O desespero de uma mulher em Bucha, Ucrânia
(AFP or licensors)
O Cardeal
Secretário de Estado, comentou as recentes notícias vindas da Ucrânia e
confirmou a possibilidade de uma viagem do Papa a Kiev: "Não é
proibitivo, estamos a avaliar se ele pode contribuir para acabar com a
guerra". Reunião com o Patriarca Kirill em preparação: "Estamos
a procurar território neutro".
Salvatore Cernuzio – Vatican News
"Deve ser feito todo o possível para evitar uma escalada da violência
na Ucrânia". O cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, lançou
mais uma vez um apelo à paz no país do Leste Europeu, sem excluir a
possibilidade de uma viagem do Papa a Kiev, que o próprio Francisco
disse estar em discussão. "Uma viagem que não é proibitiva, pode ser feita.
É uma questão de ver as consequências desta viagem, avaliando se pode
realmente contribuir para acabar com a guerra", disse o cardeal aos
jornalistas reunidos fora do Palácio Pio, a sede da Rádio Vaticano, onde
ele estava a participar na apresentação de um projeto multimédia sobre o
autismo.
Evitar um alargamento do conflito
O cardeal - questionado sobre as recentes afirmações de uma "OTAN
global" pelo secretário-geral, Jens Stoltenberg - confirmou "o princípio
da legítima defesa", mas ao mesmo tempo reiterou o apelo para que tudo
seja feito para evitar uma escalada da violência: "A resposta armada, na
mesma proporção da agressão, como nos ensina o Catecismo da Igreja
Católica, pode levar a um alargamento do conflito com consequências
desastrosas e mortais". A esperança é que "voltemos todos à razão e
encontremos o caminho da negociação para concluir esta aventura sem
retorno".
Francisco: cada vez mais crueldades horríveis em Bucha, a guerra deve parar
Foi com tristeza que o cardeal Parolin comentou as imagens das
atrocidades ocorridas em Bucha, uma cidade a cerca de 60 quilómetros de
Kiev, que se tornou o cenário do que o Papa descreveu como "um
massacre", com os corpos de civis espalhados pelas ruas. "É inexplicável
que a população civil deva ser atacada de tal forma. Eu realmente
acredito, como tem sido relevado por muitos, que estes episódios marcam
um ponto de viragem nesta guerra. E espero que marquem um ponto de viragem
no sentido positivo, ou seja, que façam todos refletir sobre a
necessidade de pôr um fim à luta o mais rápido possível e não endurecer
as posições como alguns temem".
Uma possível viagem do Papa a Kiev
Na mesma linha, o secretário de Estado respondeu a uma pergunta sobre
a "conveniência" de o Papa viajar para a capital ucraniana. "Deve haver
condições. O que parece ocorrer, porque do lado ucraniano sempre nos
foram dadas amplas garantias de que não haveria perigos e é feita
referência a viagens feitas por outros líderes e que ainda vão ao país.
Parece-me que a presidente do Parlamento Europeu já foi e agora irá a
presidente da Comissão". "Acredito que possa ser feita uma viagem a
Kiev, não é proibitiva", afirmou o cardeal. Entretanto estão a ser
avaliadas as "consequências". Estas incluem as relações com a Igreja
Ortodoxa Russa, uma situação que Parolin considera "delicada".
"Certamente", esclareceu, "o Papa não iria tomar uma posição a favor de
um ou de outro, como sempre fez neste tipo de situação". No entanto,
este aspeto, deve ser levado em conta na consideração geral de se fazer
ou não a viagem.
Reunião com o Patriarca Kirill
Ainda no contexto das relações com o Patriarcado de Moscovo, o
Secretário de Estado do Vaticano confirmou que " já havia uma
programação" para realizar um encontro entre o Papa e o Patriarca
Kirill, após o encontro de 12 de fevereiro de 2016 em Cuba. "Pelo que
entendi, continua-se nesta preparação", disse, explicando que a busca no
momento "é por terreno neutro". "Esta é a condição. Mas nada está
decidido. O trabalho está a ser feito, da nossa parte, mas sobretudo
pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade Cristã, que é o
Dicastério competente".
O trabalho da diplomacia do Vaticano e a viagem de Dom Gallagher
Em relação ao trabalho da diplomacia vaticana - um trabalho
ininterrupto, como afirmou o Papa Francisco no seu voo de retorno de
Malta - o Cardeal Parolin explicou que, embora não existam atualmente
"iniciativas particulares", "a disponibilidade oferecida há algum tempo
para mediação ou qualquer outra forma de intervenção que possa, por um
lado, facilitar um cessar-fogo e, por outro, o início das negociações"
ainda é válida. “Agora", acrescentou, "estamos a pensar se existem
outras maneiras de traduzir esta disponibilidade em iniciativas mais
concretas, também porque esta oferta deve ser aceite por ambas as
partes". Uma hipótese concreta é uma viagem a Kiev de Dom Paul Richard
Gallagher, Secretário de Relações com os Estados do Vaticano. Convidado
mesmo antes do início da guerra, a razão pela qual ele teve que cancelar
a viagem, Gallagher poderia estar na Ucrânia num futuro próximo".
"Porém, continuou o cardeal, creio que não tenha sido estabelecida uma
data".
"O fruto desta
meditação deveria ser uma revisão corajosa da nossa vida: costumes,
ocupações, horários de trabalho, distribuição e uso do tempo, para ver
se ela é realmente um serviço e se, neste serviço, há amor e humildade. O
ponto fundamental é saber se servimos os irmãos, ou se, ao
contrário, servimo-nos dos irmãos."
Fr. Raniero Cantalamessa, OFMCap.
“DEI-VOS O EXEMPLO”
Quinta Pregação, Quaresma de 2022
A nossa meditação de hoje parte de uma pergunta: por que João, na
narrativa da última ceia, não fala da instituição da Eucaristia, mas em
seu lugar fala, ao invés, do lava-pés? Justamente ele, que tinha
dedicado um capítulo inteiro do seu Evangelho para preparar os
discípulos a comer a sua carne e beber o seu sangue?
O motivo é que em tudo o que se refere à Páscoa e à Eucaristia, João mostra querer enfatizar mais o evento do que o sacramento, isto é, mais o significado do que o sinal. Para ele, a nova Páscoa não começa tanto no Cenáculo, quando se institui o rito que deve comemorá-la (sabe-se que a última ceia de João não é uma ceia “pascal”); começa mais sobre a cruz, quando se cumpre o fato
que deve ser comemorado. É ali que acontece a passagem da Páscoa antiga
à nova. Por isso, ele enfatiza que a Jesus na cruz “não foi quebrado
nenhum osso”: porque assim era prescrito para o cordeiro pascal no Êxodo
(Jo 19,36; Ex 12,46).
O significado do lava-pés
É importante compreender bem o significado que tem para João o gesto do lava-pés. A recente constituição apostólica Praedicate Evangelium
o menciona no Preâmbulo, como o próprio ícone do serviço que deve
caracterizar todo o trabalho da Cúria Romana. Ajuda-nos a entender como
pode se fazer, da vida, uma Eucaristia e, assim “imitar na vida o que se
celebra sobre o altar”. Estamos diante de um daqueles episódios (um
outro é o episódio da abertura do lado), em que o evangelista deixa
entender claramente que subjaz um mistério que vai além do fato
contingente que poderia, em si mesmo, parecer negligenciável.
“Eu – diz Jesus – dei-vos o exemplo”. Do que ele nos deu o exemplo?
De como se deve lavar concretamente os pés aos irmãos, cada vez que nos
pomos à mesa? Certamente não apenas disso! A resposta está no Evangelho:
“Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e
quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos; pois o
Filho de Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua
vida em resgate por muitos” (Mc 10,43-45).
