, mãos na cabeça, um toque na bochecha da menor: gestos de ternura para os que ainda estão a sentir o choque do barulho das bombas e da fuga das suas próprias casas.

"É difícil ser desenraizado da própria terra por causa de uma guerra".

Um comentário que o Pontífice pronunciou de improviso ao sentar-se. Já na conferência de imprensa no voo de retorno de Malta, o Papa Francisco tinha comentado o massacre em Bucha, notícia da qual um repórter o tinha informado. "A guerra é sempre uma crueldade, uma coisa desumana e vai contra o espírito humano – não digo espírito cristão – contra o espírito humano. É o espírito de Caim”, disse o Papa. “É o espírito de Caim, o espírito 'Caimista’”.

Com o seu olhar sempre voltado para a Ucrânia, Francisco agradeceu aos fiéis polacos - os presentes no Salão Paulo VI e os ligados através da media - pelo espírito de acolhimento demonstrado aos refugiados ucranianos. Quase três milhões, de acordo com as últimas estimativas. "Vocês demonstraram uma extraordinária e exemplar generosidade para com os nossos irmãos e irmãs ucranianos, para os quais abriram os vossos corações e as portas das vossas casas", disse o Papa. "Muito obrigado, muito obrigado pelo que fazem aos ucranianos", acrescentou ele. Por fim, uma bênção: "Que o Senhor abençoe a vossa pátria pela vossa solidariedade e vos mostre o Seu Rosto".

VN

O Papa: ONU impotente na guerra na Ucrânia, prevalece a lógica dos poderosos

 
 
A catequese de Francisco foi dedicada à sua recente viagem apostólica a Malta. Durante o encontro com os fiéis na Sala Paulo VI, o Papa disse que "hoje, fala-se frequentemente de “geopolítica”, mas infelizmente a lógica dominante é a das estratégias dos Estados mais poderosos para afirmar os seus interesses alargando a própria área de influência económica, ideológica e militar".
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

A recente viagem apostólica do Papa Francisco a Malta foi o tema da catequese do Pontífice na Audiência Geral desta quarta-feira (06/04), realizada na Sala Paulo VI.

A viagem apostólica do Papa a Malta estava planeada para ser realizar em 2020, mas foi adiada por causa da pandemia da Covid-19. Segundo o Papa, "poucas pessoas sabem que Malta, embora sendo uma ilha no meio do Mediterrâneo, recebeu o Evangelho muito cedo, porque o Apóstolo Paulo naufragou perto do seu litoral e milagrosamente salvou-se a si mesmo e a todos os que estavam no barco, mais de duzentas e setenta pessoas. Os Atos dos Apóstolos relatam que os malteses acolheram todos «com rara humanidade»."

Um mundo mais fraterno, mais habitável

Escolhi precisamente estas palavras: com rara humanidade, como lema da minha Viagem, pois indicam o caminho a seguir não só para enfrentar o fenómeno dos migrantes, mas em geral para que o mundo se torne mais fraterno, mais habitável, e se salve de um “naufrágio” que ameaça a todos nós que estamos, como aprendemos, no mesmo barco, todos. Malta é um lugar-chave neste horizonte".

Primeiramente, Malta é um lugar-chave "geograficamente, devido à sua posição no centro do mar entre a Europa e a África, mas que também banha a Ásia. Malta é uma espécie de “rosa dos ventos”, onde povos e culturas se encontram; é um ponto privilegiado a partir do qual se pode observar a área mediterrânea numa perspetiva de 360°. Hoje, fala-se frequentemente de “geopolítica”, mas infelizmente a lógica dominante é a das estratégias dos Estados mais poderosos para afirmar os seus interesses alargando a própria área de influência económica, ideológica e militar. Estamos a ver isto com a guerra", disse o Papa, acrescentando:

Malta representa, neste quadro, o direito e a força dos “pequenos”, das nações pequenas, mas ricas em história e civilização, que deveriam levar a cabo outra lógica: a do respeito, mas também a lógica da liberdade, da convivência das diferenças, oposta à colonização dos mais poderosos. Estamos a ver isto agora e não somente de uma parte, mas também da outra.

