22 fevereiro 2024

CAMINHO DE QUARESMA III

 


 

Basta ler os termos usados na mensagem para se perceber de imediato que a mesma não pode ser do Papa, que é aliás “alvo” de muitas destas mensagens, que são sempre uma deturpação daquilo que ele disse.

O que é interessante, é perceber, do meu ponto de vista, claro, como nos apressamos a dar como certo algo que nos parece afinal mais fácil do que aquilo que a Igreja ao longo dos tempos nos pede como caminho para e com Deus, muito especialmente neste tempo da Quaresma.

Obviamente que um cristão que coloca em prática a Palavra de Deus no seu dia a dia, que se deixa guiar pelo Espírito Santo, sabe perfeitamente que o jejum, ou seja, a contenção na comida, a abstinência de comer carne, etc., não tem “efeito” na nossa vida a não ser que seja acompanhado com uma verdadeira interioridade espiritual, com uma forte vontade de contrição e conversão, com um entregar-se decididamente à vontade Deus, e que, se assim for, nos abre sem dúvida nenhuma aos outros, sobretudo àqueles que mais necessitam, seja material ou espiritualmente.

Porque o Espírito Santo conduz-nos sempre à caridade, não à “caridadezinha”, mas à caridade/amor, que é sempre doação de cada um ao outro, em Jesus Cristo.

E a caridade não se impõe, é livre, é vontade de cada um e como tal não se pode reduzir a um preceito apenas, mas sim, que esse preceito, essa prática, seja vivida como fonte de vida, como entrega a Deus nos outros, com a alegria serena de quem quer fazer a vontade de Deus, porque acredita que só vivendo assim pode alcançar a vida plena prometida por Jesus Cristo, desde sempre e para sempre.

E a caridade que não se impõe, que é livre, que é vontade de cada um, só o é verdadeiramente na medida em que estamos em comunhão com a Caridade perfeita que é Deus em todas as coisas, e assim, não procuramos apenas cumprir um preceito, mas sim porque queremos procurar e encontrar Deus na doação da nossa vontade, na doação de nós próprios.

E, (sem grandes “teologias” para as quais não tenho conhecimentos), os preceitos, as práticas existem para nos lembrar que, se queremos viver em plenitude a vida que Deus nos dá, apenas o podemos fazer em comunhão com Ele, e essa comunhão com Deus é sempre, mas mesmo sempre, comunhão com os outros, não só em Igreja, mas também com todos os que ainda não estão, não são, Igreja.

É tão mais fácil procurar mensagens, frases, atitudes, que parecem aliviar-nos de uma qualquer “carga” que nos parece colocarem em nós.

Mas em Deus e com Deus nada se faz por obrigação, mas sim por amor, porque se amamos, ou queremos amar verdadeiramente Deus, então tudo em nós é feito por amor, para que esse amor seja cada vez mais completo e mais vida em nós.

Então, digamos assim, não há preceito, nem prática, como obrigação imposta, mas sim como caminho que procura cada vez mais o amor de Deus para sermos de Deus e com Deus e em Deus para os outros.

Quanto à tal falsa mensagem do Papa Francisco, que realmente nos chamou a atenção, mas de modo bem diferente, para uma prática de jejum correcta, nada trouxe de novo, digamos assim, porque se realmente entrarmos no nosso íntimo, se inquirirmos o nosso coração, se nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, imediatamente percebemos que o jejum só tem sentido quando vivido na caridade e na entrega a Deus e aos outros.

Até porque essa tal falsa mensagem passa a ideia de que não precisamos de fazer jejum nem abstinência se formos “bonzinhos” para os outros!

 

Marinha Grande, 22 de Fevereiro de 2024

Joaquim Mexia Alves

 

20 fevereiro 2024

CAMINHO DE QUARESMA II

 


 
 
 
 
 
Voltava eu do campo quando vi aquela multidão numa rua de Jerusalém.

Vi-me num instante no meio daquela gente que ululava como possessa, perante um Homem que transportava uma cruz.

O Homem estava desfigurado, ferido, ensanguentado, era a imagem de um desprezado, de um proscrito, de um condenado e, no entanto, emanava d’Ele uma força, uma bondade que eu não conseguia entender.

Arrastava-se penosamente com o peso da cruz, e a sua face estava coberta de sangue que provinha de uma coroa de espinhos que tinha colocada na cabeça.

Era uma imagem desoladora e eu vivia um misto de pena e receio, ao mesmo tempo que sentia um desejo de O ajudar, mas o medo dos soldados ali presentes impedia-me de o fazer.

Absorto nos meus pensamentos sobre tudo o que aquilo significava, senti-me agarrado por dois soldados que, sem nada me perguntar, me obrigaram a ajudar Aquele Homem a transportar a Sua cruz.

Incapaz de reagir dei por mim a colocar a Sua cruz nos meus ombros e a seguir Aquele Homem na Sua caminhada para a crucificação.

Não conseguia perceber se a cruz me pesava mais do que o sentimento que tinha de me sentir também invectivado por aqueles que O ofendiam, quando eu afinal nada tinha a ver com tudo aquilo.