No Evangelho de Lucas, justamente no contexto da última ceia, é
referida uma palavra de Jesus que parece pronunciada na conclusão do
lava-pés: “Afinal, quem é o maior: o que está à mesa, ou o que está
servindo? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós
como aquele que serve” (Lc 22,27). Segundo o evangelista, Jesus disse
estas palavras porque tinha surgido entre os discípulos uma discussão
sobre quem dentre eles podia ser considerado o maior (cf. Lc 22,24).
Talvez foi justamente esta circunstância que tenha inspirado a Jesus o
gesto do lava-pés, como uma espécie de parábola em ação. Enquanto os
discípulos estão todos propensos a discutir animadamente entre si, ele
se levanta silenciosamente da mesa, buscou uma bacia e uma toalha,
depois volta e se ajoelha diante de Pedro para lhe lavar os pés,
deixando-o, compreensivelmente, na maior confusão: “Senhor, tu me lavas
os pés?” (Jo 13,6).
No lava-pés, era como se Jesus quisesse resumir todo o sentido da sua
vida, para que permanecesse bem impresso na memória dos discípulos e,
um dia, quando pudessem entender, entendessem: “Agora não entendes o que
eu faço; mais tarde o compreenderás” (Jo 13,7). Aquele gesto, posto
como conclusão dos Evangelhos, diz-nos que toda a vida de Jesus, do
início ao fim, foi um lava-pés, isto é, um servir aos homens. Esse, como
dizem alguns exegetas, foi uma pró-existência, isto é, uma existência
vivida em favor dos outros.
Jesus nos deu o exemplo de uma vida consumida pelos outros, uma vida
feita “pão partido pelo mundo”. Com as palavras: “Também vós façais
assim como eu vos fiz”, Jesus institui, assim, a diakonía, ou
seja, o serviço, elevando-o a lei fundamental, ou melhor, a estilo de
vida e a modelo de todas as relações na Igreja. Como se dissesse, também
a propósito do lava-pés, o que disse ao instituir a Eucaristia: “Fazei
isto em memória de mim!”.
Neste ponto, devo fazer uma pequena digressão antes de prosseguir o
discurso. Um antigo Padre, o bem-aventurado Isaac de Nínive, dava este
conselho a quem é levado, pelo dever, a falar de coisas espirituais, às
quais ainda não chegou com a vida: “Falar disso – dizia ‒ como alguém
que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois de ter
humilhado a tua alma e te teres feito menor do que cada um dos teus
ouvintes”[1]. Eis aqui, Veneráveis padres, irmãos e irmãs, o espírito
com o qual ouso falar de serviço a vós, que o viveis diariamente.
Recordo a graciosa observação que uma vez fez conosco, membros da
Comissão Teológica Internacional, o então prefeito da Congregação para a
Doutrina da Fé, o Cardeal Franjo Šeper: “Vós, teólogos – disse sorrindo
‒, não escreveis algo que, assim que terminado, assinais vosso nome e
sobrenome. Nós, da Cúria, devemos fazer tudo anonimamente”. É uma
qualidade do serviço evangélico que é motivo para mim de admiração e
gratidão pelos muitos servidores anônimos da Igreja que trabalham na
Cúria Romana, nas Cúrias diocesanas e nas Nunciaturas.
O espírito do serviço
Voltemos ao tema. Devemos aprofundar o que significa “serviço”, para
poder realizá-lo em nossa vida e não permanecermos nas palavras. O
serviço não é, em si mesmo, uma virtude; em nenhum elenco das virtudes
ou dos frutos do Espírito, como os chama o Novo Testamento, encontra-se a
palavra diakonía, serviço. Fala-se, ao contrário, até de um
serviço ao pecado (cf. Rm 6,16) ou aos ídolos (cf. 1Cor 6,9), o que
certamente não é um serviço bom. Por si, o serviço é uma coisa neutra:
indica uma condição de vida, ou um modo de se relacionar com os demais
no próprio trabalho, um estar à disposição de outros. Pode ser, até
mesmo, algo negativo, se feito por coerção (escravidão), ou apenas por
interesse.
“Eu – diz Jesus – dei-vos o exemplo”. Do que ele nos deu o exemplo?
De como se deve lavar concretamente os pés aos irmãos, cada vez que nos
pomos à mesa? Certamente não apenas disso! A resposta está no Evangelho:
“Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve, e
quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos; pois o
Filho de Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua
vida em resgate por muitos” (Mc 10,43-45).
No Evangelho de Lucas, justamente no contexto da última ceia, é
referida uma palavra de Jesus que parece pronunciada na conclusão do
lava-pés: “Afinal, quem é o maior: o que está à mesa, ou o que está
servindo? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós
como aquele que serve” (Lc 22,27). Segundo o evangelista, Jesus disse
estas palavras porque tinha surgido entre os discípulos uma discussão
sobre quem dentre eles podia ser considerado o maior (cf. Lc 22,24).
Talvez foi justamente esta circunstância que tenha inspirado a Jesus o
gesto do lava-pés, como uma espécie de parábola em ação. Enquanto os
discípulos estão todos propensos a discutir animadamente entre si, ele
se levanta silenciosamente da mesa, buscou uma bacia e uma toalha,
depois volta e se ajoelha diante de Pedro para lhe lavar os pés,
deixando-o, compreensivelmente, na maior confusão: “Senhor, tu me lavas
os pés?” (Jo 13,6).
No lava-pés, era como se Jesus quisesse resumir todo o sentido da sua
vida, para que permanecesse bem impresso na memória dos discípulos e,
um dia, quando pudessem entender, entendessem: “Agora não entendes o que
eu faço; mais tarde o compreenderás” (Jo 13,7). Aquele gesto, posto
como conclusão dos Evangelhos, diz-nos que toda a vida de Jesus, do
início ao fim, foi um lava-pés, isto é, um servir aos homens. Esse, como
dizem alguns exegetas, foi uma pró-existência, isto é, uma existência
vivida em favor dos outros.
Jesus nos deu o exemplo de uma vida consumida pelos outros, uma vida
feita “pão partido pelo mundo”. Com as palavras: “Também vós façais
assim como eu vos fiz”, Jesus institui, assim, a diakonía, ou
seja, o serviço, elevando-o a lei fundamental, ou melhor, a estilo de
vida e a modelo de todas as relações na Igreja. Como se dissesse, também
a propósito do lava-pés, o que disse ao instituir a Eucaristia: “Fazei
isto em memória de mim!”.
Neste ponto, devo fazer uma pequena digressão antes de prosseguir o
discurso. Um antigo Padre, o bem-aventurado Isaac de Nínive, dava este
conselho a quem é levado, pelo dever, a falar de coisas espirituais, às
quais ainda não chegou com a vida: “Falar disso – dizia ‒ como alguém
que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois de ter
humilhado a tua alma e te teres feito menor do que cada um dos teus
ouvintes”[1]. Eis aqui, Veneráveis padres, irmãos e irmãs, o espírito
com o qual ouso falar de serviço a vós, que o viveis diariamente.
Recordo a graciosa observação que uma vez fez conosco, membros da
Comissão Teológica Internacional, o então prefeito da Congregação para a
Doutrina da Fé, o Cardeal Franjo Šeper: “Vós, teólogos – disse sorrindo
‒, não escreveis algo que, assim que terminado, assinais vosso nome e
sobrenome. Nós, da Cúria, devemos fazer tudo anonimamente”. É uma
qualidade do serviço evangélico que é motivo para mim de admiração e
gratidão pelos muitos servidores anônimos da Igreja que trabalham na
Cúria Romana, nas Cúrias diocesanas e nas Nunciaturas.
