Patriarca Latino de Jerusalém incensa imagem de Jesus Menino
Na homilia, o
Patriarca latino de Jerusalém, Dom Pierbattista Pizzaballa, sublinhou
que a salvação "tem um rosto e um nome e é o de Jesus, nascido para ser
alimento e bebida, ensinando-nos que não há salvação sem o amor doado e
recebido."
Beatrice Guarrera - Belém
“Jesus Cristo, Deus eterno e filho do Pai eterno, nasceu aqui em
Belém da Judéia, da Virgem Maria”. Com estas palavras do martirológio
romano, foi anunciado o Natal precisamente no lugar onde, há mais de
dois mil anos, Jesus nasceu.
Os sinos da Basílica da Natividade badalaram em festa, enquanto o coro entoava o Gloria in Excelsis Deo,
acompanhado pelo órgão. Da Gruta de Belém, mais uma vez, a alegria do
Natal se espalha por todo o mundo, mas, neste ano de sofrimento
provocado pela pandemia do coronavirus, até a Missa da meia-noite no
local de nascimento do Salvador foi diferente. A celebração foi fechada
ao público, para limitar o risco de possíveis infecções, e apenas uma
pequena delegação de diplomatas e cristãos locais foi admitida na
liturgia, representando o clero, jovens e peregrinos.
Milhares de pessoas conetadas pela web
O Patriarca Latino de Jerusalém, Dom Pierbattista Pizzaballa,
presidiu as celebrações da véspera de Natal, no respeito à tradição,
naquela que foi a sua primeira saída pública desde o fim da quarentena,
necessária pois tinha testado positivo para o coronavírus.
Com o canto das primeiras Vésperas no início da tarde de 24 de
dezembro, já se tinha iniciado a Solenidade do Natal, logo após Dom
Pizzaballa ter entrado em Belém, acolhido por pessoas nas ruas e por
onze grupos de escoteiros com tambores e gaitas de foles.
Para a Missa da meia-noite na Igreja de Santa Catarina em Belém,
porém, o número de participantes teve que ser limitado, embora milhares
de pessoas de todo o mundo estivessem conetadas pela web ou pela TV
para assistir à missa ao vivo.
A salvação tem um nome: Jesus
“A profecia de Isaías e o Evangelho do Natal que acabamos de ouvir -
disse Dom Pizzaballa na homilia - iluminam também este ano a noite dos
pastores e a noite do mundo inteiro”. “Todos nós, nos sentimos sombrios,
cansados, exaustos, oprimidos por muito tempo sob o pesado jugo desta
pandemia [...]. Porém, na minha primeira Missa de Natal como Patriarca,
não quero afinar a minha voz com aquela de quem sabe descrever bem a
noite. Eu devo, quero, dar voz à profecia, fazer eco ao Evangelho,
comunicar-vos a graça desta hora”. “Um menino nasceu para nós, um filho nos
foi dado: esta é a certeza dos cristãos”.
O Patriarca latino de Jerusalém quis sublinhar que a salvação que
todos procuram “tem rosto e nome e é aquele de Jesus, nascido para ser
alimento e bebida, ensinando-nos que não existe salvação sem o amor dado
e recebido."
Responsáveis uns pelos outros
Segundo Dom Pizzaballa, a tragédia da pandemia deixou claro que
todos estamos conectados, somos responsáveis uns pelos outros, mas
ainda precisamos de pedir a Deus a consciência de que somos todos filhos e,
portanto, todos irmãos.
“Penso, em particular, nos nossos fiéis que vivem na Palestina: como
para Maria e José, também para eles parece não haver lugar no mundo,
continuamente convidados, antes de poderem viver com dignidade na sua
casa, a aguardar um futuro desconhecido e continuamente adiado”.
Assim afirmou o Patriarca latino de Jerusalém, sem esquecer, porém,
que “com o nascimento de Cristo, o próprio Deus entrou no mundo
orientando o seu caminho para um futuro de alegria e paz”.
Jesus nasceu para nós
À meia-noite em ponto, enquanto no andar superior era celebrada a
liturgia de Natal, o Custódio da Terra Santa, o padre Francesco Patton,
presidiu a primeira Missa na Gruta da Natividade, na parte inferior, na
presença de um pequeno grupo de pessoas. A partir daquele momento, a
cada quarenta minutos e até às quatro da tarde do dia 25 de dezembro,
outras Missas foram celebradas na Gruta, para continuar a manter viva a
oração no local do Natal.
Dom Pizzaballa, no final da Missa da meia-noite, rezou na Gruta da
Natividade, para onde se dirigiu em procissão carregando uma imagem do
Menino nos braços. Com um gesto simbólico, colocou-o no lugar onde a
tradição coloca a manjedoura, para que seja visível que, naquela gruta
fria, ainda hoje Jesus nasce para nós.
O modo de Deus acontecer no mundo Celebremos verdadeiramente o Natal.
Celebremo-lo sem passar depressa demais pelas palavras e pelo difícil
contexto em que o fazemos este ano, tão marcado pela pandemia e as suas
consequências no campo da saúde, do trabalho e da vida em geral. É
neste contexto que celebramos o Natal de Cristo. Sabemos como se tornou
motivo direto e indireto de outras coisas, legítimas certamente, como a
reunião familiar, as iluminações e as prendas, as saudações e os bons
votos a presentes e ausentes. Ainda bem que assim foi e continua a ser,
embora condicionados pelas atuais restrições. Não se reduza a boa
vontade, que encontra sempre modo de chegar aos outros, pois o coração
vence as distâncias. Importa,
porém, não deixar que outros motivos diluam ou encubram o que realmente
originou o Natal. Muito menos que o contradigam, como se fizéssemos
deste dia algo diferente do que ele foi. Natal
significa nascimento – e nascimento de Jesus Cristo. Os Evangelhos da
Infância de Jesus dizem-nos o que aconteceu, no mais profundo desse
acontecer. Estão envoltos em motivos bíblicos, que preenchem o
significado do presépio de Belém. Se bem repararmos, o essencial é ter
sido assim, de modo tão original e interpelante, hoje como então. A
originalidade do nascimento de Cristo, como admirou na altura e nos
admira agora, interroga-nos a todos e esclarece os crentes sobre aquilo a
que podemos chamar a surpresa de Deus neste mundo. Reparemos
que há muitos séculos se vinha desenvolvendo na tradição profética de
Israel a expetativa de um Messias (= Cristo), cheio do Espírito de Deus
para anunciar a Boa Nova aos pobres. Assim se apresentou Jesus, anos
mais tarde, na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 18). Aliás, entre
os próprios romanos, havia quem anunciasse a chegada duma nova idade do
mundo, coincidente com o Império de Octávio César Augusto… Grandes
expetativas, mas dificilmente aproximáveis do modo, tão desprovido e
simples, como Jesus nasceu, viveu e morreu. Ou como os crentes O sentem
agora, bem presente nas suas vidas, tão forte como discreto “Emanuel”,
que que dizer “Deus connosco” – proposta permanente e imposição nenhuma. Deus
connosco, como Deus acontece no mundo e nas vidas. Não O imaginemos
doutra forma, pois só nos veríamos a nós, mais ou menos sonhados e
fantasiados. Fixemo-nos no Presépio e no concreto daquela situação e
respetivos circunstantes. Creio que esta fixação no presépio de Belém nos ajudará especialmente no momento atual,
com as dificuldades sobrevindas e que a muitos atingem gravemente, por
esse mundo além ou aquém. Contemplado com persistência e devoção, aquele
Menino reflete-se em tantos outros, nascidos ou por nascer, cujas
famílias também não encontram lugar apropriado e capaz. Entrevemo-Lo já,
no seu percurso depois, próximo dos pobres de todas as pobrezas,
inteiramente solidário em palavras e obras. Mas
tudo começou daquele modo, num lugar recôndito e tão diverso de Roma
com o seu imperador, ou mesmo de Jerusalém com o seu rei. Isto mesmo nos
importa, para sabermos como fazer agora, diante da vida própria e
alheia, como nos toca a todos e a tanta gente pesa. Se
quisermos realmente celebrar e viver este Natal de 2020, façamo-lo à
única luz daquela noite em Belém de Judá. Aceitemos cada um como sinal
de Deus a aparecer neste mundo, sobretudo nos mais carentes e frágeis. O
presépio onde nasceu pode ser agora a cama dum hospital, ou o leito
doméstico dum doente. A solidão que envolvia aquele reduzido grupo, pode
ser hoje a que entristece tantas pessoas sós e à espera da visita que
tarda ou da mensagem que não chega. Sejamos para os outros os presentes
que o Menino não teve. Neles nos espera, no grande presépio do mundo. A eterna lição do Natal de Cristo é o modo de Deus nos acontecer.
