02 abril 2022

Papa Francisco no Santuário de Ta' Pinu (Vatican Media)

 
  Papa Francisco no Santuário de Ta ' Pinu  (Vatican Media)  
 
No único compromisso na parte da tarde deste sábado, 2 de abril, no âmbito da 36ª Viagem Apostólica Internacional do seu pontificado, o Papa Francisco presidiu a um encontro de oração num dos lugares de fé mais importantes da República de Malta: o Santuário de Ta‘ Pinu. A Igreja encontra-se na ilha de Gozo a segunda maior ilha do arquipélago de Malta. 
 

Silvonei José – Vatican News

Segundo a tradição “uma voz convidou a recitar "três Avé Marias, uma para cada dia em que meu corpo permaneceu no túmulo". Quem a ouviu em 22 de junho de 1883 foi Carmela Grima, uma agricultora da ilha de Gozo. Ela confidenciou o prodigioso acontecimento a um seu amigo, Francisco Portelli, que revelou à jovem que tinha ouvido as mesmas palavras nas proximidades do mesmo local, lugar hoje da Igreja de Ta 'Pinu, que agora é um Santuário, que acolheu o Papa Francisco na tarde deste sábado.

Na sua homilia durante o encontro de oração Francisco iniciou refletindo sobre a hora de Jesus, que no Evangelho de João é a hora da morte na cruz. Francisco disse que não constitui a conclusão da história, mas marca o início duma vida nova. Na cruz, contemplamos o amor misericordioso de Cristo, que estende os braços para nós e, através da sua morte, abre-nos à alegria da vida eterna.

“Irmãos e irmãs, a partir deste Santuário de Ta' Pinu, podemos meditar juntos sobre o novo início que brota da hora de Jesus. Também neste lugar, antes do edifício esplêndido que vemos hoje, havia só uma capelinha em estado de abandono. Já estava aliás decidida a sua demolição: parecia o fim".

Mas uma série de acontecimentos mudou o rumo das coisas, como se o Senhor quisesse dizer a esta população: «Não serás mais chamada a “Desamparada”, nem a tua terra a “Deserta”; antes, serás chamada: “Minha Dileta”, e a tua terra a “Desposada”». Aquela capelinha tornou-se o Santuário nacional, meta de peregrinos e fonte de vida nova.

Francisco recordou que esteve ali como peregrino, também S. João Paulo II, cujo aniversário da morte ocorre hoje. Um lugar que parecia perdido, hoje regenera fé e esperança no Povo de Deus.

Mas o que significa voltar àquele início? O que significa tornar às origens? perguntou Francisco.

"Antes de mais nada, disse Francisco, trata-se de voltar a descobrir o essencial da fé. Tornar à Igreja das origens não significa olhar para trás para copiar o modelo eclesial da primeira comunidade cristã. Não podemos «saltar a história», como se o Senhor não tivesse falado e feito grandes coisas também na vida da Igreja dos séculos seguintes. Nem significa sermos demasiado idealistas, imaginando que naquela comunidade não haveria dificuldades quando, pelo contrário, lemos que os discípulos discutem e chegam mesmo a litigar entre eles, e nem sempre entendem os ensinamentos do Senhor".

Voltar às origens significa, disse o Papa, antes, recuperar o espírito da primeira comunidade Cristã, isto é, voltar ao coração e redescobrir o centro da fé: a relação com Jesus e o anúncio do seu Evangelho ao mundo inteiro. Isto é o essencial!

Francisco destacou que a Igreja maltesa gloria-se duma história preciosa da qual extrair tantas riquezas espirituais e pastorais. “Todavia, a vida da Igreja – tenhamo-lo sempre presente – nunca é só «uma história passada a recordar», mas um «grande futuro a construir», dócil aos desígnios de Deus”.

O Santo Padre afirmou “não nos pode bastar uma fé feita de usos e costumes recebidos por tradição, de celebrações solenes, belas iniciativas populares, momentos fortes e emocionantes; precisamos duma fé fundada e renovada no encontro pessoal com Cristo, na escuta diária da sua Palavra, na ativa colaboração na vida da Igreja, na alma da piedade popular”.

Francisco, seguidamente disse que a crise da fé, a apatia da prática religiosa sobretudo no pós-pandemia e a indiferença de muitos jovens relativamente à presença de Deus não são questões que devemos «açucarar» pensando que, apesar de tudo, ainda subsiste um certo espírito religioso. Na realidade, às vezes o suporte exterior pode ser religioso, mas por detrás desses andaimes a fé vai envelhecendo.

O Papa advertiu então que é preciso vigiar para que as práticas religiosas não se reduzam à repetição dum repertório do passado, mas expressem uma fé viva, aberta, que difunda a alegria do Evangelho.

O Santo Padre destacou então que também os malteses iniciaram, através do Sínodo, um processo de renovação, e lhes agradeceu por este caminho. Este é o momento de voltar àquele começo, ao pé da cruz, olhando para a primeira comunidade Cristã, para ser uma Igreja que tem a peito a amizade com Jesus e o anúncio do seu Evangelho, e não a procura de espaço e atenções.

“Não tenhais medo de empreender – como já fazeis – percursos novos de evangelização e anúncio, talvez até arriscado, mas que tocam na vida”.