O espírito do serviço
Voltemos ao tema. Devemos aprofundar o que significa “serviço”, para
poder realizá-lo em nossa vida e não permanecermos nas palavras. O
serviço não é, em si mesmo, uma virtude; em nenhum elenco das virtudes
ou dos frutos do Espírito, como os chama o Novo Testamento, encontra-se a
palavra diakonía, serviço. Fala-se, ao contrário, até de um
serviço ao pecado (cf. Rm 6,16) ou aos ídolos (cf. 1Cor 6,9), o que
certamente não é um serviço bom. Por si, o serviço é uma coisa neutra:
indica uma condição de vida, ou um modo de se relacionar com os demais
no próprio trabalho, um estar à disposição de outros. Pode ser, até
mesmo, algo negativo, se feito por coerção (escravidão), ou apenas por
interesse.
Para fazer o “discernimento dos espíritos”, isto é, das intenções que
nos movem em nosso serviço, é útil ver quais são os serviços que
fazemos de bom grado e os que tentamos nos desviar de todas as maneiras.
Ver, além disso, se o nosso coração está pronto para abandonar – quando
nos for pedido – um serviço nobre, que dá brilho, por um humilde que
ninguém reconhecerá. Os serviços mais seguros são aqueles que fazemos
sem que ninguém, nem mesmo quem o recebe, se dê conta, mas apenas o Pai
que vê no segredo. Jesus elevou a símbolo do serviço um dos gestos mais
humildes que se conhecia em seu tempo e que era confiado, normalmente,
aos escravos: lavar os pés. São Paulo exorta: “Não sejais pretensiosos,
mas acomodai-vos às coisas humildes” (Rm 12,16).
Ao espírito de serviço, opões o desejo de domínio, o hábito de impor
aos outros a própria vontade e o próprio modo de ver ou de fazer as
coisas. Em síntese, o autoritarismo. Frequentemente, quem é movido por
estas disposições não se dá minimamente conta dos sofrimentos que
provoca e se surpreende ao ver que os outros não demonstram apreço por
todo o seu “interesse” e seus esforços, e chega até a se sentir vítima.
Jesus disse aos seus apóstolos que eram como “cordeiros em meio aos
lobos”, mas eles são, ao contrário, lobos em meio a cordeiros. Uma
grande parte dos sofrimentos que às vezes afligem uma família ou uma
comunidade é devida à existência nelas de algum espírito autoritário e
despótico que pisa sobre os demais e que, com o pretexto de “servir” os
outros, na realidade “se serve” dos outros.
É bem provável que esse “alguém” sejamos justamente nós! Se nos vem
uma pequena dúvida nesse sentido, seria bom questionarmos sinceramente
quem vive ao nosso lado e lhes déssemos a possibilidade de se expressar
sem medo. Se acontecer que nós também dificultamos a vida a alguém, com
nosso caráter, devemos aceitar humildemente a realidade e repensar nosso
serviço.
Ao espírito de serviço também se opõe, por outro lado, o apego
exagerado aos próprios hábitos e confortos. Em síntese, o espírito de
comodismo. Não pode servir seriamente os outros quem está sempre
disposto a agradar a si mesmo, que faz um ídolo do próprio descanso, do
próprio tempo livre, do próprio horário. A regra do serviço permanece
sempre a mesma: Cristo não buscou agradar a si mesmo.
O serviço, como vimos, é a virtude própria de quem preside, é a coisa
que Jesus deixou aos pastores da Igreja, como sua herança mais querida.
Todos os carismas, vimos, estão em função do serviço; mas de maneira
bem particular assim está o carisma de “pastores e mestres” (cf. Ef
4,11), isto é, o carisma da autoridade. A Igreja é “carismática” para
servir e é também “hierárquica” para servir!
O serviço do Espírito
Se, para todos os cristãos, servir significa “não viver mais para si
mesmos” (cf. 2Cor 5,15), para os pastores significa: “não apascentar a
si mesmos”: “Ai dos pastores de Israel, que se apascentam a si mesmos!
Acaso os pastores não devem apascentar as ovelhas?” (Ez 34,2). Para o
mundo, nada é mais natural e justo do que isso, ou seja, que quem é
senhor (dominus) “domine”, isto é, aja como dominador. Entre os
discípulos de Jesus, porém, “não é assim”, mas quem é senhor deve
servir. “Não temos a pretensão de dominar a vossa fé – escreve São Paulo
–. Pelo contrário, somos colaboradores da vossa alegria” (2Cor 1,24).
O mesmo recomenda aos pastores o apóstolo Pedro: “Não como
dominadores da herança a vós confiada, mas antes, como modelos do
rebanho” (cf. 1Pd 5,3). Não é fácil, no ministério pastoral, evitar a
mentalidade do dominador da fé; ela se inseriu muito cedo na concepção
da autoridade. Em um dos mais antigos documentos sobre o ministério
episcopal (a Didascalia Siriaca), encontramos já uma
concepção que apresenta o bispo como o monarca, em cuja Igreja nada pode
ser realizado, nem pelos homens nem por Deus, sem passar por ele.
Para os pastores, e enquanto pastores, é frequentemente sobre este
ponto que se decide o problema da conversão. Como soam fortes e
inflamadas as palavras de Jesus após o lava-pés: “Eu, o Senhor e
Mestre...!”. Jesus “não considerou um privilégio ser igual a Deus” (Fl
2,6), isto é, não teve mede de comprometer a sua dignidade divina, de
favorecer a falta de respeito por parte dos homens, despojando-se dos
seus privilégios e mostrando-se exteriormente um homem em meio aos
outros homens (“semelhante aos homens”). Jesus viveu simplesmente. A
simplicidade tem sempre sido o início e o sinal de um verdadeiro retorno
ao Evangelho. É preciso imitar o agir de Deus. Não há nada – escrevia
Tertuliano – que caracterize melhor o agir de Deus do que o contraste
entre a simplicidade dos meios e dos modos exteriores com que opera e a
grandiosidade dos efeitos espirituais que obtém[4]. O mundo necessita de
grandes aparatos para agir e para impressionar; Deus, não.
Houve uma época em que a dignidade dos bispos se expressava em
insígnias, títulos, castelos, exércitos. Eram, como se diz,
bispos-príncipes, mas bem mais príncipes que bispos. A Igreja vive hoje,
sobre este ponto, uma época que, em comparação, parece-nos dourada.
Conheci, há muitos anos, um bispo que achava natural toda semana passar
algumas horas em uma casa de repouso, para ajudar os idosos a se
vestirem e a comer. Tinha tomado o lava-pés ao pé da letra. Eu mesmo
devo dizer que tive de alguns prelados os melhores exemplos de
simplicidade da minha vida.
Contudo, é preciso conservar, também neste aspecto, uma grande
liberdade evangélica. A simplicidade exige que não nos coloquemos acima
dos demais, mas nem mesmo, sempre e obstinadamente, abaixo deles, para
manter, de uma forma ou de outra, as distâncias, mas que aceitemos, nas
coisas diárias da vida, ser como os outros. Há pessoas – observa
precisamente Manzoni – que, de humildade, têm o bastante para se colocar
abaixo das boas pessoas, mas não em mesmo nível[5].
Às vezes, o melhor serviço não consiste em servir, mas em deixar-se
servir, como Jesus que, conforme a circunstância, também sabia estar à
mesa e deixar-se lavar os pés (cf. Lc 7,38) e que, de bom grado,
aceitava os serviços que lhe prestavam, durante suas viagens, algumas
mulheres generosas e afeiçoadas (cf. Lc 8,2-3).
Há uma outra coisa que é preciso dizer a propósito do serviço dos
pastores, e é a seguinte: o serviço aos irmãos, por mais importante e
santo que seja, não é a primeira coisa e não é o essencial; antes, há o
serviço a Deus. Jesus é, antes de tudo, o “Servo de Javé”, e em seguida,
também o servo dos homens. Aos próprios pais lembra isso, dizendo: “Não
sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?” (Lc 2,49). Ele não
hesitava em desiludir as multidões, que chegavam para escutá-lo e para
deixar-se guiar, deixando-as improvisamente, para se retirar em lugares
solitários para rezar (cf. Lc 5,16).
