O Serviço da Juventude do Patriarcado de Lisboa - COD Lisboa
promove a Via-Sacra Diocesana em oração pela JMJ Lisboa 2023, na noite do próximo
dia 24 de fevereiro, às 21h30.
Na primeira sexta-feira da Quaresma, o Cardeal-Patriarca, D. Manuel Clemente, vai
presidir e acompanhar este percurso “para o qual todos estão convidados, sem
exceção”, assinala a organização. “O ponto de encontro inicial será o alto do
Parque Eduardo VII (junto à bandeira de Portugal), e o percurso acompanhando os passos de Jesus com a cruz
será feito no parque”, acrescenta a nota.
“Ao entrar na Quaresma faremos os passos de Jesus com a
cruz, começando no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa, e tendo como intenção
a nossa JMJ Lisboa 2023. Queremos reunir todos nesta oração, que nos lembra já
a Via-Sacra da Jornada que será a 4 de agosto de 2023. O Senhor
Cardeal-Patriarca estará connosco, não faltes!”, convida o COD Lisboa.
Papa Francisco, coletiva de imprensa: voo de retorno a Roma
No voo de regresso do Sudão do Sul, foi
realizado o colóquio do Papa, do arcebispo de Cantuária e do moderador
da Igreja da Escócia com os jornalistas. Francisco falou de Bento XVI:
“A sua morte foi instrumentalizada por pessoas de partido, não de
Igreja, ele não estava amargurado pelo que fiz”. E sobre os
homossexuais: “Criminalizá-los é uma injustiça”
VATICAN NEWS
“Todo o mundo está em guerra, em autodestruição, vamos parar!”. Papa
Francisco, ao lado do arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e do
moderador da assembleia geral da Igreja da Escócia, Ian Greenshields,
dialogou com os jornalistas no voo de regresso do Sudão do Sul. Os três,
em várias ocasiões, responderam conjuntamente às perguntas. E foi a
ocasião para Francisco, além de reiterar a “injustiça” da criminalização
das pessoas homossexuais, falar também da morte do Papa emérito Bento
XVI, cujo falecimento, ocorrido em 31 de dezembro, foi acompanhado por
reconstruções polemicas que o colocaram contra o predecessor: “A sua
morte foi instrumentalizada” por pessoas “de partido e não de Igreja”. O
Papa explicou ainda que Bento XVI, consultado por ele várias vezes
nesses anos, “não estava amargurado por aquilo que fiz”. No início,
Francisco reiterou que se tratou de “uma viagem ecuménica” e, por isto,
“quis na conferência de imprensa em que estivessem também os dois. Sobretudo o
arcebispo de Cantuária, que tem uma história de anos neste caminho da
reconciliação” no Sudão do Sul.
WELBY
Em janeiro de 2014, eu e minha mulher visitamos o Sudão do Sul no
âmbito de uma viagem da comunhão anglicana e, chegando, o arcebispo nos
pediu para ir a uma cidade chamada Bor. A guerra civil tinha iniciado
cinco semanas antes e era muito feroz. Quando chegamos a Bor, no
aeroporto havia os primeiros corpos no portão, havia na época cinco mil
cadáveres não enterrados em Bor, havia as Nações Unidas, fomos para a
Catedral onde todos os padres tinham sido assassinados e as mulheres
violentadas e mortas. Era uma situação horrível. Voltando para casa,
seja eu, seja minha mulher, sentimos uma chamada profunda para ver o que
poderia ser feito para ajudar as pessoas do Sudão do Sul e, desde
então, em um dos encontros regulares que tenho o privilégio de realizar
com o Papa Francisco, falamos muito do Sudão do Sul e desenvolvemos a
ideia de um retiro no Vaticano. A minha equipe em Lambeth e o Vaticano
trabalharam juntos, visitaram o Sudão do Sul em 2016, trabalharam in
loco e com os líderes para tentar organizar esta visita. Minha mulher
trabalhou com mulheres líderes de comunidades e esposas de bispos.
Visitamos líderes em exílio em Uganda. Em 2018, ficou claro que havia a
possibilidade para uma visita no início de 2019 e conseguimos, foi um
milagre que tenha ocorrido. Um dos dois vice-presidentes estava em
Cartum em prisão domiciliar. Recordo que 36 horas antes, num
estacionamento de uma escola Nottingham, falei com o secretário-geral
das Nações Unidas para que concedessem a ele o visto, coisa que fez
brilhantemente, e conseguiu viajar pouco antes que fosse fechado o
espaço aéreo para um golpe de Estado. O momento crucial do encontro de
2019 foi, obviamente, o inesquecível gesto do Papa que se ajoelhou e
beijou os pés dos líderes para implorar a paz, e tentaram detê-lo. Foi
um momento extremamente notável. Tivemos discussões duras, mas no final
se empenharam em renovar o acordo de paz e penso que o gesto do Papa
tenha sido o momento-chave, a reviravolta. Mas como diz um treinador,
você é bom até o próximo jogo. E a covid adiou o jogo sucessivo. Creio
que o resultado tenha sido a perda do momento. Quando viemos para esta
visita, as equipes continuavam trabalhando, mas com menos confiança que
em 2019. Mas terminei esta visita com um profundo sentimento de
encorajamento, não tanto porque houve uma guinada, mas porque houve o
sentimento, como disse o Papa, de coração que fala a coração. Não foi em
nível intelectual que se realizaram os contatos nos vários encontros, o
coração falou ao coração. E há um ímpeto em nível médio e na base e
aquilo de que precisamos agora é de uma séria mudança do coração da
parte da liderança. Devem concordar um processo que leva a uma transição
pacífica. Eles o disseram publicamente, é preciso de um compromisso
contra a corrupção e o contrabando para deter o enorme acúmulo de armas.
Para isso, será necessário um ulterior trabalho conjunto, com o
Vaticano, e com a Troika, para que esta porta aberta, que não está
aberta quanto gostaria, se escancare e progrida. Daqui dois anos, haverá
eleições, precisamos de progressos sérios até o fim de 2023
GREENSHIELDS
A minha experiência foi muito diferente, esta foi a minha primeira
vez no Sudão do Sul, mas o meu predecessor esteve lá, encontrando
situações vulneráveis. A reconciliação foi o centro do encontro que
tivemos em 2015. Como igreja presbiteriana, ajudamos refugiados
sul-sudaneses. Nesta viagem, como disse, foi pronunciada a verdade do
coração. A situação agora é clara, as ações falam mais do que as
palavras. O governo nos convidou a entrar e nós nos comprometemos a
fazer todo o possível para fazer a diferença nesta situação, encontrar
os nossos parceiros, e agora pedimos a quem pode fazer a diferença que
inicie urgentemente o processo.