Coisa estranha, pensei eu, sentia aquela cruz como um pouco das cruzes da minha vida que tantas vezes me recusava a carregar.

Quanto mais caminhávamos, com grande dificuldade, mais o meu coração se ia enchendo de compaixão por Aquele Homem, que eu não conhecia, mas sentia como Alguém muito próximo de mim.

Chegados ao Calvário, Ele olhou para mim com os olhos mais doces que alguma vez eu tinha visto e senti-me envolvido num amor para mim incompreensível, mas que eu percebi bem que vinha d’Ele.

Fiquei ali, extático e sem reação, a olhar para a crucificação, para a agonia d’Aquele Homem, que eu sentia no meu coração inexplicavelmente, até à Sua morte, antecedida de um pedido de perdão ao Seu Pai por todos aqueles que O matavam.

No caminho de regresso a casa senti a voz d’Aquele Homem que me dizia docemente:
Simão de Cirene, obrigado por Me teres ajudado a levar a Minha cruz. Fica a saber que nela estava também a tua cruz do dia a dia e que, de agora em diante, serei Eu que te ajudarei a carregares a tua cruz todos os dias.

Do meu coração apenas saía um contrito obrigado, Senhor, obrigado!

Ah, Senhor, quisera eu ser Simão de Cirene, mas por vezes nem a minha cruz eu quero levar!



Marinha Grande, 20 de Fevereiro de 2024
Joaquim Mexia Alves
 

18 fevereiro 2024

Papa: Quaresma ajuda a entrar no deserto interior, em contacto com a verdade

 

 
Os "animais selvagens" que temos no coração, ou seja, as paixões desordenadas de vários tipos, podem levar ao risco de sermos dilacerados interiormente; enquanto os anjos recordam as boas inspirações divinas que "acalmam o coração, infundem o sabor de Cristo, o sabor do Céu".
 

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

Ir ao deserto para perceber a presença dos "animais selvagens"  e anjos no nosso coração, e com o silêncio e a oração captar os pensamentos e sentimentos inspirados por Deus.

Em síntese, este foi o convite do Papa aos milhares de fiéis reunidos na Praça de São Pedro num dia ensolarado e temperatura amena, para o Angelus neste I Domingo da Quaresma.

"Animais selvagens e anjos", companhias de Jesus no deserto e também nossas

O Evangelho de Marcos - que inspirou a reflexão de Francisco - narra que Jesus «ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás», e também nós - observou o Papa - "somos convidados na Quaresma a “entrar no deserto”, isto é, no silêncio, no mundo interior, na escuta do coração, em contacto com a verdade"

A leitura narra que "animais selvagens e anjos" eram a companhia de Jesus no deserto. Mas, num sentido simbólico - explicou o Papa - "são também a nossa companhia: quando entramos no deserto interior, de fcto, podemos encontrar ali animais selvagens e anjos."

E explica então, o sentido desses "animais selvagens":

Na vida espiritual podemos pensar neles como as paixões desordenadas que dividem o nosso coração, tentando possuir o coração. Elas sugestionam-nos, parecem sedutoras, mas, se não estivermos atentos, levam ao risco de nos dilacerar.

Os "animais" alojados em nossa alma

E  Francisco diz  ainda que podemos dar nomes a esses “animais” da alma:

Os vários vícios, a ganância de riqueza, que aprisiona no cálculo e na insatisfação, a vaidade do prazer, que condena à inquietação e à solidão, e ainda também a avidez pela fama, que gera insegurança e uma necessidade contínua de confirmação e protagonismo.  É interessante: não nos esquecermos dessas coisas que podemos encontrar dentro de nós: ganância, vaidade e avidez. São como animais “selvagens” e como tais devem ser domesticados e combatidos: caso contrário, devorarão a nossa liberdade. E a Quaresma ajuda-nos a entrar no deserto interior para corrigir estas coisas.

O "serviço" em oposição à "posse"

Mas junto com Jesus no deserto, além dos "animais selvagens", estavam também os anjos, "mensageiros de Deus, que nos ajudam, nos fazem bem". E segundo o Evangelho, a sua característica "é o serviço":

Exatamente o contrário da posse, típica das paixões. Serviço em oposição à posse. Os espíritos angélicos, em vez disso, recordam os pensamentos e bons sentimentos sugeridos pelo Espírito Santo. Enquanto as tentações dilaceram-nos, as boas inspirações divinas unificam-nos e fazem-nos entrar em harmonia: acalmam o coração, infundem o sabor de Cristo, infundem “o sabor do Céu”. E para captar a inspiração de Deus e entender bem, é preciso entrar no silêncio e oração. E a Quaresma é tempo para fazer isso. Sigamos em frente.

Retirarmo-nos para o deserto e ouvir Deus que fala no coração

Assim, ao darmos os primeiros passos no caminho quaresmal, o Papa propõe que a nós mesmos façamos duas perguntas:

Primeiro: quais são as paixões desordenadas, os “animais selvagens” que se agitam no meu coração? Segundo: para permitir que a voz de Deus fale ao meu coração e o guarde no bem, penso retirar-me um pouco para o “deserto”, ou procuro dedicar durante o dia algum espaço para repensar isso?