Também o serviço evangélico é hoje assaltado pelo perigo da
secularização. Dá-se por certo muito facilmente que todo serviço ao
homem é serviço a Deus. São Paulo fala de um serviço do Espírito (diakonía pneumatos) (2Cor 3,8), ao qual são destinados os ministros do Novo Testamento. O espírito de serviço deve se expressar, nos pastores, por meio do serviço do Espírito!
Quem, como o sacerdote, é, por vocação, chamado a tal serviço
“espiritual”, não serve aos irmãos se lhes presta cem ou mil outros
serviços, mas negligencia aquele único de que se tem direito de esperar
dele e que só ele pode dar. Está escrito que o sacerdote “é tomado do
meio do povo e representa o povo nas suas relações com Deus” (Hb 5,1).
Quando surgiu este problema pela primeira vez na Igreja, Pedro o
resolveu dizendo: “Não está certo que abandemos a pregação da palavra de
Deus, para servirmos às mesas... Nós nos dedicaremos à oração e ao
serviço da Palavra” (At 6,2-4).
Há pastores que, de fato, voltaram ao serviço às mesas. Ocupam-se de
todo tipo de problemas materiais, econômicos, administrativos, às vezes,
até agrícolas, que existem em sua comunidade (mesmo quando poderiam
muito bem deixar para que outros o fizessem), e negligenciam o seu
verdadeiro, insubstituível serviço. O serviço da Palavra exige horas de
leitura, estudo, oração. Se há uma reclamação geral que hoje circula
entre os fiéis na Igreja é este: a inadequação, o vazio, da pregação.
Muitos saem da Missa desgostosos da homilia, ressequidos, ao invés de
enriquecidos. Deve-se repetir com Isaías: “Os pobres e indigentes buscam
água e não há” (Is 41,17). O povo procura um pão e lhe é dado
frequentemente um escorpião, isto é, palavras vazias, moídas, palavras
que não são de Deus.
Imediatamente após ter explicado aos apóstolos o significado do
lava-pés, Jesus lhes disse: “Sabendo tudo isso, sereis felizes se o
praticardes” (Jo 13,17). Também nós seremos felizes, se não nos
contentarmos em saber essas coisas – isto é, que a Eucaristia nos
impulsiona ao serviço e à partilha –, mas se as pusermos em prática,
possivelmente começando hoje mesmo. A Eucaristia não é apenas um
mistério para se consagrar, receber e adorar, mas também um mistério
para imitar.
Antes de concluir, porém, devemos recordar uma verdade que
enfatizamos em todas as nossas reflexões sobre a Eucaristia: a ação do
Espírito Santo! Cuidemos para não reduzir o dom ao dever! Não recebemos
apenas a ordem de lavar os pés e servir a nós mesmos: recebemos a graça
de poder fazê-lo. O serviço é um carisma e, como todos os carismas, é
"uma manifestação particular do Espírito para o bem comum" (1 Cor 12,
7); "Cada um vive segundo o dom (carisma!) recebido, colocando-o ao
serviço dos outros", diz o apóstolo Pedro na sua Primeira Carta (1 Pd
4,10). O dom precede o dever e torna possível o seu cumprimento. Esta é
"a boa notícia" - o Evangelho - de que a Eucaristia é a consoladora
memória quotidiana.
[1] Cf. Santo Isaac de Nínive, Discorsi ascetici, 4, Città Nuova, Roma 1984, p. 89.
[2] Cf. São Bernardo, Louvor da Virgem Mãe, I,8.
[3] São Francisco de Assis, Carta a toda a Ordem, 28.
[4] Cf. Tertuliano, De baptismo, 1 (CCL I, p. 277).
Papa Francisco mostra a bandeira ucraniana vinda de Bucha
No final da
audiência geral desta quarta-feira (06/04), o Papa condenou o "massacre"
na cidade ucraniana, a poucos quilómetros de Kiev, de onde foram
divulgadas fotografias e informações sobre os corpos de civis nas ruas. O
Pontífice reiterou o seu apelo para "calar as armas", depois mostrou uma
bandeira vinda diretamente de Bucha e acolheu um grupo de crianças
vindas da Ucrânia, no palco da Sala Paulo VI: "É difícil ser desenraizado
da própria terra por causa da guerra".
Salvatore Cernuzio – Vatican News
Um "massacre" diante do qual sobe um grito aos céus: "Acabem com esta
guerra, calem-se as armas, parem de semear morte e a destruição".
Francisco falou em tom sério na Sala Paulo VI. Diante dos seus olhos
estão as imagens de mais de 70 corpos de civis espalhados pelas ruas, de
mãos atadas atrás das costas, em Bucha, uma cidade ucraniana a poucos
quilómetros de Kiev, cujas fotos foram divulgadas pelas autoridades
locais juntamente com relatos de valas comuns. O mundo ficou indignado
com estas terríveis fotografias, que estão a ser investigadas como
"crimes de guerra".
Um "massacre" é
como Francisco definiu no final da audiência geral. "As recentes
notícias sobre a guerra na Ucrânia, em vez de trazer alívio e
esperança, atestam novas atrocidades, como o massacre de Bucha", afirma o
Pontífice.
Crueldades cada vez mais horrendas, perpetradas também contra
civis, mulheres e crianças indefesas. São vítimas cujo sangue inocente
clama ao céu e implora: "Acabem com esta guerra! Silenciem as armas!
Parem de semear a morte e a destruição".
O Papa pede aos fiéis que rezem por isto e, de cabeça baixa, fica em
silêncio por alguns momentos. Depois levanta-se e mostra a todos uma
bandeira em dois tons de verde, com uma cruz desenhada e escritas em redor, em
ucraniano: "Ontem, direto de Bucha, trouxeram-me esta bandeira.
Esta bandeira vem da guerra, da cidade martirizada de Bucha", disse.
Algumas crianças ucranianas sobem ao palco, acompanhadas por seus
pais. A mais nova está no colo da sua mãe, e o maior leva um desenho.
"Saudemo-los e rezemos junto com eles", exorta o Papa Francisco. E
comenta:
"Estas crianças tiveram que fugir e chegar a uma terra estranha:
este é um dos frutos da guerra. Não os esqueçamos, e não esqueçamos o
povo ucraniano".
Francisco dobra a bandeira, beija e abençoa-a. Em seguida, entrega
alguns ovos de Páscoa às crianças. Carícias, mãos na cabeça, um toque
na bochecha da menor: gestos de ternura para os que ainda estão a sentir
o choque do barulho das bombas e da fuga das suas próprias casas.
"É difícil ser desenraizado da própria terra por causa de uma guerra".
Um comentário que o Pontífice pronunciou de improviso ao sentar-se.
Já na conferência de imprensa no voo de retorno de Malta, o Papa Francisco
tinha comentado o massacre em Bucha, notícia da qual um repórter o tinha
informado. "A guerra é sempre uma crueldade, uma coisa desumana e vai
contra o espírito humano – não digo espírito cristão – contra o espírito
humano. É o espírito de Caim”, disse o Papa. “É o espírito de Caim, o
espírito 'Caimista’”.
Com o seu olhar sempre voltado para a Ucrânia, Francisco agradeceu aos
fiéis polacos - os presentes no Salão Paulo VI e os ligados através da
media - pelo espírito de acolhimento demonstrado aos refugiados
ucranianos. Quase três milhões, de acordo com as últimas estimativas.