Francisco voltou então mais uma vez para as origens, para Maria e João junto da cruz. Nos primórdios da Igreja, temos o seu gesto de mútua entrega. Com efeito, o Senhor confia cada um deles aos cuidados do outro: João a Maria e Maria a João. Realmente não se tratou dum simples gesto de compaixão – Jesus teria confiado a sua Mãe a João, para que Ela não ficasse sozinha depois da morte d’Ele – mas duma indicação concreta do modo como viver o mandamento supremo: o do amor. O culto a Deus passa pela proximidade ao irmão.

Quão importante é na Igreja o amor entre os irmãos e o acolhimento do próximo!

“Caríssimos, o mútuo acolhimento, não como pura formalidade, mas em nome de Cristo, é um desafio permanente. É-o antes de mais nada para as nossas relações eclesiais, porque a nossa missão produz fruto se trabalharmos na amizade e na comunhão fraterna”.

Mas o acolhimento é também o teste decisivo para verificar quão efetivamente esteja permeada a Igreja pelo espírito do Evangelho.

Maria e João acolhem-se não no refúgio ameno do Cenáculo, mas junto da cruz, naquele lugar tenebroso onde se era condenado e crucificado como criminoso. Também nós não podemos acolher-nos apenas entre nós à sombra das nossas belas igrejas, enquanto fora muitos irmãos e irmãs sofrem e são crucificados pelo sofrimento, a miséria, a pobreza e a violência.

“No rosto destes pobres, é o próprio Cristo que Se apresenta a vós. Esta foi a experiência do Apóstolo Paulo que, depois dum terrível naufrágio, foi calorosamente acolhido pelos vossos antepassados…. Eis o Evangelho a que somos chamados a viver: acolher, ser peritos em humanidade, acender fogueiras de ternura quando o frio da vida paira sobre aqueles que sofrem”.

Enfim o agradecimento do Papa aos numerosos missionários malteses "que espalham a alegria do Evangelho por todo o mundo, aos inúmeros sacerdotes, às religiosas e aos religiosos e a todos vós".

“Como disse o vosso bispo D. Teuma, sois uma ilha pequena mas de coração grande. Sois um tesouro na Igreja e para a Igreja”. 

VN

Papa: que as sombras da guerra não dissipem o sonho de paz

 
 
No discurso às Autoridades e ao Corpo Diplomático, o Papa disse ver com tristeza "como o entusiasmo pela paz, surgido depois da II Guerra Mundial, se debilitou nas últimas décadas (...), com alguns poderosos que avançam por conta própria à procura de espaços e zonas de influência. E assim não só a paz, mas também muitas questões importantes, como a luta contra a fome e as desigualdades, foram efetivamente canceladas das principais agendas políticas".
 

Manoel Tavares - Cidade do Vaticano

O primeiro compromisso do Papa Francisco em Malta na manhã deste sábado, 2, foi o encontro com as autoridades, o Corpo Diplomático e os representantes da sociedade e do mundo da cultura no Palácio Presidencial de Valeta.

Ao agradecer as amáveis palavras do presidente George Vella, o Pontífice recordou que os antepassados malteses deram hospitalidade ao Apóstolo Paulo e seus companheiros, durante a sua viagem a Roma, tratando-os com “extraordinária benevolência”.

Referindo-se à Ilha de Malta, coração do Mediterrâneo, Francisco recordou que “há milénios, o entrelaçamento de acontecimentos históricos e o encontro de populações fizeram daquelas ilhas um centro de vitalidade e cultura, espiritualidade e beleza; uma encruzilhada que soube acolher e harmonizar os  migratórios de muitas partes.

Esta diversidade de influxos leva-nos a pensar na variedade dos ventos, que caracterizam o país. Não é por acaso que, nos antigos mapas do Mediterrâneo, a “Rosa dos Ventos” era colocada perto de Malta”.

Tomando a imagem da “Rosa dos Ventos”, que localiza as correntes de ar segundo os quatro pontos cardeais (Norte, Sul, Leste e Oeste), o Papa delineou quatro aspecos essenciais da vida social e política do país.

O vento Norte, recorda a União Europeia, onde vive uma grande família, unida na salvaguarda da paz. A paz brota da unidade. Eis a importância de trabalhar juntos, sem divisões, revigorando as raízes e valores, que forjaram a unidade da sociedade maltesa. Mas, para garantir uma boa convivência social, é preciso também reforçar os alicerces da vida comum, com base no direito, legalidade, honestidade e justiça. Por isso, o esforço de eliminar a ilegalidade e a corrupção deve ser forte como o vento do norte, que purifica as costas do país, erradicando a inércia e a criminalidade. A Casa Europeia compromete-se com a promoção dos valores da justiça e equidade social e a tutela de uma casa mais ampla: a Casa da Criação.  

O vento Norte, disse Francisco, às vezes mistura-se, às vezes, com o vento que sopra do Oeste. Este país europeu, sobretudo os jovens, partilham dos estilos de vida e pensamento ocidentais, dos valores da liberdade e da democracia, mas também dos riscos da ambição do progresso, que os podem separar das raízes.

Os malteses defendem a vida e salvam tantas pessoas. Por isso, Francisco encorajou-os a continuar a defender a vida, desde o início até ao seu fim natural, mas também preservá-la sempre, sobretudo a dignidade dos trabalhadores, dos idosos e dos doentes.

