09 abril 2023

Papa: Com Cristo renasce a esperança! Apressemo-nos a superar divisões e conflitos

 
 
As palavras de Francisco aos fiéis: "Sim, temos a certeza: verdadeiramente Cristo ressuscitou. Acreditamos em Vós, Senhor Jesus, acreditamos que convosco renasce a esperança, o caminho continua. Vós, Senhor da vida, encorajai os nossos caminhos e repeti, também a nós, como aos discípulos na noite de Páscoa: ‘A paz esteja convosco’.”
 

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

O dia mais importante e belo da história: o dia em que Cristo ressuscitou!

O Papa formulou os seus votos de Feliz Páscoa a todos os fiéis na sua mensagem Urbi et Orbi (a Roma e a todo o mundo) no final da missa celebrada numa Praça São Pedro tapeçada  de flores. A cerimónia teve início com a abertura do ícone do Santíssimo Salvador, sob o canto do Aleluia e prosseguiu com a Liturgia da Palavra, sem a homilia, e a Liturgia Eucarística.

As palavras de Francisco aos fiéis: "Sim, temos a certeza: verdadeiramente Cristo ressuscitou. Acreditamos em Vós, Senhor Jesus, acreditamos que convosco renasce a esperança, o caminho continua. Vós, Senhor da vida, encorajai os nossos caminhos e repeti, também a nós, como aos discípulos na noite de Páscoa: ‘A paz esteja convosco’.”
 
Diante de cerca de 100 mil romanos e peregrinos, Francisco recordou o significado da Páscoa, isto é, passagem; passagem da morte à vida, do pecado à graça.

“Nele, Senhor do tempo e da história, quero, com o coração repleto de alegria, dizer a todos: feliz Páscoa!”

Que seja para cada um, sobretudo para os sofredores, uma passagem da tribulação à consolação. Afinal, não estamos sós: Jesus, o Vivente, está connosco para sempre. Alegrem-se a Igreja e o mundo, porque podemos “celebrar, por pura graça, o dia mais importante e belo da história”.

Cristo ressuscitou, ressuscitou verdadeiramente, e a humanidade acelera o passo porque vê a meta do seu percurso, o sentido do seu destino: Jesus Cristo. E é chamada a apressar-se ao encontro Dele, esperança do mundo.

Por isso, convidou o Papa, apressemo-nos também nós a superar os conflitos e as divisões, e a abrir os nossos corações aos mais necessitados. Apressemo-nos a percorrer sendas de paz e fraternidade. O caminho é longo e devemos suplicar ao Ressuscitado: “Ajudai-nos a correr ao vosso encontro!”.

 A Praça São Pedro embelezada pelas flores 

Haiti e Nicarágua

Francisco então nomeou os povos e países que mais precisam, neste momento, desta ajuda: são o “amado povo ucraniano”, os russos, sírios e turcos vítimas do terremoto. São ainda israelitas, palestinianos e libaneses. No continente africano, anseiam pela paz de Cristo os tunisinos, etíopes, sul-sudaneses, congoleses, eritreus, nigerianos, malauianos, moçambicanos e burquineses. Na Ásia, o Papa reza pelos birmaneses e pelo martirizado povo rohingya. No continente americano, as preces de Francisco vão para o Haiti, “que há vários anos está a sofrer uma grave crise sociopolítica e humanitária”, e para a Nicarágua, que hoje celebra a Páscoa “em circunstâncias particulares”.

O Pontífice suplicou conforto para os refugiados, os deportados, os prisioneiros políticos e os migrantes, especialmente os mais vulneráveis, bem como todos aqueles que sofrem com a fome, a pobreza e os efeitos nocivos do narcotráfico, do tráfico de pessoas e de toda a forma de escravidão.

Francisco pede ao Senhor que inspire os responsáveis das nações, para que nenhum homem ou mulher seja discriminado e espezinhado na sua dignidade; para que, no pleno respeito dos direitos humanos e da democracia, se curem estas chagas sociais.

“Irmãos, irmãs, voltemos também nós a encontrar o gosto do caminho, aceleremos o pulsar da esperança, saboreemos a beleza do Céu! (...) Sim, temos a certeza: verdadeiramente Cristo ressuscitou. Acreditamos em Vós, Senhor Jesus, acreditamos que convosco renasce a esperança, o caminho continua. Vós, Senhor da vida, encorajai os nossos caminhos e repeti, também a nós, como aos discípulos na noite de Páscoa: ‘A paz esteja convosco’.”

 

 O ícone do Santíssimo Salvador 

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08 abril 2023

SEMANA SANTA 2023 VII


 
 
A natureza está em silêncio.

As aves no céu, os animais sobre a terra, os peixes no mar, todos se calam num silêncio profundo.

As montanhas inclinam-se, as planícies elevam-se, o mar acalma-se, o vento sopra sem ruído, o trovão deixa de se ouvir e as estrelas cadentes no céu são como lágrimas de Deus derramadas sobre a terra.

O Senhor de todas as coisas repousa agora no seu túmulo.

O mal sente-se vitorioso e a morte julga que venceu a vida.

Mas a promessa vai crescendo, aumentando com a certeza de que a Deus nada é impossível

A humanidade aquieta-se e no meio das dúvidas, do cepticismo, a confiança cresce e torna-se cada vez mais realidade.

A espera é breve, porque nunca deixou de ser encontro permanente.

Prepara-se o grito, já se ouve o clamor, está a chegar a hora de ouvir por todo o universo que ressuscitou o Senhor!


Marinha Grande, 8 de Abril de 2023
Joaquim Mexia Alves
 

07 abril 2023

SEMANA SANTA 2023 VI


 
 
 
 
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mt 27, 46)

Meu Deus, meu Deus, porque me salvaste?
A mim, Senhor, pobre pecador que tanto te negou e nega, tão fraco de merecimentos, tão convencido de si mesmo, tão indigente de amor.

Do alto da Cruz, onde Te crucificaram, (ou terei sido eu quem o fez), olhas-me, pelo meio do sangue que corre na tua face, e sorris-me no meio de tão horrível sofrimento.

E eu quero olhar-Te também, mas sinto-me tão vil, tão indigno, que baixo a cabeça e apenas Te digo como a voz sumida que Te amo e quero amar acima de todas as coisas.

Ouço a Tua voz que me diz:
É por ti, meu filho! É por ti e por todos!

E eu respondo-Te angustiado:
Mas, Senhor, não queria ver este Teu terrível sofrimento. Deixavas que me perdesse nas minhas vontades e enganos e assim não sofrerias o que sofres.

E Tu, Jesus, com a maior ternura respondes-me dizendo:
Sabes, meu filho, se Te perdesses, se se perdessem todos, sem Eu ter feito tudo o que podia, sem Eu ter dado a minha vida por ti e por todos, o Meu sofrimento seria bem maior.