"Vocês demonstraram uma extraordinária e exemplar generosidade para com os nossos irmãos e irmãs ucranianos, para os quais abriram os vossos corações e
as portas das vossas casas", disse o Papa. "Muito obrigado, muito obrigado
pelo que fazem aos ucranianos", acrescentou ele. Por fim, uma
bênção: "Que o Senhor abençoe a vossa pátria pela vossa solidariedade e vos
mostre o Seu Rosto".
A catequese de
Francisco foi dedicada à sua recente viagem apostólica a Malta. Durante o
encontro com os fiéis na Sala Paulo VI, o Papa disse que "hoje, fala-se
frequentemente de “geopolítica”, mas infelizmente a lógica dominante é a
das estratégias dos Estados mais poderosos para afirmar os seus
interesses alargando a própria área de influência económica, ideológica e
militar".
Mariangela Jaguraba - Vatican News
A recente viagem apostólica do Papa Francisco a Malta foi o tema da
catequese do Pontífice na Audiência Geral desta quarta-feira (06/04),
realizada na Sala Paulo VI.
A viagem apostólica do Papa a Malta estava planeada para ser realizar
em 2020, mas foi adiada por causa da pandemia da Covid-19. Segundo o
Papa, "poucas pessoas sabem que Malta, embora sendo uma ilha no meio do
Mediterrâneo, recebeu o Evangelho muito cedo, porque o Apóstolo Paulo
naufragou perto do seu litoral e milagrosamente salvou-se a si mesmo e a
todos os que estavam no barco, mais de duzentas e setenta pessoas. Os
Atos dos Apóstolos relatam que os malteses acolheram todos «com rara
humanidade»."
Um mundo mais fraterno, mais habitável
Escolhi precisamente estas palavras: com rara humanidade, como
lema da minha Viagem, pois indicam o caminho a seguir não só para
enfrentar o fenómeno dos migrantes, mas em geral para que o mundo se
torne mais fraterno, mais habitável, e se salve de um “naufrágio” que
ameaça a todos nós que estamos, como aprendemos, no mesmo barco, todos.
Malta é um lugar-chave neste horizonte".
Primeiramente, Malta é um lugar-chave "geograficamente, devido
à sua posição no centro do mar entre a Europa e a África, mas que
também banha a Ásia. Malta é uma espécie de “rosa dos ventos”, onde
povos e culturas se encontram; é um ponto privilegiado a partir do qual
se pode observar a área mediterrânea numa perspetiva de 360°. Hoje,
fala-se frequentemente de “geopolítica”, mas infelizmente a lógica
dominante é a das estratégias dos Estados mais poderosos para afirmar os
seus interesses alargando a própria área de influência económica,
ideológica e militar. Estamos a ver isto com a guerra", disse o Papa,
acrescentando:
Malta representa, neste quadro, o direito e a força dos
“pequenos”, das nações pequenas, mas ricas em história e civilização,
que deveriam levar a cabo outra lógica: a do respeito, mas também a
lógica da liberdade, da convivência das diferenças, oposta à colonização
dos mais poderosos. Estamos a ver isto agora e não somente de uma
parte, mas também da outra.
“Depois da Segunda Guerra Mundial, foram feitas tentativas para
lançar as bases de uma nova história de paz, mas infelizmente, não
aprendemos, a velha história de grandes potências concorrentes
continuou. E, na atual guerra na Ucrânia, estamos a ver a impotência da
Organização das Nações Unidas.”
A Europa foi formada por migrações
O segundo aspeto é que "Malta é um lugar-chave no que diz respeito ao fenómeno das migrações".
"No Centro de acolhimento João XXIII, encontrei-me com muitos migrantes
que chegaram à ilha após terríveis viagens", frisou o Papa, convidando a
"ouvir os seus testemunhos, porque esta é a única forma de fugir da
visão distorcida que frequentemente circula nos meios de comunicação e
reconhecer os seus rostos, histórias, feridas, sonhos e esperanças
desses migrantes".
Cada migrante é único, não é um número, é uma pessoa, é único como
cada um de nós. Cada migrante é uma pessoa com a própria dignidade,
raízes e cultura. Cada um deles é portador de uma riqueza infinitamente
maior do que os problemas que podem surgir. Não nos esqueçamos de que a
Europa foi formada por migrações.
Malta é um "laboratório de paz"
Obviamente, "o acolhimento deve ser organizado, deve ser planeado juntos,
no âmbito internacional", frisou o Papa, pois "o fenómeno migratório
não pode ser reduzido a uma emergência, é um sinal dos nossos tempos.
Deve ser lido e interpretado como tal. Pode tornar-se um sinal de
conflito ou um sinal de paz".
A seguir, Francisco disse que o Centro de acolhimento de migrantes João XXIII, em Malta, é um "laboratório de paz", e que "Malta no seu conjunto é um laboratório de paz! Toda a nação com o seu comportamento é um laboratório de paz"e
"pode cumprir esta missão se procurar nas suas raízes a seiva da
fraternidade, da compaixão e da solidariedade. O povo maltês recebeu
estes valores junto com o Evangelho, e graças ao Evangelho eles serão
capazes de os manter vivos".
Testemunho cristão em todo o mundo
O terceiro aspeto é que "Malta é um lugar-chave também do ponto de vista da evangelização.
De Malta e Gozo, as duas dioceses do país, muitos sacerdotes e
religiosos, bem como fiéis leigos, partiram, dando testemunho cristão em
todo o mundo. Como se a passagem de S. Paulo tivesse deixado a missão
no DNA dos malteses! Por isso, a minha visita foi, primeiramente, um ato
de gratidão, gratidão a Deus e ao seu santo povo fiel que está em Malta
e Gozo".
O Papa recordou que em Malta "também sopra o vento do secularismo e a
pseudocultura globalizada do consumismo, do neocapitalismo e do
relativismo". "Também lá, portanto, é tempo de nova evangelização",
frisou ele, recordando a visita à Gruta de São Paulo, ao Santuário
Nacional Mariano de Ta' Pinu, na ilha de Gozo. "Lá senti palpitar o
coração do povo maltês, que tem tanta confiança na sua Santa Mãe. Maria
nos traz sempre de volta ao essencial, a Cristo crucificado e
ressuscitado por nós, ao seu amor misericordioso. Maria nos ajuda a
reavivar a chama da fé, atraindo o fogo do Espírito Santo, que anima o
jubiloso anúncio do Evangelho de geração em geração, pois a alegria da
Igreja é evangelizar!", disse ainda o Papa, recordando as palavras de
São Paulo VI: "A vocação da Igreja é evangelizar. A alegria da Igreja é evangelizar. É a definição mais bonita da Igreja".
Francisco recordou o frade franciscano pe. Dionísio Mintoff, de 91
anos que continua a trabalhar no Centro de Acolhimento de Migrantes João
XXIII, em Malta, com a ajuda de colaboradores da Diocese. "É um exemplo
de zelo apostólico e amor pelos migrantes, muito necessário hoje",
concluiu o Papa, agradecendo ao povo maltês pelo acolhimento humano e
cristão.
Dom Christian Carlassare, bispo de Rumbeck, cerimóia de posse
O bispo da diocese
de Rumbek expressa alegria pela anunciada visita do Papa Francisco ao
país da África Oriental em julho próximo: "Será de grande incentivo
também para a Igreja local engajada no longo processo de reconciliação".
O prelado, ferido num ataque no ano passado, dirigiu-se aos
agressores e reiterou: "para mim, reiniciar significa perdoar".
Federico Piana – Vatican News
Alguns dias após a etapa em Malta, o olhar dirige-se agora para a
próxima viagem apostólica do Papa Francisco ao Sudão do Sul, programada
para 5-7 de julho, que será "o cumprimento de uma ação iniciada pelo
Pontífice há muito tempo para pedir a paz para este país". Esta é a
convicção de dom Christian Carlassare, bispo da diocese sudanesa de
Rumbek, cuja ordenação episcopal e posterior cerimónia de posse ocorreu
no dia 25 de março passado.