Convertamo-nos de vez ao modo divino de ser e de fazer. Veio ao nosso
encontro numa pequenez inaudita. Viveu poucos anos num espaço limitado.
Aí mesmo lançou à terra a mais pequena das sementes, que foi sempre
crescendo pelo mundo além. Dois milénios depois, estamos nós aqui,
celebrando e confirmando a força invencível da fragilidade divina. Nós
aqui, neste templo vetusto. Outros mais longe, onde nem os templos se
podem levantar, ou permanecer seguros. Mas o Natal sempre cresce, com a
força que só Deus lhe garante. Aprendemos
assim o certíssimo modo de ir resolvendo as coisas, mesmo as mais
difíceis. Chegando ao muito pelo pouco, ao grande pelo pequeno e à
humanidade de todos pela atenção a cada um. Mais do que com grandiosos
projetos e meios formidáveis, as grandes obras começam com grandes
corações. Corações que se fortalecem na medida em que acolhem o Coração
divino. Esse mesmo que pulsou naquela noite abençoada. Dois
mil anos de Evangelho, nas mais diversas latitudes e circunstâncias,
por vezes bem difíceis como foram e como são, garantem-nos absolutamente
que é assim. Alarga-se continuamente o portal do Presépio de Belém. Há um ano, o Papa Francisco dirigiu-nos uma belíssima mensagem,
para nos fixar o olhar no Presépio, sem nos distrairmos com motivos que
nos alheiem dele e do seu verdadeiro significado. Este ano, noutro
magnífico texto, apresenta-nos a figura tutelar de São José, que,
adotando Jesus, nos adota também a nós. Assim escreve: «O objetivo desta
carta apostólica é aumentar o amor por este grande Santo, para nos
sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as
suas virtudes e o seu desvelo» (Carta apostólica Patris corde, conclusão). São
José acompanha-nos sempre, sobretudo com o seu exemplo, cumprindo uma
missão que o ultrapassava mas não dispensava. Acompanhemos os outros,
como São José cuidou do Menino que Deus lhe confiou.
- Com Jesus, Maria e José, houve e continuará a haver Natal neste mundo!
Nesta sociedade intermibável por ter, disse o Papa, lançamo-nos em manjedouras de vaidade
esquecendo a manjedoura de Belém
O Papa Francisco
celebrou a missa de Natal na Basílica de São Pedro, no Vaticano,
concelebrada por cardeais e com um reduzido número de fiéis. O governo
italiano decretou lockdown nestes dias de festa. Na sua homilia,
recordou que a manjedoura de Belém, pobre de tudo e rica de amor, ensina
que o nutrimento da vida é deixar-mo-nos amar por Deus e pelos outros.
Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano
Um filho nos foi dado: a homilia do Papa Francisco na noite de Natal
desenvolveu-se em torno desta frase extraída da profecia de Isaías.
Assim é o Natal, disse o Pontífice, o nascimento de Jesus é a
novidade que nos permite renascer dentro, em cada ano, encontrando Nele a
força para enfrentar todas as provações. “Sim, porque Jesus nasce para
nós”: para cada um de nós.
Deixar que a misericórdia transforme as nossas misérias
Deus vem ao mundo como filho para nos tornar filhos de Deus: somos
filhos amados, não obstante nossos erros e fracassos. E o amor de Deus
por nós não depende nem jamais dependerá de nós: é amor gratuito, pura
graça. O coração indestrutível da nossa esperança é reconhecer-se filhos
de Deus, recordou Francisco.
Todavia, pode surgir a dúvida se o Senhor terá feito bem em
dar-nos tanto. Mas Ele é feito assim, disse o Papa: não consegue deixar
de nos amar, tão diferente de nós. Ama.nos de um amor concreto ao ponto
de tocar a nossa pior miséria, colocando toda a nossa salvação na
manjedoura de um estábulo, sem temer as nossas pobrezas.
“Deixemos que a sua misericórdia transforme as nossas misérias!”, exortou o Pontífice.
“Deus nasceu descartado para nos dizer que cada descartado é filho de Deus.”
Manjedoura de vaidade
Mas quantas vezes, constatou Francisco, famintos de divertimento,
sucesso e mundanidade, nutrimos a vida com alimentos que não saciam e
deixam o vazio dentro.
Nesta saciedade interminável por ter, “lançamo-nos em manjedouras de vaidade, esquecendo a manjedoura de Belém”.
Aquela manjedoura, pobre de tudo e rica de amor, ensina que o
nutrimento da vida é deixar-se amar por Deus e pelos outros. Jesus dá-nos o exemplo: Ele, o Verbo de Deus, é infante; não fala, mas oferece a
vida. “Nós, ao contrário, falamos muito, mas somos com frequência
analfabetos de bondade.”