“Depois da Segunda Guerra Mundial, foram feitas tentativas para lançar as bases de uma nova história de paz, mas infelizmente, não aprendemos, a velha história de grandes potências concorrentes continuou. E, na atual guerra na Ucrânia, estamos a ver a impotência da Organização das Nações Unidas.”

A Europa foi formada por migrações

O segundo aspeto é que "Malta é um lugar-chave no que diz respeito ao fenómeno das migrações". "No Centro de acolhimento João XXIII, encontrei-me com muitos migrantes que chegaram à ilha após terríveis viagens", frisou o Papa, convidando a "ouvir os seus testemunhos, porque esta é a única forma de fugir da visão distorcida que frequentemente circula nos meios de comunicação e reconhecer os seus rostos, histórias, feridas, sonhos e esperanças desses migrantes".

Cada migrante é único, não é um número, é uma pessoa, é único como cada um de nós. Cada migrante é uma pessoa com a própria dignidade, raízes e cultura. Cada um deles é portador de uma riqueza infinitamente maior do que os problemas que podem surgir. Não nos esqueçamos de que a Europa foi formada por migrações.

Malta é um "laboratório de paz"

Obviamente, "o acolhimento deve ser organizado, deve ser planeado juntos, no âmbito internacional", frisou o Papa, pois "o fenómeno migratório não pode ser reduzido a uma emergência, é um sinal dos nossos tempos. Deve ser lido e interpretado como tal. Pode tornar-se um sinal de conflito ou um sinal de paz".

A seguir, Francisco disse que o Centro de acolhimento de migrantes João XXIII, em Malta, é um "laboratório de paz", e que "Malta no seu conjunto é um laboratório de paz! Toda a nação com o seu comportamento é um laboratório de paz" e "pode cumprir esta missão se procurar nas suas raízes a seiva da fraternidade, da compaixão e da solidariedade. O povo maltês recebeu estes valores junto com o Evangelho, e graças ao Evangelho eles serão capazes de os manter vivos".

Testemunho cristão em todo o mundo

O terceiro aspeto é que "Malta é um lugar-chave também do ponto de vista da evangelização. De Malta e Gozo, as duas dioceses do país, muitos sacerdotes e religiosos, bem como fiéis leigos, partiram, dando testemunho cristão em todo o mundo. Como se a passagem de S. Paulo tivesse deixado a missão no DNA dos malteses! Por isso, a minha visita foi, primeiramente, um ato de gratidão, gratidão a Deus e ao seu santo povo fiel que está em Malta e Gozo".

O Papa recordou que em Malta "também sopra o vento do secularismo e a pseudocultura globalizada do consumismo, do neocapitalismo e do relativismo". "Também lá, portanto, é tempo de nova evangelização", frisou ele, recordando a visita à Gruta de São Paulo, ao Santuário Nacional Mariano de Ta' Pinu, na ilha de Gozo. "Lá senti palpitar o coração do povo maltês, que tem tanta confiança na sua Santa Mãe. Maria nos traz sempre de volta ao essencial, a Cristo crucificado e ressuscitado por nós, ao seu amor misericordioso. Maria nos ajuda a reavivar a chama da fé, atraindo o fogo do Espírito Santo, que anima o jubiloso anúncio do Evangelho de geração em geração, pois a alegria da Igreja é evangelizar!", disse ainda o Papa, recordando as palavras de São Paulo VI: "A vocação da Igreja é evangelizar. A alegria da Igreja é evangelizar. É a definição mais bonita da Igreja".

Francisco recordou o frade franciscano pe. Dionísio Mintoff, de 91 anos que continua a trabalhar no Centro de Acolhimento de Migrantes João XXIII, em Malta, com a ajuda de colaboradores da Diocese. "É um exemplo de zelo apostólico e amor pelos migrantes, muito necessário hoje", concluiu o Papa, agradecendo ao povo maltês pelo acolhimento humano e cristão.