Santo Padre, vocês desejaram há muito visitar a RDC… vieram a
alegria. Qual importância teve o acordo assinado em 2016 entre a Santa
Sé e a RDC sobre educação e saúde.
PAPA FRANCISCO
Não conheço aquele acordo, tem a Secretaria de Estado que pode dar
uma opinião. Sei que nos últimos tempos se preparava um acordo. Não
posso responder. Nem conheço a diferença do novo que está sendo
preparado, essas coisas são feitas pela Secretaria de Estado, ou
Gallagher e eles são bons em fazer acordos pelo bem de todos. Eu vi ali
no Congo muita vontade de ir avante, tanta cultura. Antes de chegar
aqui, tive alguns meses atrás um encontro via zoom com universitários
africanos inteligentíssimos, vocês têm pessoas de uma inteligência
superior, é uma de suas riquezas, jovens inteligentes e se deve dar
lugar a eles, não fechar as portas. Ter tantas riquezas naturais que
atraem as pessoas para explorar o Congo, desculpem-me a palavra. Esta é a
ideia. A África deve ser explorada. Alguém diz, não sei se é verdade,
que os países que mantinham colónias deram a independência do solo para
cima, não para baixo, e vêm para explorar os minerais. Mas a ideia de
que a África deve ser explorada deve acabar. E falando de exploração, me
impressionou, provoca dor o problema do Leste. Pude realizar um
encontro com vítimas daquela guerra, feridos, amputados, tanta dor, tudo
para pegar as riquezas. Isso não pode, não pode. O Congo tem inúmeras
possibilidades.
Coletiva de imprensa - voo papal
WELBY
Não conheço o Leste assim tão bem. Minha mulher trabalhou com
mulheres em conflito, mas em 2018 fez muitas viagens, logo antes da
covid, e quero concordar com todo o coração com o que disse Sua
Santidade: devemos ser claros, o Congo não é um parque de diversões das
grandes potências, todo o lucro das pequenas companhias minerárias, que
operam irresponsavelmente com minas artesanais, o uso de
crianças-soldado, sequestros, estupros em larga escala, e estão
simplesmente depredando o país, que deveria ser um dos mais ricos da
face da terra, capaz de ajudar o restante da África. O país foi
torturado, lhe foi dada a independência política tecnicamente, mas sem
independência económica. Durante o ebola, formamos os pastores para
administrar o ebola, a Igreja fez um trabalho extraordinário, a Igreja
católica faz um trabalho extraordinário, o projeto para os Grandes Lagos
é maravilhoso, mas as grandes potências devem dizer: a África, em
especial o Congo, têm tantos recursos que servem para o resto do mundo
se o resto do mundo quiser fazer uma transição ecológica, e salvar o
planta das mudanças climáticas, que o único modo para fazê-lo é não
cobrir nossas mãos de sangue, buscar a paz do Congo e não a sua
prosperidade.
GREENSHIELDS
Minha experiência nos países em via de desenvolvimento é que, para
promover o desenvolvimento, devem ser reconhecidos os direitos das
mulheres e, em particular, das mulheres jovens.
Jean-Luc Mootosamy (CAPAV)
Temos visto como a violência não cessa apesar de décadas de
presença de missões da ONU. Como podem os senhores, juntos, ajudar a
promover um novo modelo de intervenção, dada a crescente tentação de
muitas nações africanas de escolher outros parceiros para garantir sua
segurança, parceiros que podem não respeitar as leis internacionais,
como algumas empresas privadas russas ou outras organizações, na região
do Sahel, por exemplo?
PAPA FRANCISCO
O tema da violência é um tema quotidiano. Acabamos de vê-lo no Sudão
do Sul. É doloroso ver como a violência é provocada. Uma das questões é a
venda de armas. O arcebispo Welby também disse algo a esse respeito. A
venda de armas: eu acho que esta é a maior praga do mundo. O negócio... a
venda de armas. Alguém que entende me disse que sem a venda de armas
por um ano acabaria à fome mundial. Eu não sei se isso é verdade. Mas
hoje no topo está a venda de armas. E não apenas entre as grandes
potências. Também para estas pobres pessoas... eles semeiam a guerra
dentro. É cruel. Eles lhes dizem: "Vão para a guerra!" e lhes dão armas.
Porque por detrás há interesses económicos para explorar a terra, os
minerais, a riqueza. É verdade que o tribalismo na África não ajuda.
Agora eu não sei realmente como é no Sudão do Sul. Acho que ali também
seja assim. Mas é preciso que haja diálogo entre as diferentes tribos.
Lembro-me de quando estive no Qu´enia, no estádio completo. Todos se
levantaram e disseram não ao tribalismo, não ao tribalismo. Cada um tem
sua própria história, existem inimizades antigas, culturas diferentes.
Mas também é verdade que se provoca a luta entre as tribos vendendo
armas e depois se explora a guerra de ambas as tribos. Isto é diabólico.
Não consigo pensar em outra palavra. Isto é destruir: destruir a
criação, destruir a pessoa, destruir a sociedade. Não sei se isso também
ocorre no Sudão do Sul, mas em alguns países isso ocorre: os
adolescentes são recrutados para fazer parte da milícia e combater com
outros adolescentes. Em resumo, acho que o maior problema é a ânsia de
pegar a riqueza daquele país - coltan, lítio... essas coisas - e através
da guerra, para a qual eles vendem armas, eles também exploram as
crianças.
Coletiva de imprensa - voo papal
GREENSHIELDS
Um dos problemas que emergem é o alto nível de analfabetismo: as
pessoas não têm uma compreensão clara de quem são, onde estão, de fazer
escolhas informadas. Devemos certamente colocar isso em discussão,
superar a divisão com o diálogo. Quero lhes contar uma pequena história
sobre a Escócia: meu país esteve religiosa e profundamente dividido,
ocorreram violências terríveis, divisões terríveis, então começou um
processo de diálogo entre nós - Igreja da Escócia e católicos - que no
ano passado levou à assinatura de uma declaração de amizade, com a qual
gostaríamos de caminhar juntos nas nossas diferenças, mas também
concordando com o que concordamos, e só então neste momento se pode
derrubar os muros. A educação, sob este ponto de vista, ajuda.
WELBY
O senhor disse as Nações Unidas ou outra coisa, mas não é "ou", é
"e": o que a Igreja contribui não é apenas fornecer redes que não sejam
corruptas, por isso a ajuda chega aos países, e ajuda a cruzar as linhas
que dividem duas partes em conflito. No sábado, o arcebispo celebrou o
funeral de 20 pessoas, e isso fez uma grande diferença. É a mudança de
coração, e esse foi o objetivo desta visita. Cem anos atrás os Nuer e
Dinka estavam sempre em guerra, era uma cultura de vingança, os Nuer em
particular estavam sempre entre eles. A diferença não a fez o governo,
mas as Igrejas que afetaram a mudança de coração quando as pessoas
receberam a fé em Cristo e perceberam que há outra maneira de viver.