Deus, continuou o Papa, nasceu o menino para nos impelir a cuidar dos
outros. “O seu amor desarmado e desarmante lembra-nos que o tempo de que
dispomos não serve para nos lamentarmos, mas para consolar as lágrimas
de quem sofre.” Servindo os pobres, amamos a Deus.
O Santo Padre concluiu com esta oração:
“Sois Vós, Jesus, o Filho que me torna
filho. Amais-me como sou, não como eu me sonho. Abraçando-Vos, Menino da
manjedoura, reabraço a minha vida. Acolhendo-Vos, Pão da vida, também
eu quero dar a minha vida. Vós que me salvais, ensinai-me a servir. Vós
que não me deixais sozinho, ajudai-me a consolar os vossos irmãos,
porque, a partir desta noite, são todos meus irmãos.”
"O Natal tornou-se
uma festa universal e até quem não acredita sente o encanto deste
evento. Contudo, os cristãos sabem que o Natal é um acontecimento
decisivo, um fogo eterno que Deus acendeu no mundo, e não pode ser
confundido com coisas efêmeras", disse Francisco durante a Audiência
Geral.
Mariangela Jaguraba - Vatican News
Nesta catequese, no período que antecede o Natal, gostaria de
oferecer alguns pontos de reflexão em preparação para a celebração do
Natal. Na Liturgia da Noite ressoará o anúncio do anjo aos pastores:
«Não tenham medo! Eu anuncio-vos a Boa Notícia, que será uma
grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de David nasceu para
vós um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto lhes servirá dá de
sinal: encontrarão um recém-nascido, envolto em faixas e deitado
na manjedoura.»
Com estas palavras o Papa Francisco iniciou a catequese da Audiência
Geral, desta quarta-feira (23/12), sobre o Natal, realizada na
Biblioteca do Palácio Apostólico.
O Natal tornou-se uma festa universal e até quem não acredita
sente o encanto deste evento. Contudo, os cristãos sabem que o Natal é
um acontecimento decisivo, um fogo eterno que Deus acendeu no mundo, e
não pode ser confundido com coisas efêmeras. É importante que não seja
reduzido a uma celebração meramente sentimental ou consumista. No
domingo passado, eu chamei a atenção para este problema, sublinhando que
o consumismo sequestrou-nos o Natal. Não! O Natal não deve reduzir-se a
uma festa somente sentimental e consumista, cheia de presentes e
felicitações, mas pobre de fé cristã. E também pobre de humanidade.
Portanto, é necessário refrear uma certa mentalidade mundana, incapaz de
compreender o núcleo incandescente da nossa fé, que é o seguinte: «E o
Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, a glória
que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade». Este é
o centro do Natal. Aliás, é a verdade do Natal.
Segundo o Papa, “o Natal convida-nos a refletir, por um lado, sobre a
dramaticidade da história, em que homens e mulheres, feridos pelo
pecado, procuram incessantemente a verdade, a misericórdia e a redenção;
e, por outro, sobre a bondade de Deus, que veio ao nosso encontro para
nos comunicar a Verdade que salva e para nos tornar participantes da sua
amizade e da sua vida. Este é um dom de graça. Isto é pura graça. Sem
merecimento nosso. Tudo é graça. Recebemos este dom de graça através da
simplicidade e da humanidade do Natal, e ele pode remover dos nossos
corações e das nossas mentes o pessimismo que hoje se difundiu causado pela pandemia”.
“Podemos superar esta sensação de desconcerto inquietador, sem nos
deixarmos dominar pelas derrotas e fracassos, na consciência
redescoberta de que aquele Menino humilde e pobre, escondido e indefeso,
é o próprio Deus, que se fez homem para nós. Jesus nasceu há dois mil anos
atrás e isto diz respeito a mim? Diz respeito a mim, a ti, a cada um
de nós. Jesus é um de nós. Deus em Jesus é um de nós.” Segundo
Francisco, “esta realidade nos dá-nos muita alegria e coragem. Deus não nos
desdenhou, não passou ao nosso lado, não desprezou a nossa miséria, não
se vestiu de um corpo aparente, mas assumiu plenamente a nossa natureza e
condição humana. É um de nós. É como nós. Nada excluiu, exceto o
pecado, a única coisa que Ele não tem. Toda a humanidade está n’Ele. Ele
assumiu tudo o que somos, tal como somos. Isto é essencial para a
compreensão da fé cristã. O Natal é a festa do Amor encarnado e nascido
para nós em Jesus Cristo. Ele é a luz dos homens que resplandece nas
trevas, que dá sentido à existência humana e a toda a história”.
“Queridos irmãos e irmãs, que estas breves reflexões nos ajudem a
celebrar o Natal com maior consciência. Mas há outra forma de preparação
que quero lembrar, tanto a vós como a mim, e que está ao alcance de
todos: meditar um pouco em silêncio diante do presépio”, e acrescentou:
O presépio é uma catequese daquela realidade, daquilo que
aconteceu naquele ano, naquele dia, e que ouvimos no Evangelho. Por este
motivo, no ano passado escrevi uma Carta, que nos fará bem reler.
Intitula-se “Admirabile signum”, “Sinal admirável”. Na escola de São
Francisco de Assis, podemos tornar-nos um pouco crianças, permanecer em
contemplação da cena da Natividade, deixando que renasça em nós a
admiração da forma “maravilhosa” como Deus quis vir ao mundo.
“Peçamos a graça do estupor”, disse ainda o Papa, “diante deste
mistério, desta realidade tão tenra, tão bonita, tão próxima do nosso
coração que o senhor nos dê a graça do estupor encontrá-lo, para nos
aproximar dele, para nos aproximar a todos nós. Isto fará renascer em
nós a ternura”. A seguir, disse:
Noutro dia em diálogo com alguns cientistas, falava-se sobre a
inteligência artificial e sobre robôs. Existem robôs programados para
fazer tudo. E eu perguntei: mas o que um robô nunca poderá fazer? Eles
pensaram. Fizeram propostas e por fim entraram de acordo numa coisa: a
ternura. Isto um robô não poderá sentir. E isto é o que Deus nos traz
hoje. Uma maneira maravilhosa em que Deus quis vir ao mundo e isto faz
renascer em nós a ternura, a ternura humana que é próxima da ternura de
Deus e hoje temos grande necessidade de ternura! Precisamos muito de
carícia humana diante de tanta miséria! Se a pandemia nos obrigou a
estar mais distantes, Jesus, no presépio, mostra-nos o caminho da
ternura para estarmos próximos, para sermos humanos. Sigamos este
caminho. Feliz Natal!
A crise provocada
pela pandemia foi a ocasião para o Papa analisar os desafios que a
Igreja enfrenta e o fez na audiência com membros da Cúria Romana para os
votos de Natal: "Amados irmãos e irmãs, conservemos uma grande paz e
serenidade, plenamente conscientes de que todos nós, a começar por mim,
somos apenas 'servos inúteis'".
Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano
Colaboração generosa e apaixonada: o Papa Francisco pediu um presente
de Natal aos membros da Cúria Romana, ao recebê-los em audiência esta
segunda-feira para as tradicionais felicitações natalícias.
O discurso do Pontífice foi dedicado a analisar a crise provocada
pela pandemia e as suas repercussões na sociedade, mas, sobretudo, na
Igreja.
Francisco recordou o memoravel 27 de março passado, quando a Praça
estava aparentemente vazia, mas, na realidade, “estava cheia graças à
pertença fraterna que nos acomuna nos vários cantos da terra”. Esta
mesma fraternidade o levou a escrever a encíclica “Fratelli tutti”, para
que este princípio se torne um anseio mundial.
A crise que estamos a viver é um tempo de graça, afirma o Papa
citando alguns episódios narrados na Bíblia: desde a crise de Abraão até à
“mais eloquente”, que é a de Jesus, e a “crise extrema na cruz”, que
abre o caminho da ressurreição.
Ler a crise à luz do Evangelho
Francisco reconhece as muitas pessoas da Cúria que dão testemunho com
o seu trabalho humilde, discreto, silencioso, leal, profissional,
honesto.
Mas há também problemas, com a única diferença de que estes “vão
parar imediatamente aos jornais, enquanto os sinais de esperança fazem
notícia só passado muito tempo e… nem sempre”.
Esta reflexão sobre a crise, prossegue, alerta para não julgarmos
precipitadamente a Igreja com base nos escândalos de ontem e de hoje.
Quem não olha a crise à luz do Evangelho, afirma o Papa, limita-se a
fazer a autópsia de um cadáver.
“Estamos assustados com a crise não só porque nos esquecemos de a
avaliar como o Evangelho nos convida a fazê-lo, mas também porque
olvidamos que o Evangelho é o primeiro a colocar-nos em crise.”
É preciso reencontrar a coragem e a humildade de dizer em voz alta
que o tempo da crise é um tempo do Espírito. E junto do Menino deitado
numa manjedoura, bem como na presença do homem crucificado, “só
encontramos o lugar certo se nos apresentarmos desarmados, humildes,
essenciais”.
O Papa â Cúria Romana:
NOTA:Se está a utilizar o seu TELEMÓVEL, o acesso ao VIDEO
contido nesta página, apenas será possível se seguir as instruções indicadas AQUI
A crise é positiva, o conflito corrói
Francisco faz também uma distinção entre crise e conflito.
“A crise geralmente tem um desfecho positivo, enquanto o conflito
cria sempre um contraste, uma competição, um antagonismo aparentemente
sem solução, entre sujeitos que se dividem em amigos a amar e inimigos a
combater, com a consequente vitória de uma das partes.”
A lógica do conflito procura sempre os “culpados” a estigmatizar e
desprezar e os “justos” a justificar. Isto favorece o crescimento ou a
afirmação de certas atitudes elitistas e de “grupos fechados” que
promovem lógicas restritivas e parciais.
“Lida com as categorias de conflito – direita e esquerda,
progressista e tradicionalista –, a Igreja divide-se, polariza-se,
perverte-se e atraiçoa a sua verdadeira natureza: é um Corpo perenemente
em crise.”
Um Corpo em conflito produz vencedores e vencidos, temor, rigidez,
falta de sinodalidade. Já a novidade introduzida pela crise desejada
pelo Espírito nunca é uma novidade em contraposição ao antigo, mas uma
novidade que germina do antigo e o torna sempre fecundo.
O Papa exemplifica este conceito com uma frase de Jesus: "Se o grão
de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas, se morrer, dá
muito fruto". "Só morrendo para uma certa mentalidade é que
conseguiremos também abrir espaço à novidade que o Espírito suscita
constantemente no coração da Igreja."
Crise exige atualização
Francisco recorda que a "Igreja é sempre um vaso de barro, precioso pelo que contém e não pelo que às vezes mostra de si mesma".
"Temos de nos esforçar porque a nossa fragilidade não se torne
obstáculo ao anúncio do Evangelho, mas lugar onde se manifeste o grande
amor de Deus."
A Tradição custodia a verdade e a graça, mas a Igreja tem que lidar
com os vários aspetos da verdade que pouco a pouco vamos compreendendo.
“Nenhuma modalidade histórica de viver o Evangelho esgota a nossa
compreensão. Se nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, iremos dia após
dia a aproximar-mo-nos cada vez mais da 'Verdade completa'.”
Deixar o conflito de lado, abraçar a crise e colocar-mo-nos a caminho
Como comportar-,o-nos na crise? Questiona-se por fim o Papa. Antes de
mais nada, aceitá-la como um tempo de graça que nos foi dado para
compreender a vontade de Deus sobre cada um de nós e a Igreja inteira. É
preciso entrar na lógica, aparentemente contraditória, de que, "quando
sou fraco, então, então é que sou forte".
O ponto fundamental é não interromper o diálogo com Deus, nunca me
cansar de rezar. "Não conhecemos outra solução para os problemas que
estamos a viver, senão a de rezar mais e, ao mesmo tempo, fazer tudo o
que nos for possível com mais confiança."
Eis então a exortação final do Papa:
“Amados irmãos e irmãs, conservemos uma grande paz e serenidade,
plenamente conscientes de que todos nós, a começar por mim, somos apenas
«servos inúteis», com quem usou de misericórdia o Senhor.”
A crise é movimento, faz parte do caminho. Ao contrário, o conflito é
permanecer no labirinto, perdidos em murmurações e maledicências.
Francisco pede que cada um de nós, independentemente do lugar que
ocupa na Igreja, interrogue-se se quer seguir Jesus na crise ou
defender-se Dele no conflito.
O Papa conclui pedindo um presente de Natal: a colaboração generosa e
apaixonada da Cúria no anúncio da Boa Nova, sobretudo aos pobres. E
citou Dom Hélder Câmara e a sua famosa frase: "Quando dou comida aos
pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto porque são eles pobres,
chamam-me de comunista”.
“Para que Jesus
nasça em nós, preparemos o coração, rezemos, não nos deixemos levar pelo
consumismo. ‘Ah, tenho que comprar presentes, tenho que fazer isto,
isto...’ Aquele frenesim de fazer coisas, coisas, coisas... o importante é
Jesus. Consumismo: o consumismo, irmãos e irmãs, sequestrou-nois o
Natal. O consumismo não está na manjedoura de Belém: ali está a
realidade, a pobreza, o amor. Preparemos o coração como o de Maria:
livre do mal, acolhedor, pronto para receber Deus", disse o Papa no
Angelus deste IV Domingo do Advento
Raimundo de Lima - Vatican News
“Hoje, às portas do Natal, Maria convida-nos a não adiar, a dizer
‘sim’. Cada ‘sim’ custa, mas é sempre menos do que o custo para ela daquele
corajoso e pronto ‘sim’, aquele ‘faça-se em mim segundo a tua palavra’
que nos trouxe a salvação.” Foi o que disse o Papa no Angelus ao
meio-dia deste IV Domingo do Advento, em que o Evangelho repropõe a
narração da Anunciação, que nos traz o “sim” de Maria a Deus.