Digo-Te então:
Deixa então, Senhor, que junte os meus ínfimos sofrimentos aos Teus, que os una à Tua Cruz, e, aceitando tudo o que possa sofrer em mim, me entregue também eu ao Teu amor, para que assim me entregue também por amor a todos e a cada um.

Sorris-me, mais uma vez, e dizes-me em amor:
Deixa que sofra Um, pelos sofrimentos de todos!

E eu, baixo os olhos, entro no meu coração onde Tu estás, e rezo:
Obrigado, Senhor, obrigado!



Marinha Grande, 7 de Abril de 2023
Joaquim Mexia Alves
 

 

Cardeal Cantalamessa: cuidado com o niilismo; Deus é verdade que transcende

 
O Papa presidiu a celelbração na Basílica de S. Pedro, enquanto Cantalamessa pronunciou a homilia
 
O pregador da Casa Pontifícia trouxe para a homilia desta Sexta-feira Santa (7), na Basílica de São Pedro, em celebração presidida pelo Papa, a reflexão sobre a existência de uma narrativa diversa para a morte de Deus, "ideológica, não histórica", proclamada pelo anúncio que Nietzsche põe na boca do "homem louco". Como crentes, convida Raniero Cantalamessa, "é nosso dever mostrar o que está por trás ou sob aquele anúncio".
 

Andressa Collet - Vatican News

No dia em que os fiéis são convidados a fixar o olhar em Jesus Crucificado, que carregou na cruz os pecados de toda a humanidade para salvá-la, o Papa Francisco presidiu a Liturgia da Palavra na Basílica de São Pedro. Na homilia desta Sexta-feira Santa (7) de celebração da Paixão do Senhor, o cardeal Raniero Cantalamessa reforçou o convite para se continuar - "mais convictos do que nunca" - às palavras que dizemos em cada missa há dois mil anos, após a consagração: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”.

O homem no lugar de Deus

"A Igreja anuncia e celebra, neste dia, a morte do Filho de Deus na cruz", recorda o pregador da Casa Pontifícia, que logo lembra, porém, da "existência de uma narrativa diversa" para a "morte de Deus - ideológica, não histórica" proclamada "há um século e meio, e hoje, em nosso ocidental descristianizado". Cantalamessa explica que "esta morte diversa de Deus encontrou a sua perfeita expressão no conhecido anúncio que Nietzsche põe na boca do 'homem louco', que chega sem fôlego à praça da cidade: - Para onde foi Deus? – exclamou – É o que vou dizer. Nós o matamos – vocês e eu!... nunca houve ação mais grandiosa e aqueles que nascerem depois de nós pertencerão, por causa dela, a uma história mais elevada do que o foi alguma vez toda essa história".

Uma ideia de que "a história não seria mais dividida em antes de Cristo e depois de Cristo, mas antes de Nietzsche e depois de Nietzsche", ou seja, continua Cantalamessa, o homem, o “super-homem”, o “além-homem”, é colocado no lugar de Deus. "Não demorará, contudo, a se dar conta de que, ao ficar só, o homem não é nada"; pois "estamos errando como num nada infinito”.

A verdade transcendente

Mas, "não nos é lícito julgar o coração de um homem que somente Deus conhece", recorda o pregador da Casa Pontifícia, e também o autor daquele anúncio teve a sua parte de sofrimento na vida. E Cantalamessa recorda a oração de Jesus na cruz: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). A consequência, porém, que aquele anúncio teve, "aquela sim, podemos e devemos julgar", enfatiza o cardeal, pois acabou virando moda e declinada nos mais diferentes modos:

"O denominador comum a todas estas diversas declinações é o total relativismo em todo campo: ética, linguagem, filosofia, arte e, naturalmente, religião. Nada mais é sólido; tudo é líquido, ou mesmo vaporoso. Na época do romantismo, deleitava-se na melancolia, hoje, no niilismo. Como crentes, é nosso dever mostrar o que está por trás ou sob aquele anúncio, isto é, a trepidação de uma antiga chama, a erupção repentina de um vulcão jamais extinto desde o início do mundo."

Isto é, afirma Cantalamessa: "há uma verdade transcendente que nenhuma narrativa histórica ou raciocínio filosófico poderia nos transmitir": 

“Cristo Jesus, existindo em forma divina, não considerou um privilégio um privilégio ser igual a Deus, mas esvaziou-se, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante ao ser humano. E encontrado em aspeto humano, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz!”

A ressureição conduz à apoteose da vida

Mas "por que falar disto em uma liturgia da Sexta-feira Santa?", questiona-se o cardeal. "Não para convencer os ateus de que Deus não está morto!", porque "para convencê-los são necessários outros meios, mais do que as palavras de um velho pregador. Meios que o Senhor não deixará faltar a quem tem o coração aberto à verdade". O verdadeiro objetivo "é preservar os crentes – quem sabe, talvez apenas alguns estudantes universitários – de serem atraídos para dentro deste vórtice do niilismo, que é o verdadeiro 'buraco negro' do universo espiritual". O pregador da Casa Pontifícia finaliza, então, a homilia:

“'Deus? Nós o matamos – vocês e eu!': Esta coisa tremenda realizou-se, de facto, uma vez na história humana, mas em sentido bem diferente daquele bradado pelo 'homem louco'. Porque é verdade, irmãos e irmãs: fomos nós - vocês e eu - que matamos Jesus de Nazaré! Ele morreu pelos nossos pecados e também pelos de todo o mundo (1Jo 2,2). Mas a sua ressurreição assegura-nos que este caminho não conduz à derrota, mas, graças ao nosso arrependimento, conduz àquela 'apoteose da vida', em vão procurada noutros lugares.”

Tradução das palavras do cardeal Cantalamessa: Fr. Ricardo Farias, ofmcap

VN

SEMANA SANTA 2023 V


 
 
Sentas-Te à mesa, Senhor, com os Doze e nesses Doze estamos todos nós.

É a Ceia maior, porque é a Ceia do amor!

Nessa Ceia, Senhor, lavas os pés a todos aqueles que ali estão, e até os lavas a Judas que bem o sabes Te vai trair.

E quando lavas os pés a Judas, lava-los também a mim, que tantas vezes Te traio com o meu pecado.

Ensinas-nos, Senhor, a “lavarmos os pés” dos outros, e tantas vezes, também, Senhor, eu me esqueço daqueles que precisam de mim.

Depois dás-nos a prova do Teu infinito amor por nós, e tomando um pouco de pão e um pouco de vinho, por Tua graça e mistério, fazes deles a Tua própria carne e o Teu próprio sangue, para seres para nós alimento divino, alimento de vida eterna, para sempre.