Após esta visita não há apenas muito ativismo, mas também que o Espírito
de Deus traga um novo espírito de reconciliação e cura para o povo do
Sudão do Sul.
Claudio Lavanga (NBC NEWS)
Gostaria de perguntar ao senhor, Santo Padre, já que o arcebispo
Welby recordou aquele momento incrível em 2019, quando o senhor se
ajoelhou diante dos líderes do Sudão do Sul para pedir a paz,
infelizmente dentro de quinze dias será o primeiro aniversário de outro
terrível conflito, o da Ucrânia, e minha pergunta é: O senhor estaria
preparado para fazer o mesmo gesto para com Vladimir Putin se tivesse a
oportunidade de conhecê-lo, já que seus apelos pela paz até agora não
foram ouvidos? E gostaria de perguntar a vocês três se gostariam de
fazer um apelo conjunto pela paz na Ucrânia, pois este é um momento
raro, o encontro de vocês três?
PAPA FRANCISCO
Estou aberto para me encontrar com ambos os presidentes, o presidente
da Ucrânia e o presidente da Rússia, estou aberto para o encontro. Se
eu não fui a Kiev é porque não era possível naquela época ir a Moscovo,
mas eu estava em diálogo, de fato no segundo dia da guerra fui à
embaixada russa para dizer que queria ir a Moscovo para falar com Putin,
desde que houvesse uma pequena abertura para negociar. Então o ministro
Lavrov respondeu que valorizava isto, mas "vamos ver mais tarde". Esse
gesto foi algo que eu pensei, que "estou fazendo por ele" (por Putin, ndr).
Mas o gesto do encontro de 2019 não sei como aconteceu, não foi
pensado, e coisas que não foram pensadas não se podem repetir, é o
Espírito que o leva lá, não se pode explicar, ponto final. E eu me
esqueci disso. Foi um serviço, fui instrumento de algum impulso
interior, não uma coisa planeada. Hoje estamos neste ponto, mas não é a
única guerra, eu gostaria de fazer justiça: há doze ou treze anos a
Síria está em guerra, há mais de dez anos o Iemen está em guerra; pense
em Mianmar, no pobre povo Rohingya que viaja pelo mundo porque foi
expulso de sua pátria. Em toda parte, na América Latina, quantos focos
de guerra existem! Sim, há guerras mais importantes por causa do barulho
que fazem, mas, não sei, o mundo inteiro está em guerra, e em
autodestruição. Temos que pensar seriamente: está em autodestruição.
Temos que parar em tempo, porque uma bomba leva a outra maior e a outra
maior ainda e nessa escalada não se sabe onde vai parar. É preciso ter a
cabeça fria. Também tanto Sua Graça como o Bispo Greenshields falaram
das mulheres, mas as mulheres, eu as vi no Sudão do Sul: elas criam seus
seus filhos, às vezes ficam sozinhas, mas têm força para criar um país,
as mulheres são fortes. Os homens vão à luta, vão à guerra, e estas
senhoras com duas, três, quatro, cinco crianças vão em frente, eu as vi
no Sudão do Sul. E por falar em mulheres, gostaria de dizer uma palavra
às religiosas, as irmãs que entram na vida do povo, vi algumas delas
aqui no Sudão do Sul, e hoje na missa ouvimos o nome de tantas
religiosas que foram mortas.... Voltemos à força da mulher, devemos
levá-la a sério e não usá-la como um anúncio de maquiagem: por favor,
isto é um insulto à mulher, a mulher é para coisas maiores! Sobre o
outro ponto eu já lhes disse, vejamos as guerras que estão no mundo.
WELBY
Em relação à Rússia, Putin e Ucrânia, onde eu estava no final de
novembro e início de dezembro, eu realmente não tenho nada a
acrescentar, exceto que esta guerra está nas mãos do Sr. Putin, ele
poderia detê-la com a retirada e o cessar-fogo e, em seguida,
negociações sobre acordos de longo prazo. É uma guerra terrível e
terrificante, mas quero dizer que concordo com o Papa Francisco, há
muitas outras guerras, falo todas as semanas com o chefe da nossa Igreja
em Mianmar, falei com os líderes da nossa Igreja na Nigéria, onde 40
pessoas foram mortas ontem, falei com muitos em todas as partes do
mundo. Concordo plenamente com o Santo Padre, a guerra leva ao
envolvimento de mulheres e jovens, pelas razões que ele disse.
Bruce De Galzain (Radio France)
Santo Padre, antes de partir em sua jornada apostólica o senhor
denunciou a criminalização da homossexualidade. No Sudão do Sul e no
Congo ela não é aceita pelas famílias. Esta semana encontrei-me em
Kinshasa com cinco homossexuais, cada um deles rejeitado e até expulso
de suas famílias - eles me explicaram que sua rejeição vem da educação
religiosa de seus pais - alguns deles são levados a padres exorcistas
porque suas famílias acreditam que estão possuídos por espíritos
impuros. Minha pergunta, Santo Padre: o que o senhor diz às famílias do
Congo e do Sudão do Sul que ainda rejeitam seus filhos, e o que o senhor
diz aos padres, aos bispos?
PAPA FRANCISCO
Falei sobre este assunto em duas viagens, a primeira vez (retorno,
ndr.) do Brasil: se uma pessoa com tendências homossexuais é um crente,
procura Deus, quem sou eu para julgá-lo? Isto eu disse naquela viagem.
Na segunda vez, voltando da Irlanda, foi uma viagem um pouco
problemática porque naquele dia tinha sido publicada a carta daquele
menino ... mas ali eu disse claramente aos pais: as crianças com esta
orientação têm o direito de ficar em casa, não se pode expulsá-las de
casa. E depois, recentemente, falei também alguma coisa, não me lembro
bem o que, na entrevista à Associated Press. A criminalização da
homossexualidade é um problema que não deve ser permitido passar. O
cálculo é que, mais ou menos, cinquenta países, de uma forma ou de
outra, levam a esta criminalização - eles me dizem mais, mas digamos que
pelo menos cinquenta - e até mesmo alguns destes - eu acho que são dez,
têm a pena de morte (para os homossexuais, ndr.) - isto não está certo,
pessoas com tendências homossexuais são filhos de Deus, Deus os ama,
Deus os acompanha. É verdade que alguns estão neste estado devido a
várias situações indesejáveis, mas condenar tal pessoa é um pecado,
criminalizar pessoas com tendências homossexuais é uma injustiça. Não
estou falando de grupos, mas de pessoas. Alguns dizem: eles fazem grupos
que fazem barulho, estou falando das pessoas, lobies são outra coisa,
estou falando das pessoas. E eu acho que o Catecismo da Igreja Católica
diz: eles não devem ser marginalizados. Acho que a questão sobre este
ponto seja clara.