"Alegra-te", diz o anjo a Maria, "conceberás um filho, dá-lo-ás à luz e
o chamarás Jesus" (Lc 1,28.31). “Parece ser um anúncio de pura alegria,
destinado a fazer a Virgem feliz: quem entre as mulheres da época não
sonhava em tornar-se a mãe do Messias?”, perguntou Francisco na alocução
que precedeu a oração mariana.
“Mas, junto com a alegria, essts palavras predizem a Maria uma grande
provação. Por quê? Porque naquele momento ela estava ‘prometida em
casamento’ com José. Em tal situação explicou o Pontífice – a Lei de
Moisés estabelecia que não deveria haver relações e coabitação.
Maria disse "sim" a Deus, arriscando tudo
Tendo um filho, prosseguiu o Santo Padre, Maria teria transgredido a
Lei, e as penalidades para as mulheres eram terríveis: estava previsto o
apedrejamento. Certamente a mensagem divina encheu o coração de Maria, de
luz e força; contudo, ela viu-se diante de uma escolha crucial: dizer
"sim" a Deus, arriscando tudo, inclusive a sua vida, ou recusar o convite e
seguir o seu caminho comum.
“O que fez ela? Respondeu assim: ‘Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38). Faça-se:
é o famoso fiat de Maria. Mas na língua em que o Evangelho é escrito,
há mais do que isto. A expressão verbal indica um forte desejo, a vontade
firme de que algo se torne realidade.”
Por outras palavras, Maria não diz: "Se tem que acontecer, que
aconteça..., se não pode ser feito de outra forma...". Não, não expressa
uma aceitação fraca e remissiva, mas um desejo forte e vivo. Não é
passiva, mas ativa. Não é subjugada por Deus, adere a Deus.
“É uma enamorada disposta a servir o seu Senhor, em tudo e
imediatamente. Poderia ter pedido um pouco de tempo para pensar sobre
isto, ou maiores explicações sobre o que aconteceria; talvez estabelecer
alguma condição... Ao contrário, não toma tempo, não faz Deus esperar, não
adia.”
Os adiamentos na nossa vida
Quantas vezes a nossa vida é feita de adiamentos, inclusive na vida
espiritual! “Sei que é bom para mim rezar, mas hoje não tenho tempo; sei
que ajudar alguém é importante, mas hoje não posso. Amanhã o farei,
isto é, nunca”, observou Francisco.
Tendo ressaltado o “sim” incondicional de Maria que nos trouxe a salvação, o Santo Padre perguntou:
“E nós, quais ‘sim’ podemos dizer? Neste tempo difícil, em vez de nos
lamentarmos do que a pandemia nos impede de fazer, façamos algo por
aqueles que têm menos: não o enésimo presente para nós e para os nossos
amigos, mas para um necessitado em quem ninguém pensa!”
Não nos deixemos levar pelo consumismo
E antes da oração mariana o Papa deixou-nos outro conselho: “para que
Jesus nasça em nós, preparemos o coração, rezemos, não nos deixemos
levar pelo consumismo. ‘Ah, tenho que comprar presentes, tenho que fazer
isto, isto...’ Aquele frenesim de fazer coisas, coisas, coisas... o
importante é Jesus. Consumismo: o consumismo, irmãos e irmãs, sequestrou-nos o Natal. O consumismo não está na manjedoura de Belém: ali
está a realidade, a pobreza, o amor. Preparemos o coração como o de
Maria: livre do mal, acolhedor, pronto para receber Deus".
"Faça-se em mim segundo a tua palavra". É a última frase da
Virgem neste último domingo do Advento, e é o convite para dar um passo
concreto em direção ao Natal. “Porque se o nascimento de Jesus não toca na nossa
vida, passa em vão.” No Angelus diremos também agora: "realize-se
em mim a tua palavra": que Nossa Senhora nos ajude a dizê-lo com a vida,
disse o Papa, concluindo, antes da oração mariana.
Sento-me frente ao computador
e penso que hoje gostava de escrever sobre o que me vai no íntimo, no coração.
E penso em todas as coisas que
uns e outros vão dizendo, escrevendo sobre a Igreja, sobre o Papa Francisco,
sobre os Bispos ou os Padres, sejam eles “conservadores” ou “progressistas” e
concluo que, pela graça de Deus, “sei” amar a “minha” Igreja em toda a sua
diversidade, desde que assente em Jesus Cristo, no Papa e no Magistério, e,
portanto, não é sobre isso que quero escrever.
Ah, mas então penso na
misericórdia de Deus, infinita, sem limites, para os pecadores, (afinal somos
todos pecadores), mas também descanso na certeza de que a misericórdia de Deus
é para todos, desde que os todos, ou cada um, a queira reconhecer e aceitar.
Penso então nas celebrações,
na liturgia, nas mais “formais” e nas mais “criativas”, e também descanso, na
certeza de que todas aquelas que forem celebradas em comunhão com a Igreja, com
a Santa Sé, com o Papa e o Magistério, são celebrações queridas por Deus, quer
eu goste mais de umas ou de outras.
Depois penso ainda nos tais “assuntos
fracturantes”, que dominam as notícias, e descanso também, porque sirvo-me do
Catecismo, do ensinamento do Papa e do Magistério, e ajo, e sinto-me de acordo
com eles, portanto, em comunhão de Igreja.
E penso em tantas outras
coisas e descanso mais uma vez, porque sou intransigente comigo mesmo, ao
tentar, (sim, tentar, porque nem sempre sou capaz), seguir o que me diz a
Igreja da qual quero ser sempre pedra viva, e assim sendo, sigo a Verdade e a
Verdade fará de mim um discípulo, embora pecador.
E assim, o que me resta para
escrever?
Apenas uma oração que me vai
vindo ao coração.
Obrigado Pai
que nos enviaste o Teu Filho
Jesus Cristo para se fazer homem como nós excepto no pecado, para dar a vida
por nós, para nos libertar do pecado e da morte eterna.
O Teu Filho, que contigo Pai,
derramou em nós o Espírito Santo, que nos conduz na revelação do Vosso Amor,
que faz de nós filhos de Deus muito amados.
Obrigado por fazeres de mim
Igreja, (pedra pequenina, mas que não queres dispensar), e sendo Igreja, ser
Teu discípulo, ser Tua testemunha, ser um pouco de Ti para os outros como os
outros são um pouco de Ti para mim.
Obrigado, meu Deus, porque me
parece que escrevi o que querias de mim, pelo menos para mim.