VN

05 abril 2022

Dom Christian Carlassare, bispo de Rumbeck, cerimónia de posse

 

  Dom Christian Carlassare, bispo de Rumbeck, cerimóia de posse  
 
O bispo da diocese de Rumbek expressa alegria pela anunciada visita do Papa Francisco ao país da África Oriental em julho próximo: "Será de grande incentivo também para a Igreja local engajada no longo processo de reconciliação". O prelado, ferido num ataque no ano passado, dirigiu-se aos agressores e reiterou: "para mim, reiniciar significa perdoar".
 

Federico Piana – Vatican News

Alguns dias após a etapa em Malta, o olhar dirige-se agora para a próxima viagem apostólica do Papa Francisco ao Sudão do Sul, programada para 5-7 de julho, que será "o cumprimento de uma ação iniciada pelo Pontífice há muito tempo para pedir a paz para este país". Esta é a convicção de dom Christian Carlassare, bispo da diocese sudanesa de Rumbek, cuja ordenação episcopal e posterior cerimónia de posse ocorreu no dia 25 de março passado.

Perdão e esperança na África Oriental

O prelado sabe bem como é difícil levar a paz a esta nação da África Oriental devastada por anos de luta tribal e política, mas também enormemente provada pela pobreza extrema. Ele experimentou ódio e violência sobre a sua pele quando, na noite de 25 de abril do ano passado, foi baleado nas pernas num ataque realizado logo após o anúncio da sua nomeação como bispo de Rumbek. Mas ele nunca perdeu a esperança: "Para mim, reiniciar significa perdoar, porque sem o perdão não haveria reinício. A misericórdia, por outro lado, torna-se a capacidade de estabelecer relações e reconstruir relações de onde foram interrompidas", afirma com voz serena.

 

 D. Christian Carlassare, bispo da diocese sudanesa de Rumbek 

A visita do Papa Francisco é, portanto, parte dessa profunda esperança. A visita do Papa", explica o bispo, "dará um importante impulso ao processo de paz que afetará todas as comunidades, especialmente as mais frustradas e marginalizadas". Não somente. Para dom Carlassare, a presença do Papa será também um estímulo para a Igreja local empenhada em curar as feridas da população: "Será um grande estímulo para que a Igreja seja um verdadeiro instrumento de reconciliação e de paz através das muitas obras já presentes no país: desde as de evangelização até às de promoção humana baseada no cuidado total do homem".

Abraçando o Papa

Alguns dias antes da sua ordenação episcopal e cerimóia de posse, D.Carlassare foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano. Para mim, disse ele, "foi uma grande alegria poder encontrar pessoalmente o Santo Padre". Foi um momento muito simples de grande harmonia no qual ele me disse algumas palavras essenciais: 'Não tenha medo, o Senhor o acompanha sempre e o apoia'. A bênção que ele me deu é a de um homem que confiou no Senhor e está a dar a sua vida pela Igreja, e é por isso que eu a considero muito importante".

VN

04 abril 2022

Arcebispo de Kiev: façamos o bem e então o mal será derrotado

 
 
"Se o inimigo nos está a matar, semeando a morte, sirvamos a vida, respeitemos a vida humana desde a conceção até à morte natural. Vemos que hoje o inimigo está a roubar os ucranianos, roubando, saqueando, sejamos antes benfeitores. Sejamos generosos e ajudemos aqueles que precisam da nossa caridade cristã. Vemos que o inimigo está a destruir tudo. Vamos então construir, mãos à obra." 
 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Queridos irmãos e irmãs em Cristo, hoje é 4 de abril de 2022 e a Ucrânia já vive o 40º dia desta terrível e sangrenta guerra.

Montanhas de cadáveres, rios de sangue, um mar de lágrimas - estas são as três palavras que descrevem o ícone da Ucrânia contemporânea. E o nível, a profundidade dessa dor só cresce em cada dia que passa.