Permite, Senhor, que me sente à mesa Contigo, que «abra a minha porta» para que Tu «ceies comigo e eu Contigo». (cf Ap 3, 20)

Eu sei, Senhor, eu acredito firmemente, Senhor, que estás sempre connosco, e nos dás em todos os momentos a Tua presença, o Teu amor e que na Eucaristia és Tu realmente presente como naquela Última Ceia, que continua pelos séculos dos séculos.

Hoje, Senhor, é um dia extraordinário para festejar os setenta e quatro anos que me deste.

Sobretudo festejar o meu Baptismo, a minha Confissão, a minha Comunhão, o meu Crisma, o meu Matrimónio, frutos da Tua graça, da Tua enorme paciência para comigo, do infinito amor que me tens.

Como tantas vezes Te digo, Senhor, eu não duvido do Teu amor por mim, duvido sim do meu amor por Ti.

Obrigado, Senhor, pela Tua Ceia que hoje vou celebrar em alegria contida, mas cheio de confiança e vestido de esperança.

 

Marinha Grande, 6 de Abril de 2023

Joaquim Mexia Alves

05 abril 2023

SEMANA SANTA 2023 IV


 
 
«Eles olham para mim cheios de espanto!» Sl 22, 18

Levanto os meus olhos e olho para Ti, Senhor, e já Te vejo na Cruz.
O meu espanto é uma comoção profunda por me sentir inundado pelo Teu amor!

Muitos se sentirão espantados por olhar o Deus que se deixa crucificar, que se deixa morrer, por todos nós, até por aqueles que O crucificaram e crucificam todos os dias.

Muitos se sentirão espantados por este caminho que fazes agora para Jerusalém, de livre vontade, sabendo bem que Te espera a prisão, a humilhação, a tortura, a crucificação e a morte, porque Tu mesmo no-lo dizes por palavras Tuas: «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei, que o vão condenar à morte.» (Mt 20, 18)

Mas continuas o caminho da nossa salvação, da salvação daqueles que amas com infinito amor.

E ainda queres celebrar com os Teus uma Última Ceia, (e os Teus somos todos nós por quem Te dás), porque Te queres deixar ficar presente, para sempre, no Mistério insondável da Eucaristia.

Ah, Senhor, dá-me a graça de quando olhar para Ti na Eucaristia também ficar cheio de espanto, por sentir o Teu infinito amor!

É tão fácil, Senhor, agora eu dizer que Te acompanharei em todo o Teu caminho.

No conforto da minha vida prometer-Te a minha companhia, a minha entrega, parece tão fácil e, no entanto, tantas vezes Te deixo sozinho, tantas vezes me afasto do caminho para Jerusalém, porque julgo encontrar, pobre de mim, um caminho mais fácil.

Mas Tu nunca desistes, e sabendo que esse é um caminho errado, olhas-me com olhar terno e dizes-me estendendo a Tua mão: «Levanta-te, vamos!» (Mt 26, 46)

Ah, Senhor, que eu olhe sempre para Ti com o espanto do amor!



Monte Real, 5 de Abril de 2023
Joaquim Mexia Alves

 

O Papa: as nossas feridas podem tornar-se fontes de esperança

 
  O Papa Francisco durante a Audiência Geral  (VATICAN MEDIA Divisione Foto)  
 
Na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira da Semana Santa, Francisco falou que Jesus na cruz transforma a dor em amor: precisamos de simplicidade, para redescobrir o valor da sobriedade, despojando a alma do supérfluo que a oprime.
 

Vatican News - Mariangela Jaguraba

Na catequese da Audiência Geral, desta quarta-feira (05/04), realizada na Praça de São Pedro, o Papa Francisco recordou que no Domingo de Ramos, ouvimos a liturgia da Paixão do Senhor que termina com as seguintes palavras: «Selaram a pedra».

"Tudo parece ter acabado. Para os discípulos de Jesus, aquela pedra marca o fim da esperança", frisou o Papa. "O Mestre foi crucificado, morto da maneira mais cruel e humilhante, pendurado num patíbulo infame fora da cidade: um fracasso público, o pior final possível".

Pois bem, aquele desânimo que oprimia os discípulos não nos é totalmente estranho hoje. Também em nós adensam-se pensamentos obscuros e sentimentos de frustração: por que tanta indiferença em relação a Deus? Por que tanto mal no mundo? Por que as desigualdades continuam a aumentar e não chega a paz tão almejada? Por que somos tão apegados à guerra, a fazer o mal uns aos outros? No coração de cada um, quantas expetativas desvanecidas, quantas desilusões! E ainda aquela sensação de que os tempos passados eram melhores e de que no mundo, talvez até na Igreja, as coisas não são como outrora. Em síntese, também hoje a esperança parece às vezes selada sob a pedra da desconfiança.

"Na mente dos discípulos permanecia fixa uma imagem: a cruz. Ali estava concentrado o fim de tudo. Mas pouco tempo depois descobririam na própria cruz um novo início. Do mais terrível instrumento de tortura, Deus obteve o maior sinal do amor. Aquele madeiro de morte, transformado em árvore de vida, lembra-nos que os inícios de Deus começam muitas vezes a partir dos nossos fins: é assim que Ele gosta de fazer maravilhas", sublinhou Francisco.

A seguir, o Papa convidou a olhar "para a árvore da cruz, para que em nós brote a esperança: aquela virtude quotidiana, aquela virtude silenciosa, humilde, mas aquela virtude que nos mantém de pé, que nos ajuda a ir em frente. Sem esperança não se pode viver. Pensamos: onde está a minha esperança? Hoje, olhemos para a árvore da cruz para que brote em nós a esperança: para sermos curados da tristeza – mas, quantas pessoas tristes".

"Quando eu podia caminhar pelas ruas, agora não posso porque não me deixam, gostava de observar o olhar das pessoas. Quantos olhares tristes! Pessoas tristes, pessoas que falavam sozinhas, gente que andava só com o telemóvel, mas sem paz, sem esperança. E onde está hoje a sua esperança? É preciso um pouco de esperança, hein? Para sermos curados da tristeza que nos adoece: há tanta tristeza; para sermos curados da amargura com que poluímos a Igreja e o mundo", disse ainda o Papa.

Olhando para o Crucifixo, vemos "Jesus despojado, ferido, Jesus atormentado. É o fim de tudo? Ali há esperança", sublinhou o Pontífice, acrescentando:

Com efeito, nós temos dificuldade em despojarmo-nos, em fazer a verdade; revestimo-nos de exterioridade, que procuramos e cuidamos, de máscaras para nos disfarçarmos e nos mostrarmos melhores do que somos. Pensamos que o importante é ostentar, de tal modo que os outros falem bem de nós. E adornamo-nos de aparências, de coisas supérfluas; mas assim não encontramos a paz. Depois, a maquilhagem vai embora  olhas-te no espelho com aquela cara feia que tens, mas verdadeira, aquela que Deus ama, não a maquilhada, não. Jesus despojado de tudo  lembra-nos que a esperança renasce fazendo a verdade sobre nós mesmos, dizer a verdade a ti mesmo, abandonando as ambiguidades, libertando-nos da convivência pacífica com as nossas falsidades. Às vezes, estamos tão acostumados a dizer falsidades a nós mesmos que convivemos com elas como se fossem verdades e acabamos envenenados pelas nossas falsidades.