Sou Teu, independentemente da
minha teimosia, do meu pecado, do meu eu, porque cada vez que por Ti chamo me estendes
a mão e me dizes: “Porque temes, homem de pouca fé.”
O Papa e os membros da Cúria Romana na última pregação de Advento do frei Cantalamessa
(Vatican Media)
“Ó Rei das nações.
Desejado dos povos; Ó Pedra angular, que os opostos unis: Oh, vinde e
salvai este homem tão frágil, que um dia criastes do barro da terra!” .
Vinde e reerguei a humanidade extenuada pela longa prova desta pandemia.
Fr. Raniero Cantalamessa, OFMCap.
“Veio morar entre nós”
Terceira pregação do Advento de 2020
NOTA:Se está a utilizar o seu TELEMÓVEL, o acesso ao VIDEO
contido nesta página, apenas será possível se seguir as instruções indicadas AQUI
"Entre vós existe um que não conhecem!" É o grito triste de
João Batista ouvido no Evangelho do Terceiro Domingo do Advento que
gostaríamos de receber neste último encontro antes do Natal.
Na memorável mensagem “Urbi et orbi” de 27 de março passado na
Praça São Pedro, após ter lido o evangelho da tempestade acalmada, o
Santo Padre perguntava em que consistia a “pouca fé” que Jesus
censurava nos discípulos, e explicava:
Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O
invocam: “Mestre, não te importas que pereçamos?” (Mc 4,38). Não te importas:
pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre
nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer:
“Não te importas de mim”. É uma frase que fere e desencadeia turbulência
no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se
importe mais de nós do que Ele.
Podemos perceber também uma outra nuance na reprovação de Jesus. Eles
não tinham entendido quem estava com eles no barco; não tinham
entendido que, com ele dentro, o barco não podia afundar porque Deus não
pode perecer. Nós, discípulos de hoje, cometeremos o mesmo erro dos
apóstolos e mereceremos a mesma reprovação de Jesus se, na violenta
tempestade que se abateu sobre o mundo com a pandemia, nós nos
esquecêssemos que não estamos sós no barco e à deriva nas ondas.
A festa do Natal permite-nos alargar o horizonte: do mar da Galileia
ao mundo inteiro, dos apóstolos a nós: “E a Palavra fez-se carne e veio
morar entre nós” (Jo 1,14). O verbo grego no aoristo, eskenosen (literalmente,
“fincou a tenda”), expressa a ideia de uma ação cumprida e
irreversível. O Filho de Deus desceu sobre esta terra e Deus não pode
perecer. O cristão pode proclamar com razão mais forte do que a do
salmista:
Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre encontrado nos perigos.
Por isso, não temeremos, se a terra tremer, e se as montanhas se afundarem no mar (...).
Deus está no meio dela, ela não se abalará (Sl 46,2-4).
“Deus está
connosco”, isto é, está do lado do homem, é o seu amigo e aliado contra as
forças do mal. Devemos reencontrar o significado primordial e simples da
encarnação do Verbo, para além de todas as explicações teológicas e dos
dogmas construídos sobre ela. Deus veio habitar no nosso meio! Quis
fazer deste evento o seu nome próprio: Emanuel, Deus-connosco. O que
Isaías profetizara, “A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e
lhe porá o nome de Emanuel (Is 7,14), tornou-se fato realizado.
Devemos, dizia eu, remetermo-nos para antes de todas as controvérsias
cristológicas do V século – para antes dos concílios de Éfeso e
Calcedônia – para reencontrar o paradoxo e o escândalo encerrados na
afirmação: “A Palavra fez-se carne”. É interessante voltar a escutar a
reação de um pagão culto do II século, que veio a tomar conhecimento
daquela afirmação dos cristãos. “Filho de Deus – exclamava o filósofo
Celso, horrorizado – um homem vivido há poucos anos?” Logos eterno,
alguém “de ontem ou anteontem?”, um homem “nascido em um lugarejo da
Judeia, de uma pobre fiandeira?”[1]. Não admira. A união perfeita da
divindade e da humanidade na pessoa de Cristo era a maior de todas as
novidades possíveis, "a única coisa nova debaixo do sol", como o define
São João Damasceno.[2]
A primeira grande batalha que a fé em Cristo teve que encarar não foi
aquela acerca de sua divindade, mas sobre a sua humanidade e a verdade da
encarnação. À origem desta recusa, estava o dogma de Platão, segundo o
qual “nenhum Deus se mistura com o homem”[3]. Santo Agostinho descobriu,
por experiência própria, a última raiz da dificuldade em crer na
encarnação, ou seja, a falta de humildade. “Não sendo humilde – escreve
nas Confissões – eu não compreendia a humildade de Deus”[4].
A sua experiência ajuda-nos a entender a última raiz do ateísmo
moderno e indica-nos o único modo possível para superá-lo. A partir de
Hermann Samuel Reimarus no século XVIII, tudo foi um assalto à verdade
histórica do Evangelho e à divindade de Cristo. Jesus disse: “Eu sou o
caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo
14,6). Uma vez declarada intransitável esta única via de acesso a Deus,
foi fácil passar primeiro ao deísmo e, de seguida, ao ateísmo.
A experiência de Agostinho – dizia eu – indica também a via para
superar o obstáculo: depor o orgulho e aceitar a humildade de Deus. “Eu
te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas
aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25): toda a
história da incredulidade humana é explicada por estas palavras de
Cristo. A humildade fornece a chave para entender a encarnação. É
preciso pouca força para nos expormos; é preciso, ao contrário, muita, para
colocarmo-nos de lado e apagar. Deus é esta força ilimitada de ocultação
de si mesmo: “Mas esvaziou-se, assumindo a forma de servo...
Humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte” (Fl 2,7-8).
Deus é amor, por isso é humildade! O amor cria dependência da pessoa
amada, uma dependência que não humilha, mas torna felizes. As duas
frases “Deus é amor” e “Deus é humildade”, são como dois lados da mesma
moeda. Mas o que significa a palavra humildade aplicada a Deus e em que
sentido Jesus pode dizer: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde
de coração” (Mt 11,29)? A explicação é que a humildade essencial não
consiste no ser pequeno (pode-se ser pequeno sem, de facto, ser humilde); não consiste no considerar-se pequeno (isto pode depender de uma má ideia de nós mesmos); não consiste em proclamar-me pequeno (pode-se dizê-lo sem crê-lo); consiste em fazer-me pequeno e fazer-me pequeno por amor, para elevar os demais. Neste sentido, realmente humilde é somente Deus.
Quem é como o Senhor, o nosso Deus, que reina no seu trono nas alturas, mas inclina-se para contemplar o que acontece nos céus e na terra? Ele levanta do pó o necessitado e ergue do lixo o pobre (Sal 113, 5-7).