A guerra continua. Batalhas sangrentas continuam no norte, leste e sul da Ucrânia. O chamado terrorismo da foguete continua. Porque todas as noites as nossas cidades são bombardeadas por mísseis de cruzeiro russos: destruindo prédios residenciais, matando pessoas, destruindo  de modo crítico a infraestrutura da economia ucraniana. Esta noite atingiram Ternopil, Odessa, Mykolaiv...

A Ucrânia está a sofrer... Mas a Ucrânia está a lutar. A Ucrânia mostra ao mundo inteiro que tem valores, valores como o amor à Pátria, o amor a Deus e ao próximo, pelos quais vale a pena dar a vida. Porque dando a vida por eles é que se encontra o caminho para a imortalidade.

"Se o inimigonos está a matar, semeando a morte, sirvamos a vida, respeitemos a vida humana desde a concepão até à morte natural. Vemos que hoje o inimigo está a roubar os ucranianos, roubando, saqueando, sejamos antes benfeitores. Sejamos generosos e ajudemos aqueles que precisam da nossa caridade cristã. Vemos que o inimigo está a destruir tudo. Vamos então construir, mãos à obra."

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Queridos irmãos e irmãs em Cristo, hoje é 4 de abril de 2022 e a Ucrânia já vive o 40º dia desta terrível e sangrenta guerra.

Montanhas de cadáveres, rios de sangue, um mar de lágrimas - estas são as três palavras que descrevem o ícone da Ucrânia contemporânea. E o nível, a profundidade dessa dor só cresce em cada dia que passa.

A guerra continua. Batalhas sangrentas continuam no norte, leste e sul da Ucrânia. O chamado terrorismo de foguete continua. Porque todas as noites as nossas cidades são bombardeadas por mísseis de cruzeiro russos: destruindo prédios residenciais, matando pessoas, destruindo  de modo crítico a infraestrutura da economia ucraniana. Esta noite atingiram Ternopil, Odessa, Mykolaiv...

A Ucrânia está a sofrer... Mas a Ucrânia está a lutar. A Ucrânia mostra ao mundo inteiro que tem valores, valores como o amor à Pátria, o amor a Deus e ao próximo, pelos quais vale a pena dar a vida. Porque dando a vida por eles é que se encontra o caminho para a imortalidade.

VN

03 abril 2022

O Papa: "Não aprendemos, estamos apaixonados pelas guerras e pelo espírito de Caim"

 
  Papa Francisco, conferência de imprensa (Foto de arquivo)  (Vatican Media) 
 
No diálogo com os jornalistas no voo de retorno de Malta, Francisco respondeu a perguntas sobre a possibilidade de uma viagem a Kiev e sobre o horror da guerra.
 

Vatican News

"Não aprendemos! Que o Senhor tenha piedade de nós, de todos nós, todos nós somos culpados"! O Papa Francisco com os jornalistas no voo de retorno de Malta, depois de recordar o que o impressionou sobre o acolhimento na ilha, retorna a falar sobre a guerra.

Andrea Rossitto (TVM)

Obrigado pela sua presença em Malta. A minha pergunta é sobre a surpresa desta manhã na capela onde está enterrado S. Giorgio Preca. O que o motivou a fazer esta surpresa aos malteses e o que se recordará desta visita a Malta. E ainda, como está a sua saúde? Nós vi-mo-lo durante esta viagem muito intensa. Correu tudo bem, digamos. Muito obrigado.

A minha saúde é um pouco caprichosa, tenho este problema com o meu joelho que traz problemas na caminhada,  é um pouco chato, mas está a melhorar, pelo menos posso andar. Há duas semanas atrás, eu não podia fazer nada.  É uma coisa lenta, vamos ver se melhora, mas há a dúvida de que nesta idade não se sabe como isto vai acabar, vamos esperar que corra tudo bem. E depois sobre Malta: fiquei feliz com a visita, vi as realidades de Malta, vi um entusiasmo impressionante do povo, tanto em Gozo, como em Malta La Valletta e nos outros lugares. Um grande entusiasmo nas ruas surpreendeu-me, foi um pouco breve, o problema que eu vi e que é também para vós é a migração. O problema dos migrantes é sério Médio Oriente e aterram aqui, eles chegam aqui, os migrantes devem se acolhidos sempre!