Segundo Francisco, "é necessário regressar ao coração, ao essencial, a uma vida simples, despojada de tantas coisas inúteis, que substituem a esperança". A seguir, o Papa disse que nesta Semana Santa é bom olhar para o nosso guarda-roupa despojarmo-nos das coisas que temos, que não usamos, coisas muitas vezes "coisas desnecessárias". "Nós também temos tantas coisas inúteis dentro do nossos corações – e fora também. Olha para o teu guarda-roupa: olha para ele. Isto é útil, aquilo é inútil, e faz uma limpeza. Olha para o guarda-roupa da alma: quantas coisas inúteis tens, quantas ilusões estúpidas. Voltemos à simplicidade, às coisas reais que não precisam de maqulhagem. Aqui está um bom exercício", disse o Papa.

Olhemos agora pa Jesus ferido. "A cruz mostra os pregos que lhe furam as mãos e os pés, o lado aberto. Mas váriass feridas do corpo acrescentam-se as da alma. Jesus está sozinho: traído, entregue e renegado pelos seus, condenado pelo poder religioso e civil, experimenta até o abandono de Deus."

"Também nós estamos feridos: quem não o está na vida? Quem não carrega as cicatrizes de escolhas passadas, de incompreensões, de dores que permanecem dentro e são difíceis de superar? Mas também de injustiças sofridas, de palavras cortantes, de juízos inclementes?", perguntou Francisco. "Deus não esconde aos nossos olhos as feridas que lhe trespassaram o corpo e a alma. Mostra-as para nos indicar que na Páscoa pode-se abrir uma nova passagem: fazer das próprias feridas furos de luz. Como Jesus, que na cruz não recrimina, mas ama. Ama e perdoa quantos o ferem. Assim converte o mal em bem, assim transforma a dor em amor", sublinhou.

Irmãos e irmãs, a questão não é ser ferido pouco ou muito pela vida, mas a questão é o que fazer com estas feridas. Posso deixá-las infetar no rancor e na tristeza, ou posso uni-las às de Jesus, a fim de que também as minhas chagas se tornem luminosas. Pensem em quantos jovens, quantos jovens, quantos jovens, que não toleram as suas feridas e procuram no suicídio uma via de salvação: hoje, nos nossas cidades, muitos, muitos jovens que não veem saída, que não têm esperança e preferem ir em frente com as drogas, com o esquecimento... coitados! Pensem nisto. E tu, qual é a tua droga, para cobrir as feridas? As nossas feridas podem tornar-se fontes de esperança quando, em vez de nos comiserarmos, enxugamos as lágrimas dos outros; quando, em vez de ter ressentimento pelo que nos é tirado, cuidamos do que falta aos outros; quando, em vez de nos inquietarmos, nos debruçamos sobre quantos sofrem; quando, em vez de ter sede de amor por nós próprios, saciamos a sede de quem precisa de nós.

Segundo o Papa, "só nos reencontraremos, se deixarmos de pensar em nós mesmos. E é agindo assim - diz a Escritura - que a nossa ferida em breve cicatrizará, e a esperança voltará a florescer. Pensem: O que posso fazer pelos outros? Eu estou ferido. Estou ferido pelo pecado, estou ferido pela história, cada um tem a sua ferida. O que eu faço: lambo minhas feridas assim, a vida toda? Ou olho para as feridas dos outros e vou com a experiência ferida da minha vida, curar, ajudar os outros?" "Este é o desafio de hoje, para todos vós, para cada um de vós, para cada um de nós. Que o Senhor nos ajude a seguir em frente", concluiu.

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03 abril 2023

SEMANA SANTA 2023 II

 
 
Um bom amigo enviou-me há dias um vídeo com a história do cântico natalício, “Noite Feliz”, que me comoveu até às lágrimas.

A história é de uma simplicidade extraordinária e mostra como da mais pequena contrariedade, Deus, (se assim quisermos acreditar), pode fazer e faz coisas maravilhosas.

Lembrei-me imediatamente das Bodas de Caná!

A história que me foi dado ver, relata como da avaria de um órgão, o padre dessa igreja, na Áustria, ficou preocupado porque o mesmo não poderia ser utilizado para acompanhar os cânticos nessa noite de Natal.
Lembrou-se então de um pequeno poema que tinha escrito anos antes e levou-o a um músico da aldeia, para ele compor uma música que pudesse ser tocada e cantada nessa noite de Natal.
E assim aconteceu tendo sido cantado pela primeira vez a “Noite Feliz”, que depois percorreu todo o mundo, e será sem dúvida hoje em dia, o cântico natalício mais conhecido no mundo inteiro.

É tudo muito simples, o poema, a melodia, a história que leva a que tal acontecimento se desse.

E, afinal, tudo isto se encaixa perfeitamente na simplicidade de Deus.

Tantas vezes complicamos Deus, quando Ele é apenas e só amor.

E o amor, contrariamente ao que se diz, é simples, porque todo ele é dar e receber sem esperar mais nada que o próprio amor.
Claro que este amor, digamos perfeito, é o amor de Deus, e, por isso mesmo, só amando-O primeiro, podemos amar com o Seu amor todos os outros que Ele coloca no nosso caminho.

Estamos na Semana Santa, na qual vivemos o incrível amor de Deus que se dá por aqueles que Ele ama infinitamente no Seu coração, e que somos todos nós.
Devemos estremecer quando lermos, mais do que lermos, vivermos, a Paixão de Cristo, deixando-nos levar pelo amor que entrará nos nossos corações e nos fará sentir esse entrega total de Deus por cada um de nós.

A alguns de nós virão as lágrimas aos olhos quando vivermos o relato da Paixão, mas não serão lágrimas de tristeza, mas sim lágrimas de compaixão, lágrimas de amor, lágrimas de confiança porque sabemos e acreditamos que Aquele que morreu por cada um de nós, se vai levantar de entre os mortos e ressuscitar verdadeiramente, cumprindo assim a promessa da vida eterna junto de Deus, no amor perfeito, dada aos homens de boa vontade que O quiserem seguir, segundo a Sua vontade.

E é curioso também ter recebido esta história de Natal, quando estamos a viver os momentos que antecedem a Páscoa.

Realmente sem Natal, não haveria Páscoa, porque o Natal deve sempre levar-nos à Páscoa.