WELBY
Vocês devem ter visto que recentemente falamos sobre esse assunto na
Igreja da Inglaterra... incluindo uma boa dose de debate no Parlamento.
Quero dizer que gostaria de ter falado com a elegância e clareza que o
Papa fez. Concordo inteiramente com cada palavra que ele disse e, no que
diz respeito à criminalização, a Igreja da Inglaterra, a Comunhão
Anglicana aprovou duas resoluções contra a criminalização, mas isso não
mudou realmente a mentalidade de muitas pessoas. Nos próximos quatro
dias no Sínodo Geral será o principal tema de discussão e certamente
citarei o que o Santo Padre disse de forma maravilhosa e precisa.
GREENSHIELDS
Digo apenas que na minha leitura dos quatro Evangelhos onde vejo
Jesus expulsando (?) alguém, nos quatro Evangelhos não encontro nada
além de Jesus expressando amor por todos os seres humanos, e isto é o
que, como cristãos, podemos dar a cada ser humano em todas as
circunstâncias.
Alexander Hecht (ORF TV)
Uma pergunta ao Papa: nos últimos dias falou-se muito de unidade,
houve também uma demonstração da unidade da Cristandade, no Sudão do
Sul, também de unidade da própria Igreja Católica. Gostaria de
perguntar-lhe se o senhor sente que depois da morte de Bento XVI ficou
mais difícil o seu trabalho e a sua missão, porque se reforçaram as
tensões entre as diferentes alas da Igreja Católica?
PAPA FRANCISCO
Sobre este ponto, gostaria de dizer, que pude falar de tudo com o
Papa Bento XVI. (Também por, ndr.) mudar minha opinião. Ele estava
sempre ao meu lado, me apoiando e se tivesse alguma dificuldade, ele me
dizia e nós conversávamos. Não havia problemas. Uma vez falei sobre o
matrimónio das pessoas homossexuais, sobre o fato de que o matrimónio é
um sacramento e que nós não podemos fazer um sacramento, mas que existe a
possibilidade de garantir os bens através da lei civil, que começou na
França... qualquer pessoa pode fazer uma união civil, não
necessariamente de casal. Senhoras idosas que estão aposentadas, por
exemplo... porque se pode ganhar muitas coisas. Uma pessoa que se acha
um grande teólogo, através de um amigo do Papa Bento XVI, foi até ele e
fez a queixa contra mim. Bento não se assustou, ele chamou quatro
cardeais teólogos de primeiro nível e disse: expliquem-me isso e eles
explicaram. E foi assim que a história terminou. É uma anedota para ver
como Bento se movia quando havia uma denúncia.
Algumas histórias que contam, que Bento XVI estava amargurado sobre o
que o novo Papa fez, são histórias de 'telefone sem fio' (o Papa usa a
expressão 'histórias chinesas' para significar isto, ndr). Bento,
melhor, eu o consultei sobre algumas decisões a serem tomadas. E ele
estava de acordo. Ele estava de acordo. Acredito que a morte de Bento
tenha sido instrumentalizada por pessoas que querem levar água para seu
próprio moinho. E aqueles que instrumentalizam uma pessoa tão boa, tão
de Deus, quase diria um santo padre da Igreja, diria que são pessoas sem
ética, que são pessoas de partido, não de Igreja... pode-se ver em toda
parte, a tendência de transformar posições teológicas em partidos.
Estas coisas cairão sozinhas, ou se não caírem, seguirão em frente, como
aconteceu tantas vezes na história da Igreja. Eu queria dizer
claramente quem era o Papa Bento XVI, ele não era uma pessoa amargurada.
Jorge Barcia Antelo (RNE)
Bom dia Santidade. Voltamos hoje de dois países que são vítimas do
que o senhor chamou de globalização da indiferença. O senhor tem falado
disso desde o início de seu pontificado e desde sua viagem a Lampedusa.
De certa forma, esta semana chegou ao fim do círculo. O senhor ainda
pensa em ampliar o raio deste círculo, e ir além, de visitar outros
países esquecidos? A quais lugares o senhor tem em mente de ir? E depois
desta viagem que foi tão longa, tão exigente, como o senhor está?
Sente-se ainda forte? Sente ter uma condição de saúde suficiente para ir
a todos esses lugares?
PAPA FRANCISCO
Há a globalização da indiferença em todos os lugares. Dentro do país,
muitas pessoas se esqueceram de olhar para seus compatriotas, seus
concidadãos, e os colocaram no ângulo para não pensar sobre isso. Pensar
que as maiores fortunas do mundo estão nas mãos de uma minoria. E essas
pessoas não olham para as misérias, seus corações não se abrem para
ajudar. Sobre as viagens: acho que a Índia será no próximo ano. Vou a
Marselha no dia 23 de setembro, e há a possibilidade que de Marselha voe
para a Mongólia, mas ainda não foi definido, é possível. Outra este
ano, não me lembro. Lisboa. O critério: eu escolhi visitar os países
pequenos da Europa.
Dirão: "mas ele foi a França", não, eu fui a Estrasburgo; eu irei a
Marselha, não a França. Os pequenos, os pequenos. Para conhecer um pouco
a Europa escondida, a Europa que tem tanta cultura, mas que não é
conhecida. Para acompanhar países, por exemplo a Albânia, que foi o
primeiro, que foi o país que sofreu a ditadura mais cruel, mais cruel da
história. Então minha escolha é a seguinte: tentar não cair na
globalização da indiferença. (Sobre a saúde, ndr): Você sabe que erva
ruim nunca morre. Não como no início do pontificado, este joelho
incomoda, mas está indo lentamente, então veremos. Obrigado.
Para os outros dois: os senhores se unirão para outra viagem com o Papa?
WELBY
Certamente esta é a melhor companhia aérea com a qual já viajei!
Brincadeira à parte, eu ficaria feliz, se o Santo Padre sentisse que no
futuro poderíamos acrescentar valor, é sempre um enorme privilégio estar
com ele, que fosse uma ajuda para ele.
GREENSHIELDS
Eu ficaria feliz, a única limitação é que meu mandato expira no dia
20 de maio e serei sucedido por uma mulher, muito capaz, e tenho certeza
de que ela ficaria feliz em fazer o mesmo.