Continuando a comparação com a “Rosa dos Ventos”, o Santo Padre convidou a olhar para Sul, de onde vêm tantos irmãos e irmãs em busca de esperança. Malta, disse, significa “porto seguro”. O crescente afluxo dos migrantes gera medo e insegurança, desânimo e frustração. O fenómeno migratório marca a nossa época e traz consigo injustiças, exploração, mudanças climáticas, conflitos e as suas consequências. Multidões de pessoas partem do sul, pobre e povoado, e dirigem-se para o norte rico. E Francisco acrescentou:

“No agravamento da emergência migratória, pensemos nos refugiados da atormentada Ucrânia que exige respostas amplas e partilhadas. Apenas alguns países não podem arcar com todo este problema, diante da indiferença de outros! Países civis não podem ratificar, por interesses próprios, acordos obscuros com criminosos que escravizam as pessoas. O Mediterrâneo precisa da corresponsabilidade europeia, para voltar a ser teatro de solidariedade e não lugar de trágicos naufrágios.”

Recordando o naufrágio do Apóstolo Paulo que, de modo inesperado, chegou àquelas costas e foi socorrido, o Papa exortou, em nome do Evangelho, que ele pregou naquela Ilha, a “abrir os corações para descobrir a beleza de servir aos mais necessitados. Não devemos encarar o migrante como ameaça, mas como irmão a ser acolhido, segundo o ideal cristão.

Por fim, o Pontífice referiu-se ao vento que sopra do Leste, do Oriente, de onde provêm ventos de guerra, invasões, combates e ameaças atómicas, que só causam mortes, destruição e ódio. Que estas sombras obscuras não levem a dissipar o sonho de paz da humanidade.  E, ao expressar o seu desejo de que o risco de uma “guerra fria alargada” não ceife mais vidas de gerações e povos inteiros, afirmou:

“Quanto precisamos duma «medida humana» face à agressividade infantil e destrutiva que nos ameaça, frente ao risco duma «guerra fria alargada» que pode sufocar a vida de gerações e povos inteiros! Infelizmente, aquele «infantilismo» não desapareceu. Ressurge prepotentemente nas seduções da autocracia, nos novos imperialismos, na difusa agressividade, na incapacidade de lançar pontes e começar pelos mais pobres. Disto começa a soprar o vento gelado da guerra, que desta vez também foi alimentado ao longo dos anos. Sim, desde há tempos que a guerra tem vindo a ser preparada com grandes investimentos e tráficos de armas. E é triste ver como o entusiasmo pela paz, surgido depois da II Guerra Mundial, debilitou-se nas últimas décadas, bem como o percurso da comunidade internacional, com alguns poderosos que avançam por conta própria à procura de espaços e zonas de influência. E assim não só a paz, mas também muitas questões importantes, como a luta contra a fome e as desigualdades, foram efetivamente canceladas das principais agendas políticas.”

O Papa concluiu o seu discurso, dirigindo, mais uma vez, o seu olhar para o Leste europeu e um pensamento no Oriente Médio, a fim de que sigam o exemplo dos malteses, que geram benéficas convivências, apesar das diversidades. É disto que precisam o Líbano, a Síria, o Iêmen e outros contextos, dilacerados por problemas e violência”.

RV

Francisco inicia 36ª Viagem Apostólica do Pontificado

 

 
Viagem a Malta, uma "oportunidade para ir às fontes do anúncio do Evangelho", como a definiu o Papa Francisco, num lugar que viu o início da cristianização da ilha após o naufrágio do Apóstolo Paulo no ano 60 d.C. Uma viagem fortemente desejada pelo Pontífice e que também será marcada pelo tema do acolhimento, mais atual do que nunca.
 

Vatican News

Teve início na manhã deste sábado, 2 de abril, a 36ª Viagem Apostólica do Pontificado de Francisco, que o leva desta vez à República de Malta. O voo A320 da ITA Airways partiu do Aeroporto Fiumicino às 8h39. Depois de 1h30 de voo e 686 km percorridos, o Papa chegará ao Aeroporto Internacional de Malta, em Luqa.

E no momento em que deixava o território italiano, o Pontífice enviou um telegrama ao presidente italiano Sergio Mattarella, recordando que realiza "uma visita pastoral a Malta, uma terra de beleza luminosa no centro do mediterrâneo e um porto milenar de múltiplos desembarques e partidas, na alegria de encontrar irmãos na fé e pessoas do lugar", dirigindo a ele e ao povo italiano as suas cordiais saudações, com os "fervorosos votos de paz e serenidade."

O lema da viagem apostólica do Papa Francisco "Eles trataram-nos com rara humanidade" é tirado do versículo dos Atos dos Apóstolos com as palavras de S. Paulo descrevendo a maneira como ele e os seus companheiros foram tratados quando naufragaram na ilha no ano 60, durante a viagem que os levava a Roma. 