Realmente o Filho de Deus encarnou e fez-se homem, mas Ele mesmo nos disse que «O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos … tem de ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.» Lc 9, 22



Marinha Grande, 3 de Abril de 2023
Joaquim Mexia Alves

02 abril 2023

O Papa: Cristo impele-nos a procurá-lo e a amá-Lo nos abandonados

 
 
Cristo na cruz fez-se solidário connosco a fim de que cada um de nós possa  dizer: nas minhas quedas, na minha desolação, quando me sinto traído, descartado e abandonado, Tu estás presente, Jesus; quando não aguento mais, Tu estás lá, estás comigo; nos meus «porquês» sem resposta, estás comigo. Foi o que disse o Papa na Missa deste Domingo de Ramos, início da Semana Santa, celebrada na Praça de São Pedro com a tradicional e solene procissão de ramos
 

Raimundo de Lima – Vatican News

Cristo, abandonado, impele-nos a procurá-Lo e a amá-Lo nos abandonados. Porque neles, não temos apenas necessitados, mas temo-Lo a Ele, Jesus Abandonado, Aquele que nos salvou descendo até ao fundo da nossa condição humana. Por isso deseja que cuidemos dos irmãos e irmãs que mais se parecem com Ele, com Ele no ato extremo do sofrimento e da solidão: disse o Papa na Missa deste Domingo de Ramos (02/04), celebrada na Praça de São Pedro com a tradicional e solene procissão de ramos. Um momento comovente numa praça com mais de cinquenta mil fiéis e peregrinos, com os ramos de oliveira provenientes da região italiana da Úmbria.

«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?»: é a invocação que a Liturgia nos fez repetir hoje no Salmo Responsorial (Sal 22), sendo também – no Evangelho em que ouvimos – a única pronunciada na cruz por Jesus. Representam, pois, observou Francisco, as palavras que nos conduzem ao coração da paixão de Cristo, ao ponto culminante dos sofrimentos que padeceu para nos salvar.

Sofrimentos do corpo e da alma

Muitos foram os sofrimentos de Jesus. Foram sofrimentos do corpo: das bofetadas às pancadas, da flagelação à coroa de espinhos, até à tortura da cruz. Foram sofrimentos da alma: a traição de Judas, as negações de Pedro, as condenações religiosa e civil, a zombaria dos guardas, os insultos ao pé da cruz, a rejeição de tantos, a falência de tudo, o abandono dos discípulos. E, contudo, prosseguiu o Pontífice, no meio de todo este sofrimento, restava a Jesus uma certeza: a proximidade do Pai. Ele tinha dito: «Eu e o Pai somos um», «Eu estou no Pai e o Pai está em Mim». Mas agora acontece o impensável; antes de morrer, clama: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?»

“O Papa ressaltou que estamos perante o sofrimento mais dilacerante, o do espírito: na hora mais trágica, Jesus experimenta o abandono por parte de Deus. Antes disto, nunca chamara o Pai pelo nome genérico de Deus.”

Na Bíblia, o verbo «abandonar» é forte; aparece em momentos de dor extrema: em amores fracassados, rejeitados e traídos; em filhos enjeitados e abortados; em situações de repúdio, viuvez e orfandade; em casamentos gorados, em exclusões que privam dos laços sociais, na opressão da injustiça e na solidão da doença: em suma, nas mais drásticas dilacerações dos vínculos. Cristo levou tudo isto para a cruz, ao carregar sobre Si o pecado do mundo. E, no auge, Ele – Filho unigênito e predileto – experimentou a situação mais estranha no seu caso: a distância de Deus.

Fez-Se solidário connosco até ao ponto extremo

Mas – podemos interrogfarmo-nos – porque foi tão longe? A resposta é uma só: por nós. Fez-Se solidário connosco até ao ponto extremo, para estar connsco até ao fim, para que nenhum de nós se possa imaginar sozinho e irrecuperável. Experimentou o abandono para não nos deixar reféns da desolação e permanecer ao nosso lado para sempre, enfatizou o Pontífice.

Irmão, irmã, Ele o fez por mim, por ti, para que, quando eu, tu ou qualquer outro se vir encurralado à parede, perdido num beco sem saída, precipitado no abismo do abandono, sorvido no redemoinho dos «porquês», saibamos que há uma esperança. Não é o fim, porque Jesus esteve ali e agora está contigo: Ele, o Pai e o Espírito sofreram a distância causada pelo abandono para acolher no seu amor todas as nossas distâncias. A fim de que possa cada um de nós dizer: nas minhas quedas, na minha desolação, quando me sinto traído, descartado e abandonado, Tu estás presente, Jesus; nos meus falhanços, estás comigo; quando me sinto transviado e perdido, quando não aguento mais, Tu estás lá, estás comigo; nos meus «porquês» sem resposta, estás comigo.

Hoje, tantos «cristos abandonados»

É assim que o Senhor nos salva, a partir de dentro dos nossos «porquês». De lá, descerra a esperança. Um amor assim, que dá tudo por nós, até ao fim, pode transformar os nossos corações de pedra em corações de carne, capazes de piedade, ternura e compaixão, prosseguiu o Santo Padre.

Há hoje tantos «cristos abandonados». Há povos inteiros explorados e deixados à própria sorte; há pobres que vivem nas encruzilhadas das nossas estradas e cujo olhar não temos a coragem de fixar; migrantes, que já não são rostos, mas números; reclusos rejeitados, pessoas catalogadas como problemas. Mas há também muitos cristos abandonados invisíveis, escondidos, que são descartados de forma «elegante»: crianças nascituras, idosos deixados sozinhos, doentes não visitados, pessoas portadoras de deficiência ignoradas, jovens que sentem dentro um grande vazio sem que ninguém escute verdadeiramente o seu grito de dor.

As pessoas rejeitadas e excluídas são ícones vivos de Cristo

Francisco exortou-nos a lembrar sempre que Jesus abandonado pede -nos para termos olhos e coração para os abandonados. Para nós, discípulos do Abandonado, ninguém pode ser marginalizado, ninguém pode ser deixado a si mesmo; porque – recordemo-lo – as pessoas rejeitadas e excluídas são ícones vivos de Cristo, recordam-nos o seu amor louco, o seu abandono que nos salva de toda a solidão e desolação.

Na sua homilia, ressaltando a presença de Cristo nos abandonados de hoje e de sempre, deixando por um momento o texto previamente preparado, Francisco lembrou um morador de rua que havia encontrado abrigo sob a cobertura da colunata da Praça de São Pedro (Colunata de Bernini) e que há meses atrás veio a falecer, ressaltando que Jesus está com cada um desses irmãos abandonados.