Perdão e esperança na África Oriental
O prelado sabe bem como é difícil levar a paz a esta nação da África
Oriental devastada por anos de luta tribal e política, mas também
enormemente provada pela pobreza extrema. Ele experimentou ódio e
violência sobre a sua pele quando, na noite de 25 de abril do ano
passado, foi baleado nas pernas num ataque realizado logo após o
anúncio da sua nomeação como bispo de Rumbek. Mas ele nunca perdeu a
esperança: "Para mim, reiniciar significa perdoar, porque sem o perdão
não haveria reinício. A misericórdia, por outro lado, torna-se a
capacidade de estabelecer relações e reconstruir relações de onde foram
interrompidas", afirma com voz serena.
D. Christian Carlassare, bispo da diocese sudanesa de Rumbek
A visita do Papa Francisco é, portanto, parte dessa profunda esperança. A
visita do Papa", explica o bispo, "dará um importante impulso ao
processo de paz que afetará todas as comunidades, especialmente as mais
frustradas e marginalizadas". Não somente. Para dom Carlassare, a
presença do Papa será também um estímulo para a Igreja local empenhada
em curar as feridas da população: "Será um grande estímulo para que a
Igreja seja um verdadeiro instrumento de reconciliação e de paz através
das muitas obras já presentes no país: desde as de evangelização até às
de promoção humana baseada no cuidado total do homem".
Abraçando o Papa
Alguns dias antes da sua ordenação episcopal e cerimóia de posse, D.Carlassare foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano. Para mim,
disse ele, "foi uma grande alegria poder encontrar pessoalmente o Santo
Padre". Foi um momento muito simples de grande harmonia no qual ele me
disse algumas palavras essenciais: 'Não tenha medo, o Senhor o acompanha sempre e o apoia'. A bênção que ele me deu é a de um homem que
confiou no Senhor e está a dar a sua vida pela Igreja, e é por isso que eu
a considero muito importante".
"Se o inimigo nos está a matar, semeando a morte, sirvamos a vida, respeitemos a vida
humana desde a conceção até à morte natural. Vemos que hoje o inimigo
está a roubar os ucranianos, roubando, saqueando, sejamos antes
benfeitores. Sejamos generosos e ajudemos aqueles que precisam da nossa
caridade cristã. Vemos que o inimigo está a destruir tudo. Vamos então
construir, mãos à obra."
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Queridos irmãos e irmãs em Cristo, hoje é 4 de abril de 2022 e a Ucrânia já vive o 40º dia desta terrível e sangrenta guerra.
Montanhas de cadáveres, rios de sangue, um mar de lágrimas - estas
são as três palavras que descrevem o ícone da Ucrânia contemporânea. E o
nível, a profundidade dessa dor só cresce em cada dia que passa.
A guerra continua. Batalhas sangrentas continuam no norte, leste e
sul da Ucrânia. O chamado terrorismo da foguete continua. Porque todas
as noites as nossas cidades são bombardeadas por mísseis de cruzeiro
russos: destruindo prédios residenciais, matando pessoas, destruindo de
modo crítico a infraestrutura da economia ucraniana. Esta noite
atingiram Ternopil, Odessa, Mykolaiv...
A Ucrânia está a sofrer... Mas a Ucrânia está a lutar. A Ucrânia
mostra ao mundo inteiro que tem valores, valores como o amor à Pátria, o
amor a Deus e ao próximo, pelos quais vale a pena dar a vida. Porque
dando a vida por eles é que se encontra o caminho para a imortalidade.
"Se o inimigonos está a matar, semeando a morte, sirvamos a vida, respeitemos a vida
humana desde a concepão até à morte natural. Vemos que hoje o inimigo
está a roubar os ucranianos, roubando, saqueando, sejamos antes
benfeitores. Sejamos generosos e ajudemos aqueles que precisam da nossa
caridade cristã. Vemos que o inimigo está a destruir tudo. Vamos então
construir, mãos à obra."
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Queridos irmãos e irmãs em Cristo, hoje é 4 de abril de 2022 e a Ucrânia já vive o 40º dia desta terrível e sangrenta guerra.
Montanhas de cadáveres, rios de sangue, um mar de lágrimas - estas
são as três palavras que descrevem o ícone da Ucrânia contemporânea. E o
nível, a profundidade dessa dor só cresce em cada dia que passa.
A guerra continua. Batalhas sangrentas continuam no norte, leste e
sul da Ucrânia. O chamado terrorismo de foguete continua. Porque todas
as noites as nossas cidades são bombardeadas por mísseis de cruzeiro
russos: destruindo prédios residenciais, matando pessoas, destruindo de
modo crítico a infraestrutura da economia ucraniana. Esta noite
atingiram Ternopil, Odessa, Mykolaiv...
A Ucrânia está a sofrer... Mas a Ucrânia está a lutar. A Ucrânia
mostra ao mundo inteiro que tem valores, valores como o amor à Pátria, o
amor a Deus e ao próximo, pelos quais vale a pena dar a vida. Porque
dando a vida por eles é que se encontra o caminho para a imortalidade.
Papa Francisco, conferência de imprensa (Foto de arquivo)
(Vatican Media)
No diálogo com os
jornalistas no voo de retorno de Malta, Francisco respondeu a perguntas
sobre a possibilidade de uma viagem a Kiev e sobre o horror da guerra.
Vatican News
"Não aprendemos! Que o Senhor tenha piedade de nós, de todos nós,
todos nós somos culpados"! O Papa Francisco com os jornalistas no voo de
retorno de Malta, depois de recordar o que o impressionou sobre o acolhimento na ilha, retorna a falar sobre a guerra.
Andrea Rossitto (TVM)
Obrigado pela sua presença em Malta. A minha pergunta é sobre a
surpresa desta manhã na capela onde está enterrado S. Giorgio Preca. O
que o motivou a fazer esta surpresa aos malteses e o que se recordará
desta visita a Malta. E ainda, como está a sua saúde? Nós vi-mo-lo durante
esta viagem muito intensa. Correu tudo bem, digamos. Muito obrigado.
A minha saúde é um pouco caprichosa, tenho este problema com o meu
joelho que traz problemas na caminhada, é um pouco chato, mas está
a melhorar, pelo menos posso andar. Há duas semanas atrás, eu não podia
fazer nada. É uma coisa lenta, vamos ver se melhora, mas há a dúvida de
que nesta idade não se sabe como isto vai acabar, vamos esperar que
corra tudo bem. E depois sobre Malta: fiquei feliz com a visita, vi as
realidades de Malta, vi um entusiasmo impressionante do povo, tanto em
Gozo, como em Malta La Valletta e nos outros lugares. Um grande
entusiasmo nas ruas surpreendeu-me, foi um pouco breve, o problema que
eu vi e que é também para vós é a migração. O problema dos
migrantes é sério Médio Oriente e aterram aqui,
eles chegam aqui, os migrantes devem se acolhidos sempre!