Na Audiência Geral da última quarta-feira, ao pedir orações por mais esta sua missão, assim se pronunciou:

“Nesta terra luminosa serei peregrino nos passos do Apóstolo Paulo, que ali foi acolhido com grande humanidade depois de ter naufragado no mar no seu caminho para Roma. Esta Viagem Apostólica será assim uma oportunidade para ir às fontes do anúncio do Evangelho, para conhecer pessoalmente uma comunidade cristã com uma história milenar e vivaz, para encontrar os habitantes de um país que está no centro do Mediterrâneo e no sul do continente europeu, hoje ainda mais comprometido em acolher tantos irmãos e irmãs em busca de refúgio. Já agora saúdo de coração todos vós malteses: tenham um bom dia. Agradeço a todos aqueles que trabalharam para preparar esta visita e peço a cada um que me acompanhe em oração.”

O Papa Francisco é o terceiro Pontífice a visitar Malta depois de S. João Paulo II em 1990 e 2001, e Bento XVI em 2010.

Encontro com refugiados ucranianos na Santa Marta 

Antes de deixar a Casa de Santa Marta em direção ao aeroporto Fiumicino, por volta das 7h40, o Papa Francisco encontrou algumas famílias de refugiados ucranianos, acolhidas pela Comunidade de Sant’Egidio, juntamente com o Esmoler de Sua Santidade.

No grupo estava uma mãe de 37 anos com duas filhas, de 5 e 7 anos, que chegaram a Itália há cerca de 20 dias provenientes de Lviv. A menina menor passou por uma cirurgia cardiológica e está sob supervisão médica em Roma.

Também havia duas mães, cunhadas, com os seus 4 filhos, com idades entre 10 e 17 anos, hospedados num apartamento oferecido por uma senhora italiana, vindos de Ternopil e também chegados a Roma há pouco mais de 20 dias. Os menores das duas famílias frequentam a escola em Roma.

A terceira família chegou há três dias, passando pela Polónia. São 6 pessoas provenientes de Kiev: mãe e pai, com três filhos, de 16, 10 e 8 anos, e uma avó de 75 anos. Eles também moram numa casa oferecida por uma italiana para acolher refugiados.

VN

01 abril 2022

Vergonha e indignação: o pedido de perdão do Papa aos indígenas do Canadá

 
 
"Já disse e repito: sinto vergonha e dor pelo papel que vários católicos, em especial com responsabilidade educacional, tiveram em tudo o que vos feriu; nos abusos e na falta de respeito pela vossa identidade, cultura e até mesmo valores espirituais. Tudo isto é contrário ao Evangelho de Jesus", disse o Papa, encerrando uma semana de encontros com delegações indígenas do Canadá.
 

Bianca Fraccalvieri - Vatican News

Vergonha, dor e indignação: estes foram os sentimentos expressos pelo Papa Francisco ao receber esta manhã, no Vaticano, delegações de indígenas canadenses.

No decorrer desta semana, o Pontífice manteve encontros com três grupos - First Nations, Métis e Inuit - que sofreram as consequências da colonização, cujo último episódio público foi a descoberta de valas comuns no terreno da Kamloops Indian Residential School.

Entre o final de 1800 e o início de 1900, o governo canadiano instituiu escolas residenciais para que as crianças indígenas assimilassem a cultura dos colonizadores. As escolas foram confiadas às Igrejas cristãs locais, entre elas a católica. Nessas escolas, os estudantes sofreram abusos e maus-tratos.

Colonização ideológica: deplorável ontem e hoje

No  seu discurso, Francisco afirmou que ouviu com atenção os testemunhos, “imaginando as histórias e as situações”, e agradeceu por terem aberto o seu coração, no desejo de caminhar juntos.

De tudo o que ouviu, o Papa salientou alguns aspetos, como a sabedoria dos povos originários resumida nesta frase: “É preciso pensar sete gerações à frente quando se toma uma decisão”.

“É o contrário do que acontece nos nossos dias”, comentou o Papa, pois não se considera o futuro das próximas gerações. Ao contrário, o elo entre idosos e jovens é indispensável, deve ser cultivado e protegido. Esta mesma sabedoria manifesta-se também no cuidado da Criação, valorizada como “um dom dos céus”.

Mas a união com o território sofreu um duro golpe, infligido pela colonização, disse ainda Francisco. Sem respeito, muitos indígenas foram arrancados do seu ambiente vital e uniformizados noutra mentalidade.

“Assim a sua identidade e a sua cultura foram feridas, muitas famílias separadas e muitos jovens tornaram-se vítimas desta ação de homologação, amparada pelo ideal de que o progresso ocorra por colonização ideológica.”

É algo, denunciou mais uma vez o Papa, que acontece ainda hoje.

VN

IV Pregação da Quaresma do cardeal Cantalamessa

 

Da fé e do “sentimento” da presença real, deve brotar espontaneamente a reverência e, até, a ternura para com Jesus sacramentado. Este é um sentimento tão delicado e pessoal, que só falando dele arriscamo-nos a estragá-lo. S. Francisco de Assis teve o coração cheio desses sentimentos de reverência e ternura. O Poverello enternece-se diante de Jesus sacramentado, como em Greccio se enternecia diante do Menino de Belém: ele o vê assim, confiado aos homens, tão inerme, tão humilde."

 

Fr. Raniero Cantalamessa, OFMCap.