Está com cada um deles, abandonados até à morte. Penso que há algumas semanas atrás, num morador de rua alemão que morreu na colunata, sozinho, abandonado. É Jesus para cada um de nós. Muitos precisam da nossa proximidade, são muitos os abandonados. Também eu preciso que Jesus me acaricie, esteja próximo a mim e por isso vou encontrá-Lo nos abandonados, nos que estão sós.

Peçamos hoje, concluiu o Santo Padre, esta graça: saber amar Jesus abandonado e saber amar Jesus em cada abandonado. Peçamos a graça de saber ver e reconhecer o Senhor que continua a clamar neles. Não permitamos que a sua voz se perca no silêncio ensurdecedor da indiferença. Não fomos deixados sozinhos por Deus; cuidemos de quem é deixado só. Então, só então, faremos nossos os desejos e os sentimentos d’Aquele que por nós «Se esvaziou a Si mesmo».

VN

29 março 2023

O Papa: o que muda uma vida é o encontro com o Senhor

 
 
Na catequese da Audiência Geral desta quarta-feira, Francisco propôs a figura de São Paulo e a sua paixão pelo Evangelho que o levou a ser chamado de Príncipe dos Apóstolos: para um cristão, "converter-se significa refazer aquela mesma experiência de "queda e ressurreição" que Saulo/Paulo viveu e isto está na origem da transfiguração do seu zelo apostólico".
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre "A paixão de evangelizar: o zelo apostólico do fiel", na Audiência Geral desta quarta-feira (29/03), realizada na Praça de São Pedro.

A figura de São Paulo foi central neste encontro semanal com os fiéis, pois o Apóstolo dos Gentios testemunhou o que significa ter paixão pelo Evangelho.

O único que pode mudar os nossos corações é o Espírito Santo

"No primeiro capítulo da Carta aos Gálatas, assim como na narração dos Atos dos Apóstolos, observamos que o seu zelo pelo Evangelho aparece depois da sua conversão, e substituo seu zelo precedente pelo judaísmo. Saulo, primeiro nome de Paulo, já era zeloso, mas Cristo converte o seu zelo: da Lei ao Evangelho", disse Francisco.

No caso de Paulo, o que o mudou não foi uma simples ideia ou uma convicção: foi o encontro, esta palavra, foi o encontro com o Senhor ressuscitado – não se esqueçam disto, o que muda uma vida é o encontro com o Senhor – para Saulo foi o encontro com o Senhor ressuscitado que transformou todo o seu ser. A humanidade de Paulo, a sua paixão por Deus e a  sua glória não são aniquiladas, mas transformadas, "convertidas" pelo Espírito Santo. O único que pode mudar os nossos corações é o Espírito Santo.

Tornar-se cristão não é uma maquilhagem que muda o rosto

"E assim para todos os aspetos da sua vida. Como acontece na Eucaristia: o pão e o vinho não desaparecem, mas tornam-se o Corpo e o Sangue de Cristo. O zelo de Paulo permanece, mas torna-se o zelo de Cristo. O significado muda, mas o zelo é o mesmo", sublinhou Francisco.

“Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. Este é o significado de ser uma nova criatura. Tornar-se cristão não é uma maquilhagem que muda o rosto, não! Se és cristão, o teu coração muda, mas se fores cristão de aparência, isto não funciona. Cristãos de maquilhagem, não, não. A verdadeira mudança é a do coração. E isto aconteceu com Paulo.”

Segundo o Papa, a "paixão pelo Evangelho não é questão de compreensão ou de estudos – podes estudar toda a Teologia que quiseres, podes estudar a Bíblia e tudo o mais e virar um ateu ou mundano, não é questão de estudos. Na história houve muitos teólogos ateus! Estudar serve, mas não gera a nova vida da graça. Converter-se significa refazer aquela mesma experiência de 'queda e ressurreição' que Saulo/Paulo viveu e que está na origem da transfiguração do seu zelo apostólico".

A seguir, Francisco disse que "muitas vezes ouvimos comentários sobre as pessoas: 'Mas olha aquele ali, era um miserável e agora é um bom homem, uma boa mulher. Quem o mudou? Jesus. Ele encontrou Jesus. Se Jesus não entrou na tua vida ela não mudou. Vais ser um cristão de fora. Jesus tem que entrar e isto muda-te. Foi o que aconteceu com Paulo. Encontrar Jesus. Por isso, Paulo disse que o amor de Cristo impele-nos, leva-nos adiante. O mesmo aconteceu com todos os santos, a mudança. Quando encontraram Jesus foram em frente".

Um católico elegante não é um católico santo, é elegante

Depois, o Papa fez mais uma reflexão sobre a mudança que aconteceu em Paulo, "que de perseguidor tornou-se apóstolo de Cristo". "Quando iluminado pelo Ressuscitado, descobre que foi "blasfemo e violento". Então ele começa a ser realmente capaz de amar", disse Francisco, acrescentando:

E este é o caminho. Se um de nós disser: 'Ah! Obrigado Senhor, porque sou uma pessoa boa, faço coisas boas, não cometo pecados grandes'. Este não é um bom caminho, este é um caminho de autossuficiência.  É um caminho que não justifica a pessoa. Ele é um católico elegante, mas um católico elegante não é um católico santo, ele é elegante. O verdadeiro católico, o verdadeiro cristão é aquele que recebe Jesus dentro de si, e Ele muda o seu coração.

Por fim, o Papa convidou a todos a questionarem-se: "O que significa Jesus  para mim? Deixo-o entrar no meu coração ou apenas o mantenho por perto, mas não tanto dentro? Deixei que Ele me mudasse ou Jesus é somente uma ideia, uma teologia que vai adiante?" "O zelo é isto: quando alguém encontra Jesus sente o fogo e como Paulo deve prégar Jesus, deve falar de Jesus, deve ajudar as pessoas, deve fazer coisas boas. Quando alguém encontra a ideia de Jesus, permanece um ideólogo do cristianismo e isto não justifica, só Jesus nos justifica. Que o Senhor nos ajude a encontrar Jesus, e que esse Jesus de dentro mude a nossa vida e nos ajude a ajudar os outros", concluiu Francisco.

VN

28 março 2023

MOISÉS E A IGREJA

 

 
Releio e medito nos primeiros Livros da Bíblia, no Pentateuco.

Para além do muito que vou reaprendendo, que vou reflectindo, que vou percebendo da Fé que me move e que é uma continuidade desde o primeiro versículo ao último da Bíblia, encontro, de repente, uma semelhança, uma comparação, um simbolismo, (não sei o que lhe hei-de chamar), entre Moisés e a Igreja.

Naqueles tempos antigos foi Moisés que conduziu aquele povo ao encontro de Deus, segundo a vontade de Deus, de modo a levá-lo até à Terra Prometida.

E fê-lo perguntando a Deus, escutando Deus, intercedendo junto de Deus, aceitando a vontade de Deus e comunicando ao povo a vontade de Deus.