Ao concluir, o Papa pediu "que a Virgem Santa, que guardou a Palavra e não se deixou tocar pelas tentações do Maligno, nos ajude no tempo da Quaresma."

VN

16 fevereiro 2024

CAMINHO DE QUARESMA I

 


 

 

Prostrado no chão, sinto o peso dos meus pecados e arrasto-me como um penitente à procura de perdão.

Ouso levantar os olhos e vejo-Te, Jesus, de pé, com a bondade estampada no rosto e os braços abertos para mim.

Perguntas-me cheio de amor:

Porque estás assim prostrado no chão, vergado com todo esse peso que colocaste nos teus ombros?

Eu nem ouso olhar-Te, mas respondo num murmúrio envergonhado:

É a minha vergonha, Senhor, o peso dos meus pecados quando não fiz a Tua vontade e me afastei de Ti.

Ouço novamente a Tua voz que ecoa no meu coração dizendo-me:

Mas meu filho, Eu já te libertei de todo esse peso. Sei do teu arrependimento, da tua contrição, por isso já te perdoei no Meu coração.

Olho-Te então novamente e digo com voz suplicante:

Senhor, mas este peso parece que não me deixa levantar, parece que me abate e não me deixa viver a vida que Tu me queres dar.

A Tua voz torna-se ainda mais amorosa, se tal é possível, porque ela está sempre repassada de amor eterno:

Levanta-te, vamos! Quero-te aqui Comigo, nos Meus braços, junto ao Meu coração, deixando-te envolver no Meu perdão, no Meu amor.

Levanto a cabeça e vejo a Tua mão estendida para mim, chamando-me do chão onde teimava em permanecer.

Dou-Te a mão e Tu, Jesus, puxas-me para Ti, encostas-me ao Teu peito e, com um sorriso lindo, dizes:

Meu filho, foi para isto que Eu vim, para carregar as tuas fraquezas na Minha Cruz, para me entregar inteiramente por ti e assim te libertar do peso do pecado que te quer arrastar pelo chão.

Levanta-te, vamos! Quero que faças Comigo esta viagem pelo deserto do nosso permanente encontro. Deixa-te guiar pelo Espírito que derramo em ti. Coloca um sorriso nos teus lábios, enche de confiança o teu coração, deixa que a esperança te faça caminhar, porque Eu estou contigo e nunca te hei-de deixar.

Levanto-me, reconheço-me pecador, mas isso já não é para mim uma opressão, uma prisão, porque no Teu amor, Senhor, encontrei a libertação, encontrei a salvação.

 

Marinha Grande, 16 de Fevereiro de 2024

Joaquim Mexia Alves

14 fevereiro 2024

QUARTA FEIRA DE CINZAS E QUARESMA

 


 

 

É sempre assim desde há alguns anos para cá quando se aproxima a Quarta Feira de Cinzas, a Quaresma.

O meu coração torna-se mais pequeno, ou maior, nem sei bem, e enche-se de uma alegria contida, de uma confiança, de uma esperança, de uma vontade tremenda de entrar em mim próprio e procurar tudo o que está mal e tudo o que está bem, e com os olhos do coração fixados em Jesus Cristo, deixar que o Espírito Santo tome conta de mim e me leve no caminho contrição, no caminho da confissão, no caminho da conversão, que desperta ainda mais em mim, com uma força inabalável.

E se me “cubro” de cinzas nesse primeiro dia de Quaresma, deixo que ao longo dos dias essas cinzas tornem em cinza também tudo aquilo que me entristece por não ter sido capaz de resistir a tanta coisa errada que sempre acabo por fazer.

Não me deleito com as minhas fraquezas, como um predestinado, mas deixo que elas me façam sentir a minha inconstância, a minha infidelidade, o meu pobre amor por Jesus Cristo Nosso Senhor.

Não me derrotam essas fraquezas, não me destroem nem aniquilam, porque colocadas nas mãos do Salvador, com um arrependimento que sempre quero sincero, acabam por me fazer mais forte para as combater, quando elas regressam, e sim, sempre regressam, porque são caminho de conversão de todos os dias.

Mas no fundo das cinzas, quase tapado por elas, há sempre uma réstia de fogo, que é o Espírito Santo que teima em não se apagar, pois só precisa do meu sim, para me reacender e reavivar.

E é então que o coração pequeno por causa das fraquezas que o apertam, se torna ainda maior para poder conter o amor de Deus, que me toca, me envolve, me chama e me salva de mim próprio.

Abençoada culpa, que me mostra o meu pecado, me leva ao arrependimento, e me traz o perdão do meu Deus que deu a vida por mim.

É sempre assim desde há alguns anos para cá quando se aproxima a Quarta Feira de Cinzas, a Quaresma.

 

Marinha Grande, 14 de Fevereiro de 2024

Joaquim Mexia Alves