A EUCARISTIA, PRESENÇA REAL DO SENHOR

Quarta pregação, Quaresma de 2022

Depois das catequeses mistagógicas sobre as três partes da Missa ‒ liturgia da palavra, consagração e comunhão ‒ meditemos hoje a Eucaristia como presença real de Cristo na Igreja.

Como enfrentar um mistério tão alto e tão inacessível? Vêm-nos logo à memória as variadíssimas teorias e discussões existentes acerca disso, as divergências entre católicos e protestantes, entre latinos e ortodoxos, que enchiam os livros por onde estudamos teologia, nós que temos uma certa idade e somos tentados a pensar que é impossível dizer ainda alguma coisa acerca deste mistério que possa edificar a nossa fé e aquecer o nosso coração, sem desembocarmos inevitavelmente na polémica interconfessional.

Mas esta é precisamente a obra maravilhosa que o Espírito Santo vai realizando nos nossos dias entre todos os cristãos. Ele impele-nos a reconhecer quanta parte tinham, nas nossas disputas eucarísticas, a presunção humana de poder encerrar o mistério numa teoria ou, até, numa palavra, como também a vontade de prevalecer sobre o adversário. Impele-nos a arrependermo-nos por termos reduzido o supremo penhor de amor e de unidade, que o Senhor nos deixou, a um objeto privilegiado das nossas altercações.

A via do ecumenismo eucarístico é a via do reconhecimento recíproco, a via cristã da ágape, da partilha e das diferenças reconciliadas de que fala nosso Santo Padre. Não se trata de passar por cima das divergências reais, ou de renunciar a alguma coisa da doutrina católica autêntica. Trata-se, antes, de reunir todos os aspetos positivos e os valores autênticos que existem em cada uma das tradições, de modo a constituir um “montão” de verdades comuns que comece a atrair-nos para a unidade.

É incrível como algumas posições católicas, ortodoxas e protestantes, acerca da presença real, se tornam divergentes entre si e destrutivas, quando contrapostas e vistas em alternativa entre si, ao passo que se mostram maravilhosamente convergentes, se mantidas juntas em equilíbrio. É a síntese que devemos começar a fazer; devemos passar, como por um crivo, as grandes tradições cristãs, para colher de cada uma, como nos exorta o Apóstolo, “aquilo que é bom” (cf. 1Ts 5,21). Esta é a única maneira pela qual podemos esperar um dia sentar à mesma mesa.

Uma presença real, mas escondida: a tradição latina

Vamos agora examinar, com este espírito, as três principais tradições eucarísticas – a latina, a ortodoxa e a protestante – para nos edificarmos com as riquezas de cada uma e reunir a todas no tesouro comum da Igreja. A ideia que, no final, iremos ter do mistério da presença real ficará mais rica e mais viva. Na visão da teoria latina, o centro indiscutível da ação eucarística, da qual deriva a presença real de Cristo, é o momento da consagração. Nele, Jesus age e fala em primeira pessoa. A teologia latina recolhe, nisto, todo um filão da tradição patrística. Santo Ambrósio escreve:

Este pão é pão antes das palavras sacramentais; mas, ao intervir a consagração, o pão torna-se carne de Cristo... Com que palavras se fez a consagração, e de quem são essas palavras? Do Senhor Jesus! Todas as coisas que se dizem antes desse momento são ditas pelo sacerdote que louva a Deus, reza pelo povo, pelos reis e pelos outros; mas quando se chega ao momento de realizar o venerável sacramento, o sacerdote já não utiliza palavras suas, mas de Cristo. É, pois, a palavra que opera (conficit) o sacramento... Vês quanto é eficaz (operatorius) a fala de Cristo? Antes da consagração não havia corpo de Cristo, mas depois da consagração, eu digo-te que já existe o corpo de Cristo. Ele diz e a coisa acontece, Ele ordena e a coisa se afirma” (Sl 33,9)[1].


Podemos falar, na visão latina, de um realismo cristológico. “Cristológico”, porque toda a atenção aqui se volta para Cristo, visto quer na sua existência histórica e encarnada, quer na de Ressuscitado; Cristo é tanto o objeto como o sujeito da Eucaristia, isto é, Aquele que é realizado na Eucaristia e Aquele que realiza a Eucaristia. “Realismo”, porque este Jesus não é visto presente no altar simplesmente num sinal ou num símbolo, mas em verdade e com a sua realidade. Esse realismo cristológico é visível, para darmos um exemplo, no cântico Ave verum: “Salve, corpo verdadeiro, nascido de Maria Virgem, que realmente sofreste e foste imolado na cruz pelos homens, e de cujo Lado aberto brotou sangue e água...”.

Seguidamente, o Concílio de Trento definiu melhor este modo de conceber a presença real, usando três advérbios: vere, realiter, substantialiter. Jesus está presente verdadeiramente, não só em imagem, ou em figura; está presente realmente, não só subjetivamente, para a fé dos crentes; está presente substancialmente, ou seja, segundo a sua realidade profunda que é invisível aos sentidos, e não segundo as aparências que continuam a ser as do pão e do vinho.

Poderia haver o perigo, é verdade, de se cair num “cru” realismo, ou num realismo exagerado, mas existe na Igreja o remédio para este perigo. Santo Agostinho esclareceu, de uma vez para sempre, que a presença de Jesus acontece “in sacramento”. Não é, por outras palavras, uma presença física, mas sacramental, mediada por sinais que são, precisamente, o pão e o vinho. Neste caso, porém, o sinal não exclui a realidade, mas torna-a presente, no único modo com que Cristo ressuscitado que “vive no Espírito” (1Pd 3,18) pode tornar-Se presente entre nós, enquanto vivemos ainda no corpo.