Comunicou àquele povo a Lei de Deus, indicou àquele povo o caminho que Deus tinha para ele, alertou aquele povo para os seus erros, para as suas idolatrias, para os seus desvios, e rogou insistentemente a Deus por aquele povo, sempre que o mesmo desprezava Deus e se afastava de Deus, ficando assim sujeito a todo o mal que lhe pudesse acontecer.

Deus ouvia-o nessas suas preces e perante o arrependimento daquele povo, restabelecia a Sua aliança com o povo e protegia-o de todos os males.

E percebe-se pela leitura e reflexão daqueles Livros, como Moisés sofreu pelos erros do povo e até pelos erros de alguns que estavam ao serviço de Deus nas celebrações e rituais do culto de então.

Mas Moisés continuou sempre a acreditar e o povo sempre viu nele essa fé inquebrantável que os conduzia no caminho.

E, para terminar, Moisés não entrou na Terra Prometida apesar de ter conduzido o povo até ela.

Quero perceber então, como a Igreja Militante, a Igreja que peregrina, a Igreja destes nossos tempos, tal como Moisés naquele tempo, também nos conduz ao encontro com Deus, o Pai, O Filho e o Espírito Santo, para nos levar até à Terra Prometida, ou seja, à vida eterna junto de Deus.

E a Igreja fá-lo, também, perguntando a Deus, escutando Deus, intercedendo junto de Deus, aceitando a vontade de Deus e comunicando a vontade de Deus.

E a Igreja comunica também aos seus peregrinos neste mundo, (que somos todos nós), a Doutrina ensinada por Cristo na Sua Palavra, indica o caminho que leva ao encontro com Cristo, alerta-nos para os erros que praticamos, para as idolatrias em que de quando em vez nos deixamos envolver, para os desvios “doutrinais” que praticamos para fazermos a nossa vontade, e roga por nós, oferece o Sacrifício do Altar por nós todos os dias e em todos os lados, dá-nos os Sacramentos, presença viva de Deus entre nós, para que assim, em comunhão com Deus e com os irmãos, estejamos protegidos do mal do mundo que nos quer fazer perder.

E a Igreja também alcança de Deus o perdão para aqueles que, arrependidos dos seus erros, os confessam, prometendo emendar-se, restabelecendo assim a relação de amor eterno com os homens que, por sua culpa, tantas vezes quebram.

E também a Igreja sofre com os nossos erros e com os erros de alguns daqueles que foram escolhidos para servir a Deus como ministros ordenados e se perderam nos vícios do mundo.

E a Igreja é depósito da Fé e é nEla que podemos confiar para nos conduzir por Deus, com Deus e em Deus.

E também esta Igreja Militante não “entra” na Terra Prometida, pois lá passa a ser a Igreja Triunfante, nessa Terra onde nada falta porque é “só” e “apenas” Amor de Deus.

Obrigado, meu Deus, por Moisés!
Obrigado, meu Deus, pela Igreja!




Marinha Grande, 28 de Março de 2023
Joaquim Mexia Alves

 

26 março 2023

Papa no Angelus: não cedas à dor e ao pessimismo, Deus está perto de nós!

 

 

Francisco no Angelus deste domingo: “talvez também nós, neste momento, carregamos nos nossos corações algum peso ou algum sofrimento, que parecem esmagar-nos. Então é hora de remover a pedra e sair ao encontro de Jesus, que está próximo”. 
 

Silvonei José - Vatican News

"Não cedas ao pessimismo que deprime, ao medo que isola, ao desânimo pela recordação de más experiências, ao medo que paralisa"! O Papa Francisco introduzindo a recitação do Angelus comentou a passagem do Evangelho deste V Domingo da Quaresma, a ressurreição de Lázaro, "querido amigo de Jesus", para sublinhar que Jesus "dá vida mesmo quando parece não haver mais esperança" e "convida-nos a não deixar de acreditar e esperar, a não nos deixarmos esmagar por sentimentos negativos".

"Acontece, às vezes, sentires-te sem esperança, aconteceu com todos, ou encontrar pessoas que perderam a esperança: amarguradas", com "um coração ferido", "por causa de uma perda dolorosa, uma doença, uma deceção, um erro ou uma traição sofrida, por um grave erro cometido", observou o Pontífice.

 

 Papa Francisco 
 

"Às vezes ouvimos as pessoas dizerem: 'Não há mais nada a ser feito!' e fecha a porta a toda esperança. Estes são momentos em que a vida parece um sepulcro fechado: tudo é escuro, ao redor vemos apenas dor e desespero". Em vez disto, Jesus "diz-nos que isto não é assim, o fim não é este, que nestes momentos não estamos sozinhos, pelo contrário, que precisamente nestes momentos Ele aproxima-se mais do que nunca para restaurar a nossa vida". Jesus chora, o Evangelho diz que ele chora diante do sepulcro de Lázaro, e Jesus chora connosco, como chorou por Lázaro: o Evangelho repete duas vezes que ele se comoveu e sublinha que Ele chorou".

 

 Fiéis na Praça São Pedro 

Jesus, continua Francisco, "aproxima-se dos nossos sepulcros e diz-nos, como então: 'Tira a pedra'". "Tira a pedra: a dor, os erros, também os fracassos, não os escondam dentro de vós, num quarto escuro e solitário, fechado". Tira a pedra: tira tudo o que está entrega-me com confiança, sem medo, porque estou contigo, amo-te e desejo que vivas novamente".    

E, como a Lázaro, acrescenta o Papa, "repete a cada um de nós: vem para fora! Levante-se, retoma o caminho, recupera a confiança! Eu levo-te pela mão, como quando tu era uma criança aprendendo a dar os teus primeiros passos". "Tira as ligaduras que te prendem, por favor não cedas ao pessimismo que deprime, não cedas ao medo que isola, não cedas ao desânimo devido à recordação de más experiências, não cedas ao medo que paralisa. Eu quer-te livre e vivo, não te abandonarei e estou contigo". "Não te deixes aprisionar pela dor, não deixes morrer a esperança: volta à vida". "Eu pego-te pela mão e trago-te para fora" da escuridão, diz Jesus.

 

 Fieis na Praça de S. Pedro 

Esta passagem, capítulo 11 do Evangelho de João, faz-nos tão bem lê-la, enfatiza o Papa. "É um hino à vida", diz, "e nós o lemos quando a Páscoa está próxima. Talvez também nós, neste momento, carregamos nos nossos corações algum fardo ou algum sofrimento, que parece esmagar-nos. Alguma coisa má, algum pecado feio, algum erro da juventude", acrescenta Francisco.