Multidão saúda o Papa nas ruas de Kinshasa
(AFP or licensors)
O abraço de Francisco a um povo provado
pelos conflitos e pela pobreza, que do Sucessor de Pedro recebe o
estímulo para se libertar de todas as formas de exploração.
ANDREA TORNIELLI
Um país "imenso e cheio de vida", o segundo pulmão do planeta depois
da Amazónia graças à extensão da sua floresta tropical, que é saqueada
avidamente. Um país com imensos recursos naturais, “atingido pela
violência como se fosse um murro no estômago”, que “parece há muito sem
fôlego”. Depois de ser saudado por milhares de pessoas de todas as
idades que se aglomeravam na estrada do aeroporto de N'djili ao centro
da megalópole de Kinshasa, o Papa Francisco enviou a sua primeira mensagem
à República Democrática do Congo e a toda a África.
No jardim do Palais de la Nation, sentado ao lado do presidente Felix
Tshisekedi Tshilombo, o Sucessor de Pedro pronunciou palavras de apoio
aos congoleses que resistem às tentativas de fragmentar o país
atravessado pela violência e recordou mais uma vez o objeto de
exploração do Congo e de forma geral de todo o continente africano.
“Depois do político – disse Francisco – desencadeou-se um
colonialismo económico igualmente escravizador”. É um colonialismo mais
subtil e menos vistoso, que esvazia os povos africanos da liberdade e da
autodeterminação. Assim, acrescentou o Papa, no Congo “chegou-se ao
paradoxo de os frutos da sua terra o tornarem «estrangeiro» para os
próprios habitantes. O veneno da ganância tornou os seus diamantes ensanguentados. É um drama face ao qual, muitas vezes, o mundo economicamente mais desenvolvido fecha os olhos, os ouvidos e a boca.
Francisco quis vir até aqui para abraçar este povo provado pelos
conflitos e pela pobreza, para fazer com que abramos os olhos, os
ouvidos e a boca, lembrando-nos dos conflitos esquecidos que compõem os
pedaços cada vez maiores da Terceira Guerra Mundial e das consequências
de um sistema económico-financeiro que "mata" porque não tem no centro o
homem, mas o deus dinheiro.
"Mas este país e este continente - disse o Papa no seu primeiro
discurso em Kinshasa - merecem ser respeitados e ouvidos, merecem espaço
e atenção: tirem as mãos da República Democrática do Congo, tirem as
mãos da África! Basta com este sufocar a África: não é uma mina para
explorar, nem uma terra para saquear."
Ao princípio, confesso, também eu
“embarquei” na critica ao valor apresentado para a construção do palco e
respectivos arranjos para realizar as JMJ.
Claro
que poderíamos invocar apenas a frase de Jesus Cristo - «Sempre tereis
pobres entre vós» (Mc 14, 7) – e fazer dela a interpretação que nos
conviesse para “justificar” este gasto.
Também
podíamos justificar o tal valor comparando com tudo aquilo que tem sido
investido ao longo do tempo em eventos vários e falando do seu retorno,
como, por exemplo, o “Websummit”, concertos de rock, etc., e facilmente
perceberíamos que o número de pessoas que se esperam nas JMJ é,
impressionantemente, maior.
Ainda podíamos argumentar com a obra para o futuro e como ela serve para reabilitar e dar outra utilização àquele lugar.
Enfim
poderíamos arranjar todos os argumentos e comparações necessárias para
satisfazer as nossas consciências, justificando o tal valor a investir.
Mas,
por mim, prefiro regressar à frase de Jesus - «Sempre tereis pobres
entre vós» (Mc 14, 7) – e tentar tirar dela um sentido para o valor que
vai ser investido, um sentido mais espiritual e ao mesmo tempo
caritativo.
Os
ensinamentos de Jesus Cristo e, obviamente, a Doutrina da Igreja, como
não podia deixar de ser, voltam-se para os pobres, para os mais
necessitados, e não são apenas aqueles pobres e necessitados de ajuda
material, mas também aqueles que se desesperam, que estão sós, que são
“pobres” espiritualmente, que não encontram o verdadeiro sentido da
vida, o amor de Deus.
Ora, por
isso mesmo, a consciência cristã tem que estar sempre voltada para estes
pobres necessitados, (dos quais também nós fazemos parte em algumas
alturas das nossas vidas), e assim, o ser cristão, ou melhor, o ser
discípulo de Cristo, passa por aprender, para melhor conhecer Deus e
assim melhor amar os outros, ajudando-os nas suas necessidades, sejam
ela quais forem, materiais ou espirituais.
E
é verdade, por todos constatada, que os jovens, (e não só os jovens),
são, neste tempo, constantemente “bombardeados” por supostos valores que
estão bem longe da solidariedade, do amor, da caridade.
Reuni-los,
então, à volta do Papa Francisco, em comunhão de Igreja, ouvindo a
palavra do Vigário de Cristo na terra, reflectindo sobre tudo o que ele
lhes irá dizer e que os levará a comentar entre si essa verdade,
encontrando caminho para o amor de Deus e, tocados por Ele, se tornarem
verdadeiros discípulos de Cristo que pretendam levar a sério a imagem de
São Paulo para a Igreja e assim sendo para a sociedade - «Assim, se um
membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26) – será,
com certeza, um valor inestimável que ultrapassará em muito o tal valor
monetário da referida obra.
E
os jovens, como sempre se afirma, são o futuro, e se o futuro puder ser
moldado no amor aos outros, na caridade aos outros, em comunhão de
Igreja, então o futuro será bem mais esperançoso do que agora se
apresenta.
Então e todos serão “tocados” por esse amor de Deus e por Ele se deixarão conduzir?
Com
certeza que não, infelizmente, mas uma parte com certeza que o será e
assim poderá mudar algo que não se antevia e aqueles que, por acaso,
neste encontro não encontrarem Cristo, não deixarão de ficar com a
semente que mais tarde poderá florescer e tornar-se fruto neles, para
eles e para todos nós.
Já
estou a ver quem me estiver a ler a pensar que eu “vivo nas nuvens”,
que isto é muito bonito mas não passa de palavras escritas, mas a
verdade é que eu, por exemplo, também não me preocupava com os outros,
nem com Deus, mas a semente que tinha sido plantada no meu coração
acabou por dar fruto e, hoje em dia, mesmo sendo pecador, sou diferente e
preocupo-me e tento ajudar os outros, não só materialmente, mas também
espiritualmente, em tudo aquilo a que Deus me chama.
Claro
que, gostaria de ouvir a “minha” Igreja dizer, claramente, que não
seria preciso gastar um valor tão elevado para fazer um palco e um altar
com a dignidade suficiente para receber o Papa e as JMJ, mas também
penso que não compete à Igreja tal decisão.