Santo Tomás de Aquino – o outro grande artífice da espiritualidade eucarística ocidental, juntamente com Santo Ambrósio e Santo Agostinho – diz a mesma coisa, ao falar de uma presença de Cristo “segundo a substância” sob as espécies do pão e do vinho[2]. De fato, dizer que Jesus se torna presente na Eucaristia com a sua substância, quer dizer que Se torna presente com a sua realidade verdadeira e profunda, que pode ser compreendida só mediante a fé. No hino Adoro te devote, que reflete de perto o pensamento de Tomás de Aquino e que serviu mais do que muitos livros para moldar a piedade eucarística latina, diz-se: “Os olhos, o tato, o gosto, tudo aqui perde valor; fica só a fé na tua palavra”: Visus tactus gustus in te fallitur ‒ sed auditui solo tuto creditur”.

Cristo está, por isso, presente na Eucaristia num modo único que não tem correspondente noutro lugar. Nenhum adjetivo, por si só, é suficiente para descrever essa presença; nem sequer o adjetivo “real”. Real vem de res (coisa) e significa como uma coisa ou objeto. Ora, Jesus não está presente na Eucaristia como uma “coisa” ou um objeto, mas como uma pessoa. Se se quer atribuir um nome a esta presença, seria melhor chamar-lhe presença “eucarística”, porque se realiza somente na Eucaristia.

A ação do Espírito Santo: a tradição ortodoxa

A teologia latina apresenta muitas riquezas, mas não esgota – nem poderia fazê-lo – o mistério. Faltou-lhe, pelo menos no passado, o devido relevo ao Espírito Santo, que também é essencial para compreender a Eucaristia. Eis então que nos voltamos para o Oriente, para interrogar a tradição ortodoxa, com uma disposição, todavia, bem diferente da de outrora: já não preocupados com as diferenças, mas felizes pelo complemento que ela traz à nossa visão latina.

Com efeito, na tradição ortodoxa é posta no devido relevo a ação do Espírito Santo na celebração eucarística. De resto, este cotejo já produziu os seus frutos, depois do Concílio Vaticano II. Até então, no Cânon Romano da Missa, a única menção do Espírito Santo, incidentalmente, era a da doxologia final: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo... na unidade do Espírito Santo...”. Pelo contrário, agora todos os novos cânones trazem uma dupla invocação do Espírito Santo: uma sobre os dons, antes da consagração, e outra sobre a Igreja, depois da consagração.

As liturgias orientais atribuíram sempre a realização da presença real de Cristo no altar a uma operação especial do Espírito Santo. Na anáfora dita de São Tiago, em uso na Igreja antioquena, o Espírito Santo é invocado com estas palavras:

Envia sobre nós e sobre estes santos dons apresentados, o teu santíssimo Espírito, Senhor e dador de vida, que está sentado contigo, Deus e Pai, e com o teu único Filho. Ele reina consubstancial e coeterno; falou na Lei e nos profetas e no Novo Testamento; desceu, sob forma de pomba, sobre Nosso Senhor Jesus Cristo no rio Jordão e repousou sobre Ele; desceu sobre os santos apóstolos, no dia de Pentecostes, sob forma de línguas de fogo. Envia esse teu Espírito três vezes santo, Senhor, sobre nós e sobre estes santos dons apresentados, para que, pela sua vinda, santa, boa e gloriosa, santifique este pão e faça dele o santo corpo de Cristo (Amém), santifique este cálice e faça dele o sangue precioso de Cristo (Amém).

Há aqui muito mais do que um simples acréscimo da invocação do Espírito Santo. Há um olhar amplo e penetrante em toda a História da Salvação que ajuda a descobrir uma dimensão nova do mistério eucarístico. Partindo das palavras do símbolo niceno-constantinopolitano que definem o Espírito Santo “Senhor”, e “Aquele que dá a vida”, “que falou pelos profetas”, amplia-se a perspetiva até traçar uma verdadeira e própria “história” do Espírito Santo.

A Eucaristia leva a cumprimento esta série de intervenções prodigiosas. O Espírito Santo que na Páscoa irrompeu no sepulcro e “tocando” no corpo inanimado de Jesus, O fez reviver, repete na Eucaristia este prodígio. Ele vem no sangue e no vinho que estão mortos e dá-lhes a vida, faz deles o corpo e o sangue vivos do Redentor. Verdadeiramente – como disse o próprio Jesus, falando da Eucaristia – “é o Espírito que dá a vida” (Jo 6,63). Um grande representante da tradição eucarística oriental, Teodoro de Mopsuéstia, escreve:

Em virtude da ação litúrgica, o nosso Senhor como que ressuscita dos mortos e espalha a sua graça sobre todos nós, pela vinda do Espírito Santo... Quando o pontífice declara que este pão e este vinho são o corpo e o sangue de Cristo, afirma que se tornaram tais pelo contacto do Espírito Santo. Aconteceu assim com o corpo natural de Cristo, quando recebeu o Espírito Santo e a sua unção. Nesse momento, ao sobrevir o Espírito Santo, nós cremos que o pão e o vinho recebem uma espécie de unção de graça. E a partir daí acreditamos que eles são o corpo e o sangue de Cristo, imortais, incorruptíveis, impassíveis e imutáveis por natureza, como o próprio corpo de Cristo na ressurreição[3].