O problema é que cada governo tem que dizer quantos podem receber normalmente para viver ali. Para isto é preciso um acordo com os países da Europa e nem todos estão dispostos a receber os migrantes. Esquecemos que a Europa foi feita por migrantes, certo? Mas é assim que as coisas são, mas pelo menos não deixar todo o peso para os países vizinhos que são tão generosos, e Malta é um deles. Hoje estive no centro de acolhimento de migrantes e as coisas que ouvi lá são terríveis, o sofrimento dessas pessoas para chegar aqui e depois os lagers, há lagers, que estão na costa líbica, quando são mandadas de volta. Isto parece criminoso, não parece? É por isso que eu acho que é um problema que toca o coração de todos. Assim como a Europa está a abrir espaço tão generosamente para os ucranianos que batem à porta, também para os outros que vêm do Mediterrâneo. Este é um ponto com o qual terminei a visita e tocou-me muito, porque ouvi os testemunhos, os sofrimentos que são mais ou menos como aqueles que eu acho que lhes disse estarem naquele pequeno livro que saiu, "Hermanito" em espanhol, "Irmãozinho", e toda a Via-Sacra destas pessoas. Um que falou hoje teve que pagar quatro vezes, peço-lhes que pensem sobre isto. Obrigado 

Jorge Antelo Barcia (RNA)

No voo que nos levou a Malta, o senhor disse a um colega que uma viagem a Kiev estava sobre a mesa e já em Malta fez referências à sua proximidade ao povo ucraniano, e na sexta-feira em Roma o presidente da Polónia deixou a porta aberta para uma viagem à fronteira daquele país. Hoje ficamos impressionados com as imagens vindas de Bucha, uma localidade perto de Kiev, abandonada pelo exército russo, onde os ucranianos encontraram dezenas de cadáveres jogados na rua, alguns com as mãos atadas, como se tivessem sido "executados". Parece que hoje a sua presença ali seja cada vez mais necessária. O senhor acha que uma viagem como esta é possível? E quais as condições que teriam que ser cumpridas para que o senhor possa lá ir?

Obrigado por me dar esta notícia de hoje que eu ainda não sabia. A guerra é sempre uma crueldade, uma coisa desumana, que vai contra o espírito humano, eu não digo cristão, humano. É o espírito de Caim, o espírito 'Caimista'... Estou disposto a fazer tudo o que precisa de ser feito, e a Santa Sé, especialmente o lado diplomático, o cardeal Parolin e dom Gallagher, estão a fazer tudo, mas tudo, não se pode publicar tudo o que eles fazem, por prudência, por confidencialidade, mas estamos no limite do nosso trabalho. Entre as possibilidades está a viagem: há duas viagens possíveis: uma dela pediu-me o presidente da Polónia para enviar o cardeal Krajewski a visitar os ucranianos que foram recebidos na Polónia. Ele já foi duas vezes, levou duas ambulâncias e ficou com eles, mas fará isso noutra ocasião, ele está disposto a fazer isto. A outra viagem que alguém me perguntou, mais de um, eu disse com sinceridade que tinha em mente fazê-la, que há sempre a minha disponibilidade, não há o não, eu estou disponível. O que pensa sobre uma viagem, a pergunta era assim: "ouvimos dizer que o senhor estava a pensar numa viagem à Ucrânia", eu respondi que ela está sobre a mesa, está ali como uma das propostas que chegaram, mas não sei se poderá ser feita, se é conveniente fazê-la e se seria para o melhor ou se é conveniente fazê-la e devo fazê-la, tudo isto está no ar. Depois há tempo, se tinha pensado num encontro com o Patriarca Kirill, se está a trabalhar para isto, se está a trabalhar, se está a pensar no Médio Oriente para fazê-lo, estas são as coisas como elas são agora.