Claro
que, não sendo engenheiro nem arquitecto, acredito que talvez se
pudesse fazer “coisa” mais simples, embora digna, não gastando a tal
verba anunciada.
Claro que, nos
tempos que hoje vivemos no nosso país, nos podemos perguntar se não irá
alguém usufruir, ilegitimamente, de parte da mesma verba.
Mas
no fundo o que realmente importa é o fruto espiritual, e não só, que
virá destas JMJ, e esse está nas mãos de Deus que semeará, regará e fará
crescer a planta da fé, para depois dar fruto e fruto que permaneça,
para bem de todos nós e maior glória de Deus.
E
para que assim seja, também são necessárias as orações de cada um de
nós, pedindo que o Espírito Santo se derrame abundantemente sobre os
jovens e sobre a humanidade.
Ao falar sobre a primeira das
Bem-aventuranças “os pobres em espírito”, Francisco recordou que “eles
conservam o que recebem; por isso, desejam que nenhum dom seja
desperdiçado”, apontando três desafios contra a mentalidade do
desperdício
Jane Nogara - Vatican News
Neste IV Domingo do Tempo Comum, (29/01) o Papa Francisco na oração
do Angelus falou sobre as Bem-aventuranças segundo o Evangelho de
Mateus. "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino
dos Céus" (v. 3). Francisco quis esclarecer “quem são os pobres em
espírito” explicando que são aqueles que sabem que não são suficientes
por si mesmos, que não são auto-suficientes e vivem como "mendigos de
Deus": “sentem necessidade de Deus e reconhecem que o bem vem d’Ele,
como um dom, como uma graça”. E depois de observar que os pobres em
espírito conservam o que recebem; afirma "por isso, desejam que nenhum dom seja desperdiçado. Disse que hoje deter-se-ia neste aspeto típico dos pobres em espírito: não desperdiçar.
Contra a mentalidade do desperdício
E para isso o Papa propôs três desafios contra a mentalidade do desperdício. Primeiro desafio: não desperdiçar o dom que somos.
“Cada um de nós é um bem, independentemente dos dotes que temos”,
afirmou. “Cada mulher, cada homem é rico não apenas de talentos, mas de
dignidade, é amado por Deus, é valioso, é precioso”.
“Jesus lembra-nos que somos bem-aventurados não pelo que temos,
mas pelo que somos. A verdadeira pobreza, portanto, é quando uma pessoa
se abandona e se deteriora, desperdiçando-se a si mesma. Lutemos, com a
ajuda de Deus, contra a tentação de nos considerarmos inadequados,
errados, e de sentir pena de nós mesmos”
Não desperdiçar os dons que temos
Depois, o segundo desafio: não desperdiçar os dons que temos.
Aqui o Papa refere-se ao desperdício que nos é dado pela criação, os
alimentos que são desperdiçados enquanto tanta gente morre de fome:
“Os recursos da criação não podem ser usados desta maneira; os
bens devem ser conservados e partilhados, para que não falte a
ninguém o que é necessário. Não desperdicemos o que temos, mas
difundamos uma ecologia da justiça e da caridade!”
Não descartar as pessoas
Enquanto que o terceiro desafio: não descartar as pessoas, Francisco fala sobre a cultura do descarte explicando que se joga fora egoisticamente quando alguém não nos interessa mais.
“Mas as pessoas não podem ser jogadas fora, nunca! Cada um é um
dom sagrado e único, em todas as idades e em todas as condições.
Respeitemos e promovamos sempre a vida!”
Concluindo. o Santo Padre propôs nos questionemos sobre estes três
desafios, “Antes de tudo, como vivo a pobreza de espírito? Será que dou
lugar a Deus, será que acredito que Ele seja o meu bem, a minha verdadeira
e grande riqueza?”. E depois: “tenho o cuidado de não desperdiçar, sou
responsável pelo uso das coisas, dos bens? E eu estou disposto a partilhá-los com outros?” Por fim o Papa recordou que devemos perguntar a nós mesmos: “considero os mais frágeis como dons preciosos, que Deus me
pede para cuidar? Será que me recordo dos pobres, daqueles que não têm o
necessário?”.
Habituados a ver a beleza como algo
visível aos olhos humanos, quedamo-nos a maior parte das vezes apenas
pelo aspecto exterior, não nos preocupando de perceber se a beleza
exterior é acompanhada pela beleza interior.
Poderíamos dizer que a beleza interior é o amor.
E, realmente, o amor não é visível, ao olhar humano.
Até
muitas vezes os gestos, atitudes e palavras que usamos para expressar o
amor, são, infelizmente, frequentemente falsas, mascaradas, apenas para
atingir um qualquer fim em vista.
Curiosamente,
quando pensamos na beleza humana exterior, (aferida pelos padrões da
sociedade), reparamos que essa beleza é muitas vezes acompanhada com
tiques de “superioridade”, de arrogância, de superficialidade.
Claro
que isto é uma generalização e que, felizmente, também há muitos casos
em que a beleza exterior é muito bem acompanhada com a beleza interior.
Então como “aferir” a beleza interior, ou seja, o amor?
Sabemos, aqueles que acreditam em Jesus Cristo, que o Seu amor é o único perfeito, completo, total e eterno.
É, portanto, no amor de Deus que podemos perceber a dimensão do nosso amor.
É
sabido que o amor é doação, entrega de si mesmo, é a procura da
felicidade do outro, dos outros, pois a felicidade dos outros leva-nos à
nossa felicidade, e que só assim o amor se torna verdadeiramente amor.
Não
são as “promessas de amor” ou as palavras que são o amor, porque nos
lembramos de imediato que promessas e palavras leva-as o vento.
Amar é “respirar” o viver de Deus e em Deus!
Realmente só em Deus encontramos o verdadeiro amor e só deixando-nos tomar por esse amor podemos amar verdadeiramente.
O amor transforma!
Até o nosso fraco amor humano, quando nos toma, nos faz mudar para agradarmos à pessoa amada.
E como é belo e edificante ver duas pessoas que se amam verdadeiramente, procurando fazer-se mutuamente felizes.
Quanto
mais, portanto, o amor de Deus em nós nos transforma, nos enche e
preenche, e nos faz termos uma pequena parcela do divino, do divino amor
que a todos ama sem condições.
É que tomados por esse amor de Deus, vamos procurar amar todos os outros, até mesmo aqueles que não nos amam ou nos querem mal.
Impossível?
Não, porque a Deus nada é impossível e por isso mesmo nada é impossível ao amor de Deus em nós.