O problema é que cada governo tem que dizer quantos podem receber
normalmente para viver ali. Para isto é preciso um acordo com os
países da Europa e nem todos estão dispostos a receber os
migrantes. Esquecemos que a Europa foi feita por migrantes, certo? Mas é
assim que as coisas são, mas pelo menos não deixar todo o peso para os países vizinhos que são tão generosos, e Malta é um deles. Hoje
estive no centro de acolhimento de migrantes e as coisas que ouvi lá são
terríveis, o sofrimento dessas pessoas para chegar aqui e depois os
lagers, há lagers, que estão na costa líbica, quando são mandadas de
volta. Isto parece criminoso, não parece? É por isso que eu acho que é
um problema que toca o coração de todos. Assim como a Europa está
a abrir espaço tão generosamente para os ucranianos que batem à porta, também para os outros que vêm do Mediterrâneo. Este é um ponto com
o qual terminei a visita e tocou-me muito, porque ouvi os testemunhos,
os sofrimentos que são mais ou menos como aqueles que eu acho que lhes
disse estarem naquele pequeno livro que saiu, "Hermanito" em espanhol,
"Irmãozinho", e toda a Via-Sacra destas pessoas. Um que falou hoje teve
que pagar quatro vezes, peço-lhes que pensem sobre isto. Obrigado
Jorge Antelo Barcia (RNA)
No voo que nos levou a Malta, o senhor disse a um colega que uma
viagem a Kiev estava sobre a mesa e já em Malta fez referências à sua
proximidade ao povo ucraniano, e na sexta-feira em Roma o presidente da
Polónia deixou a porta aberta para uma viagem à fronteira daquele país.
Hoje ficamos impressionados com as imagens vindas de Bucha, uma
localidade perto de Kiev, abandonada pelo exército russo, onde os
ucranianos encontraram dezenas de cadáveres jogados na rua, alguns com
as mãos atadas, como se tivessem sido "executados". Parece que hoje a sua
presença ali seja cada vez mais necessária. O senhor acha que uma viagem
como esta é possível? E quais as condições que teriam que ser cumpridas para
que o senhor possa lá ir?
Obrigado por me dar esta notícia de hoje que eu ainda não sabia. A
guerra é sempre uma crueldade, uma coisa desumana, que vai contra o
espírito humano, eu não digo cristão, humano. É o espírito de Caim, o
espírito 'Caimista'... Estou disposto a fazer tudo o que precisa de ser
feito, e a Santa Sé, especialmente o lado diplomático, o cardeal Parolin
e dom Gallagher, estão a fazer tudo, mas tudo, não se pode publicar
tudo o que eles fazem, por prudência, por confidencialidade, mas estamos
no limite do nosso trabalho. Entre as possibilidades está a viagem: há
duas viagens possíveis: uma dela pediu-me o presidente da Polónia para
enviar o cardeal Krajewski a visitar os ucranianos que foram
recebidos na Polónia. Ele já foi duas vezes, levou duas ambulâncias e
ficou com eles, mas fará isso noutra ocasião, ele está disposto a
fazer isto. A outra viagem que alguém me perguntou, mais de um, eu disse
com sinceridade que tinha em mente fazê-la, que há sempre a minha
disponibilidade, não há o não, eu estou disponível. O que pensa sobre
uma viagem, a pergunta era assim: "ouvimos dizer que o senhor estava
a pensar numa viagem à Ucrânia", eu respondi que ela está sobre a mesa,
está ali como uma das propostas que chegaram, mas não sei se poderá ser
feita, se é conveniente fazê-la e se seria para o melhor ou se é
conveniente fazê-la e devo fazê-la, tudo isto está no ar. Depois há
tempo, se tinha pensado num encontro com o Patriarca Kirill, se está
a trabalhar para isto, se está a trabalhar, se está a pensar no
Médio Oriente para fazê-lo, estas são as coisas como elas são agora.
Gerry O’Connel (America Magazine)
Durante esta viagem, o senhor várias vezes falou da guerra. A
pergunta que todos fazem desde o início da guerra é se o senhor falou
com o presidente Putin, e se não, o que lhe diria hoje?
As coisas que disse às autoridades de cada lado são públicas. Nada do
que disse é reservado para mim. Quando falei com o Patriarca, ele
fez depois uma bela declaração daquilo que dissemos. Falei com o
presidente da Rússia no final do ano, quando ele me ligou para as
felicitações. Falei duas vezes com o presidente da Ucrânia. Depois, no
primeiro dia de guerra pensei que deveria ir à embaixada russa para
falar com o embaixador, que é o representante do povo e fazer minhas
perguntas, apresentando as minhas impressões sobre o caso. Estes foram os
contatos oficiais que tive. Com a Rússia, fiz através da embaixada.
Também falei com o arcebispo-mor de Kiev, Dom Schevchuck. Falei ainda
com regularidade em cada dois ou três dias com um de vós, Elisabetta
Piqué, que estava em Lviv e agora está em Odessa. Ela me diz como estão
as coisas. Falei também com o reitor do seminário. Mas como disse, estou
em contacto também com um de vós. Falando deste tema, gostaria de dar
os meus pêsames pelos vossos colegas que morreram. Estejam de que
parte estejam, não interessa. Mas ovosso trabalho é pelo bem comum e
essas pessoas morreram ao serviço do bem comum. Pela informação. Não
nos esqueçamos deles. Foram corajosos e eu rezo por eles para que o
Senhor lhes dê o prémio pelo seu trabalho. Estes foram os contactos
feitos até agora.
Mas qual seria a mensagem para Putin se tivesse a possibilidade (de falar com ele)?
As mensagens que dei a todas as autoridades são as que fiz
publicamente. Não tenho linguagem dupla. Faço sempre o mesmo. Creio que
na sua pergunta exista também uma dúvida sobre guerras justas e
injustas. Toda guerra nasce de uma injustiça, sempre. Porque há o
esquema da guerra. Não há o esquema da paz. Por exemplo, fazer
investimentos para comprar as armas. Dizem: mas precisamos delas para
nos defender. Este é o esquema da guerra. Quando a Segunda Guerra Mundial
acabou, todos respiraram o “nunca mais a guerra” e a paz. Começou uma
onda de trabalho pela paz também com a boa vontade de não dar as armas,
as armas atómicas naquele momento, pela paz, depois de Hiroshima e
Nagasaki. Havia uma grande boa vontade.
Setenta anos depois, esquecemos tudo isto. É assim que o esquema da
guerra se impõe. Havia muitas esperanças no trabalho das Nações Unidas,
na época. Mas o esquema de guerra impôs-se mais uma vez. Nós não podemos
pensar noutro esquema, não estamos mais acostumados a pensar no esquema
da paz. Houve grandes personagens, como Ghandi e outros que menciono no
final da encíclica “Fratelli tutti”, que apostaram no esquema da paz.
Mas nós fomos teimosos como humanidade. Somos apaixonados pelas guerras,
pelo espírito de Caim. Não por acaso, no início da Bíblica há este
problema: o espírito “caimista” de matar ao contrário do espírito da
paz. Pai, não se pode! Conto algo pessoal de quando estive em 2014 em
Redipuglia e vi os nomes dos jovens, eu chorei. Realmente chorei de
amargura. Depois, um ou dois anos depois, para o dia de Finados fui
celebrar em Anzio e vi os nomes dos jovens mortos ali. Todos jovens e
também ali chorei. Realmente. É preciso chorar sobre os túmulos. Há algo
que respeito porque existe um problema político. Quando houve a
celebração do desembarque na Normandia, os chefes de Estado reuniram-se
para comemorar. Mas não me lembro se alguém citou os 30 mil jovens que
ficaram ali na praia. A juventude não conta. Isto faz-me pensar. Estou
entristecido. Não aprendemos. Que o Senhor tenha piedade de nós, de
todos nós. Todos somos culpados!
Santa Missa na Praça dos Celeiros, em Floriana. Malta
"Que diferença
entre o Mestre e os acusadores! Citaram estes a Escritura para condenar;
Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher,
restituindo-lhe a esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer
advertência, se não for movida pela caridade e não contiver caridade,
afunda ainda mais quem a recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre
aberta uma possibilidade e sabe encontrar, todas as vezes, caminhos de
libertação e salvação."