Gerry O’Connel (America Magazine)

Durante esta viagem, o senhor várias vezes falou da guerra. A pergunta que todos fazem desde o início da guerra é se o senhor falou com o presidente Putin, e se não, o que lhe diria hoje?  

As coisas que disse às autoridades de cada lado são públicas. Nada do que disse é reservado para mim. Quando falei com o Patriarca, ele fez depois uma bela declaração daquilo que dissemos. Falei com o presidente da Rússia no final do ano, quando ele me ligou para as felicitações. Falei duas vezes com o presidente da Ucrânia. Depois, no primeiro dia de guerra pensei que deveria ir à embaixada russa para falar com o embaixador, que é o representante do povo e fazer minhas perguntas, apresentando as minhas impressões sobre o caso. Estes foram os contatos oficiais que tive. Com a Rússia, fiz através da embaixada. Também falei com o arcebispo-mor de Kiev, Dom Schevchuck. Falei ainda com regularidade em cada dois ou três dias com um de vós, Elisabetta Piqué, que estava em Lviv e agora está em Odessa. Ela me diz como estão as coisas. Falei também com o reitor do seminário. Mas como disse, estou em contacto também com um de vós. Falando deste tema, gostaria de dar os meus pêsames pelos vossos colegas que morreram. Estejam de que parte estejam, não interessa. Mas ovosso trabalho é pelo bem comum e essas pessoas morreram ao serviço do bem comum. Pela informação. Não nos esqueçamos deles. Foram corajosos e eu rezo por eles para que o Senhor lhes dê o prémio pelo seu trabalho. Estes foram os contactos feitos até agora.

Mas qual seria a mensagem para Putin se tivesse a possibilidade (de falar com ele)?

As mensagens que dei a todas as autoridades são as que fiz publicamente. Não tenho linguagem dupla. Faço sempre o mesmo. Creio que na sua pergunta exista também uma dúvida sobre guerras justas e injustas. Toda guerra nasce de uma injustiça, sempre. Porque há o esquema da guerra. Não há o esquema da paz. Por exemplo, fazer investimentos para comprar as armas. Dizem: mas precisamos delas para nos defender. Este é o esquema da guerra. Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, todos respiraram o “nunca mais a guerra” e a paz. Começou uma onda de trabalho pela paz também com a boa vontade de não dar as armas, as armas atómicas naquele momento, pela paz, depois de Hiroshima e Nagasaki. Havia uma grande boa vontade.

Setenta anos depois, esquecemos tudo isto. É assim que o esquema da guerra se impõe. Havia muitas esperanças no trabalho das Nações Unidas, na época. Mas o esquema de guerra impôs-se mais uma vez. Nós não podemos pensar noutro esquema, não estamos mais acostumados a pensar no esquema da paz. Houve grandes personagens, como Ghandi e outros que menciono no final da encíclica “Fratelli tutti”, que apostaram no esquema da paz. Mas nós fomos teimosos como humanidade. Somos apaixonados pelas guerras, pelo espírito de Caim. Não por acaso, no início da Bíblica há este problema: o espírito “caimista” de matar ao contrário do espírito da paz. Pai, não se pode! Conto algo pessoal de quando estive em 2014 em Redipuglia e vi os nomes dos jovens, eu chorei. Realmente chorei de amargura. Depois, um ou dois anos depois, para o dia de Finados fui celebrar em Anzio e vi os nomes dos jovens mortos ali. Todos jovens e também ali chorei. Realmente. É preciso chorar sobre os túmulos. Há algo que respeito porque existe um problema político. Quando houve a celebração do desembarque na Normandia, os chefes de Estado reuniram-se para comemorar. Mas não me lembro se alguém citou os 30 mil jovens que ficaram ali na praia. A juventude não conta. Isto faz-me pensar. Estou entristecido. Não aprendemos. Que o Senhor tenha piedade de nós, de todos nós. Todos somos culpados!