E
quando assim acontece com alguém que conhecemos, nem sequer reparamos
na beleza exterior, se a mesma existe ou não por padrões humanos, porque
a beleza do amor nessa pessoa torna o seu interior tão belo, que essa
beleza se transmite, se sente, se vê, se vive exteriormente.
Então
percebemos que a beleza do amor de Deus em nós também nos torna belos
em Deus, porque o nosso todo, exterior e interior, é tocado por Deus e
tudo o que Deus toca torna-se belo por amor.
Por isso o amor é belo e por isso a beleza é o amor de Deus!
Provocação - Coloca-te perante ti e
pergunta-te seriamente que caminho estás a fazer neste encontro com Deus
que queres para a tua vida.
Reflexão - Terei que examinar verdadeiramente o que me motiva, o que me apaixona, a verdade da procura no meu coração.
P
- Então fá-lo sem medo, entregando-te ao Espírito Santo, para que Ele
te guie e te mostre com a verdade os passos que dás em frente e os
passos em que retrocedes.
R - Em primeiro lugar quero acreditar que me move o amor de Deus, o amor a Deus, a vontade de fazer a sua vontade.
P
- Mas porquê? Para te satisfazeres, para te sentires bem, ou por
achares que estás a fazer o que é devido para seguires Cristo?
R
- Pois, o problema está muitas vezes aí. Será que o faço para me sentir
bem, para me sentir “aconchegado” pela presença de Deus, ou então,
também, por achar que Ele precisa de mim e fica contente por eu fazer o
que faço ou querer fazer o que Ele quer?
É tão estranho reconhecer que talvez as minhas razões não sejam as melhores!
P
- Não te preocupes com isso e abre o teu coração, a tua alma. Deixa que
saia de lá aquilo que tantas vezes se calhar não tens coragem, ou mesmo
até tens vergonha perante ti próprio de admitir.
R
- E se eu olho para trás e reconheço que o meu caminho afinal está
errado, ou melhor, que o faço por motivos que não são os verdadeiros, os
mais puros?
P
- Estás aqui, não estás? A tentar abrir o teu coração e o teu ser
perante Deus e perante ti, por isso tens que reconhecer que nem tudo
pode estar errado, ou seja, que no profundo do teu coração está Deus que
te quer guiar ao seu encontro.
R
- Sim reconheço isso. Se não houvesse em mim uma ânsia de ser o que Ele
quer, com certeza não me perguntaria porque faço o caminho ou como faço
o caminho.
P - Exactamente. Então o que te incomoda?
R
- Sabes que uma das coisas que me é difícil de perceber, ou melhor de
viver, é esta “capacidade” para escrever e, por exemplo, fazer oração.
P - Porquê?
R
- Porque embora reconheça que tudo vem dEle, mesmo assim acho ou penso
que tenho algum mérito nisso e isso incomoda-me, porque queria ser
completamente liberto de tudo isso para não me ufanar, não me sentir
“especial”!
P
- Se isso te incomoda significa que dentro de ti a tua consciência te
alerta para o perigo da vã glória, e isso é bom, porque também significa
que Ele mesmo te alerta, mas te dá a mão.
R
- Mas eu não queria “deleitar-me” com elogios, com referências, com
parabéns! Queria que não os houvesse, (será que queria mesmo?), ou então
que lhes fosse completamente indiferente.
Vês esta divisão que vive em mim, que me marca. Nem sequer ter a certeza se quero ou não quero essas atitudes para comigo?
P
- Mas quando recebes esses elogios, essas referências, achas que te são
devidas? Achas que são fruto apenas de ti, do que podes ou consegues
fazer sozinho?
R - Não, claro que
não! Claro que reconheço que é Ele que faz em mim, mas de algum modo
sinto que fui "escolhido" e isso orgulha-me como se eu tivesse algum
mérito nisso.
E depois dizem-me
para me entregar, para tudo confiar, mas estas dúvidas de pureza de
intenções não me largam, parece que não me deixam libertar do meu eu, do
eu com o qual eu me parece não sei lidar.
P
- Poderás não saber lidar tão bem, mas repara que ao te permitires
reconhecer tudo isso, significa que no fundo te estás a abrir a Ele e
que Ele te vai guiando no caminho que queres caminhar.
Sabes
bem que a sua misericórdia é infinita e que Ele te conhece melhor do
que tu te conheces, por isso sempre tens a sua mão a levantar-te para
Ele.
R - Sabes, apetece-me tantas
vezes abandonar tudo! Não é abandonar Deus e o caminho que vou fazendo,
mas sim todas as coisas em que estou envolvido e ser apenas mais um
entre todos, sem intervenção pública, sem dar a cara.
Mas
quando penso nisso fico sempre apreensivo e dividido entre fazê-lo para
me libertar ou fazê-lo para me pedirem que não o faça?
E se seu estiver errado e Ele quiser que eu faça o que faço porque realmente me chamou para o fazer?
P
- Não te sei responder, mas, no entanto, digo-te que confies e te abras
a tudo o que possa acontecer. Se não te chamarem, não te imponhas. Se
não te perguntarem, não opines. Se não quiserem precisar de ti, não te
faças “necessário”. Não queiras impor a tua presença como se ela fosse
necessária. Se Ele quiser que O sirvas de qualquer modo, Ele te chamará
do modo que melhor entender e tu irás entender que é Ele que te chama.
R
- E isso não me irá “doer” se por acaso não for chamado? Não irei
criticar e julgar porque não me quiseram usar para servir? Serei capaz
de estar com alegria onde outros estiverem a fazer o que eu fazia?
P
- Tens que confiar e rezar permanentemente. Não dizes tu que é preciso
invocar sempre o Espírito Santo? Então fá-lo com todas as tuas forças e
pede-lhe para Ele te guiar e ajudar a suportar tudo aquilo que
humanamente te possa magoar, embora no fundo saibas que isso é apenas
caminho de crescimento, caminho de encontro com Deus.
Só
comungando com os outros, só alegrando-te no que os outros fazem de
bem, serás comunhão também com Deus e assim aquilo que te parecia
impossível de ultrapassar, será ultrapassado e, pelo menos em relação a
isso, alcançarás a paz.
Mas não
penses que tudo fica resolvido, porque o teu caminho de aprendizagem é
longo e difícil, e por muito terás ainda que passar. Mas anima-te porque
Ele está a moldar-te segundo a sua vontade.
Após a oração do
Angelus, o Papa recordou a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos,
de 18 a 25 de janeiro, sobre o tema: “Aprendam a fazer o bem, procurem a
justiça” e ligou o caminho ecuménico ao “da conversão sinodal da
Igreja”. Novo apelo para não esquecer "o martirizado povo ucraniano que
sofre tanto" com sentimentos, ajuda e oração.