Tinha-o compreendido, sem muitos estudos, Francisco de Assis, que, nos
seus “Louvores a Deus Altíssimo”, num determinado ponto, voltado para Deus,
diz: “Vós sois humildade!”, e na sua “Carta a toda a Ordem”, exclama:
“Vede, irmãos, a humildade de Deus”[5]. Eis que se humilha – escreve numa das suas Admoestações – diariamente, como quando veio do trono real
ao útero da Virgem”[6].
O Natal é a festa da humildade de Deus. Para celebrá-la em espírito e
verdade, devemo-nos fazer pequenos, como nos devemos abaixar para
entrar pela porta estreita que dá acesso à Basílica da Natividade em
Belém.
“No meio de vós está quem não conheceis!”
Mas voltemos ao coração do mistério: “E a Palavra se fez carne e veio
morar entre nós”. Deus está connosco, irrevogavelmente. Isto é, de agora
em diante, o objeto central da profecia cristã. Zacarias saúda o
Precursor chamando-o “profeta do Altíssimo” (Lc 1,76) e Jesus diz que
ele é “muito mais do que profeta” (Mt 11,9). Mas em que sentido João
Batista é um profeta? Onde está a profecia, no seu caso? Os profetas
bíblicos anunciavam uma salvação futura; João Batista não anuncia uma
salvação futura; aponta, ao contrário, para alguém que está presente
ali, diante dele. Os profetas antigos ajudavam o povo a ultrapassar a
barreira do tempo; João Batista ajuda o povo a ultrapassar a barreira,
ainda mais espessa, das aparências contrárias. O Messias tão esperado –
aguardado pelos patriarcas, anunciado pelos profetas, cantado pelos
salmos – seria, portanto, aquele homem de aspeto e origens tão humildes
e ordinárias, do qual tudo se sabe, inclusive o vilarejo de origem?
É relativamente fácil acreditar em algo de grandioso e divino, quando
se projeta num futuro indefinido: “naqueles das”, “nos últimos
tempos”, numa paisagem cósmica, com os céus que orvalham doçura e a
terra que se abre para germinar o Salvador (cf. Is 45,8). É mais difícil
quando se deve dizer: “Ei-lo! É ele!”. O homem é tentado a dizer logo:
Só isso? “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46); “Este, porém, nós
sabemos de onde é” (Jo 7,27).
Este era um dever profético sobre-humano, e entende-se porque o
Precursor é definido “muito mais do que profeta”. Ele é o homem que aponta
para uma pessoa e pronuncia um peremtório “Eis, Ei-lo! “Eis o
Cordeiro de Deus!” (Jo 1,29). Que calafrio deve ter experimentado o
corpo daqueles que receberam pela primeira vez tal revelação. Uma poderosa
ação do Espírito Santo acompanhava as palavras do Precursor e revelava
tal verdade aos corações bem dispostos. Passado e futuro, espera e
cumprimento encontravam-se. O arco voltaico da história da salvação fechava.se.
Creio que João Batista deixou-nos o seu próprio dever profético:
continuar a gritar: “No meio de vós está quem não conheceis!” (Jo 1,26).
Ele inaugurou a nova profecia que não consiste – dizia eu – em anunciar
uma salvação futura, mas em revelar a presença de Cristo na história:
“Eis que estou convosco todos os dias, até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).
Cristo não está presente na história somente porque se escreve e se
fala continuamente dele, mas porque ressuscitou e vive segundo o
Espírito. Não só intencionalmente, mas realmente. A evangelização começa
a partir daí.
No tempo do Batista, o que criava dificuldade era o corpo físico de
Jesus, a sua carne tão semelhante à nossa, exceto o pecado. Hoje, é
sobretudo o seu corpo místico, a Igreja, a criar dificuldade e a
escandalizar. Tão semelhante ao resto da humanidade, não excluído nem
mesmo o pecado! Como o Precursor fez reconhecer Cristo sob a humildade
da carne aos seus contemporâneos, assim é necessário fazê-lo reconhecer
hoje na pobreza e na miséria da sua Igreja, e na pobreza e miséria da
nossa própria vida.
O que Paulo acrescenta a João
Mas devemos acrescentar algo ao que foi dito até aqui. Não importa, de facto, apenas saber que Deus se fez homem; importa saber também que tipo de homem Deus se fez.
É significativo o modo diverso e complementar em que João e Paulo
descrevem, cada qual, o evento da encarnação. Para João, ela consiste no
facto de que a Palavra era Deus e se fez carne (cf. Jo 1,1-14); para
Paulo, no facto de que “Cristo, existindo em forma divina, assumiu a
forma de servo” (cf. Fl 2,5ss.). Para João, a Palavra, sendo Deus,
fez-se homem; para Paulo, “Cristo, de rico que era, tornou-se pobre”
(cf. 2Cor 8,9).
A distinção entre o facto da encarnação e o modo dela,
entre a sua dimensão ontológica e aquela existencial, interessa-nos
porque lança uma luz singular sobre o problema atual da pobreza e da
postura dos cristãos em relação a ela. É de ajuda dar um fundamento
bíblico e teológico à opção preferencial pelos pobres, proclamada no
Concílio Vaticano II. “Os Padres conciliares – escreveu Jean Guitton,
observador leigo no Vaticano II – reencontraram o sacramento da pobreza,
isto é, a presença de Cristo sob as espécies daqueles que sofrem”[7].
O “sacramento” da pobreza! São palavras fortes, mas fundamentadas. Se, de facto, pelo facto da encarnação, a Palavra, em certo sentido, assumiu cada homem (assim pensavam alguns Padres gregos), pelo modo
em que ela se realizou, ele assumiu, num título todo particular, o
pobre, o humilde, o sofredor. “Instituiu” este sinal, como instituiu a
Eucaristia. Assim, aquele que pronunciou sobre o pão as palavras: “Isto é
o meu corpo”, pronunciou as mesmas palavras também sobre os pobres. Ele
o fez quando, falando do que se fez – ou deixou de fazer – pelo
faminto, pelo sedento, pelo prisioneiro, pelo nu e pelo exilado,
declarou solenemente: “Foi a mim que o fizestes” e “Foi a mim que o
deixastes de fazer” (Mt 25,31ss).
Tiremos a consequência que deriva de tudo isto no plano da
eclesiologia. São João XXIII, por ocasião do Concílio, cunhou a
expressão “Igreja dos pobres”[8]. Ela reveste-se de um significado que
vai para além daquele que comumente se entende. A Igreja dos pobres não é
constituída apenas pelos pobres da Igreja! Em certo sentido, todos os
pobres do mundo – sejam eles batizados ou não – pertencem a ela. “Mas –
contesta-se – não tiveram a fé, nem receberam o batismo!”. É verdade,
mas nem mesmo os Santos Inocentes, que festejamos depois do Natal,
tinham-no recebido. A sua pobreza e sofrimento, se isentos de culpa, aos
olhos de Deus, são o seu batismo de sangue. Deus tem muitas maneiras de
salvar, mais do que possamos imaginar, ainda que estas maneiras – sem
exceção – “por um modo só por Deus conhecido”[9], passam por intermédio de
Cristo.