VN

Papa Francisco - homilia da Missa em Floriana, Malta

 

 Santa Missa na Praça dos Celeiros, em Floriana. Malta 

 
"Que diferença entre o Mestre e os acusadores! Citaram estes a Escritura para condenar; Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer advertência, se não for movida pela caridade e não contiver caridade, afunda ainda mais quem a recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre aberta uma possibilidade e sabe encontrar, todas as vezes, caminhos de libertação e salvação."

Papa Francisco

Homilia na Eucaristia

(Piazzale dei Granai, Floriana – 3 abril de 2022)

Jesus, «de madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele» (Jo 8, 2). Assim começa o episódio da mulher adúltera. O horizonte aparece sereno: numa manhã no lugar santo, no coração de Jerusalém. Protagonista é o povo de Deus, que no átrio do templo procura Jesus, o Mestre: deseja escutá-Lo, porque a sua palavra ilumina e encoraja. A sua doutrina não de forma alguma, abstrata: toca a vida e liberta-a, transforma-a, renova-a. Nisto se revela a intuição, o «faro» do povo de Deus, que não se contenta com o templo feito de pedras, mas reúne-se à volta da pessoa de Jesus. Nesta página, vislumbra-se o povo dos crentes de todos os tempos, o povo santo de Deus, que aqui em Malta é numeroso e vivaz, fiel na busca do Senhor, ligado a uma fé concreta, vivida. Por tudo isto vos agradeço!

Na presença do povo que O veio encontrar, Jesus não tem pressa: «sentou-Se – diz o Evangelho – e pôs-Se a ensinar» (8, 2). Mas, na escola de Jesus, há lugares vazios. Há alguns ausentes: são a mulher e os seus acusadores. Não foram ter com o Mestre como os outros, sendo diversas as razões da ausência: escribas e fariseus pensam que já sabem tudo, não precisam do ensinamento de Jesus; ao passo que a mulher é uma pessoa perdida, extraviada procurando a felicidade por caminhos errados. Temos, pois, ausências por motivos diferentes, como aliás será diferente o desfecho da própria vicissitude. Detenhamo-nos nestes ausentes.

Em primeiro lugar, os acusadores da mulher. Neles vemos a imagem daqueles que se vangloriam de ser justos, observadores da lei de Deus, pessoas regradas e justas. Não se preocupam com os próprios defeitos, mas mostram-se muito atentos na descoberta dos alheios. Assim se apresentam a Jesus: não com o coração disponível para O escutarem, mas «para O fazerem cair numa armadilha e terem de que O acusar» (8, 6). É um intento que fotografa a interioridade destas pessoas cultas e religiosas, que conhecem as Escrituras, frequentam o templo, mas subordinam tudo isto aos próprios interesses e não combatem os maus pensamentos que se agitam no seu coração. Aos olhos do povo, parecem peritos de Deus, e contudo não reconhecem Jesus; antes pelo contrário, veem-No como um inimigo que precisam de eliminar. Para o conseguir, colocam diante d’Ele uma pessoa, como se fosse uma coisa, chamando-a desdenhosamente «esta mulher» e denunciando publicamente o seu adultério. Pressionam para que a mulher seja apedrejada, derramando sobre ela a aversão que eles sentem pela compaixão de Jesus. E fazem tudo isto sob o manto da sua fama de homens religiosos.

Irmãos, irmãs, estas pessoas dizem-nos que, até na nossa religiosidade, se podem insinuar a traça da hipocrisia e o vício de apontar o dedo; e isto a todo o momento, em qualquer comunidade. Há sempre o perigo de entender mal Jesus, ter o seu nome nos lábios, mas negá-Lo nas obras. E pode-se fazê-lo mesmo quando se levantam estandartes com a cruz. Então como saber se somos discípulos na escola do Mestre? Pelo nosso olhar, pelo modo como olhamos para o próximo e como olhamos para nós mesmos.

Pelo modo como olhamos para o próximo: se o fazemos como Jesus nos faz ver hoje, isto é, com um olhar de misericórdia, ou de forma inquisitória, por vezes até desdenhosa, como os acusadores do Evangelho, que se erguem como defensores da Deus, mas não se apercebem de espezinhar os irmãos. Na realidade, quem julga defender a fé apontando o dedo contra os outros, até pode possuir uma visão religiosa, mas não adota o espírito do Evangelho, porque esquece a misericórdia, que é o coração de Deus.