Mariangela Jaguraba - Vatican News
Após a oração mariana do Angelus, deste domingo (15/01), o Santo
Padre anunciou que de 18 a 25 de janeiro, se realizará a Semana de
Oração pela Unidade dos Cristãos no Hemisfério Norte. No Hemisfério Sul,
as Igrejas geralmente celebram a Semana de Oração pela Unidade dos
Cristãos no período de Pentecostes.
O tema deste ano é extraído do profeta Isaías: "Aprendei a fazer o
bem, procurai a justiça". Agradeçamos ao Senhor que com fidelidade e
paciência conduz o seu povo à plena comunhão, e peçamos ao Espírito
Santo que nos ilumine e sustente com os seus dons.
A seguir, o Papa disse que "o caminho para a unidade cristã e o caminho da conversão sinodal da Igreja estão ligados".
Portanto, aproveito esta ocasião para anunciar que se realizará,
no sábado, 30 de setembro próximo, na Praça de São Pedro, uma Vigília
Ecuménica de Oração, com a qual confiaremos a Deus os trabalhos da 16ª
Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Para os jovens que
virão à Vigília haverá um programa especial durante todo aquele fim de
semana, organizado pela Comunidade de Taizé. A partir de agora, convido
os irmãos e irmãs de todas as confissões cristãs a participar neste
encontro do Povo de Deus.
A seguir, o Papa convidou os fiéis a não se esquecerem do
"martirizado povo ucraniano, que tanto sofre! Fiquemos perto dele com os nossos sentimentos, com a nossa ajuda e coma nossa oração".
Francisco saudou também fiéis espanhóis provenientes de Múrcia e os
de Sciacca, na Sicília. "Que a sua visita ao túmulo de Pedro fortaleça a sua
fé e seu testemunho", concluiu o Papa, pedindo a todos para não se
esquecerem de rezar por ele.
No Angelus deste
domingo, Francisco refletiu sobre o testemunho de João Batista a
propósito de Jesus, depois de tê-lo batizado no rio Jordão. Segundo o
Papa, a declaração de João Batista revela o seu "espírito de serviço.
Ele tinha sido enviado para preparar o caminho para o Messias e o fizera
sem se poupar. João, tendo cumprido a sua missão, sabe afastar-se,
retira-se de cena para dar lugar a Jesus".
Mariangela Jaguraba - Vatican News
O Papa Francisco rezou a oração mariana do Angelus, deste domingo
(15/01), com os fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro.
Neste encontro dominical, o Pontífice refletiu sobre o testemunho de
João Batista a propósito de Jesus, depois de tê-lo batizado no rio
Jordão. De facto, João Batista diz: "É este de quem eu disse: Depois de
mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim." "Este
é o testemunho", frisou o Papa.
Dar lugar a Jesus
Esta declaração, este testemunho, revela o espírito de serviço de
João. Ele tinha sido enviado para preparar o caminho para o Messias e o
fizera sem se poupar. Humanamente, alguém poderia pensar que ele
receberia um "prêmio", um lugar de destaque na vida pública de Jesus,
mas não. João, tendo cumprido a sua missão, sabe afastar-se, retira-se
de cena para dar lugar a Jesus.
João viu o Espírito descer sobre Jesus, "o indicou como o Cordeiro de
Deus que tira o pecado do mundo, e agora, por sua vez, ele escuta-o
humildemente. De profet torna.se discípulo. Ele pregou ao povo, reuniu
discípulos e formou-os por muito tempo. No entanto, não prende ninguém a
si". "Isto é difícil, mas é o sinal do verdadeiro educador: não prender
as pessoas a si", ressaltou o Papa, destacando que João "coloca os seus
discípulos nas pegadas de Jesus. Não está interessado em ter seguidores
para si, em obter prestígio e sucesso, mas dá testemunho e depois dá um
passo atrás, para que muitos tenham a alegria de encontrar Jesus.
Podemos dizer que ele abre a porta e vai-se embora".
Libertação dos apegos
Com o seu espírito de serviço, e este é um verdadeiro espírito de
serviço, com a sua capacidade de abrir espaço a Jesus, João Batista ensina-nos uma coisa importante: a libertação dos apegos. Ensina-nos a
libertar-nos dos apegos. Sim, porque é fácil apegarmo-nos a papéis e cargos, à
necessidade de ser estimado, reconhecido e premiado. Isto, embora
natural, não é uma coisa boa, porque o serviço envolve a gratuitidade, o
verdadeiro serviço envolve a gratuitidade, o cuidar dos outros sem
vantagens para nós, sem segundas intenções, sem esperar na troca em
troca. Far-nos-á bem cultivar, como João, a virtude de nos afastarmos no
momento oportuno, testemunhando que o ponto de referência da vida é
Jesus. Afastarmo-nos, aprender a dizer adeus. Cumpri esta missão, fiz esta
reunião, coloco-me de lado e abro espaço para o Senhor. Aprender a
colocar-me de lado, não pegar em algo para ter um retorno para nós.
A seguir, Francisco convidou a pensar "em como isto é importante para
um sacerdote, que é chamado a pregar e celebrar não por protagonismo ou
interesse, mas para acompanhar os outros a Jesus. Pensemos em como é
importante para os pais, que ajudam a crescer os filhos com tantos sacrifícios,
mas depois têm que deixá-los livres para seguirem o seu caminho no trabalho,
no matrimónio, na vida. É bonito e justo que os pais continuem
garantindo a sua presença, dizendo aos filhos: “Não os deixaremos
sozinhos”, mas com discrição, sem intromissão. A liberdade de crescer".
Crescer no espírito de serviço
O mesmo vale para outros âmbitos, como a amizade, a vida conjugal,
a vida comunitária. Libertarmo-nos dos apegos do próprio ego e saber afastar-me, custa, mas é muito importante: é o passo decisivo para crescer
no espírito de serviço. Crescer no espírito de serviço fazendo as coisas
e colocando-me de lado, sem procurcr recompensa.
O Papa convidou-nos a fazer as seguintes perguntas: "Somos capazes de
abrir espaço para os outros? De escutá-los, de deixá-los livres, de não
prendê-los a nós exigindo reconhecimento? Até de deixá-los falar.
Deixá-los falar, abrir espaço para os outros.
alegrar-nos pelo facto de as pessoas seguirem o seu caminho e o seu chamamento,
mesmo que isso implique um pouco de distanciamento de nós?
Regozijamo-nos com as suas realizações, com sinceridade e sem inveja?
Alegramo-nos quando os outros vão adiante, com sinceridade, sem inveja?
Isto é deixar os outros crescer".
"Que Maria, a serva do Senhor, nos ajude a libertar-nos dos apegos, e
a abrir espaço ao Senhor e aos outros", concluiu Francisco.