Os pobres são “de Cristo”, não porque se declaram pertencentes a ele,
mas porque ele os declarou pertencentes a si, declarou-os o seu corpo.
Isto não quer dizer que basta ser pobre e faminto neste mundo para
entrar automaticamente no reino final de Deus. As palavras: “Vinde,
benditos de meu Pai” são dirigidas àqueles que cuidaram dos pobres, não
necessariamente aos próprios pobres, pelo simples facto de terem sido
materialmente pobres em vida.
A Igreja de Cristo é, portanto, imensamente mais vasta do que dizem
os números e as estatísticas. Não por simples modo de dizer, ou por
triunfalismo – especialmente hoje – fora de lugar. Ninguém, além de
Jesus, proclamou: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos
que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40), onde o “irmão
mínimo” não indica apenas o fiel em Cristo, mas todo homem.
Daí deriva que o Papa – e com ele os demais pastores da Igreja – seja
realmente o “pai dos pobres”. É uma alegria e um estímulo para todos
nós ver o quanto este papel foi assumido pelos últimos Sumos Pontífices
e, de maneira todalmente particular, pelo pastor que hoje se senta na cátedra de
Pedro. Ele é a voz mais fidedigna que se levanta em defesa deles, num
mundo que conhece apenas a seleção e o descarte. Ele, com certeza, não
“se esqueceu dos pobres”! A Escritura contém uma bênção especial para
quem assume o cuidado com o pobre:
Feliz, quem pensa no indigente... O Senhor o guardará e lhe preservará a vida, há de fazê-lo feliz na terra, e não o entregará à fúria dos seus inimigos (Sl 41,2-3).
Sobre Maria e José, lê-se no evangelho que “não havia lugar para eles
na hospedaria” (Lc 2,7). Também hoje não há lugar para os pobres na
hospedaria do mundo, mas a história mostrou de que lado estava Deus e de
que lado deve estar a Igreja. Ir aos pobres é imitar a humildade de
Deus, é fazer-se pequeno por amor, para elevar os que estão abaixo.
Mas não nos iludamos: isto é algo que pode ser mais fácil dizer do
que fazer. Um antigo Pai do deserto, Isaac de Nínive, deu este conselho
àqueles que são forçados pelo dever, a falar de coisas espirituais que
ele ainda não alcançou com vida: “Fale dele como alguém que pertence à
classe dos discípulos e não com autoridade, depois tendo humilhado a sua
alma e ter-se feito menor do que qualquer um de seus ouvintes »[10]. E foi
assim que falei sobre isto.
“Nele faremos a nossa morada”
“E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós”. Antes de concluir,
devemos passar do plural ao singular. Não veio genericamente ao mundo,
mas pessoalmente, em cada alma que crê. Jesus disse: “Se alguém me ama,
guardará a minha palavra; o meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele
faremos a nossa morada” (Jo 14,23). Portanto, Cristo não está presente
apenas na barca do mundo ou da Igreja; está presente no pequeno barco da
minha vida. Que pensamento, se conseguíssemos crer realmente! Santa
Isabel da Trindade aí encontrou o segredo da própria santidade.
“Parece-me – escrevia a uma amiga – ter encontrado o meu céu aqui na
terra, pois o céu é Deus, Deus está na minha alma. No dia que entendi
isyo, tudo se iluminou”[11].
Com as restrições que põe ao culto público e à frequência às igrejas,
a pandemia poderia ser a ocasião para muitos descobrirem que não
encontramos Deus apenas por ir à Igreja; que podemos adorar Deus “em
espírito e verdade” e conversar com Jesus também estando fechado em
casa, ou no nosso quarto. O cristão jamais poderá abster-se da
Eucaristia e da comunidade, mas, quando isto for impedido por força
maior, não deve pensar que a sua vida cristã se interrompeu. Se jamais
encontrou Cristo no próprio coração, jamais o encontrará fora, no
sentido forte do termo.
Há uma afirmação ousada sobre o Natal, que é repetida época após
época, pela boca de grandes doutores e mestres espirituais da Igreja:
Orígenes, Santo Agostinho, São Bernardo, Angelus Silesius, e vários
outros. Substancialmente, assim reza: “De que me adianta que Cristo
tenha nascido em Belém, de Maria, se ele não não nasce pela fé,
também mo meu coração?”[12]. “Onde é que Cristo nasce, no sentido mais
profundo, senão no teu coração e na tua alma?”, escreve Santo
Ambrósio[13]. “O Verbo de Deus, afirma São Máximo Confessor, quer
repetir a todos os homens o mistério da sua encarnação”[14]. Uma
verdade, como se vê, realmente ecuménica.
Ecoando esta mesma tradição, São João XXIII, na mensagem de Natal de
1962, elevava esta ardente oração: “Ó Verbo eterno do Pai, Filho de Deus
e de Maria, renovai também hoje, no segredo das almas, o admirável
prodígio do vosso nascimento”. Façamos nossa esta oração, mas, na
situação dramática em que nos encontramos, acrescentemos também a
ardente súplica da liturgia natalícia: “Ó Rei das nações. Desejado dos
povos; Ó Pedra angular, que os opostos unis: Oh, vinde e salvai este
homem tão frágil, que um dia criastes do barro da terra!”[15]. Vinde e
reerguei a humanidade extenuada pela longa prova desta pandemia.
Traduzido do italiano por P. Ricardo Farias, Ofmcap
[1] Cf. Orígenes, Contra Celso, I,26.28; VI,10.
[2] De fide orthodoxa, 45.
[3] Cf. Platão, Simposio, 203º; cf. Apuleio, De deo Socratis, 4: “Nullus deus miscetur ho minibus”.
[4] Confissões, VII, 18.24).
[5] Carta a toda a Ordem, 28.
[6] Admoestações 1,16.
[7] Cf. J. Guitton, citado por R. Gil, Presencia de los pobres en el concilio, in “Proyección” 48, 1966, p. 30.
[8] In AAS 54, 1962, p. 682.
[9] Gaudium et spes, 22.
[10] Isaac de Nínive, Discursos ascéticos, 4.
[11] Cf. Carta 107 à Condessa De Sourdon (1902).
[12] Cf. Orígenes, Commento al vangelo di Luca 22,3 (SCh 87,p. 302); Angelo Silesio, Il Pellegrino cherubico, I, 61: “Wird Christus tausendmal zu Bethlehem geborn / und nicht in dir: du bleibst noch ewiglich verlorn”.
[13] Cf. Santo Ambrósio, In Lucam, 11,38.
[14] Cf. São Máximo Confessor, Ambigua (PG 91,1084).