Para compreender se somos verdadeiros discípulos do Mestre, é preciso verificar também como olhamos para nós mesmos. Os acusadores da mulher estão convencidos de que não têm nada a aprender. Com efeito a aparência externa é perfeita, mas falta a verdade do coração. São a figura dos crentes de cada época que fazem da fé um elemento de fachada, onde sobressai o aspeto exterior solene, mas falta a pobreza interior, que é o tesouro mais precioso do homem. De facto, para Jesus o que conta é a abertura disponível de quem não se sente perfeito, mas necessitado de salvação. Por isso, quando estivermos em oração e mesmo quando tomarmos parte em belas cerimónias religiosas, será bom perguntarmo-nos se estamos sintonizados com o Senhor. Podemos perguntá-lo diretamente a Ele: «Jesus, estou aqui convosco, mas Vós que quereis de mim? Que quereis que mude no meu coração, na minha vida? Como quereis que veja os outros?» Ser-nos-á útil rezar assim, porque o Mestre não Se satisfaz com a aparência, mas busca a verdade do coração. E quando Lhe abrimos de verdade o coração, Jesus pode operar maravilhas em nós.

Vemos acontecer isto mesmo na mulher adúltera. A sua situação parece irremediável, mas aos seus olhos abre-se um horizonte novo, inconcebível. Coberta de insultos, pronta a receber palavras implacáveis e severos castigos, com maravilha sua vê-se absolvida por Deus, que lhe abre de par em par um futuro inesperado: «Ninguém te condenou? – diz-lhe Jesus – Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar» (8, 10.11). Que diferença entre o Mestre e os acusadores! Estes citaram a Escritura para condenar; Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer advertência, se não for movida pela caridade e não contiver caridade, afunda ainda mais quem a recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre aberta uma possibilidade e sabe encontrar, todas as vezes, caminhos de libertação e salvação.

A vida daquela mulher muda graças ao perdão. Apetece-me pensar que, perdoada por Jesus, ela por sua vez aprendeu a perdoar. Talvez passasse a ver os seus acusadores, já não como pessoas rígidas e perversas, mas como aqueles que lhe permitiram encontrar Jesus. O Senhor quer que também nós, seus discípulos, nós como Igreja, perdoados por Ele, nos tornemos testemunhas incansáveis de reconciliação: testemunhas dum Deus para o Qual não existe a palavra «irrecuperável»; dum Deus que perdoa sempre continua a crer em nós e todas as vezes dá a possibilidade de recomeçar. Não há pecado ou fracasso que, levados a Ele, não possam tornar-se ocasião para começar uma vida nova, diferente, sob o signo da misericórdia.

Assim é o Senhor Jesus; sabe-o bem quem fez experiência do seu perdão; quem, como a mulher do Evangelho, descobre que Deus nos visita através das nossas chagas interiores: é sobretudo nestas que o Senhor prefere fazer-Se presente, pois não veio para os sãos, mas para os doentes (cf. Mt 9, 12). E hoje esta mulher, que conheceu a misericórdia na sua miséria e volta curada pelo perdão de Jesus, sugere-nos, como Igreja, que principiemos de novo a frequentar a escola do Evangelho, a escola do Deus da esperança que nos surpreende sempre. Se O imitarmos, não seremos levados a concentrarmo-nos na denúncia dos pecados, mas a sair amorosamente à procura dos pecadores. Não ficaremos a contar os presentes, mas iremos eà procura dos ausentes. Não voltaremos a apontar o dedo, mas começaremos a pôr-nos à escuta. Não descartaremos os desprezados, mas olharemos como primeiros aqueles que são considerados últimos. Isto é o que Jesus nos ensina hoje com o exemplo. Deixemo-nos surpreender por Ele. Acolhamos com alegria a sua novidade.

VN