"Então é o momento de remover a pedra e sair ao encontro de Jesus, que está próximo". "Conseguimos abrir os nossos corações e confiar as nossas preocupações a Ele? Abrir o sepulcro dos problemas e olhar para além da soleira, em direção à sua luz? Ou será que temos medo disto? E, por sua vez, como pequenos espelhos do amor de Deus, será que conseguimos iluminar os ambientes em que vivemos com palavras e gestos de vida? Damos testemunho da esperança e da alegria de Jesus? Nós pecadores, todos nós?".

Francisco dirigiu-se novamente aos confessores: "Caros irmãos, não esqueçam que  também sois pecadores e que no confessionário não sejam torturadores, mas perdoem tudo".

O Papa concluiu: “Maria, Mãe da Esperança, renova em nós a alegria de não nos sentirmos sozinhos e o chamamento a levar luz à escuridão que nos circunda”.

 

VN

22 março 2023

Papa: a Igreja vira uma peça de museu se não evangelizar a si mesma

 

 
Acreditas verdadeiramente naquilo que anuncias? Vives aquilo em que acreditas? Pregas verdadeiramente aquilo que vives? Estas são três perguntas, feitas por São Paulo VI, que o Papa repropôs aos fiéis ao dar prosseguimento ao ciclo de catequeses sobre a evangelização.

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

Uma obra-prima, a “magna carta” da evangelização no mundo contemporâneo: assim o Papa definiu a a Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, de São Paulo VI, tema da sua catequese na Audiência Geral deste 22 de março.

Na Praça de São Pedro, diante de milhares de fiéis, Francisco deu continuidade ao ciclo sobre o zelo apostólico, recordando que evangelizar não é uma mera transmissão doutrinal ou moral, mas o testemunho de um encontro pessoal com Jesus Cristo.

"Não se pode evangelizar sem testemunho", recordou o Pontífice. A coerência é fundamental. A credibilidade não vem ao proclamar-se uma doutrina ou uma ideologia.

“Uma pessoa é crível se há harmonia entre aquilo que crê e aquilo que vive: como crer e como viver. Muitos cristãos só dizem crer, mas vivem de outra coisa, como se não fossem. E isto é hipocrisia. O contrário do testemunho é a hipocrisia.”

O Papa então repropôs três perguntas contidas no documento de Paulo VI: Acreditas verdadeiramente naquilo que anuncias? Vives aquilo em que acreditaw? Pregaw verdadeiramente aquilo que vivew?

Para o Papa, não podemos contentar-nos com respostas fáceis, predefinidas. Somos chamados a aceitar até o risco desestabilizador da busca, confiando plenamente na ação do Espírito Santo que age em cada um de nós.

Uma peça de museu

A evangelização, prosseguiu, pressupõe um caminho de santidade. Aliás, a santidade é fulcral: sem a santidade, a evangelização corre o risco de ser vã e infecunda. "Palavras, palavras, palavras", acrescentou  Francisco. 

Da santidade, nasce o zelo pela evangelização, que, por sua vez, faz crescer cada um dos fiéis em santidade na medida em que, antes de levar o Evangelho aos outros, ele próprio reconhece-se como seu destinatário. 

Noutras palavras, devemos estar conscientes de que os destinatários da evangelização não são somente os outros, aqueles que professam outras crenças ou que não as professam, mas também nós mesmos, Povo de Deus.

“E devemos converter-nos todos os dias, acolher na Palavra de Deus e mudar de vida: todos os dias. E assim se faz a evangelização do coração. (...) Para dar este testemunho, também a Igreja enquanto tal deve começar com a evangelização de si mesma. Se a Igreja não evangeliza a si mesma permanece uma peça de museu.”

Sem o Espírito Santo, a Igreja faz só propaganda

Uma Igreja que se evangeliza para evangelizar é uma Igreja que, guiada pelo Espírito Santo, é chamada a percorrer um caminho exigente, de contínua conversão e renovação. Isto implica também a capacidade de mudar os modos de compreender e viver a sua presença evangelizadora na história, evitando refugiar-se nos âmbitos protegidos da lógica do “sempre se fez assim”, uma mentalidade que o Papa definiu como "refúgios que adoecem a Igreja". "A Igreja deve ir adiante, deve crescer continuamente, assim permanecerá jovem."

Francisco então concluiu:

"A Igreja deve ser uma Igreja que dialoga com o mundo contemporâneo, que encontra todos os dias o Senhor e dialoga com o Senhor, e deixa entrar o Espírito Santo que é o protagonista da evangelização. Sem o Espírito Santo, nós podemos somente fazer propaganda da Igreja, não evangelizar. É o Espírito em nós que nos impulsiona para a evangelização e esta é a verdadeira liberdade dos filhos de Deus."

VN

20 março 2023

OS PADRES E O CELIBATO

 

 
«sua insondável vida interior, da qual provêm ordens e consolações singularíssimas; dela decorrem também a lógica e a força nas grandes decisões, próprias das almas simples e límpidas, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade, a sua legítima vocação humana e a sua felicidade conjugal, aceitando a condição, a responsabilidade e o peso de uma família e renunciando, por um incomparável amor virginal, ao natural amor conjugal que constitui e alimenta essa mesma família» (São Paulo VI, alocução 19 de março de 1969).

Leio hoje estas palavras de Santo Paulo VI e quero ver nelas o que vai para além da figura extraordinária de São José, o pai por excelência.

Num tempo em que tanto se fala no celibato dos padres, sou levado a ver na vida de São José um exemplo extraordinário dessa entrega a Deus na totalidade.

Sim, São José teve uma mulher, Maria, e teve um filho adoptivo, Jesus, Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, constituindo assim uma família.

Mas para dizer sim, também, a Deus, como Maria sua esposa, renunciou ao «natural amor conjugal», (no dizer de Paulo VI), e assim permaneceu em toda a sua vida.

Assim ao colocar nas mãos de Deus a sua liberdade de homem, libertou-se verdadeiramente de tudo, para melhor servir a Deus, como homem escolhido para O servir de forma singular.

São José foi pai, e a palavra padre vem do latim pater, que significa pai, também.

Os padres, então, também os podemos ver como pais, irmãos, família e talvez, mesmo por isso, Jesus nos diz:
«Em verdade vos digo: quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna.» Mc 10, 29-30

Na sua entrega, então, a Deus, também os padres na sua liberdade, como São José, se libertam do «natural amor conjugal», para totalmente livres, servirem a Deus servindo os outros.

Obviamente que estas reflexões são fruto do meu permanente querer ver em tudo a mão de Deus, talvez uma visão pessoal que partilho com os outros, e não um qualquer “tratado” seja do que for, para o qual não estou habilitado.

Que São José rogue por todos nós, especialmente pelos pais e muito pelos Padres, para que todos encontremos na figura e exemplo de vida deste grande Santo o caminho e entrega que todos devemos ter à vontade de Deus, dizendo-Lhe o sim incondicional de Maria e de José.



Monte Real, 20 de Março de 2023
Joaquim Mexia Alves