Papa Francisco
Homilia na Eucaristia
(Piazzale dei Granai, Floriana – 3 abril de 2022)
Jesus, «de madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele» (Jo
8, 2). Assim começa o episódio da mulher adúltera. O horizonte aparece
sereno: numa manhã no lugar santo, no coração de Jerusalém. Protagonista é
o povo de Deus, que no átrio do templo procura Jesus, o Mestre:
deseja escutá-Lo, porque a sua palavra ilumina e encoraja. A sua
doutrina não de forma alguma, abstrata: toca a vida e liberta-a,
transforma-a, renova-a. Nisto se revela a intuição, o «faro» do povo de Deus,
que não se contenta com o templo feito de pedras, mas reúne-se à volta
da pessoa de Jesus. Nesta página, vislumbra-se o povo dos crentes de
todos os tempos, o povo santo de Deus, que aqui em Malta é numeroso e
vivaz, fiel na busca do Senhor, ligado a uma fé concreta, vivida. Por
tudo isto vos agradeço!
Na presença do povo que O veio encontrar, Jesus não tem pressa:
«sentou-Se – diz o Evangelho – e pôs-Se a ensinar» (8, 2). Mas, na
escola de Jesus, há lugares vazios. Há alguns ausentes: são a mulher e
os seus acusadores. Não foram ter com o Mestre como os outros, sendo
diversas as razões da ausência: escribas e fariseus pensam que já sabem
tudo, não precisam do ensinamento de Jesus; ao passo que a mulher é uma
pessoa perdida, extraviada procurando a felicidade por caminhos errados.
Temos, pois, ausências por motivos diferentes, como aliás será
diferente o desfecho da própria vicissitude. Detenhamo-nos nestes
ausentes.
Em primeiro lugar, os acusadores da mulher. Neles vemos a
imagem daqueles que se vangloriam de ser justos, observadores da lei de
Deus, pessoas regradas e justas. Não se preocupam com os próprios
defeitos, mas mostram-se muito atentos na descoberta dos alheios. Assim
se apresentam a Jesus: não com o coração disponível para O escutarem,
mas «para O fazerem cair numa armadilha e terem de que O acusar» (8, 6).
É um intento que fotografa a interioridade destas pessoas cultas e
religiosas, que conhecem as Escrituras, frequentam o templo, mas
subordinam tudo isto aos próprios interesses e não combatem os maus
pensamentos que se agitam no seu coração. Aos olhos do povo,
parecem peritos de Deus, e contudo não reconhecem Jesus; antes pelo
contrário, veem-No como um inimigo que precisam de eliminar. Para o
conseguir, colocam diante d’Ele uma pessoa, como se fosse uma coisa,
chamando-a desdenhosamente «esta mulher» e denunciando publicamente o
seu adultério. Pressionam para que a mulher seja apedrejada, derramando
sobre ela a aversão que eles sentem pela compaixão de Jesus. E fazem
tudo isto sob o manto da sua fama de homens religiosos.
Irmãos, irmãs, estas pessoas dizem-nos que, até na nossa religiosidade, se podem insinuar a traça da hipocrisia e o vício de apontar o dedo;
e isto a todo o momento, em qualquer comunidade. Há sempre o perigo de
entender mal Jesus, ter o seu nome nos lábios, mas negá-Lo nas obras. E
pode-se fazê-lo mesmo quando se levantam estandartes com a cruz. Então
como saber se somos discípulos na escola do Mestre? Pelo nosso olhar,
pelo modo como olhamos para o próximo e como olhamos para nós mesmos.
Pelo modo como olhamos para o próximo: se o fazemos como Jesus nos
faz ver hoje, isto é, com um olhar de misericórdia, ou de forma
inquisitória, por vezes até desdenhosa, como os acusadores do Evangelho,
que se erguem como defensores da Deus, mas não se apercebem de
espezinhar os irmãos. Na realidade, quem julga defender a fé apontando o
dedo contra os outros, até pode possuir uma visão religiosa, mas não
adota o espírito do Evangelho, porque esquece a misericórdia, que é o
coração de Deus.
Para compreender se somos verdadeiros discípulos do Mestre, é preciso
verificar também como olhamos para nós mesmos. Os acusadores da mulher
estão convencidos de que não têm nada a aprender. Com efeito a aparência
externa é perfeita, mas falta a verdade do coração. São a figura
dos crentes de cada época que fazem da fé um elemento de fachada, onde
sobressai o aspeto exterior solene, mas falta a pobreza interior, que é o
tesouro mais precioso do homem. De facto, para Jesus o que conta é a
abertura disponível de quem não se sente perfeito, mas necessitado de
salvação. Por isso, quando estivermos em oração e mesmo quando tomarmos
parte em belas cerimónias religiosas, será bom perguntarmo-nos se
estamos sintonizados com o Senhor. Podemos perguntá-lo diretamente a
Ele: «Jesus, estou aqui convosco, mas Vós que quereis de mim? Que
quereis que mude no meu coração, na minha vida? Como quereis que veja os
outros?» Ser-nos-á útil rezar assim, porque o Mestre não Se satisfaz
com a aparência, mas busca a verdade do coração. E quando Lhe abrimos de
verdade o coração, Jesus pode operar maravilhas em nós.
Vemos acontecer isto mesmo na mulher adúltera. A sua situação
parece irremediável, mas aos seus olhos abre-se um horizonte novo,
inconcebível. Coberta de insultos, pronta a receber palavras implacáveis
e severos castigos, com maravilha sua vê-se absolvida por Deus, que lhe
abre de par em par um futuro inesperado: «Ninguém te condenou? –
diz-lhe Jesus – Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não
tornes a pecar» (8, 10.11). Que diferença entre o Mestre e os
acusadores! Estes citaram a Escritura para condenar; Jesus, Palavra de
Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a
esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer advertência, se não for
movida pela caridade e não contiver caridade, afunda ainda mais quem a
recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre aberta uma possibilidade e
sabe encontrar, todas as vezes, caminhos de libertação e salvação.
A vida daquela mulher muda graças ao perdão. Apetece-me pensar que,
perdoada por Jesus, ela por sua vez aprendeu a perdoar. Talvez passasse a
ver os seus acusadores, já não como pessoas rígidas e perversas, mas
como aqueles que lhe permitiram encontrar Jesus. O Senhor quer que
também nós, seus discípulos, nós como Igreja, perdoados por Ele, nos
tornemos testemunhas incansáveis de reconciliação: testemunhas dum Deus
para o Qual não existe a palavra «irrecuperável»; dum Deus que
perdoa sempre continua a crer em nós e todas as vezes dá a possibilidade de
recomeçar. Não há pecado ou fracasso que, levados a Ele, não possam
tornar-se ocasião para começar uma vida nova, diferente, sob o signo da
misericórdia.
Assim é o Senhor Jesus; sabe-o bem quem fez experiência do seu
perdão; quem, como a mulher do Evangelho, descobre que Deus nos visita
através das nossas chagas interiores: é sobretudo nestas que o Senhor
prefere fazer-Se presente, pois não veio para os sãos, mas para os
doentes (cf. Mt 9, 12). E hoje esta mulher, que conheceu a
misericórdia na sua miséria e volta curada pelo perdão de Jesus,
sugere-nos, como Igreja, que principiemos de novo a frequentar a escola
do Evangelho, a escola do Deus da esperança que nos surpreende sempre.
Se O imitarmos, não seremos levados a concentrarmo-nos na denúncia dos
pecados, mas a sair amorosamente à procura dos pecadores. Não ficaremos a
contar os presentes, mas iremos eà procura dos ausentes. Não voltaremos a
apontar o dedo, mas começaremos a pôr-nos à escuta. Não descartaremos
os desprezados, mas olharemos como primeiros aqueles que são
considerados últimos. Isto é o que Jesus nos ensina hoje com o exemplo.
Deixemo-nos surpreender por Ele. Acolhamos com alegria a sua novidade.