É importante, no entanto, levar em conta uma coisa ‒ e aqui vemos como até a tradição latina tem algo a oferecer aos irmãos ortodoxos. O Espírito Santo não age separadamente de Jesus, mas dentro da palavra de Jesus. D’ele disse Jesus: “Não falará em seu nome, mas dirá o que escutou... O Espírito da Verdade manifestará a minha glória porque vai receber daquilo que é meu e vo-lo interpretará” (Jo 16,13-14). É por isso que não se deve separar as palavras de Jesus (“Isto é o meu corpo”) das palavras da epiclese (“O Espírito Santo santifique estes dons para que se convertam no corpo e e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo”).

O apelo à unidade, para os católicos e os irmãos ortodoxos, vem da própria profundidade do mistério eucarístico. Mesmo que, pela natureza das coisas, a recordação da instituição e a invocação do Espírito Santo aconteçam em momentos distintos (o homem não pode exprimir o mistério num só instante), a sua ação, porém, está ligada. A eficácia vem certamente do Espírito (não do sacerdote, nem da Igreja), mas essa eficácia exerce-se dentro da palavra de Cristo e através dela. A eficácia que torna presente Jesus sobre o altar não vem – já o disse – da Igreja, mas – acrescento – não acontece sem a Igreja. Ela é o instrumento vivo, através do qual e juntamente com o qual o Espírito opera. Acontece, para a vinda de Jesus sobre o Altar, como para a vinda final na glória: “O Espírito e a Esposa (a Igreja) ‘dizem’ a Jesus: ‘Vem!’” (Ap 22,17). E ele vem!

A importância da fé: a espiritualidade protestante

A tradição latina colocou em evidência “quem” está presente na Eucaristia, Cristo; a tradição ortodoxa colocou em evidência “por quem” é operada a sua presença, pelo Espírito Santo; a teologia protestante coloca em evidência “sobre quem” opera essa presença; por outras palavras, sob que condições o sacramento opera, de fato, em quem o recebe, o que significa. Estas condições são diversas, mas resumem-se numa só palavra: a fé.

Não vamos deter-nos já nas consequências negativas, derivadas, em certos períodos, do princípio protestante segundo o qual os sacramentos não são senão “sinais da fé”. Ultrapassando os mal-entendidos e a polémica, consideramos que este enérgico chamado à fé é salutar precisamente para salvar o sacramento e não deixá-lo cair ao nível das “boas obras”, ou a algo que age um pouco mecânica e magicamente, quase sem o homem saber. Trata-se, no fundo, de descobrir o significado profundo daquela exclamação que a liturgia faz ressoar no final da consagração e, outrora, recordemo-lo, estava inserida inclusive no centro da fórmula da consagração, como que a sublinhar que a fé é parte essencial do mistério: Mysterium fidei, mistério da fé!

A fé não “faz”, apenas “recebe” o sacramento. Só a palavra de Cristo repetida pela Igreja e tornada eficaz pelo Espírito Santo “faz” o sacramento. Mas que aproveitaria um sacramento “feito”, mas não “recebido”? A propósito da Encarnação, homens como Orígenes, Santo Agostinho, São Bernardo, disseram: “Que me aproveita a mim que Cristo tenha nascido uma vez de Maria em Belém, se não nasce também, pela fé, no meu coração?”. A mesma coisa se deve dizer também da Eucaristia: que me aproveita a mim que Cristo esteja realmente presente sobre o altar, se Ele não está presente para mim? Já no tempo em que Jesus estava presente sobre a terra, a fé era precisa; caso contrário – como Ele próprio tantas vezes repetiu no Evangelho –, a sua presença não serviria para nada, senão para condenação: “Ai de ti, Corazim, ai de ti, Cafarnaum!”.

A fé é necessária para que a presença de Jesus na Eucaristia seja, não só “real”, mas também “pessoal”, isto é, de pessoa para pessoa. Uma coisa é “estar”, e outra “estar presente”. A presença supõe alguém que está presente e alguém diante do qual está presente; supõe comunicação recíproca, diálogo entre duas pessoas livres, que tomam conhecimento uma da outra. Por conseguinte, é muito mais do que a simples presença num certo lugar. Esta dimensão subjetiva e existencial da presença eucarística não anula a presença objetiva que precede a fé do homem, antes a supõe e valoriza. Lutero, que exaltou tanto o papel da fé, é também um daqueles que sustentou com grande vigor a doutrina da presença real de Cristo no sacramento do altar. No decurso de um debate com outros Reformadores acerca deste tema, ele afirmou:

Não posso entender as palavras “Isto é o meu corpo”, diferentemente de como soam. Toca então aos outros demonstrar que onde a palavra diz: “Isto é o meu corpo”, o corpo de Deus não está lá. Não quero ouvir explicações baseadas na razão. Perante palavras tão claras, não admito perguntas; rejeito o raciocínio e a sã razão humana. Demonstrações materiais, argumentações geométricas: tudo rejeito completamente. Deus está acima de qualquer matemática e é preciso adorar com espanto a Palavra de Deus[4].

O rápido olhar que lançamos sobre a riqueza das diversas tradições cristãs foi suficiente para nos fazer entrever que dom imenso se perspetiva na Igreja, quando as várias confissões cristãs decidem colocar em comum os seus bens espirituais, como faziam os primeiros cristãos, dos quais se dizia que “colocavam em comum todas as coisas” (At 2,44). É esta a ágape maior, a dimensão de toda a Igreja, que o Senhor coloca no nosso coração para desejarmos ver, para a alegria do Pai comum e o fortalecimento da sua Igreja.

Sentimento de presença

Chegamos ao final da nossa breve peregrinação eucarística através das várias confissões cristãs. Recolhemos também nós alguns cestos de fragmentos que sobraram da grande multiplicação dos pães da Igreja. Mas não podemos terminar aqui a nossa meditação sobre o mistério da presença real. Seria como ter recolhido os fragmentos e não comê-los. A fé na presença real é uma grande coisa, mas não nos basta; pelo menos a fé entendida numa certa maneira. Não basta ter uma ideia exata, profunda, teologicamente perfeita da presença real de Jesus na Eucaristia. Quantos, entre os teólogos, sabem tudo sobre este mistério, mas não conhecem a presença real! Porque só “conhece”, em sentido bíblico, uma coisa, quem faz a experiência dessa mesma coisa. Conhece verdadeiramente o fogo só quem, pelo menos uma vez, foi atingido por uma chama e teve de se afastar velozmente para não se queimar.

São Gregório de Nissa deixou-nos uma expressão estupenda para indicar este mais alto nível de fé; fala de “um sentimento de presença”[5] que se tem quando alguém é atingido pela presença de Deus, quando tem uma certa perceção (não só uma ideia) de que Ele está presente. Não se trata de uma perceção natural; é fruto de uma graça que opera como que uma rutura de nível, um salto de qualidade.

Existe uma analogia muito grande com aquilo que acontecia quando, depois da Ressurreição, Jesus se deixava conhecer por alguém. Era algo de improviso que, de repente, mudava completamente o estado de uma pessoa. Poucos dias depois da Ressurreição, os apóstolos encontram-se no lago a pescar; na margem aparece um homem. Instala-se um diálogo à distância: “Filhinhos, tendes alguma coisa para comer?”; respondem: “Não!”. Mas eis que brilha uma luz no coração de João, e ele lança um grito: “É o Senhor!”, e logo tudo muda e remam para terra (cf. Jo 21,4ss). O mesmo acontece, embora duma forma mais serena, com os discípulos de Emaús; Jesus caminhava com eles, “mas os olhos deles estavam como cegos e não o reconheceram “; finalmente, no momento de partir o pão, eis que “os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (Lc 24,13ss). Algo de semelhante acontece no dia em que um cristão, depois de receber tantas e tantas vezes Jesus na Eucaristia, finalmente, por um dom da graça, o “reconhece”.

Da fé e do “sentimento” da presença real, deve brotar espontaneamente a reverência e, até, a ternura para com Jesus sacramentado. Este é um sentimento tão delicado e pessoal, que só falando dele nos arriscamos a estragá-lo. São Francisco de Assis teve o coração cheio desses sentimentos de reverência e ternura. O Poverello enternece-se diante de Jesus sacramentado, como em Greccio se enternecia diante do Menino de Belém: ele o vê assim, confiado aos homens, tão inerme, tão humilde. Para ele trata-se sempre do mesmo Jesus vivo e concreto, nunca de uma abstração teológica. Na Carta a toda a Ordem escreve palavras de fogo que queremos ouvir como agora dirigidas a nós, no final de nossa meditação sobre a presença real de Jesus na Eucaristia:

Vede vossa dignidade, irmãos sacerdotes, e sede santos, porque Ele é santo... Grande miséria e miserável debilidade, quando o tendes tão presente e vós buscais alguma outra coisa em todo o mundo. Pasme o homem inteiro, estremeça todo o mundo e exulte o céu quando, sobre o altar, na mão do sacerdote, está Cristo, Filho do Deus vivo; Ó admirável alteza e estupenda condescendência! Ó humildade sublime! Ó sublimidade humilde, pois o Senhor do Universo, Deus e Filho de Deus, de tal maneira se humilha que, por nossa salvação, se esconde sob uma pequena forma de pão!  Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações; humilhai-vos também vós, para serdes exaltados por Ele.  Por isso não retenhais nada de vós para vós mesmos, para que vos receba inteiros aquele que a vós se dá inteiro.

Tradução de fr. Ricardo Farias, ofmcap

[1] Sto. Ambrósio, De sacramentis, IV, 14-16 (PL 16, 439 ss).

[2] Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III, q. 75, a. 4.

[3] Teodoro de Mopsuéstia, Homilias catequéticas, XVI, 11ss.

[4] Cf. Atas do colóquio de Marburgo de 1529 (ed. de Weimar, 30,3. pp. 110ss).

[5] S. Gregório de Nissa, Sobre o Cântico, XI, 5, 2 (PG 44,1001) (aisthésis parousías).

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